31 dezembro, 2012

Ser família com Deus


Os filhos nem sempre compreendem os pais. Por vezes, pensamos que os pais nem sempre têm razão, ou então, no momento, não compreendemos o que pretendem com as suas decisões. Somos “jovens”, com muita energia, curiosos e julgamos que já sabemos como é a vida! Contudo, ser filho não é uma “tarefa” fácil e só a vamos compreender quando somos pais.

Sempre quisemos criar uma família, ter filhos e educá-los com os valores cristãos. Acreditamos que o principal alicerce da família é o amor entre pais e filhos. Os valores essenciais que norteiam a nossa vida foram transmitidos pelos nossos pais com base numa educação cristã. No aconchego da família encontramos paz, tranquilidade e a resposta para algumas das nossas inquietações. A experiência de vida dos nossos pais constitui um exemplo, um caminho a seguir na relação familiar que estamos a construir. O amor, o perdão, a humildade, a paciência e a caridade são alguns dos valores que trazemos da nossa família e que são necessários para ultrapassar os problemas/conflitos que naturalmente surgem. Nestas situações menos boas, mas necessárias para o amadurecimento das relações, a oração deve estar sempre presente para nos ajudar a reflectir e a decidir o melhor caminho. Os nossos pais transmitiram sempre que na oração encontramos a resposta para as nossas inquietações. 

Estamos casados à 11 anos, temos um filho e aproxima-se o nascimento do segundo. Tentamos construir a nossa família com os valores que trazemos dos nossos pais e com a presença central de Deus. O carisma da “família carmelita” tem sido fundamental na relação de casal e na educação do nosso filho. Nos dias de hoje, educar não é uma missão fácil. Rezamos diariamente juntos e tentamos que o nosso filho participe nas actividades que desenvolvemos na família carmelita.


Luís Correia
Célia Leitão
João M Mendes Leitão Correia


30 dezembro, 2012

Família, imagem viva da eterna comunhão de amor



                Com a celebração do Natal do Senhor, a Igreja leva-nos a contemplar como Jesus assumiu a realidade da vida humana na sua integralidade, sendo este o sentido mais profundo da Encarnação. Ora, é dentro da Oitava do Natal do Senhor (oito dias que são um só dia: o dia do Nascimento do Senhor), que a Igreja, qual sábia mãe, conduz-nos pela sua mão litúrgica a contemplar um aspecto fulcral da vida humana: a vida familiar. Assim, Liturgia e vida andam de mãos dadas: nestes dias em que a família se reúne e se alegra, a Liturgia convoca-a para descobrir, à luz do lar de Nazaré, a sua identidade.

                Na oração conclusiva da Oração Universal, a Liturgia, ainda que ao de leve, deixa-nos um aspecto fundamental para que a família descubra a sua identidade. A oração diz o seguinte: “Senhor Deus, que em Jesus, Maria e José nos destes uma imagem viva da vossa eterna comunhão de amor,…”. Sim, a família é e está sempre chamada a ser “imagem viva” da vida da Trindade (Pai, Filho, Espírito Santo), uma vida que é “eterna comunhão de amor”. Assim, o primeiro traço identitário da família é SER (não fazer ou aparecer!) imagem VIVA, ou seja, na vida, em cada gesto, atitude, olhar ou sorriso, oferecer a água viva da eterna comunhão de amor que é Deus. A família é uma fotografia de Deus: os filhos e toda a sociedade, ao olharem para a família, devem sentir-se “obrigados”, pela comunhão de amor por eles manifestada, a olhar para o alto e contemplar a fonte de tal comunhão. Para SER esta IMAGEM VIVA da vida da Trindade, São Paulo, na sua Carta aos Colossenses (Col 3, 12-21), oferece um “programa familiar de vida”: misericórdia, bondade, humildade, mansidão, paciência, perdão, e, como valor máximo, o amor. É interessante a expressão paulina: “revesti-vos da caridade”. Sim, revestir-se é colocar algo por cima de algo; ou seja, é possível viver a caridade familiar, apesar dos defeitos, manias, erros, faltas de cada um dos seus membros: basta que cada um, por cima de tudo isso, se revista de caridade, ou seja, que coloque, acima de todas estas coisas menos boas, a caridade, que tudo apagará e transformará.

                A preciosa página do Evangelho (Lc 2, 41-52) diz-nos algo também fundamental neste Ano da Fé. A família perde Jesus (embora haja quem diga que foi Ele que fugiu!). Perdido ou fugido, o que interessa é que aquela família já não tinha Jesus. E quantas das nossas famílias fazem, como José e Maria, não um mas muitos dias de viagem sem Jesus?! Deus torna-se uma questão superficial, algo não falado, não discutido, não apresentado, ou seja, ausente! Pela brevidade exigida, este não é o momento para falar desta “saída de cena” de Deus da vida familiar. No entanto, as famílias que se apercebem do quão perigosa é esta saída, encontram nesta perícope evangélica uma solução: voltar atrás! Sim, nunca é tarde para voltar atrás e procurar Jesus, procurar a vida em plenitude oferecida por Deus Pai no seu Filho Jesus. E, ao encontrar Jesus, como permanecer com Ele? É fácil: como Ele e com Ele, “estar na casa de meu Pai”. Outras traduções, em vez de “estar na casa”, propõe “estar ocupado das coisas de meu Pai”. Seja qual for a tradução, o sentido é claro: o compromisso com a comunidade cristã, família mais alargada, habitação de Deus Pai, seja ela paroquial ou religiosa, é o caminho seguro para permanecer com Jesus.

                Paulo VI dizia: “A família é a célula da sociedade”. Se a sociedade está mal, é porque a família está mal. E quantas vezes as guerras e a pobreza de amor em nossas casas são maiores que as que vemos na televisão?! Pois bem: em vez de, prioritariamente, nos queixarmos do estado da sociedade e do mundo, da guerra, da pobreza, paremos e CUIDEMOS DA NOSSA FAMÍLIA, velemos pelo seu estado, acabemos com as suas guerras, saciemos a sua pobreza de amor. Para o Novo Ano, em vez de pedirmos a paz para lá longe (que também a devemos pedir!) e dinheiro e saúde, porque não pedimos forças e coragem para melhorar a nossa família?
               
                Família, se quiseres ser família, imagem viva da eterna comunhão de amor, procura Jesus e permanece com Ele!

Os Noviços

29 dezembro, 2012

II Encontro Ibérico do Carmo Jovem




Do doze ao catorze de Outubro, os jovens carmelitas ibéricos reuniram-se em Avessadas, no convento do Menino Jesus de Praga, para o II Encontro Ibérico do Carmo Jovem.

Por lá estiveram mais de 250 jovens, de vários pontos de Espanha e Portugal, de faixas etárias diferentes, modos de vida diferentes, diferentes idiomas, mas todos com uma mesma missão e um mesmo objectivo, o de conhecer mais profundamente a Jesus Cristo, conhecer outras pessoas que têm um vínculo com Ele e conhecer a experiência de centenas de jovens e grupos repartidos por toda a península.

O dia 12, festividade de Nossa Senhora do Pilar – em Espanha –, foi o dia escolhido para a chegada e para a apresentação da maior parte dos grupos, onde se realizaram várias dinâmicas e jogos com o fim de criar um bom ambiente e de fomentar o mútuo conhecimento entre os vários grupos. Mais tarde fez-se a apresentação formal de todos os grupos dentro da igreja do convento.

Nessa mesma noite, celebrou-se a vigília sobre o tema do encontro: “a fonte que mana e corre”; com luzes, com sombras, esta fonte de vida, de alegria, de gozo… não descansa, e continua viva e repartindo água para saciar a nossa sede.

O Sábado foi o dia mais completo. Começou com a Eucaristia às 8:00 e depois do pequeno-almoço e de jogos com os grupos começou a apresentação do Padre Provincial de Portugal, o Padre Joaquim, sobre a oração em S. João da Cruz e Santa Teresa de Jesus.

Mais tarde, depois de escutar e de aprender como consideram, estes Santos, que se deve manter a oração, partilhamos em grupos as perguntas que nos foram colocada sobre a nossa própria oração, o amor aos demais, a nossa amizade com Jesus e os momentos altos e baixos na nossa história, de forma que se criaram laços muito fortes com pessoas que mal conhecíamos e que tiveram o valor de se expressarem sem medo e com a segurança de sentirem-se escutados, sabendo que todos estávamos ali pela mesma causa, pelo zelo ao amor de Deus.



Pela tarde, já depois de comer e de descansar um pouco, tivemos o momento mais contemplativo do encontro, o passeio orante, onde maiores e mais pequenos aprendemos a saber escutar na solidão, a não perder a esperança nas dificuldades da vida e a saber perseverar em corpo e alma a perfeição de que nos falam os Santos.

Os mais velhos, conhecemos cada um dos passos na evolução da oração de que fala Santa Teresa: o poço, a nora, a fonte e a chuva. E pudemos contemplá-los no pequeno bosque, de que disfruta a parte superior do convento de Avessadas.

