12 maio, 2014

A Primeira Comunhão da Irmã Lúcia.


Na comemoração de mais um aniversário festivo do 13 de Maio em Fátima, vamos conhecer um pouco mais da vida da pastorinha Lúcia. Vamos hoje conhecer melhor como foi vivida, por ela e pela sua família, o dia da sua primeira Comunhão.

Dizia a Ir.ª Lúcia que uma das suas características mais marcante na sua infância era a curiosidade. Não podia ficar na dúvida ou sem ver esclarecidas as suas questões. A sua mãe era a catequista da aldeia; não guardava as dúvidas para si e quando a mãe, na catequese não as esclarecia, à hora de jantar bombardeava o seu pai com todas as suas perguntas até ficar esclarecida. E o seu pai com toda a calma procurava responder-lhe e confirmar o que a mãe já havia dito.

Foi neste ambiente que a pastorinha de Fátima chegou ao dia da sua primeira Comunhão. Como era costume do prior da aldeia, só recebia a Comunhão quem já tivesse 7 anos, facto que desgostou Lúcia, porque ainda só tinha 6. Como tivesse vindo um padre de fora para ajudar o prior na festa, e vendo-a tão chorosa perguntou-lhe o que se passava, ao que ela lhe respondeu. Chamou-a e fez-lhe o pequeno exame que era costume fazer e percebeu que era uma criança preparada e consciente para a situação. Perante o facto fala com o prior e assume a responsabilidade relativamente à pequena Lúcia, a qual se enche de alegria e entusiasmo.

Nessa tarde de sábado vai fazer a sua primeira confissão preparada pela mãe. Confessa-se a este padre de fora. Conta a Ir.ª Lúcia este relato com alguma piada; eis apenas o que lhe diz a sua mãe no final da sua confissão: "-Minha filha, não sabes que a confissão se faz baixinho, que é um segredo? Toda a gente te ouviu! Só no fim disseste uma coisa que ninguém soube o que foi".

Este é um pequeno relato da candura e inocência vivida por esta criança simples e humilde. Conta um pouco mais à frente, o que lhe disse o padre no final da confissão: "-Minha filha, a sua alma é um templo do Espírito Santo. Guarde-a para sempre pura, para que Ele possa continuar nela a Sua acção divina". estas foram palavras que caíram fundo no seu coração e sempre procurou ser-lhe fiel ao longo da sua vida. A noite que antecedia o grande dia foi passada em vigília, sem conseguir dormir pelo entusiasmo e a prepararem-lhe o vestido branco; nesta noite, diz, fez a sua primeira consagração a Maria. A missa da sua comunhão é assim relatada pela própria pastorinha:

"Começou a missa cantada e à maneira que o momento se aproximava, o coração batia mais apressado, na expectativa da visita de um grande Deus que ia descer do Céu para se unir à minha pobre alma. O Senhor Prior desceu por entre as filas a distribuir o Pão dos Anjos. Tive a sorte de ser a primeira. Quando o Sacerdote descia os degraus do altar, o coração parecia querer sair-me do peito. Mas logo que pousou em meus lábios a Hóstia Divina, senti uma serenidade e uma paz inalterável; senti que me invadia uma atmosfera tão sobrenatural, que a presença do nosso bom Deus se me tornava tao sensível, como se O visse e ouvisse com os sentidos corporais. Dirigi-Lhe então as minhas súplicas:
- Senhor, fazei-me uma santa, guardai o meu coração sempre puro, para Ti só".

Como vemos, o dia da sua primeira Comunhão foi extremamente marcante para a sua vida. Neste dia começa-se a definir muito daquela que seria futuramente uma das pastorinhas e videntes de Fátima. É a própria Lúcia que o afirma e que diz: uma primeira Comunhão bem preparada e vivida marca para o resto da vida. Para concluir diz-nos ela, em primeira pessoa, que neste dia, começa a desenhar-se nela um movimento de entrega a Maria e à vontade do Senhor. O resto da história vamos conhecendo aos poucos; ou, pelo menos, julgamos nós.




04 maio, 2014

Fica connosco, senhor!




1. O Evangelho deste III Domingo da Páscoa convida-nos a fazer aquela que pode ser considerada a mais bela viagem de doze quilómetros de toda a Escritura. A viagem que nos leva de Jerusalém a Emaús, actual aldeia palestiniana de nome El-Kubèibeh, que guarda a memória deste maravilhoso episódio de Lucas 24,13-35.

         2. Aperceber-nos-emos, porém, rapidamente que se trata menos de uma viagem transitiva sobre o mapa, e mais, muito mais, de uma viagem intransitiva nas estradas poeirentas do nosso embotado coração. É assim que dois deles (dýo ex autôn) – e está aqui assinalada uma ruptura destes dois com a comunidade reunida em Jerusalém – saem da comunidade. O texto retrata-os bem: estão em dissensão com a comunidade, pelo caminho conversam familiarmente (homiléô) sobre as coisas acontecidas em Jerusalém (Lucas 24,14 e 15), mas também debatem (syzêtéô) (Lucas 24,15), e entram mesmo em dissensão um com o outro, opondo argumentos (antibállô) (Lucas 24,17).

 3. Estando assim as coisas, narra o texto que um terceiro viajante, que é Jesus – informa-nos o narrador –, se aproximou deles e caminhava com eles, mas os seus olhos estavam impedidos de o reconhecer (Lucas 24,15-16). Neste ponto preciso, impõem-se duas pequenas anotações. Primeira: Jesus é sempre aquele que caminha com, faz conjunção, onde nós, e quando nós, estamos em disjunção. E não caminha connosco apenas algum tempo. Caminha connosco sempre, pois o verbo grego está no imperfeito de duração (syneporeúeto): caminhava com. Segunda: não é a incapacidade deles ou a nossa que nos impede de reconhecer Jesus. Na verdade, o texto diz, na sua crueza, que os seus olhos estavam impedidos (ekratoûnto). O verbo grego está num imperfeito passivo. Entenda-se correctamente: é Deus que impede os nossos olhos de o reconhecerem agora. Esta indicação deixa-nos alerta para o momento em que Deus vai desimpedir os nossos olhos para o reconhecermos.

4. Este terceiro, que caminha sempre connosco, e que faz conjunção sobre as nossas disjunções, é também aquele que conduz o nosso caminho. Ele é o Presidente. Preside sempre. Por isso, começa a fazer perguntas: «Que são estas palavras que opondes entre vós enquanto caminhais?» (Lucas 24,17). Ele é o Mestre que nos faz perguntas pedagógicas, para nós nos dizermos. A primeira consequência em nós desta pergunta certeira é fazer com que mostremos a nossa tristeza e desilusão: «E eles pararam com o rosto triste» (Lucas 24,17). E depois, atónitos, perguntamos: «Tu és o único (mónos) estrangeiro residente (pároikos) em Jerusalém que não conheces as coisas que nela aconteceram nestes dias?» (Lucas 24,18). E ele pergunta outra vez pedagogicamente: «O que foi?» (Lucas 24,19). Duas anotações. Primeira: sem o sabermos, fazemos uma afirmação correcta: de facto, ele é o único que conhece as coisas de outra maneira. Segunda: quando ele pergunta: «O que foi?», é para nos levar a dizer a desilusão e o sem-sentido que nos habita. Ele é o Mestre que faz as perguntas, para depois corrigir as respostas (Lucas 24,25-27).

5. Nestas conversas guiadas, parece que o caminho se encurtou. Estão em Emaús. E, chegados aí, Jesus fez como se (prosepoiêsato: aor. de prospoiéomai)fosse caminhar para mais longe (Lucas 24,28). «Fez como se» é uma finta pedagógica. O texto não diz que ele ia caminhar para mais longe. Diz que Ele «fez como se fosse…». Finta pedagógica, que provoca logo a nossa oração: «Fica connosco…» (Lucas 24,29). Atenção, portanto: também a nossa oração é provocada por ele. Ele é o Mestre, o Presidente.



6. No seguimento do nosso pedido, ele entra para ficar connosco. Não apenas algum tempo, como fazemos nós quando visitamos os amigos. Ele entra para ficar connosco sempre, para presidir à nossa vida toda. Preside, portanto, à nossa mesa: recebe o pão, bendiz a Deus, parte o pão e dava (epedídou: imperf. de epidídômi), imperfeito de duração. Atitude que continua ainda hoje. É aqui que são abertos (por Deus) os nossos olhos, antes impedidos por Deus de reconhecer Jesus. Decifração da Cruz. Ele está vivo e presente. A sua vida é uma vida a nós dada. Sempre a ser dada. É agora que vemos a luzinha que ele acendeu já no nosso coração, no caminho… Não é o escuro da noite exterior que nos mete medo. O que nos mete medo é o escuro interior. Ei-los que partem em plena noite para Jerusalém. Viagem da conjunção, fazendo o caminho inverso da primeira viagem da disjunção.

7. Ainda hoje é bom e salutar fazer esta viagem no mapa e no coração a Emaús (El-Kubèibeh). O peregrino encontra nesta aldeia árabe uma igreja, à guarda dos Padres Franciscanos da Custódia da Terra Santa, que recorda os acontecimentos narrados no sublime episódio de Lucas 24, que acabámos de recordar. A actual igreja é uma construção de inícios do século XX, estilo românico-gótico de transição, que respeita as linhas e integra algumas pedras de uma igreja construída pelos Cruzados no século XII. Esta igreja encontrava-se ainda de pé no século XIV, mas estava já em ruínas no século XV, de acordo com o testemunho de peregrinos qualificados. Esta construção dos Cruzados enquadra aquilo que se pensa serem os fundamenos da casa de Cléofas, um dos dois que, naquele primeiro dia da semana (Lucas 24,1 e 13), se dirigiam para uma aldeia, chamada Emaús, que distava 60 estádios (11-12 km) de Jerusalém.

8. Nas paredes desta igreja, pode ler-se em várias línguas um belo e significativo poema, que aqui passa também a conhecer o português: «Todos os dias/ Te encontramos/ no caminho./ Mas muitos reconhecer-Te-ão/ apenas/ quando/ repartires connosco/ o Teu pão./ Quem sabe?/ Talvez/ no último entardecer».

9. E o poeta inglês Thomas S. Eliot faz esta evocação da cena de Emaús: «Quem é o terceiro, que vai sempre ao teu lado? Se me ponho a contar, juntos vamos apenas eu e tu. Porém, se olho à minha frente sobre a estrada branca, vejo sempre outro que caminha ao teu lado. Quem é esse que vai sempre do outro lado?».

10. É o Senhor, que vós entregastes à morte, mas que Deus ressuscitou, responde Pedro, falando ao povo no dia de Pentecostes (Actos 2,14.22-33). Reside aqui, não o essencial do anúncio, mas o anúncio essencial, sem glosas e sem filtros, que somos chamados a fazer, com alegria e determinação (Actos 2,23-24). Este veio fundamental percorre, como verdadeira filigrana, o Livro dos Actos dos Apóstolos: 2,23-24.32.36; 3,15-16; 4,10; 5,30-31; 10,39-40; 13,28-30; 17,31; 25,19. Chamemos-lhe «primeiro anúncio», ou, como já se diz hoje, nesta sociedade que já recebeu o «primeiro anúncio», mas que vive distante da seiva do Evangelho, «segundo (primeiro) anúncio». É neste Senhor, continua Pedro, que temos posta a nossa fé a nossa esperança, muito para além das coisas corruptíveis, como prata e oiro (1 Pedro 1,17-21). «O Senhor sempre diante de mim», cantamos hoje com o Salmo 16,8.


D. António Couto, in Mesa de Palavras

30 abril, 2014

As origens familiares da Irmã Lúcia


A herança recebida dos pais é sempre fundamental para a pessoa que somos. Esta é também a consciência da Irmã Lúcia, a última de seis filhos da Sr.ª Maria Rosa e do Sr. António dos Santos. Como a própria pastorinha conta, era uma família humilde e sem grandes recursos, mas com a porta sempre aberta a quem chegava, muito generosa e com um grande sentido de rectidão e justiça. Estes foram valores que pautaram muito a vida de Lúcia e que foram aprendidos e integrados desde o berço paterno. Por outro lado, havia um grande sentido de proximidade e intimidade, de cumplicidade e amor, valores que a própria Lúcia viveu e recebeu de forma particular por ser a mais nova da família.