Os mais jovens aprenderam através do jogo o valor de saber transmitir e aumentar a sua fé, com o objectivo de não cair perante os problemas, de não render-se perante as dificuldades e, sobretudo, confiar em Quem nunca nos abandona e que tanto nos amou que entregou a Seu Filho para o nosso perdão.

A última noite foi muito animada com o concerto de vários grupos de Portugal e Espanha como o Coro de Braga, João Rego, Osvaldo, Abelardo, Manuel e o grupo Vozes de Aveiro, que deleitaram a todos os jovens num ambiente muito festivo e são, onde se primou pelo carinho, a alegria, a fé, o amor, os quais foram inspirados pela luz nos foi fornecida pelas canções que falam de sentimentos, de Santa Teresa, de Santa Teresinha, de São João da Cruz.

A Deus agradam-Lhe as pessoas pequenas, e a eles encomenda grandes missões. Aos pequenos dá a Sua eficiência, o Seu verdadeiro a todo que O queira acolher.

É uma verdade, que vem de uma mesma pessoa, de Jesus Cristo, uma verdade que deve ser procurada no nosso interior, pois reside em nosso coração, e que, sendo livres, podemos negar-nos, mas não podemos negar aquele que deu a sua vida, para salvar a nossa.


Hilario José Diaz Petrel, in El Carmelo, nº 86

28 dezembro, 2012

VIGÍLIA DE ORAÇÃO COM SANTA TERESINHA





Após o início do noviciado, no 2 de Setembro de 2012, no dia 1 de Outubro, nós, os noviços, organizamos uma vigília de oração com Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face, com os cristãos da paróquia de Avessadas e de Rosem.  

O tema desta vigília foi “Orar Com Santa Teresinha”. A vigília decorreu num dos claustros do convento. Neste ambiente tão propício para a oração e para o silêncio. O mundo de hoje não entende a oração, porque não entende o silêncio, não entende esse momento em que prescindimos das palavras, dos movimentos exteriores e interiores, em que descemos ao mais íntimo de nós mesmos, a esse espaço intimíssimo, onde, além de nós, nenhuma outra pessoa pode entrar. É nesse espaço mais íntimo que vemos quem somos, que vemos como somos, que nos apercebemos do rumo dos nossos passos, do sentido do nosso caminho. Só no silêncio é que podemos sentir e contemplar a Deus no nosso interior. 

O barulho do nosso dia-a-dia, muitas vezes, impede-nos de meditar. Não fazemos silêncio porque temos medo do silêncio, porque temos medo de ver quem somos, como somos; temos medo de que as nossas máscaras caiam e tenhamos que nos confrontar com a nossa pequenez, que tantas vezes mascaramos com soberbas e orgulhos; temos medo de perceber o sem sentido dos nossos passos; temos medo de ouvir as nossas palavras tantas vezes hipócritas; temos medo de ver que deixamos de olhar aqueles que mais nos amam; temos medo de sentir os impulsos de desamor do nosso coração. Eis que o silêncio se torna, assim, a mais eloquente melodia: a melodia dos nossos acertos e desacertos, das nossas harmonias e desarmonias. Indo mais profundo, descobrimos que o nosso coração, o nosso olhar e o nosso falar são chamados a mais, são convocados para “algo mais”, que não encontramos no decorrer habitual do nosso mundo. Mas, tantas e tantas vezes, este apelo a “algo mais” fica esquecido, como esquecida fica aquela pequena flor que um dia nos espantou. 

«A oração é um impulso do coração, é um simples olhar lançado para o céu, é um grito de gratidão e de amor, tanto no meio da tribulação como no meio da alegria; enfim, é algo de grande, de sobrenatural, que me dilata a alma e me une a Jesus» (História de uma alma, Ms C25 rº-vº).

Esta vigília encerrou com o evangelho de são Lc 11, 9-13 proclamado pelo Pe. Superior do Convento de Avessadas, Santuário do Menino Jesus. Este evangelho exorta-nos a orar ao Pai incessantemente, pois Ele sempre atende aqueles que se Lhe dirigem. Ele não deixa de enviar aos seus filhos o Espírito Santo, o qual nos ensina a orar e que ora connosco ao Pai, para que um dia cheguemos à perfeita união de amor com Deus, para que cheguemos a participar verdadeiramente da natureza divina.

Fr. Eugénio e Fr. Vitor

27 dezembro, 2012

Tomada de Hábito



Actualmente, está a decorrer no convento dos Carmelitas Descalços, em Avessadas, uma etapa de formação chamada noviciado. Esta etapa é uma experiência de vida religiosa para candidatos a esse mesmo estilo de vida. 

Apesar destes já terem passado por uma etapa de formação que os insere na vida religiosa, chamada postulantado, o noviciado marca o início da sua caminhada como religiosos. Ao final do noviciado, os jovens estudantes realizam a sua consagração a Deus e ao serviço ao próximo através dos votos simples. Estes são a promessa de manter durante toda a sua vida, como religiosos, os conselhos evangélicos.

O noviciado também é marcado pela forte formação espiritual dos candidatos e pela sua total integração na vida religiosa carmelita. Esta etapa tem início com uma cerimónia muito especial para os candidatos à vida religiosa, chamada Tomada de Hábito. Esta cerimónia consiste na recepção formal dos candidatos pelo Provincial da Ordem em Portugal. Nesta cerimónia, os noviços são revestidos com o hábito da Ordem dos Carmelitas Descalços.

Nós, os noviços que agora estamos em Avessadas em formação, recebemos o hábito no dia 2 de Setembro deste ano. Foi um dia muito especial para nós, pois tratou-se do início, pelo menos um início mais palpável, da nossa consagração a Deus. Ao sermos acolhidos pela Província Portuguesa OCD, fomos também acolhidos pela Virgem Maria, de quem trazemos agora o hábito. Com este ano de formação, preparamo-nos para nos consagrar a Deus e ao serviço da Igreja, fazendo parte desta família religiosa que é o Carmelo Descalço, adquirindo a sua herança espiritual, experiencial, histórica,...

O Pe. Provincial, o Pe. Joaquim Teixeira, nesta cerimónia, inspirado por uma passagem do livro de Samuel (3, 1-10), exortava-nos a nos deixar conduzir por aqueles que o Senhor da Messe pôs à nossa frente para nos ajudar a caminhar. E, neste sentido, procurou, ainda, demonstrar os benefícios de se deixar ajudar por aqueles que já têm experiência de resposta a Deus, por aqueles que já deram uma resposta a Deus e que vivem já numa crescente intimidade com Deus.


Noviços

26 dezembro, 2012

Retiro para a tomada de hábito.




O início do noviciado é marcado com a tomada de Hábito, mas antes da tomada hábito há um retiro de preparação para a nova etapa de formação que se começa. O grupo de noviços actual fez o seu retiro em Segóvia, no convento dedicado a S. João da Cruz, de 25 de Agosto a 1 de Setembro de 2012. Este retiro foi orientado pelo mestre de noviços, o Fr. Vasco.

Aproveitando a ida a Espanha, fez-se uma paragem na cidade natal (Ávila) da nossa fundadora Santa Teresa de Jesus. Assim, nós, os noviços, tivemos a oportunidade de conhecer esse espaço tão percorrido e tão cheio de lembranças da nossa Santa Madre. Visitamos alguns pontos mais importantes da vida de Teresa: a casa em que nasceu, a Encarnação (convento em que se tornou freira), S. José de Ávila (o primeiro convento da reforma/fundação dessa nossa vida da Ordem do Carmelo Descalço).

Esta paragem foi na ida para Segóvia. No regresso, a paragem foi em Alba de Tormes, local onde morreu Santa Teresa de Jesus, em Outubro de 1582, quando regressava a Ávila da fundação de Burgos. Em Alba de Tormes, visitamos o convento em que morreu a Santa e o primeiro convento Carmelita em honra de S. João da Cruz. O convento em que morreu Teresa é uma fundação da própria Santa e é lá que estão os seus restos mortais. Aqui também se pode encontrar um museu onde estão expostos vários objectos da época e até utilizados pela Santa.

O retiro teve como cenário um espaço que também nos é muito querido, como carmelitas que somos. Este convento de Segóvia foi fundado por S. João da Cruz e habitado por ele durante alguns anos. Em cada recanto do convento, cruzamo-nos com uma obra do seu tempo, algumas delas, provavelmente, feitas por ele. Enfim, respira-se no ar o espírito Sãojoanista, o desapego de tudo para chegar ao Todo, a contemplação da natureza como meio para chegar a Deus.
Neste ambiente SãoJoanista, o Pe. Vasco fez-nos uma apresentação dos objectivos do noviciado, dos métodos a usar e do programa a seguir (horário comunitário, programação das aulas, retiros, passeios, etc..) 

Após esta introdução, começámos o retiro propriamente dito. As reflexões que nos foram apresentadas iam na linha do sentir-se chamado a servir Deus e aos outros dentro e através do carisma teresiano. Teresa apresenta-nos o seu carisma baseado em três pilares centrais: oração, comunidade, apostolado. E apresenta-nos um conjunto central de virtudes que unem e alimentam esses três pilares carismáticos, a saber: "amor de umas(uns) para com as(os) outras(os)", "verdadeira humildade" (= "andar em verdade", perante si próprio e perante Deus) e "desapego de todo o criado" (liberdade). 
O Pe. Vasco apresentou-nos uma reflexão do carisma teresiano, pondo o acento na liberdade/desapego. Porque o "estar no mundo sem ser do mundo" é uma das partes mais difíceis de enfrentar na Vida Religiosa, mas que se torna fácil se, de facto, somos e nos deixamos ser apanhados pelo amor de Jesus.