Lúcia nasce a 28 de Março de 1907, Quinta-Feira Santa. Como o Padre não quisesse baptizar a criança no Sábado Santo por ter nascido naqueles dias de tanto trabalho, porque os recursos eram pouco para duas festas tão próximas, o pai de Lúcia decide registá-la no dia 22; assim não havia motivo para o Prior não a baptizar no dia pretendido. E assim aconteceu. Conta a Irmã Lúcia, em tom de brincadeira, que no dia do seu nascimento pela manhã (ela nasce de tarde) a sua mãe tinha ido à missa e comungado e, por isso, ela teria feito a sua primeira comunhão antes de nascer.



Como filha mais nova que era, tornava-se o centro das atenções, pelo amor e carinho que recebia dos pais e irmãos mais velhos. Os seus pais sempre muito atentos e com um grande cuidado na formação do carácter dos seus filhos, fazem o mesmo com a benjamim da família, procurando transmitir-lhe os valores fundamentais para a sua vida e crescimento, os quais a própria Lúcia procurou sempre preservar e alimentar. Os próprios irmãos se revestiam de uma verdadeira atenção (quase paternal) para com ela, ambiente que lhe foi muito favorável e lhe permitiu desenvolver uma personalidade jovial, brincalhona, assertiva e trabalhadora. Tudo isto não a impedia de ter as suas travessuras, que a própria pastorinha contava com bastante graça nos recreios no seu tempo de Carmelita.

Se hoje procurámos conhecer um pouco o ambiente familiar da Irmã Lúcia e como foram os primeiros anos da sua vida, em breve teremos a oportunidade de saber e perceber a maneira como ela se preparou e viveu um dos dias mais importantes da sua infância: o dia da sua Primeira Comunhão. Iremos perceber como passou esse dia, como se preparou e viveu a sua primeira Confissão A seu tempo conheceremos esta história. Hoje ficaremos com esta pequena introdução.

17 abril, 2014

Viver em hi-fi



Quinta-Feira Santa. Dia de Alegria. Da Eucaristia. De nova sintonia. Em alta frequência, alto amor, alta fidelidade, hi-fi. Seja esta, Senhor, a nova caligrafia da nossa Poesia.

Dá-nos, Senhor, um coração novo,                             
capaz de conjugar em cada dia
os verbos fundamentais da Eucaristia:
RECEBER, BENDIZER e AGRADECER,
PARTILHAR e DAR,
COMEMORAR, ANUNCIAR e ESPERAR.

Dá-nos, Senhor, um coração sensível e fraterno,
capaz de escutar
e de recomeçar.

Mantém-nos reunidos, Senhor,                                             
à volta do pão e da palavra.
E ajuda-nos a discernir
os rumos a seguir
nos caminhos sinuosos deste tempo,
por Ti semeado e por Ti redimido.

Ensina-nos, Senhor,
a saber colher
o Teu amor
semeado e redentor.

Única fonte de sentido                                                            
que temos para oferecer
a este mundo
de que és o único Salvador.


D. António Couto, in Mesa de Palavras

13 abril, 2014

DOMINGO DE RAMOS: O TRIUNFO DO SERVO


Começo por confessar que, desde pequeno, gostei sempre do domingo de ramos. Na véspera, com o meu pai ou irmãos, íamos procurar nas oliveiras os ramos mais bonitos para a procissão. E, no dia dos Ramos, nunca me cansei de ouvir aquela leitura bem comprida da narração da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Em tempos de desânimo e desilusão o profeta foi enviado para anunciar uma palavra de consolação. Apesar da forte oposição que o aguarda, ele não «recua um passo» e permanece fiel ao Senhor «como um discípulo». A Igreja hoje não se assenta em cobardes, mas em gente determinada em servir o Senhor. Gente que «não desvia o rosto dos que a insultam e cospem». O texto de Isaías (primeira leitura) aplica-se inteiramente á paixão de Jesus. Apesar do sofrimento, nunca voltou atrás nem nunca renegou a Sua hora, para deixar a esperança da salvação a quem acaba por reconhecer que «verdadeiramente este Homem era Filho de Deus». Aliás, a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém só se entende à luz do mistério pascal. O verdadeiro triunfo é sobre a condenação e a morte.

A segunda leitura, para os meus gostos, é de uma beleza extraordinária e mostra o caminho que conduz ao triunfo: «Não se valeu da Sua igualdade com Deus…, tornou-se semelhante ao homem…, humilhou-se ainda mais…, obedeceu até à morte». Quem pode compreender este caminho? Não é isto o que diz o mundo. Mas, verdadeiramente, para subir é preciso saber descer e obedecer. «Por isso Deus O exaltou». Hoje atrevo-me a dizer que para caminhar com Cristo e como Cristo é preciso andar muitas vezes ao contrário de honras, êxitos, lugares de destaque, conquistas e vitórias do mundo. É preciso não ter medo dos caminhos e quelhas do mundo onde há tanta gente caída, insultada, cuspida, crucificada…, física e espiritualmente. Realmente é preciso estar na Paixão de Cristo para não fugir da paixão da humanidade.

Sobre a narração da Paixão, decididamente e por própria vontade não quero fazer nenhum comentário para não estragar tão comovente leitura. Só quero pegar num papel e apontar os nomes de todos os personagens que aparecem neste relato. Só quero ficar em silêncio e perguntar-me com qual deles mais me identifico. Quero pedir a Jesus que me faça forte para ser servo e determinado para O seguir até ao fim, onde começa toda a nossa glorificação.

Santa Teresa de Jesus, de quem celebramos 499 anos do seu nascimento, afirma: «Deus dá o prémio conforme ao amor que Lhe tiverem. E este amor, minhas filhas, não há-de ser forjado pela nossa imaginação, mas provado por obras. E não penseis que Deus tem necessidade das nossas obras, pois Ele só quer a determinação da nossa vontade» (3M 1, 7).