Noviços

25 dezembro, 2012

ATENÇÃO, HOJE É NATAL!



Hoje é Natal! «Sim, hoje! Hoje mesmo! Não celebramos, à maneira de recordação, um acontecimento do passado, que ocorreu uma vez e passou; é algo presente que é, ao mesmo tempo, começo de um futuro eterno que de nós se avizinha!» Assim li em algum sítio estas palavras como tendo sido escritas ou pronunciadas pelo grande teólogo que foi Karl Rahner.

E creio que é um dia muito bonito para eu entrar nesta página que o nosso «bicho-da-seda» começou a construir já lá vão alguns dias. Sim, começou esta obra há pouco mais de 10 dias, praticamente está ainda em gestação, mas já tem pernas para andar. Ah, é que este «bicho-da-seda» mais parece uma centopeia, embora não tenha tantos pés... Mas entranha uma grande sabedoria e não se inspirasse a sua mensagem na doutrina do cantor das «Insulas estranhas»!

Não é difícil de recordar a vida deste minúsculo animal! Bom, quando começa a ser tal e quando deixa de o ser? Como do pequeno ovo sobre o qual se vai irradiando algum calor se vai desenvolvendo uma pequenina larva a qual, alimentada com folhas de amoreira, vai construindo, por sua vez, um casulo, a casa onde ela mesma há-de morrer para dar lugar, depois, a uma belíssima nova criatura que encanta flores, animais e gentes que a admiram no seu esvoaçar, no seu leve poisar, e no seu absoluto silêncio no andar/voar.

Não sei se estais a ver a ligação desta pequena história que estou para aqui a soletrar e o Natal que é hoje! E que insistia nesse «hoje», como o faz, com tanta força e insistência também a própria liturgia que a Igreja celebra. Hoje é Natal! Mas é mesmo hoje! Nem foi ontem, nem é amanhã! Insisto: é hoje! Porque Jesus, o Senhor, o Salvador, Deus mesmo, vem em cada hoje, cada momento ao nosso encontro; a cada batida do coração Ele nasce, Ele vem. E eu creio que muitas vezes esquecemos isto: julgamos, ou pelo menos vivemos, como se o Natal fosse só uma vez por ano, só um dia no ano: e isso para darmos as boas festas, enviarmos mensagens, desejarmos felicidades, fazermos votos de boa saúde e bem-estar; partilharmos alguma coisa com alguém, talvez até lembrar-nos dos mais débeis, fracos e pobres..., tanto mais que nós sentimo-nos muito bem, mas entra-nos o remorso de consciência ao ver ou pensar nesses deserdados. E então pensamos, e dizemos: ah! É Natal! E lá vamos nós com gestos, com atitudes, com palavras de circunstância, puramente esporádicos.

Que pobres que somos estes «bichinhos da seda», todos nós! E quanta resistência vamos fazendo para que em nós se dê um novo nascimento, o verdadeiro, transformando-nos de... «larva em crisálida, de crisálida em borboleta»!

Sim, porque Natal é transformação, é mudança: das trevas em Luz (‘no mundo que andava em trevas, brilhou uma grande luz!’), do silêncio em Palavra (‘no princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus’), da morte em Vida (‘a vida que estava junto do Pai manifestou-se na terra’). Natal é início da vida na terra enquanto a Páscoa será início da vida no céu: é verdade, o Natal está profundamente unido à Pascoa; e não se compreende um sem a outra.

Natal é vida, é família, amizade, partilha, comunhão, abraço, reunião; é alegria, paz, felicidade... Natal é antecipação do céu, por isso há tréguas, há cessar de conflitos, há silêncio, escuta, acolhimento do outro, do diferente...

Que bom se todos os dias fosse Natal! E não apenas pela abundância da mesa, pelas luzinhas e as flores, pelas cantos e as músicas, pelas prendas e felicitações, pelos bons desejos e até pelos gestos esporádicos de caridade e bem-fazer pelos mais pobres e necessitados, pelos que estão a passar frio e não têm um tecto para se abrigar; mas um Natal permanente e eterno no qual o verdadeiro protagonista, Jesus que nasce hoje, estivesse realmente presente e fosse o «motor» que move os nossos corações para fazermos comunhão, unidade, corpo com os nossos semelhantes.

Atenção! Muita atenção! Hoje é Natal! E só existe o hoje porque, como dizia aquela jovem doutora: «Para Te amar, ó Deus amante, eu só tenho o dia de hoje»!
Santo e Feliz Natal para todos!

P. Alpoim Portugal

24 dezembro, 2012

S. João da Cruz e o Natal



É natural que, nesta quadra natalícia, nos perguntemos pelo modo como os nossos fundadores celebravam a festa do Nascimento de Jesus. Qualquer carmelita sabe que Teresa de Jesus e João da Cruz modernamente são contados entre aqueles santos que mais contribuíram para difundir a devoção ao Menino de Belém. Também, quem é próximo ao Carmelo, sabe que nestes conventos, ou castelos onde Deus mora, a marca da casa é a humildade, a oração e a alegria. Dizia Teresa: “Tristeza e melancolia não as quero em minha casa”. E João da Cruz arrematava: “Neste estado de vida tão perfeita, a alma anda sempre, interior e exteriormente, como de festa; no paladar do seu espírito traz frequentemente um grande júbilo de Deus, uma espécie de canto novo, que é sempre novo, envolto em alegria e amor” (Ch 2, 36).

Deixo aqui um breve lamiré sobre o modo de S. João da Cruz celebrar o Natal. Convém lembrar, já de entrada, que o mistério de Cristo – o Amado e o Esposo – é central na sua vida. Por isso, meditou, contemplou e cantou a gloriosa humanidade de Cristo: “Na qual a Suma Trindade/de carne o Verbo vestia. E embora de três a obra,/somente num se fazia;/ficou o Verbo encarnado/ em o ventre de Maria. E o que tinha apenas Pai,/também já Mãe possuía” (Romance In principio…, nº 8). O mistério da encarnação – o Natal – é, juntamente com o mistério da redenção, obra maior, em comparação com a criação e as criaturas (obras menores). A encarnação é obra excelsa na qual o Pai mais reparou e se deleitou. Belém é o tálamo do abraço de amor eterno entre o céu e a terra. 

Segundo a Ir. Maria da Paz, João da Cruz “amava muito a nosso Senhor e andava sempre em oração, agradando a Deus, e isso notava-se-lhe porque o seu rosto acomodava-se às festas”. Esta testemunha estava persuadida de que, conforme às festas, assim trazia o seu afeto em Deus. “Se era natal, denunciava ternura” (BMC 14, 45). Foi atendendo a esta testemunha que Juan Vicente Rodriguez batizou João da Cruz como “o homem do tempo litúrgico”.

Era nas festas de Natal que João da Cruz mais se extasiava. Em Baeza, Granada e Segóvia animava a sua comunidade com versos, cantos e pequenas representações teatrais que entretinham e enterneciam os seus frades. Frei João de Santa Eufémia, o cozinheiro da comunidade de Baeza, diz que “na noite de Natal, o dito frei João da Cruz fez que dois dos seus religiosos, representando Nossa Senhora e S. José, andassem pelo claustro do convento a pedir pousada. E daquilo que diziam estes dois frades, João da Cruz tirava pensamentos divinos que partilhava para grande consolação dos religiosos… E, quando estas festas se celebravam na igreja, o povo ficava muito edificado e cheio de devoção” (BMC 14, 25). Também em Granada, segundo Alonso da Mãe de Deus, frei João “colocou a mãe de Deus num andor, e, posta aos ombros, acompanhada por este servo do Senhor e pelos religiosos que a seguiam pelo claustro, batiam às portas que nele havia a pedir pousada para aquela Senhora em horta de parto e seu marido. Chegados à primeira porta cantaram esta letra que o santo compôs: Do Verbo divino/ a Virgem prenhada/ lá vem a caminho./ Dar-lhe-eis pousada? Esta letra foi-se repetindo de porta em porta. Lá dentro, o santo tinha colocado religiosos que respondiam secamente. João da Cruz respondia-lhes dizendo quem eram os hóspedes, do tempo que fazia e da importância daquela hora. O ardor das suas palavras e das maravilhas que apresentava enternecia o coração de quantos o ouviam e nas suas almas ficava impresso este mistério e um grande amor a Deus”. Gabriel da Mãe de Deus, o velho sacristão do convento, descreve uma procissão idêntica que entrava na igreja à meia-noite. Ao lado do ambão estava montado o presépio – feito de ramos, palha e terra – onde não faltava a mula e o boi, bem como a imagem de S. José. Ao chegar punha-se a Virgem Maria na gruta. Todos adoraram o Menino recém-nascido. Era tal o realismo com que se fazia a celebração “que não parecia representação de uma coisa passada, mas tal acontecimento via-se presente, como se acontecesse naquele instante diante dos seus olhos” (Jerónimo, História, lib 4, c. 11, 427-428). Este mesmo documento histórico relata o momento em que frei João da Cruz, estando afalar aos seus frades sobre a riqueza do amor de Deus feito Menino, sentindo um impulso irreprimível, dirigiu-se a uma mesa onde estava uma imagem do Menino Jesus que recebia todas as alegrias daquele tempo litúrgico, pegou nela nos braços e começou a dançar com toda a arte e fervor. A letra que acompanhava a sua dança dizia: “Meu doce e terno Jesus,/ se amores me hão-de matar,/ agora tenham lugar”.

Ó carmelitas, haja alegria, dancemos, bailemos, porque Jesus nasceu para nos salvar. Abramos a pousada da nossa alma a José e a Maria, porque, no seu seio, trazem-nos o Menino Deus, o Redentor. Feliz Natal!

Agostinho Leal, ocd

23 dezembro, 2012

Alegrai-vos



Estimados leitores!
Bem-vindos (as) a esta página. 
Gostaria que partilhássemos a nossa fé neste Deus-Menino que constantemente advém na nossa história pessoal e familiar a fim de nos oferecer uma proposta de salvação e de vida nova, quando celebramos já o 4º e último Domingo do Advento. Ao longo destas quatro semanas que precedem o Natal temos vindo a contemplar, através do silêncio e da meditação, este Deus que tanto amou o mundo e que decidiu encarnar fazendo-Se em tudo igual a nós excepto no pecado. Ele que é totalmente consubstancial ao Pai e também totalmente consubstancial à Virgem Maria Mãe. A Ele suplicamos que a nossa humanidade se dilua na Sua divindade.~

O Natal está à porta. Natal é um tempo em que a humanidade rende graças pela primeira vinda do Filho de Deus, simultaneamente é um tempo em que vive na expectativa da segunda vinda de Cristo. É a festa da família. Deixemo-nos interpelar por este Céu que desce até nós. Deus encarna por amor! É um mistério tão grande que eleva a humanidade da imanência à transcendência, da encarnação à escatologia, do amor recebido ao amor partilhado.

A esta altura acredito que já estamos preparados para O acolher: fomo-nos purificando das nossas falsas alianças, rompemos com os falsos deuses, e estamos mais predispostos a acolhermos Jesus Menino que, encarnando, nos traz a Salvação. E as leituras deste Domingo são muito sugestivas para todos nós que queremos viver cada vez mais intensamente a nossa condição de baptizados e de peregrinos em direcção ao Reino. Na primeira leitura o profeta Miqueias diz que o Senhor é fiel ao seu estilo habitual: fará nascer o Salvador, não de uma grande cidade como Jerusalém mas de Belém. Ele será a Paz. Na segunda leitura vemos que é necessário que os homens acolham num “sim” total ao projecto de Deus que consiste em fazer a Sua vontade. E, finalmente, na terceira leitura ou Evangelho vemos Maria correndo sobre os montes, levando o evangelho, Jesus, em seu ventre, assumindo assim a figura do mensageiro de boas notícias de Isaías 52,7: «Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia boas novas a Sião…». Vemos também Maria como figura da Arca do Senhor, que abençoa a casa de Isabel, permanecendo com ela cerca de três meses, tal como em 2 Samuel 6,11. E Isabel sua prima cheia do Espírito Santo saúda Maria com a segunda parte da oração a Nossa Senhora: “Bendita és tu entre as mulheres”, “… A mãe do meu Senhor”. 

As palavras de Isabel são proféticas, fruto de uma luz sobrenatural que lhe fez ver que o mexer-se do menino no seu seio não era casual, mas que exultou de alegria. Como Isabel e João Baptista que, ainda no seio de sua mãe, exultou de alegria com a vinda do Salvador, exultemos nós também e vivamos este Natal como um dom. Então assim, o tempo de Natal será caracteristicamente regido por um amor partilhado como uma dádiva. Então, o tempo de Natal será caracteristicamente regido por um amor vivido e partilhado até ao mais extremo grau, independentemente das nossas diferenças. Sejamos mais amáveis e solidários uns para com os outros nestes tempos que são difíceis para todos. Nesse caso é agora que somos chamados a mostrarmos o nosso rosto sócio-caritativo para com os mais marginalizados, os mais desprotegidos, como testemunhas do amor entranhável e misericordioso do nosso Deus.

Que a quadra festiva venha a simbolizar-se não somente nas cinco festas natalícias (o Nascimento, a Sagrada Família, a Santa Maria Mãe de Deus, a Epifania e o Baptismo do Senhor) mas sobretudo acolher Jesus no nosso coração, nas nossas vidas. Deixemo-nos transformar por Ele para nos deixarmos dominar pelo Seu amor; então, conseguiremos ser portadores do Seu Evangelho como Maria, testemunhas do Seu Reino como João Baptista e testemunhas da Sua santidade como o Apóstolo João.

Pe. Daniel Sachipangue

22 dezembro, 2012

Das pedras para os filhos de Abraão: o encontro com o Crucificado por Amor.




Como surgiu o Carmelo na minha vida, na minha história pessoal? 
Creio que a primeira graça, foi quando um dia estando na Eucaristia  percebi dentro de mim que a minha relação com Deus tinha de mudar, estamos entre 2001 e 2002 (não me recordo a data exacta). Percebi que tinha de ser eu que tinha de fazer a vontade de Deus, e não querer que fosse Deus a fazer a minha. Isto levou-me a repetir muitas vezes as orações de Nossa Senhora na anunciação – “Eis a serva do Senhor faça-se a Tua vontade”, e de Jesus no horto: “Pai faça-se como Tu queres.” Isto foi fundamental, porque permitiu uma abertura à graça, porém muito incipiente.

Posso descrever a minha vida como uma série de lutas, de encontros, de descobertas, de períodos de fidelidade e entusiasmo, e de períodos difíceis, de rebeldia, de negação. Mas onde sempre o Senhor actuou, onde sempre me esperou… e podia dizer como a nossa Santa Madre “mais me cansei eu de O ofender do que Ele de me perdoar”.

Depois desta graça procurei de verdade fazer a vontade de Deus… mas essa vontade muitas vezes assustava-me… e pouco a pouco fui tentando silenciar a “Voz” que me gritava dentro… fiz-me surda e andei errante uns tempos.

Depois eis novas “luzes”, a minha vida mudou exteriormente. Mudei de escola e também de paróquia. A minha paróquia de origem estava (está) muito envelhecida, na nova paróquia encontrei vitalidade, uma Igreja aberta, com um testemunho de alegria, de “paixão”, de entusiasmo, uma Igreja atenta aos mais pequenos. Tratei mais de perto com várias irmãs, fiz a experiência de pertencer a um Corpo. 

Tudo isto levou-me a tentar ser mais generosa e empenhada… depois “encontrei-me” com o movimento dos convívios fraternos… descobri a oração. Fiz uma experiência muito linda: comecei a rezar pelo meu mano, que vivia uma fase difícil, e tudo começou a melhorar.

Neste tempo houve também uma “descoberta” fundamental… percebi no íntimo do meu ser, que o caminho para a felicidade era o AMOR, era a doação de si, era viver em comunhão.  

Estamos em 2005. Descobrir o amor e a alegria fez-me ver tudo com outros olhos… podia perguntar novamente ao Senhor qual era a Sua vontade… mas ainda me assustava… chega Agosto, vou às JMJ de Colónia… aí dá-se o primeiro encontro com Edith Stein: “Deus é a verdade, quem procura a verdade, procura a Deus…” sim dentro de mim havia sede de verdade… havia sede de Deus.

Mas eis que tudo muda novamente… em Setembro começo a faculdade, todo um mundo novo. O 2º ano foi o ano das mudanças… um ano de rebeldia e um ano em que fui “apanhada”. Queria ser independente, morar sozinha, sair do controle de todos… mas… o Senhor foi à minha procura quando andava mais longe… e dessa rebeldia começou a fazer algo lindo… e (imagine-se lá…) passei a ir à missa todos os dias. Precisava de estar com Ele… escutá-l’O… sentia a necessidade de estar em silêncio, de estar na solidão habitada.

A 6ª-feira santa de 2007 foi um dia importantíssimo. Houve um “encontro” com O Cristo Crucificado, mas não pela dor… pelo ódio… foi o Crucificado por Amor… aquele Deus que me amou tanto que morreu por mim (e este por mim faz a diferença), que me ama pessoalmente. Um Deus que se fez obediente, pequenino, aniquilado. Percebia interiormente que Ele me pedia para Lhe fazer companhia… estava tão só na Cruz… comecei a desejar estar sempre com Ele. A desejar Consolá-lO. 