O Domingo de Ramos começa com a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Por isso, faço-me menino hebreu (como as crianças que O aclamaram), fico com o ramo de oliveira para, de onde estiver, gritar ao mundo que a paz há-de triunfar sempre. Entretanto: Hossana, hossana. Viva Cristo, Rei e Senhor, Crucificado por nosso amor.


Agostinho Leal, ocd

07 abril, 2014

Vamos conhecer melhor a Ir.ª Lúcia?


Percorrer a vida daqueles que nos precederam na vida e na fé é um exercício magnífico, inspirador e interpelador. Mais ainda quando tudo é feito à luz daquele "trato de amizade com Aquele que nos ama" (Santa Teresa de Jesus). Convido-vos a fazer esta descoberta comigo, de uma das mais belas mulheres da Igreja do século XX, agora apresentada em biografia pelo Carmelo de Coimbra: a Ir.ª Lúcia de Jesus. A Pastorinha de Fátima que teve uma ligação tão próxima com Maria, nas Aparições em Fátima e ao longo da sua longa vida, torna-se assim sinal de esperança e de renovada conversão a Jesus, ao Jesus Escondido que era tão querido do pequeno Francisco.



"Com a simplicidade com que ela viveu, vamos acompanhá-la no seu longo caminho, onde os espinhos não faltaram, mas por onde correu em abundância, como água cristalina de uma nascente sempre em direcção ao mar, o amor que lhe deu força na sua passagem pelo mundo, que para ela foi apenas o caminho para Deus" (Biografia da Irmã Lúcia, pág. 7). Sim, esta é a primeira lição que a Pastorinha de Fátima nos dá: a simplicidade não é sinónimo de facilidade; a forma simples, obediente e despojada com que viveu a sua vida, faz-nos perceber, a partir da nossa existência pessoal, que os problemas e as dificuldades podem ter sempre um novo olhar, que se torna renovador e libertador: o olhar de Deus.
Aqui surge uma segunda lição: "Foi uma vida enamorada de Maria. Ela quando se via envolvida por muitas pessoas, atenções e solicitações, costumava dizer: é tudo por causa de Nossa Senhora! E Nossa Senhora diria se a ouvíssemos: "é tudo por causa de Jesus!" Sim, porque tudo está dirigido a Ele na nossa vida" (Biografia, pág. 7). Uma pessoa apaixonada vive sempre pela pessoa amada. A vida da Irmã carmelita ensina-nos a ver isso mesmo; mostra-nos e faz-nos sentir que não é ela a figura principal, mas Aquele a quem ela se quis unir de forma tão especial. Primeiro, na sua infância, com as Aparições; depois nos seus anos de irmã Doroteia; por fim, como irmã Carmelita Descalça. Por tudo isto a sentimos e percebemos bem-aventurada. Tal como o sentimos e percebemos em relação aos seus primos.
Que esta caminhada com a Irmã Lúcia nos ensine e provoque a querermos ser chamados filhos de Nosso Senhor e de Maria. Que assim seja!

Filipe




Em busca de um caminho


Daniel fazia sozinho o caminho de Santiago de Compostela, uma das peregrinações mais concorridas da Europa, quando foi apanhado por uma tempestade.

Tom, seu pai e médico norte-americano, é imediatamente comunicado do falecimento do filho e desloca-se a França para recuperar o corpo.

Enquanto remexe na bagagem de Daniel e nos seus preparativos para aquela viagem, decide fazê-la ele próprio, no imediato, deixando toda a sua vida suspensa para continuar o objetivo do filho, procurando compreender o mundo que o inspirou e moveu para a ação.

Acarretou o desafio de não ter tempo para se preparar, de planear as coisas, de não lutar contra a reflexão prévia das dificuldades físicas da sua idade e carregou toda a sua bagagem (a da mochila e a de dentro também). Com efeito, deixou-nos perceber que as emoções são responsáveis pelas tomadas de decisão.

Durante o caminho cruza-se com outros 3 peregrinos de vários pontos do mundo e, numa dança entre a procura da solidão e companhia, percorrem-no juntos.

Todos eles com objetivos diferentes, com vivências distintas mas cada um à procura do seu sentido de vida. Entre a resistência em partilhar a sua motivação interior ou não, todos a tinham.

Não raras vezes ouvimos que a satisfação não está em chegar ao final do caminho mas que a aprendizagem está nele mesmo. Olhar para os lados no caminho, para tudo o que está à volta, e reposicionar a percepção do mesmo. A busca do Caminho de Santiago de Compostela é muito rica nisso mesmo.

“Vim para te levar para casa mas agora não tenho nada para levar” diz Tom no final do caminho num diálogo interior para com Daniel. Ele responde-lhe com toda a serenidade “Tem sim”. Talvez enquanto se liberta das cinzas do seu corpo no mar tome consciência de que não nos libertamos das emoções mas transformamo-las. Talvez também perceba que um dos grandes ensinamentos que fazemos aos descendentes é precisamente o de ensiná-los a caminhar. E qual será o caminho para perceber que esse objetivo foi alcançado?

“A “Terra prometida” é um caminho, uma terra que está onde está o homem que a deseja.”




06 abril, 2014

QUINTO DOMINGO DA QUARESMA: VOLTAR À VIDA




Neste quinto domingo da quaresma, depois de ler o relato da «ressurreição» de Lázaro, levantei o sobrolho da alma para ver se podia gritar: «Ressurreição à vista»! E, verdade se diga, que isto tem-me dado que fazer. Dou-lhe voltas e mais voltas, e não consigo entender bem esta questão da morte e ressurreição. Tranquiliza-me o facto de, no que toca a estas coisas da fé, Nosso Senhor nunca ter perguntado a ninguém se sabia ou entendia. «Disse Jesus (a Marta): «Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre. Crês nisto?» Ela respondeu-lhe: «Sim, ó Senhor; eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo» (Jo 11, 25-27).

S. Paulo diz que renascemos no baptismo, que é participação na morte e ressurreição de Cristo (cf. Rom 6,3). Por isso, o catecúmeno tinha que despir-se do que é velho e entrar nu na água, como se descesse ao sepulcro. Ali recebia o baptismo e, ao sair, era revestido com uma túnica nova, para indicar a nova vida que tinha recebido. Mortos para o pecado e ressuscitados com Cristo, os cristãos estão vocacionados para viver uma vida nova (cf. Rom 6,4). Neste contexto, entendo melhor as palavras do profeta: «Infundirei em Vós o meu espírito e revivereis» (1ª leitura). Sem o Espírito de Jesus ressuscitado somos pouco mais do que um cadáver sem vida, sepultados neste sepulcro do exílio. A ressurreição equivale à posse em plenitude do espírito de Deus. Cristo ressuscitou porque tinha em Si a plenitude do Espírito. Também nós «não estamos sobre o domínio da carne, mas do Espírito» (2ª leitura).

Este quinto domingo quaresmal está-me a dizer que a experiência da ressurreição de Jesus vive-se antes da morte, para cá da morte, fazendo e vivendo como Ele nos ensinou e mandou, pois só assim damos glória a Deus Pai: «Nisto se manifesta a glória de meu Pai: em que deis muito fruto e vos comporteis como meus discípulos» (Jo 15, 8). A força da ressurreição de Cristo é para se viver já, agora e aqui. Sobre a vida «para além da morte» podemos ter uma ideia. Mas a realidade agora é a vida «para cá da morte». Ora, como escreveu o papa Francisco (EG 231): «a realidade é mais importante do que a ideia». Por isso, a nossa esperança na vida eterna não é só para depois da morte. Jesus quer fazer-nos participar já, nesta vida mortal, da vida eterna. Não temos de estar à espera de morrer para começar a gozar a gozar do perdão de Deus e da intimidade com Ele. Os que acreditam não morrerão para sempre, porque, de alguma maneira, já entraram na vida. Assim o dizia a beata carmelita Isabel da Trindade: «Encontrei o meu céu na terra, porque o céu é Deus e Deus está na minha alma». Também Santa Teresa de Jesus, com a alegoria do bicho-da-seda, fala da ressurreição espiritual do cristão, do mistério pascal que se realiza por virtude da ressurreição de Cristo. Mas esta vida nova – viver nesta terra com o espírito de Cristo ressuscitado – exige a nossa colaboração: «Morra, morra este nosso verme – como fez o da seda quando acabou de fazer aquilo para que foi criado – e vereis como havemos de ver a Deus e sentirmo-nos tão metidas na Sua grandeza como aquele vermezito no seu casulo» 5M 2, 6). O nosso povo costuma dizer: «morte certa em hora incerta». Contudo, um cristão (aquele que tem o espírito de Cristo) pode acrescentar: «ressurreição certa em hora certa».


Ao fim destes cinco domingos – que foram verdadeiras catequeses baptismais: as tentações (que são o nosso estado actual), a transfiguração (que é o nosso destino), a Samaritana (que nos recorda que Cristo é a água que pode saciar a nossa sede mais profunda), o cego de nascença (que nos fala de Jesus, luz do mundo) e de Lázaro (que nos convida a pôr os olhos na ressurreição futura) – podemos entrar na Semana Santa e recordar que pelo baptismo morremos ao pecado e ressuscitamos para a graça. Que o Senhor Jesus nos conceda a graça de nos unirmos cada vez mais a Ele, abraçarmo-nos com a Sua cruz e participar um dia da Sua gloriosa ressurreição. Amém.


Agostinho Leal, ocd

05 abril, 2014

VIDA DADA EM ABUNDÂNCIA




1. A «caminhada» quaresmal aproxima-se da sua meta e do seu verdadeiro ponto de partida: a Cruz Gloriosa onde resplandece para sempre o Rosto do imenso, indizível amor de Deus. Nesta altura do percurso (supõe-se que encetámos uma subida espiritual: entenda-se no Espírito Santo e com o Espírito Santo), baptizados e catecúmenos devem estar já a ser Iluminados por essa luz, a ponto de se desfazerem das «obras das trevas» e de abraçarem as «obras da Luz», como verdadeiros discípulos que seguem o Mestre até ao fim, que é também o princípio, a Fonte da Vida verdadeira donde jorra o Espírito Santo (sempre Actos 2,32-33; João 19,30.34; 7,38-39). Os catecúmenos têm neste Domingo V da Quaresma – Domingo da dádiva da Ressurreição – os seus terceiros «escrutínios»: última «chamada» para a Liberdade antes da Noite Pascal Baptismal.

 2. A Ressurreição de Lázaro (João 11,1-45) constitui o sexto dos sete «sinais» do Mistério de Cristo segundo o Evangelho de João. Depois das bodas de Caná (João 2,1-12) (1.º), da cura do filho do oficial em Cafarnaum (João 4,46b-54) (2.º), da cura do paralítico na «piscina probática» (João 5,1-47) (3.º), da multiplicação dos pães e dos peixes (João 6,1-14) (4.º), da Iluminação da cego de nascença (João 9,1-41) (5.º), e antes do Sétimo Grande Último Primeiro «Sinal» que é a própria Ressurreição do Senhor, «o Sinal da Santa Cruz», decifrado pelo Espírito Santo, com que todos fomos (somos) marcados para sempre (Efésios 1,13; 4,30).

3. Em boa verdade, o episódio da morte / ressurreição de Lázaro remete de forma clara para a Morte / Ressurreição do Senhor. O tempo que marca a narrativa não é o tempo de Lázaro (da sua doença, da sua morte, do seu sepultamento), mas é o tempo (a hora) de Jesus, o Filho de Deus, Aquele-que-Vem sempre, passageiro total, pascal. Por isso, quando recebe a notícia da doença do amigo, Jesus deixa passar propositadamente dois dias (João 11,6), e é ao terceiro dia que se encaminha para a Judeia (João 11,7), e é ao terceiro dia que chama Lázaro da morte (João 11,43). Pouco importa que para Lázaro seja já o quarto dia! (João 11,17 e 39). Verdadeiramente importante é a hora-que-vem (!), agora, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus (João 5,25 e 28), Aquele-que-dá-a-vida (João 5,21; 1 Coríntios 15,45), esplendoroso Rio de Luz e de Sentido a inundar a terra inteira, enchendo-a de Vida e de Saúde (Ezequiel 47,1-12; Apocalipse 22,1-2). Verdadeiramente importante é este terceiro dia em que o Filho de Deus é glorificado (João 11,4), e suscita a fé de todos os intervenientes na cena: dos discípulos (João 11,15), de Marta (João 11,27), de Maria (João 11,29.32), da multidão (João 11,42), de muitos judeus (João 11,45).