O Carmelo: houve novamente um encontro com Edith Stein. Por ela descobri o carisma carmelita. O carisma da União com Deus, da intimidade, da oferta consciente da nossa vida, da fecundidade apostólica da vida escondida… eu queria muito ajudar os sacerdotes (primeiro pensei numa ajuda imediata… mas isso era pouco) … eu queria chegar a todos os sacerdotes… queria chegar a todas as pessoas… no Carmelo, na oração, não há limites de espaço e de tempo… há gratuidade e amor… não sabemos quem ajudamos… mas amamos e queremos ajudar todos. Por isso o coração da carmelita é o coração mais povoado do mundo, todos lá têm um lugar.

Dizia que a minha vida foi de lutas, agora no Carmelo travo também uma enorme luta… a luta pelo amor. Para que todos conheçam o amor de Deus. Deste Deus que é o Amigo que nos chama. Mas esta luta só se ganha perdendo. Sim, perdendo o nosso eu, para que seja Ele a ganhar. Deixar que seja Deus a fazer tudo em mim, a amar em mim, a trabalhar em mim. Só deixando que o Espírito de Deus aja em mim é que a minha vida de carmelita será fecunda para a Igreja.

O Carmelo apareceu como a resposta de amor. A resposta ao convite de Jesus a estar com Ele, a dar-me como Ele se deu. Não há outros caminhos??? sim há… mas para alguns este é o caminho. O escondimento, a simplicidade, o Amor.
Ir. Cláudia
 

21 dezembro, 2012

DEUS CHAMOU-ME DE MUITAS MANEIRAS E COM VÁRIAS VOZES




Considero que Deus me chamou de muitas maneiras e com várias vozes durante a minha história de vida de 25 anos. Serviu-se de situações, acontecimentos, encontros, pessoas, livros, filmes, experiências, sentimentos, pensamentos, na alegria e na tristeza. Este chamamento misterioso, sussurrante e inefável, foi «escutado» de forma mais intensa nos princípios de 2006.

Vivendo uma conversão gradual na minha vida espiritual e na oração, e ao reflectir sobre a minha vida passada e o meu modo de ser, comecei a perceber que o Senhor me estava a indicar um caminho para a minha vida que me levaria até Ele de uma forma mais intensa e radical.

Recordo que, quando vi os filmes, “Irmão Sol/Irmã Lua” e “A Vida de São Patrício da Irlanda”, fiquei cativado pela Vida Religiosa. Lembro-me que depois de ver cada um destes filmes, me ajoelhei diante dum crucifixo que tinha no meu quarto e ofereci-me a Jesus Crucificado, emocionado e com grande abandono de alma, dando um Sim ao convite especial que vinha a sentir. Fazia sentido que eu entrasse na Vida Religiosa. Sentia um grande alívio e paz ao pensar ser religioso. Não tinha uma carreira ou uma profissão em mente. Nunca tive ambições materiais ou de poder. Procurava algo na vida que fosse mais além e diferente do mundanismo. Ou seja, não procurava algo mas sim Alguém que estivesse mais além. E este Alguém procurava-me também. Queria que fosse mais além, que não tivesse medo à diferença por Ele e com Ele. Foi Ele que criou o vazio que só mesmo Ele poderia preencher. Só Deus poderia satisfazer os desejos mais profundos do meu coração. Uma inquietude que só Ele poderia serenar, como diz Santo Agostinho nas suas Confissões: “Fizeste-nos, Senhor, para Vós e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Vós... Brilhastes, cintilastes, e logo afugentastes a minha cegueira! Exalastes perfume: respirei-o..., suspirando por Vós. Saboreei-Vos e, agora, tenho fome e sede de Vós...”

Tinha passado por muitas desilusões e escuridão de espírito, mas, como diz o nosso Santo Padre, São João da Cruz: “...o passar pelas trevas acaba em grande luz.” Quando vi a Luz de Deus ao fim do túnel da minha vida sem sentido, o que podia fazer senão seguir a Luz para sair das trevas e ajudar outros a encontrar e seguir a mesma Luz. O desejo de partilhar a minha experiência de Deus foi forte desde o início e impeliu-me a anunciar a Boa Nova, principalmente aos jovens que andavam e andam perdidos e enganados por luzes falsas e ruídos hipnotizantes deste mundo, distantes da verdade e do Espírito de Deus.

O Carmelo apareceu na minha vida como um mistério. Um mistério que me seduziu e me levou a entrar neste jardim de Deus. Só sei que a página web vocacional da Província de Portugal teve uma grande influência na minha decisão de escolher a Ordem Religiosa do Carmelo Teresiano. 

Senti-me bem-vindo e chamado às suas portas com estas simples palavras que me sensibilizaram: Serás bem recebido... Estás convidado a aparecer, palavras acolhedoras que nunca tinha visto noutras páginas web vocacionais de outras Ordens Religiosas.

Porquê os Carmelitas? O que mais me despertou desde sempre na Vida Religiosa foi a dimensão contemplativa. Mas, como disse, também queria anunciar a Boa Nova, partilhando os frutos da minha oração e intimidade com Deus. O Carmelo tem os dois lados da moeda. O atendimento espiritual e pastoral do sacramento da reconciliaçâo chamavam-me a atenção também. A literatura espiritual e a criatividade dos santos carmelitas atraíam-me a esta família de místicos. 

A etapa vocacional em que me encontro é uma fase de discernimento diário da vontade de Deus para a minha vida e uma introdução à experiência vital da Vida Religiosa carmelitana, dando corpo ao espírito do chamamento. 

Preciso de tempo e paciência. Tempo para experimentar, tomar decisões e clarificar ideias; paciência com este tempo da experiência e com o meu ritmo próprio. Acredito que com o tempo, a experiência, o discernimento, a paciência, a determinação e a oração, vou assimilando o rico carisma teresiano – o espírito e vida que estou a chamado a viver. Esta sendo para mim um tempo de enamoramento da família teresiana. 
O que mais me apaixona na família dos carmelitas é o facto me tornar discípulo de Cristo segundo o estilo de Santa Teresa de Jesus e de São João da Cruz; é o facto de ser como eles um descendente “daqueles nossos santos padres do Monte Carmelo inspirados pelo espírito inflamado do profeta Elias”; e como Elias ser profeta da presença do Deus Vivo que é Amor, no meio deste mundo que não O conhece ou não O quer conhecer. 

Vivo entusiasmado ao pensar que posso ser um irmão próximo dos que mais necessitam saber que há um Pai que os ama, ajudando-os a conhecer este Pai Celeste que os criaram para as grandezas da vida espiritual e teologal na intimidade com Ele. A vida interior e a intimidade com Deus despertam-me muito a atenção juntamente com os escritos e vidas exemplares dos santos do Carmelo. Dizia, por exemplo, a Ir. Isabel da Trindade: “Como se é feliz, quando se vive na intimidade com Deus!” – é esta verdade que vou descobrindo. 

Sinto que é no Carmelo Teresiano que vou encontrar esta felicidade e esta intimidade divina e assim sentir-me mais válido para o serviço da Igreja como bom filho de Teresa de Jesus, que morreu exclamando a alegria de ser Filha da Igreja. Como ela quero ser do grupo dos amigos fortes de Deus de que o mundo tanto necessita.

Frei Danny do Divino Espírito Santo

20 dezembro, 2012

"Procurando entrar nos átrios da casa do Senhor"


Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar”(Gn 12,1). 
Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei” (Mt 11,28).



O meu nome é Vitor Boavida Soares. Sou de Timor-Leste, Distrito de Aileu, Concelho de Aileu, Vila e Freguesia de Hoho-lao, e tenho 24 anos. Em casa, éramos 11 irmãos e vivíamos num ambiente religioso promovido pelos nossos pais. Nossa Senhora do Rosário tinha um lugar de destaque na nossa família, aliás como em toda a população da nossa terra, de quem é Padroeira. Alimentávamos a fé através da oração diária, da Eucaristia anual e da celebração da Palavra. Sim, Eucaristia anual, porque na minha terra só há uma vez por ano. Fora disso, o que há, são Celebrações Dominicais da Palavra.

Recordo-me que, quando eu era criança, mais ou menos com a idade de 8 ou 9 anos, a minha irmã começou-me a convidar para ir com ela ensaiar os cânticos da Eucaristia. Olhando para trás e pensando no que, então, ia sentindo, vejo, agora, como todos esses momentos foram fundamentais para eu chegar até este dia. Vejo, claramente, a mão de Deus por detrás de todos eles, uma mão que me ia conduzindo e apontando um caminho a seguir.

Parece que a Eucaristia era um sacramento importante para eu escutar e perceber melhor a voz de Deus… E, assim, ao terminar a escola primária e ao fazer a passagem para o pré-secundário, algo, neste sentido, veio a mudar nos meus dias. Depois de me ter atrevido durante algum tempo a levantar-me cedo para me deslocar para o Ciclo Preparatório, que ficava a duas horas de minha casa, fazendo o percurso a pé, lá me decidi a ficar em Aileu, por seis anos, em casa duma tia. Nesse tempo aí passado, não só tive a oportunidade de me abeirar mais assiduamente da mesa da Eucaristia, mas também de me tornar ministro do altar do Senhor, exercendo o serviço de acólito que outros meus colegas já exerciam. 