4. Marta permanece ligada à corrente de uma teologia tradicional: «Eu sei (oìda) que ressuscitará na ressurreição no último dia» (João 11,24), e não deixa entrar em si a torrente da novidade enunciada por Jesus, que é Jesus: «Eu Sou (egô eimi) a ressurreição e a vida» (João 11,25). E, quando Jesus dá ordens para retirar a pedra (João 11,39), Marta avança logo a inutilidade, mesmo o desconforto de uma tal acção, dado que já lá vão quatro dias desde que Lázaro morreu (João 11,39). O certo é que éretirada a pedra (João 11,41), e a nova ordem de Jesus, Lázaro sai para fora ligado com as faixas e o rosto envolto num sudário (João 11,44).

5. Como tudo isto aponta, em contraponto, para a ressurreição de Jesus. Aqui, no caso de Lázaro, a pedra é mandada retirar (árate) e é retirada(êran). O verbo aírô [retirar] aparece nos dois casos na forma activa e no tempo aoristo. Entenda-se: por mãos humanas e por algum tempo. Mas quando se tratar do túmulo de Jesus, a pedra apresenta-se retirada (êrménon) na forma passiva e no tempo perfeito (João 20,1). Entenda-se: por Deus e para sempre! È o inefável que se abre diante dos nossos olhos! E também as faixas não prendem, e o sudário não encobre! As faixas estão no chão, e o sudário cuidadosamente enrolado em um lugar (João 20,6-7). Tudo está feito, e bem feito. Nenhuma acção de libertação é necessária, como o foi em João 11,44).

6. Significativamente estes discípulos de Jesus ficam confusos com o sono-morte de Lázaro (João 11,11-13) – a morte confunde-nos a todos (!) – mas compreendem perfeitamente que a ida de Jesus para a Judeia é a sua entrega à Morte (João 11,8), e vislumbram até o significado Baptismal dessa Morte, uma vez que manifestam o desejo de morrer com Ele (João 11,16), isto é, querem Viver aquela Morte! Como bons catecúmenos que seguiram fielmente o Mestre, aprenderam já que a Vida verdadeira brota daquela Morte na qual verdadeiramente somos baptizados (Romanos 6,3-4), com-mortos, com-sepultados, com-ressuscitados, com-vivificados, com-sentados na Glória! (Efésios 2,5-6; Colossenses 2,12-13). Sentada estava Maria (João 11,20), figura do díscípulo (Lucas 10,39); mas quando lhe é dito ao ouvido que o Senhor a chama (João 11,28), levantou-se (êgérthê: verbo técnico da Ressurreição: Lucas 24,34; 1 Coríntios 15,4) de imediato e foi ao seu encontro (João 11,29).

7. Belo, belo, belo este Jesus que vem ao nosso encontro, que sente as nossas dores e chora connosco, que se comove connosco, que nos ama e nos chama sempre, inclusive dos vales onde vamos caindo mortos. Ele é a Vida. Ainda hoje, em Betânia, actual al-Azariye, aldeiazinha situada na colina oriental que desce do monte das Oliveiras, a cerca de três km de Jerusalém, se pode visitar, descendo 24 degraus, o túmulo que a tradição popular atribui a Lázaro. Ao lado está a igreja franciscana, dita «da amizade», levantada pelo famoso arquitecto Barluzzi, em 1952-1953.

8. O imenso texto de Ezequiel 37,12-14 é uma belíssima metáfora plantada no meio da Escritura, uma lampadazinha (2 Pedro 1,19) que aponta já para a Luz nova e grande de Jesus. A metáfora mostra-nos que os exilados na Babilónia são como ossos ressequidos e sem nenhuma esperança. Eles estão na morte e na humilhação. O seu discurso não deixa dúvidas: «Os nossos ossos estão secos; a nossa esperança está desfeita; para nós está tudo acabado» (Ezequiel 37,11). Mas a Palavra de Deus manda também na morte. Apontando para o Novo Testamento, Deuschama os mortos dos seus túmulos, e fá-los reviver. Jesus que passa no Evangelho de Hoje «grita com voz forte» (João 11,43), e Lázaro, morto, saiu do túmulo.

9. Paulo não se cansa de nos lembrar a vida nova que habita os filhos de Deus (Romanos 8,8-11). «Viver em Cristo» ou «no Espírito» são fórmulas baptismais intensas que indicam a vida nova do baptizado: com o dom da Iluminação, marcado pelo Espírito até à Vida eterna. Mas agora é tempo de passar, como Jesus, ao estilo de Jesus, dando um testemunho credível da nossa condição nova de filhos de Deus, deixando o fruto do Espírito iluminar a nossa vida. E «o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio» (Gálatas 5,22-23).

10. Sim, o Salmo 130(129) é um grito desde o abismo profundo em que jazemos atolados. São apenas 52 palavras hebraicas que atiramos a Deus, Senhor do Amor fiel (hesed) da Redenção (pedût). Cada orante que grita este Salmo sabe em que grau de profundidade está. Este é um dos Salmos graduais ou das subidas ou das peregrinações. É uma voz que sobe até àquele Senhor que não desprezou as nossas profundezas, mas até elas desceu, e até elas desce!


D. António Couto, in Mesa de Palavras

04 abril, 2014

12 Anos Escravo


Steve McQueen é o autor deste oscarizado filme sobre a escravatura. Michael Fassbender volta a colaborar com o realizador – é a terceira vez – ao lado de revelações negras que iluminam a tristeza da servidão com uma humanidade que comove, deleita e ensina. Este é o terceiro filme de McQueen, depois de Hunger e Shame. E o autor é quase um actor – pela omnipresença da sua singular sensibilidade, a perfeição do gesto com a câmara e uma apurada capacidade literária.

O terceiro filósofo do pódio Grego atribuía à verosimilhança uma das qualidades máximas da tragédia. Quanto mais próxima do real fosse a obra, mais verdadeira, mais autêntica. No cinema, o prólogo “baseado em factos reais” (mesmo que não incorporado nas páginas no filme), predispõe o espectador para uma intensidade mais humana do que um filme pode dar à partida – por se tratar de um filme e não da vida. Ou não fosse esta a razão fundamental de se anunciar ao interlocutor a sua dimensão extra-ficcional… Solomon Northup, homem concreto que existiu e pisou a terra como nós, voltou a sua pena para o Norte da literatura autobiográfica e em 1853 publicou a sua assombrosa memória, que vendeu trinta mil exemplares em três anos e depois deslizou para o esquecimento. Só voltaria a ser lida com atenção por dois historiadores que republicaram a história, juntando-lhe notas históricas, em 1968. Mais tarde, deu origem a uma série televisiva, e agora a esta longa-metragem do realizador britânico. Northup, que acompanhamos ao longo de duas horas, encabeça com a sua homónima obra todo um oceano de escravos de que não se conhece a vida porque eram escravos, e muitos porque não escreveram. Neste caso, a veracidade do que se conta parte do próprio ser humano que sofreu aquilo que ouvimos e vemos ser contado. No final do seu livro, o autor reforça aquilo que acaba de ser dito: “Isto não é ficção, não é exagero. Se falhei em alguma coisa, foi em apresentar ao leitor, de forma proeminente, o lado iluminado deste quadro”.

O filme começa com a apresentação da figura principal, Solomon, carpinteiro e violinista oriundo de Nova Iorque, pai de duas crianças, que é recrutado por dois colaboradores de um circo ambulante para um trabalho de breve duração mas alta remuneração. Sem avisar a mulher, Northup aceita o temporário emprego e parte com o par circense em viagem. O seu dom musical é pouca água para o rio que o espera, cuja foz é inesperada para a personagem, mas previsível para o espectador. Drogado e espancado depois do sono, Solomon é levado para Nova Orleães, onde ainda consegue, ao chegar, escrever uma carta à família, mas sem grande efeito – pois o seu rasto perdera-se pelo caminho. Solomon adopta o pseudónimo que lhe é atribuído e, forçado a esquecer a sua vida em Nova Iorque, inicia um novo ciclo da sua vida, que durará doze anos.

Se este filme desperta algum tipo de reflexão no espectador, dela não se pode falar sem mencionar o engenho de McQueen na forma como nos mostra cada fragmento deste filme. Ao falar de escravatura, estamos também a falar em liberdade. E uma das técnicas que McQueen usa para estabelecer esse contraste é alternar passos narrativos duros de ver com planos da natureza circundante, como as árvores ou o cair do dia, que nos trazem as sensações simultâneas de prisão e libertação. Além disso, a personagem principal é ao mesmo tempo a encarnação da ausência de liberdade e o desejo de a encontrar, e é nesse desejo que reside a sua vitória no encontro final com uma nova possibilidade de felicidade e plenitude.

Solomon Northup pode ajudar-nos a olhar a nossa vida com a aceitação e paciência próprias de um mártir. Num dos diálogos com Patsey, o seu grito é antes de mais um desejo fortíssimo de verdade e dignidade. “Não vou cair no desespero! Vou manter-me forte até que a liberdade surja!” Ao chegar a casa, depois de uma dezena de anos sob a alçada de latifundiários sem alma, pede perdão à sua família pela ausência. A sua dignidade nunca sucumbe, durante o longo período de servo, à resignação da maioria dos outros desgraçados. Diz ele, em forma de máxima, “Eu não quero sobreviver. Eu quero viver.” É este espírito que o leva a concluir a obra da sua vida com a paz interior que todos nós, filhos do pecado mas ávidos de bem, desejamos para nós mesmos. “Espero daqui para a frente levar uma vida justa e modesta, e por fim descansar no adro da igreja onde o meu pai dorme.”


António Seabra, in http://www.essejota.net/index.php?b=home


31 março, 2014

Experiência em Granada


Da janela do meu quarto contemplava a Serra Nevada. Nevada porque estava a serra cheia de neve no seu cume. Neste momento deixei-me maravilhar como à muito não acontecia. Parecia uma criança a contemplar a novidade que não é nova, mas que nos faz perceber que só com tempo e olhos de ver conseguimos ver aquilo que nas nossas rotinas não vemos. Deparei-me com a obra de um Deus que não se cansa de nos mimar.

E a minha experiência por Granada poderia ficar assim resumida, não fosse ela mais uma etapa no meu caminho de discernimento vocacional. Um caminho no qual me deparo com um amor incondicional deste Deus que me ama e quer para Si. A esta interpelação jamais poderei ficar indiferente e quieto, sem fazer nada.

Sim, sinto-me profundamente amado. Estes foram dias em que reconheço o quão Deus tem sido fiel na minha vida e para comigo. Perante este facto, como ficar indiferente e não querer responder ao Seu apelo?
No Carmelo de Granada continuei a perceber que Deus se continua a manifestar de forma tão simples e profunda, que quer manter uma relação de intimidade e despojamento, de uma maneira tão bonita que só a fraternidade carmelita poderia transmitir. Senti-me verdadeiramente filho de Santa Teresa e de São João da Cruz. Uma fé tão humana e tão divina que nos eleva ao mais profundo de nós mesmos. Aí onde Deus habita e quer efectivamente morar e encontramos a paz e a sabedoria para Lhe darmos o nosso "sim".



Esta minha visita ao Carmelo de Granda, casa de Postulantado Ibérico Carmelita, tinha como objectivo um reencontro com as raízes desta Ordem, tornou-se num passo mais, no sentido de me abrir à Sua vontade, a confiar a vida àqueles que Deus coloca na minha existência e, particularmente, nesta caminhada, para, deste modo, saber ler e discernir o que o Senhor quer de mim. Foi uma experiência que ocorreu entre os dias 17 e 22 de Fevereiro. Agradeço muito a Deus o acolhimento e o carinho com que fui recebido pela comunidade (9 Frades e 2 Postulantes); perceber que em Deus tudo é possível e que o difícil se torna fácil, especialmente quando temos pessoas tão boas para nos acolher e integrar na vida da comunidade.