Digo-vos que o Senhor da Messe sabe muito bem como nos chamar, pois esse primeiro dia de serviço do altar, a 12 de Novembro de 2005, foi passado numa imensa alegria e com uma especial vontade de entrega a Deus e à Igreja.

Terminado o 12º ano em 2009, proporcionou-se um encontro com uma Irmã Carmelita de Clausura, que me falou desta Ordem, a respeito do seu Carisma e Espiritualidade, dando-me, inclusive, a conhecer os seus santos e a sua missão na Igreja. Tive mais algum encontro e diálogo com ela, e, a seu tempo e por seu intermédio, vim a estabelecer contacto com os carmelitas de Portugal, os quais me prestaram vários tipos de acompanhamento e discernimento da minha vocação e me fizeram vir até eles. Depois de ter feito cá as primeiras etapas de formação, Aspirantado e Postulantado, encontro-me a fazer o Noviciado na comunidade de Avessadas, Marco de Canaveses, etapa que me permite conhecer melhor o estilo de vida desta Ordem e compreender se é, de facto, por ela que o Senhor me chama a uma opção fundamental na Sua Igreja.

O Noviciado começou no dia 02 de Setembro de 2012. Nesse mesmo dia, recebi o Hábito Carmelita, juntamente com mais três jovens como eu. Desde então, sinto-me muito contente pelo que o Senhor vem realizando em mim e por Maria me ter dado o Seu manto para me cobrir. Tenho impressão que o meu contentamento não anda muito longe do estado de alma de Teresa de Jesus, quando ela diz: «Ao vestir o hábito: logo o Senhor me deu a entender como favorece aos que se esforçam para O servir. Isto ninguém percebeu em mim, mas sim uma grandíssima vontade. Na altura, deu-me um tão grande contentamento de ter aquele estado, que nunca jamais me faltou até hoje» (Vida 4,2).

Fr. Vitor

19 dezembro, 2012

"Servo do Amor"


“E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, pai, mãe, filhos ou campos por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá por herança a vida eterna” Mt19,29; “toma a tua cruz segue-me” “Vinde e vereis” (Jo 1,39).


Paz e Bem! Amados irmãos e irmãs em Cristo Jesus! Quero partilhar algo que está no meu coração sobre a minha caminhada vocacional. Somos convidados a reflectir sobre a nossa vocação, pois todos nós trazemos uma vocação específica. Claro que a nossa primeira vocação é o Amor, viver uma vida santa, pois somos filhos de Deus, o Santo dos Santos. 

Chamo-me Eugénio Romão Barreto, sou de Timor-Leste, tenho 28 anos, somos dez irmãos e eu sou o segundo filho entre os dez. Lembro-me de ter tido uma infância feliz. Brinquei muito com os meus irmãos e primos. Hoje, à medida que o tempo passa, compreendo melhor a graça que é a família que Deus me deu. Foi dela que recebi muito do que me tornei, sobretudo dos meus pais.

Foram eles que com paciência – muita! – me ajudaram a crescer, a pouco e pouco, nas virtudes humanas e cristãs. Fui baptizado no dia de São Miguel Arcanjo, na capela de Besilau, paróquia São Francisco Xavier, Dare, Díli, Timor-leste 

Os anos foram passando e sentia um chamamento que tocava o meu coração; mas não sabia quem me chamava…Certo dia, na Missa de são Miguel Arcanjo, fui escolhido para acolitar – se, realmente, eu acreditasse no que fazia durante a Missa! – a resposta foi rápida e afirmativa, e ainda hoje me lembro desta cena. Foi uma profissão de fé, consciente e voluntária, que deu origem a uma certa viragem na minha relação com Deus. A partir daquele dia, tudo passou a ser feito com mais vontade e convicção. 

Em minha casa, infelizmente, não tínhamos o hábito de rezar o Terço em família. Digo isto porque o Terço também foi como que um segundo empurrão na minha relação com Jesus e Maria, numa altura em que estava já a estudar na Universidade.
.
Um belo dia, fui convidado para ser animador de Taizé na universidade. Foi uma experiência nova e muito marcante, pois convivi com muitos jovens que viviam a sua fé com muita alegria. Num dos dias da universidade, quando estávamos todos a partilhar as conclusões de um tema em que tínhamos reflectido em pequenos grupos, lembro-me de ter tomado a palavra e ter relembrado aquelas palavras de Jesus: “vinde e vede”. O padre que nos acompanhava perguntou-me, logo de seguida, se eu gostava de rezar à maneira de Taizé. Eu tive que admitir publicamente que não rezava à maneira de Taizé, mas rezava o terço com a minha família. Éramos para aí umas quarenta e sete pessoas. Foi humilhante, mas muito salutar. Esta ocasião levou-me a começar a rezar o terço diariamente, graças a Deus, até hoje.

Depois desta actividade, comecei a envolver-me em vários Movimentos Eclesiais que também me ajudaram muito a crescer na minha vocação. Primeiro foi o grupo de acólitos, depois o Grupo de Jovens de São Francisco Xavier e, além destes, o grupo vocacional organizado por uma religiosa. Foi tudo muito bom. No grupo vocacional, fui conhecendo melhor a Palavra de Deus que queimava cá dentro...

Um dia, um colega convidou-me a participar no aniversário dele e escolheu-me para dirigir a oração. Depois de terminar a oração, um dos presentes levantou a voz e disse: “tu pareces um padre a falar”. Confesso que eu ficava um bocado irritado com isso porque Deus tinha-me mostrado que nos chama a todos a sermos santos e que, portanto, todos deveríamos ter zelo e empenho pelas coisas do Senhor e pela salvação das almas e não apenas os padres e as freiras. Para além disso, tinha alguns sonhos que sabia serem compatíveis com a santidade. E o Senhor também me tinha feito perceber que, nos tempos que vivemos, eram necessários santos no meio do mundo, com uma vida normal e, ao mesmo tempo, heróis que brilhassem como estrelas no meio das trevas que nos rodeiam. Esta é a luz que o Senhor me deu acerca da vocação.

Nessa altura, tinha o bom hábito de, antes de me deitar, ler uma pequena passagem do Novo Testamento. Lia continuadamente, ou abria uma passagem ao acaso. Em certas alturas, quando me questionava acerca da Vontade de Deus para mim, fazia uma pequena oração ao Espírito Santo, pedindo-lhe que me iluminasse, e abria o Novo Testamento ao calhas. Parecia incrível – mas a Deus nada é impossível! -, mas saía-me com frequência a passagem “vinde e vereis” (Jo 1,39). E assim comecei a acreditar que a minha vocação seria a alegria da minha alma, a força da minha vida e a esperança para o meu futuro.

Continuei com os estudos. Fiz então uma espécie de contra-proposta a Jesus: não vou terminar o meu curso, porque quero seguir-te (faltavam-me dois anos). Por essa altura, creio que já ia Missa todos os dias, confessava-me de três em três meses e rezava o terço. Foram conselhos que tomei como vindos da Virgem Maria e que mudaram muito a minha vida. Com o passar do tempo a ideia de ser o religioso deixou de ser incómoda e passou a ser o caminho para seguir Jesus incondicionalmente e oferecer toda a minha vontade, todo o meu coração a Nossa Senhora do Carmo. 

“O amor é fonte de todas as coisas e só o amor vence a violência da vida.” (Edith Stein)

Fr. Eugênio

18 dezembro, 2012

História de amizade em história de amor transformada!


Grava-me como selo em teu coração, como selo no teu braço,
porque forte como a morte é o amor.
Nem as águas caudalosas conseguirão apagar o fogo do amor,
nem as torrentes o podem submergir.
(cf. Ct 8, 6)

Olá! Que Cristo esteja contigo! Gostaria de partilhar contigo uma história de amizade a caminho para ser uma história de amor: a minha história vocacional. Falar da vocação é trazer à luz do dia a pérola preciosa e de grande valor que foi colocada no coração, e isso é sempre um tanto ou quanto difícil; mesmo assim, não consigo resistir em contar-ta.

Chamo-me Renato, tenho 20 anos e sou natural da Vila Nova, um belo recanto da Ilha Terceira (Açores). É preciso recuar ao dia 23 de Junho de 1991 para começar a contar a minha história: quando o Paulo e a Natal disseram um sim que até hoje permanece! De facto, quando naquele Maio de 1992, abri os olhos para este mundo, fui recebido num lar onde o amor podia ser visto em cada gesto dos meus pais para comigo e, depois cinco anos mais tarde, para com a minha irmã. E fui crescendo! Cresci a gostar de participar na Eucaristia Dominical, a gostar de rezar, a gostar de obrigar os meus primos e vizinhos a brincar comigo às procissões, a gostar de ler coisas sobre Deus, e a dizer, lá de vez em quando, que queria ser padre. No entanto, enquanto ia crescendo, embora o gosto não desaparecesse, o dizer que queria ser padre foi algo que, com a vergonha, foi ficando cada vez mais só no íntimo do meu coração; até que o fui tentando esquecer.

Enquanto fui crescendo, fui-me integrando na minha comunidade: primeiro no grupo de crianças, depois no grupo de oração, a seguir no grupo de jovens, no curso bíblico, e ainda na catequese, e depois na organização de retiros e outras actividades… E como era feliz! Vivia em amizade com Jesus; uma amizade alimentada na oração, provocada pelo trabalho pastoral, aumentada pelas pequenas contrariedades que ia encontrando, clarificada pelas pessoas que viviam com as mesmas ânsias do que eu. Esperava a cada momento uma palavra de Jesus, em que me manifestasse qual era a sua vontade para mim.

Na altura de escolher a área de estudos para o Secundário, deparei-me de frente com a questão do futuro e da vocação: era necessário preparar caminho para aquilo que Jesus me pedisse; eu não poderia recusar! Não posso esquecer as longas conversas com o meu pároco, o Pe. Francisco, e com alguns amigos e familiares, principalmente a minha mãe, sobre este tema. E comecei a fazer um discernimento vocacional mais sério, a buscar calar a minha voz e deixar falar a voz de Deus. Sentia que Ele me chamava: “cuida do teu povo!”. Sim, a minha primeira vocação é a vocação ao serviço, em clave de amor, ao povo de Deus. Mas esse “teu povo” era, no meu curto horizonte, o povo da minha terra, ou no máximo, da minha diocese.

Até que um dia, Deus abriu-me os horizontes, através do meu director espiritual: porque não experimentar a vida religiosa? Entrei em contacto com os Carmelitas e descobri a beleza do carisma legado por Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz: oração, comunidade e apostolado. A 15 de Outubro de 2010, iniciei o meu postulantado (primeiro período de experiência), no Convento Stella Maris (Porto). Foram dois anos de forte experiência do carisma teresiano. No meio de algumas dúvidas e incertezas, caminhei até à entrada no noviciado (2 de Setembro de 2012).

O que se passou nestes dois anos de vida carmelitana? É quase impossível descrever! A primeira experiência foi a de “deixar”: a família, a comunidade, os amigos, a terra; e, a um nível mais profundo, aquilo que eu pensava ser a vontade de Deus. Afinal, aquele “teu povo” eram e são todos os homens e mulheres, de todos os pontos do globo! Abri os olhos e vi-me com os braços cheios de pessoas de quem tinha que cuidar! Mas ainda faltava algo… faltava a peça central do puzzle!

E é isto que, de uma maneira mais radical, estou a começar a descobrir: a vocação a entregar-me a Deus. Sim, Deus pede-me a vida para Ele, como o amante pede a vida da amada, pede-me todo para Ele, na expressão concreta dos votos de pobreza, castidade e obediência. Só depois de me unir ao Amado, de me centrar no essencial, poderei cuidar de tantos e tantas que precisam encontrar esse amor.

No fundo, foi o amor a chave que me fez compreender a minha vida. Para mim, amar é “dar tudo e dar-se a si mesmo” (Sta. Teresinha). Sim, dei a Deus/deixei (não os abandonando, claro!) a minha família, a minha comunidade, os meus amigos, a minha terra, não porque não os ame ou não me sinta amado, mas porque encontrei um Amor Maior, tal como os amantes deixam as suas casas porque encontram um amor maior do que todos os amores. E agora vivo na busca de dar-me a Deus, de entregar a totalidade da minha vida, do meu amor Àquele que me amou. Sim, vivo a abrir-me à beleza transformante da epifania do Amor, manifestada na Cruz. Ainda não me entreguei totalmente a Ele, nem Ele a mim, é certo! Mas, ainda no anoitecer da minha procura (sim, porque é de Noite que se procura o amado!), os que já o encontraram e vivem em união de amor com Ele – Sta. Teresa de Jesus, S. João da Cruz, Sta. Teresinha, Sta. Teresa Benedita da Cruz, B. Isabel da Trindade -, ao comunicar-me a sua experiência, fazem-me ter a certeza de que é Ele o que o meu coração procura.

Mas desengane-se quem pensa que sou um homem maduro e muito silencioso, do qual mal se nota a presença! Sou um jovem que, como tantos outros, gosta de rir, conversar, estar com os amigos e com outros jovens e fazer festa. Sou um jovem que vive feliz na nova família que Deus lhe deu: a multidão de irmãos carmelitas, na expressão concreta da comunidade onde estou, que faz cada dia ser mais alegre. Sou um jovem que, no meio das dúvidas e certezas, vai, por montes e ribeiras, à procura do Amor, vendo a sua história de amizade com Jesus ser transformada em história de amor.

Fr. Renato

17 dezembro, 2012

Passos para uma entrega.




Olá, estimados irmãos, eu sou o Carlos e escrevo-vos desde o Convento do Menino Jesus de Praga, em Marco de Canaveses, onde actualmente estou a viver. Aqui no Marco estou a fazer o noviciado, que começou no passado dia 2 de Setembro. Eu sou natural daqui do Marco de Canaveses e tenho 24 anos.

Para vos falar um pouco do meu caminho de discernimento vocacional preciso de fazer convosco uma pequena digressão pela minha vida. A primeira paragem é no início de 2009, onde hoje, ao olhar para o passado e ao reler os acontecimentos, concluo que Deus agiu sobre a minha vida. Nesses primeiros dias do ano houve um Padre Carmelita na minha paróquia que falou aos fiéis de um jovem que tinham acabado de receber na sua comunidade. Esse jovem, depois de ter uma vida construída, achou que Deus lhe falava e que o chamava a procurar a sua realização pessoal no serviço ao próximo. Eu, quando ouvi aquele testemunho, logo me perguntei: E se fosse eu? E se fosse eu a sentir o chamamento de Deus na minha vida? Seria eu capaz de deixar a minha vida para procurar servir os outros, renunciando a mim próprio? Pensei alguns dias nestas questões, pondo-me na situação deste jovem, perguntando-me sobre quais seriam as suas razões. Porém, devido às situações pessoais que vivia no momento, fui pondo estas perguntas a um canto na minha consciência.

Apesar disso, durante esse mesmo ano fui-me comprometendo com a paróquia: como leitor, como responsável pelos acólitos, como catequista, etc... E com o passar do tempo ia-me sentindo mais feliz e entusiasmado com a ideia de me entregar aos outros através destes pequenos serviços. O que não acontecia antes de me questionar sobre o sentido da vida, antes não sentia a necessidade de me entregar aos outros, bem pelo contrário, pensava apenas em mim e em satisfazer aquilo a que hoje, com a devida propriedade do tempo, posso chamar egoísmo, no qual o “eu” tinha todas as prioridades.

Durante o período que antecedeu esta viragem não ia regularmente à Eucaristia dominical, porque não encontrava um sentido para isso, nem me preocupava em encontra-lo. Hoje, ao olhar para o passado, vejo que esse período foi particularmente difícil, sentia que me faltava alguma coisa, sentia que faltava um sentido para dar à vida. Regressei à Igreja sensivelmente no início de 2009, pouco antes de ouvir falar nesse jovem que queria ser carmelita. Este testemunho representou um novo passo na minha vida, uma era de mudança para a verdadeira felicidade.

O ano foi decorrendo, muitas coisas aconteceram no meu percurso e eu, como disse, fui pondo todo o questionamento de lado. Chegou o Outono e decidi começar a participar nas actividades do Carmo Jovem, das quais me tinham falado uns amigos. A primeira actividade em que participei foi uma caminhada em Vila Nova de Cerveira, na qual encontrei pessoas que, com a sua entrega, me fizeram lembrar todas as questões que tinha esquecido. Nesse dia, descobri e comecei a conhecer os Padres Carmelitas, os quais não conhecia, apesar de viver com eles ao meu lado desde que nasci. Este estilo de vida que me era apresentado questionou-me, pela vida de entrega ao outro. E assim, foi acrescentado um novo vigor à minha pergunta: Qual é o sentido da minha vida?

Nos dias seguintes fui reflectindo sobre todo o meu percurso, sobre o porquê de me sentir mais cheio ao dar-me aos outros, sobre qual seria o sentido para a minha vida. Concluí que tinha de dar um sentido mais profundo à vida e então procurei um Padre Carmelita, com quem tive longas conversas. Ele apresentou-me a espiritualidade carmelita e apresentou-me a possibilidade da vida religiosa, dando assim início a um caminho de discernimento vocacional. Nas conversas que tive com ele disse-lhe, entre outras coisas, que procurava esse sentido mais profundo, que procurava entregar-me aos outros, mas não uma simples entrega pontual, procurava antes entregar toda a minha vida para servir os outros. De acordo com esses diálogos convidou-me a experimentar o estilo de vida dos Carmelitas. O que eu aceitei de imediato, passando a frequentar regularmente e de forma mais familiar a comunidade dos Padres Carmelitas.

Daí em diante comecei a ser acompanhado pelo Padre responsável pela formação no meu discernimento vocacional e, ao fim de alguns meses, ele convidou-me a dar mais um passo no caminho. Desta forma, em Julho de 2010, pedi ao superior do convento para iniciar o postulantado, uma etapa de iniciação à vida religiosa. Desde então tenho feito uma experiência de vida que me realiza, pois encontro neste estilo de vida uma forma de dar um sentido profundo à minha juventude, dando-me aos outros, tal como Cristo fez, por isso pedi para ser admitido ao noviciado, para O procurar imitar o mais que a Graça de Deus me permitir.

Vim para o Marco para dar mais alguns passos e assim nesta casa de formação, que é o noviciado, continuo a aprofundar os meus conhecimentos sobre a Ordem do Carmo e estou a ser inserido mais profundamente na vida religiosa e no carisma teresiano que se fundamenta em três belos princípios: oração, comunidade e apostolado.

Neste momento, sinto-me realizado com a opção que tomei, apesar de nem todos os dias ser fácil dizer sim a esta entrega. Porque, sinto-me muito pequeno ao ver a entrega, totalmente por amor, de Jesus, mas caminho na esperança de também eu dar a minha vida pelos amigos.
Para terminar esta apresentação peço-vos que continueis a pedir ao Senhor da Messe pelas vocações e convido-vos a pensar na seguinte questão: Qual o sentido da minha vida?

Obrigado!

Fr. Carlos

16 dezembro, 2012

Alegrai-vos!


A Liturgia deste Domingo convida-nos à alegria. Um convite que nos é feito da parte do Senhor, porque é n’Ele que está a fonte da verdadeira alegria. Deus é “alegria infinita” (S. Teresa dos Andes). Ao convidar-nos à alegria, o Senhor convida-nos a não termos medo: “Não temas, Sião” (Sof. 3). “Não vos inquieteis com coisa alguma” (Fil. 4), como se nos diga: “Porque Eu venho a ti, já não tens nada a temer”. Por isso dizia o nosso Santo Padre João da Cruz: “Não é da vontade de Deus que a alma se inquiete com coisa alguma”. E assim nos exorta a segunda leitura: “Alegrai-vos” (Fil. 4)

Quando Deus vem ao encontro do homem traz sempre consigo a alegria e são desterrados o medo, a perturbação, a inquietação. Assim inicia o Novo Testamento, com a anunciação do Anjo a Nossa Senhora: “Alegra-te, ó cheia de graça”! “Não temas; Maria”. Desde a encarnação do Verbo, o mundo ficou vestido da Alegria de Deus! O Senhor traz sempre consigo o sol da alegria que expulsa as trevas do medo.

Então, se Deus encarnou em Jesus, se já veio a este mundo, porque continuamos nós a sentir medo, porque nos perturbamos e inquietamos, porque vivemos tantas vezes em grande ansiedade, tolhidos pelo medo do futuro, medo de perder os que amamos, medo de não ter emprego, medo de não sermos compreendidos e aceites, medo de não sermos amados? A Encarnação não foi um acontecimento do passado, ela continua a acontecer, em cada momento da nossa vida, no presente que nos é dado viver, aqui e agora. Sentimos o medo que nos rouba a alegria, porque em muitas situações da nossa vida Ele não encarna, Ele não tem espaço, estamos surdos e cegos para O reconhecer, porque estamos demasiado confiantes em nós mesmos e nas nossas forças e não acreditamos que Ele tem poder para nos dar a força que precisamos para não desanimarmos e perdermos a esperança. Fazemos divisões dentro de nós e na nossa vida: há espaços da nossa casa interior onde Ele não tem espaço, não chegou ainda a encarnar, por isso, essas realidades continuam habitadas pelas sombras do medo e da inquietação. A nossa relação com Jesus tece-se, muitas vezes, em alguns momentos de encontro com Ele, algum momento de oração, mas não é uma relação viva que perdura em todos os momentos e ao longo de todo o dia, com as portas da nossa casa interior todas escancaradas para Ele. Quando o Senhor vem, vem sempre de uma forma totalizante para empapar todo o tecido da nossa existência da Sua presença e não vem apenas a algumas partes ou compartimentos dela. Ele não quer assumir algumas coisas da nossa vida, Ele quer assumir toda a nossa vida, sem nada dela ficar excluído, para encher tudo da Sua presença de amor, o mesmo é dizer, da Sua alegria. Não quer dizer que não teremos mais dificuldades, mas que não estaremos mais sós.

“O que devemos fazer?” perguntamos também nós, como no Evangelho. Entreguemo-nos inteiros ao instante presente, dando o melhor de nós próprios, fazendo o maior bem possível em gestos concretos de amor, procurando a criatividade do amor que, mesmo do mal, sabe tirar o bem. Cada instante que nos é dado viver não é para nos fazer medo, mas – porque temos a certeza e experimentamos que Ele está connosco, Se alegra connosco, faz festa e exulta de alegria por nossa causa, está presente a nós, ama-nos infinitamente - sentimos toda a confiança para nos entregarmos, sem medo, a cada momento, para fazer algo muito belo para o Senhor e para os outros, como o fizeram Maria e José, ao acolherem Jesus encarnado na sua vida. Que neste Natal Jesus encontre todo o espaço para nascer em nós e assim encher a nossa vida da Sua alegria infinita!

Madre Margarida do Menino Jesus

15 dezembro, 2012

ANO DE PROCURA




Jesus voltou-se e, notando que eles o seguiam, 
perguntou-lhes: «Que procurais?» (Jo 1,38)



Jesus voltou-se e, notando que 4 jovens o seguiam, levantou, de novo, a questão: “Que procurais?”. 
Desde o dia 02 de Setembro deste ano que esses quatro jovens em formação se encontram à volta da resposta à questão. Uma questão que não é uma questão qualquer, basta pensarmos que sai da boca de Jesus, mas que os coloca diante do seu valor e do sentido da sua vida. Uma resposta que, com mais consciência ou menos consciência, só pelo facto de terem recebido de bom grado a proposta de passar a uma nova etapa e de tomar o hábito carmelita, já começou a ser dada. 

É interessante notar que Jesus não está nada preocupado com os nomes dos primeiros discípulos e destes quatro jovens: se se chamavam Pedro, André, Tiago e João ou Renato, Carlos, Eugénio e Vitor; aliás, nem lhes pergunta quem são (A pergunta é doutro teor). Nem sequer se uns e outros eram citadinos ou campesinos, do continente ou das Ilhas, gente com estudos ou a iniciar, calejada por uma profissão ou à espera dela; se tinham passaporte e se ele indicava que eram judeus, portugueses ou timorenses. A pergunta, como dissemos entre parêntesis, mas “mais certeira que a luz do meio-dia”, é doutro teor. E é doutro teor, porque, para Jesus, cada um deles e cada um de nós vale por aquilo que procura. No que procuramos, está ou não o nosso valor e o sentido ou sem-sentido da nossa vida.

O Eugénio é um desses jovens que Jesus notou que O estava a seguir: tem 28 anos e é natural de Timor-Leste. O Vitor, qual outro discípulo de João Baptista, mas natural de Timor-Leste, não ficou atrás: ao ouvir alguém a pronunciar um nome tão grandioso como o de “Cordeiro de Deus, e só com 24 anos, pôs-se no Seu caminho. Apareceram, ainda, dois jovens chamados Carlos e Renato: o primeiro com 24 anos, natural do Marco de Canaveses, mais concretamente da freguesia de Rosém, o segundo com 20 anos e das Ilhas dos Açores, nomeadamente da Ilha Terceira. Estes não faziam parte dos discípulos de João Baptista, mas nem por isso deixavam de ter algo em comum com os outros dois: também eles “procuravam” e tinham um simples e profundo desejo de “ir e ver”.

O terem-se posto a seguir Jesus, deu nisto: actualmente, e depois de já terem passado por mais duas etapas formativas (Aspirantado e Postulantado), estão entre os Religiosos e as Religiosas carmelitas, filhos e filhas de Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz. No Centro de Espiritualidade em Avessadas, Marco de Canaveses, com uma comunidade de 5 Religiosos Professos e Sacerdotes, frequentam a etapa formativa do Noviciado que, de dia para dia, vai-lhes proporcionando esse “ir e ver” e a descoberta do que “procuram”, bem como o discernimento dessa «procura», isto é, se se trata duma procura que dá valor e sentido ou se, pelo contrário, o que comporta é ausência de valor e sentido. 

A descoberta e a resposta à questão de Jesus podem implicar muito tempo: um ano, por exemplo, que, por acaso, é o tempo estipulado, neste momento, para o noviciado nesta Província de Carmelitas Descalços. Mas não só: implica, sobretudo, silêncio, um voltar-se para o interior, um conhecer-se a si próprio, um conhecer a Jesus e o Deus de Jesus, uma oração-amizade, uma abertura ao Evangelho e à Igreja, uma comunidade, um carisma e uma espiritualidade, um acompanhamento e trato com outros testemunhos credíveis que se puseram a seguir o Mestre. Quais são esses testemunhos credíveis? Pergunta à Igreja, mas, se quiseres, a seu tempo, também esses 4 jovens te poderão dizer. 

E, tudo isto, eles recebem, nesta Ordem, na qual se encontram!... Queres também chegar a saber o que procuras? 

Pe. Vasco Nuno 

14 dezembro, 2012

"Quem sente em si a doença de amor, ou seja, a falta de amor, é sinal de que tem algum
amor, porque, pelo que tem, vê o que ainda lhe falta. Porém, quem não a
sente, é sinal de que não tem amor algum ou já chegou ao perfeito amor." (S. João da Cruz, C 12, 14)