Uma coisa peço: reze por mim ao Senhor, porque por mim mesmo não serei capaz de percorrer este caminho. Se é verdade que a resposta só eu a posso dar, não é menos verdade que esta vocação seja só minha, mas de todos os que comigo caminham, comigo se cruzam e partilham a vida comigo. Se peço, também agradeço a vida que me foi dada, todos os que fazem parte da minha vida e a possibilidade de poder partilhar de forma tão bonita a minha fé. Amém!

Filipe


30 março, 2014

QUARTO DOMINGO DA QUARESMA: A LUZ DA FÉ!


O quarto domingo da quaresma é denominado liturgicamente como «Domingo Laetare», o «Domingo da Alegria». Também no advento se denomina o 3º Domingo como o «Domingo Gaudete». A caminhada que fizemos para o Natal e esta que estamos a fazer para a Páscoa é feita no sentido da alegria e da felicidade porque «um Menino nos foi dado» e porque «o Senhor veio para nos libertar do pecado com a Sua morte e ressurreição». Era este o pedido da antífona de entrada: Alegra-te, Jerusalém… Exultai de alegria.

A espiritualidade quaresmal quer fortalecer-nos na fé para que cheguemos ao dia de Páscoa e possamos sentir e viver na verdadeira alegria o mistério da morte e ressurreição de Cristo.

A luz da fé é um dom de Deus e não uma conquista da inteligência humana ou um gosto pessoal. A primeira leitura mostra-nos como a fé é uma nova maneira de ver as coisas e as pessoas. Quer Samuel, quer Jessé de Belém, pensavam que o rei que o Senhor tinha escolhido para o seu povo era Eliab, porque, além de ser o mais velho, era belo, forte e sábio. Enganaram-se, no entanto. O Senhor tinha escolhido David, que andava a guardar o rebanho e era o mais novo. E porquê? Porque «Deus não vê como o homem; o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração». Apetecia-me lembrar aqui o que diz o nosso povo: «Quem vê caras não vê corações». Ora Deus vê as caras e os corações. Deus vê por dentro. É esta luz que nós precisamos de pedir ao Senhor: a luz do Seu olhar. Quantas vezes, por causa das aparências, não passamos de cegos com os olhos abertos? Isto é, vemos mas estamos cegos para ver mais do que a estatura e a beleza exterior. Se «a bondade e a graça do Senhor nos acomapanharem todos os dias da minha vida» serei capaz de ver o que Deus quer e aderir à Sua vontade.

Cristo é a «Luz verdadeira que a todo o homem ilumina» (Jo 1. 9, 4-5). S. Paulo na Carta aos Efésios alerta para um antes e um depois do baptismo: «Outrora vós ereis trevas, mas agora sois luz no Senhor». Luz e trevas, morte e vida, vida antiga e vida nova, vida pagã e vida cristã. Antes vivíeis na ignorância, no erro, no pecado (as trevas). Agora «vivei como filhos da luz» e «procurai sempre o que mais agrada ao Senhor».

O cego de nascença (Jo 9, 1-41) é imagem do homem que deseja ver. Cristo é a «Luz do  mundo» que nos cura da cegueira interior, iluminando o nosso entendimento, a nossa memória e a nossa vontade para que a nossa fé seja cada vez mais viva e profunda, de modo a reconhecer e confessar Jesus como «o Senhor». Tal como na samaritana, podemos contemplar neste cego um itinerário de fé: ao início, Jesus é simplesmente um homem (v 11); depois, é um profeta (v 17); em seguida, é um homem de Deus (v 32-33); finalmente, é o Senhor (v 38). Na cura vemos acontecer um contraste: o cego abre-se progressivamente à luz do sol e à luz da fé, e os que podem ver (e tinham os olhos abertos) fecham-se à luz de Cristo (excomungam-no dizendo que não é um homem de Deus) e entram numa obscuridade cada vez maior. O cego fez o que Jesus mandou: «lavei-me e fiquei a ver». Nesta quaresma, Cristo, através da sua Igreja, também nos diz: Lavai-vos, purificai-vos dos vossos pecados, abandonai as obras das trevas.

Finalmente, a piscina de Siloé. Em hebraico Siloé significa Enviado. Jesus é o verdadeiro Enviado. Pelo nosso baptismo, fomos lavados e purificados no seu Sangue. Por isso Jesus nos envia a testemunhar a fé: «Como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós» (Jo 20, 21). A fé sem obras está morta. E, no dizer de Santa Teresa de Jesus (2M 1, 5), «quando a fé está morta… queremos mais o que vemos do que aquilo que ela nos diz».

         Senhor, mistura também hoje a tua saliva (símbolo da vida divina) com este barro, que sou eu, para que renasça em mim a nova criatura iluminada pela Luz de Cristo. Amém.


Agostinho Leal, ocd

29 março, 2014

LUZ QUE LAVA E ALUMIA O CORAÇÃO



1. Com o olhar cada vez mais fixo na Cruz Gloriosa, em que foi entronizada a Luz que dá a Vida verdadeira, baptizados e catecúmenos continuam a sua «caminhada» quaresmal: memória do baptismo [= execução do programa filial baptismal] para os baptizados, preparação para o baptismo por parte dos catecúmenos (Sacrossantum Concilium 109), que têm neste Domingo IV da Quaresma – Domingo da dádiva da Luz – os seus segundos «escrutínios»: segunda «chamada» para a Liberdade.

            2. O Evangelho narra a dádiva da Luz por Jesus à nossa pobre e cega humanidade (João 9,1-41). Deus é Luz (1 João 1,5), e é na sua Luz que nós vemos a Luz (Salmo 35,10). Ora, a Luz veio ao mundo (João 3,19; 12,46) para dar a Vida ao mundo. Veio (elêluthen) ao mundo e permanece acesa no mundo, como indica o perfeito usado no texto grego. Marcos recorre à crueza da linguagem para nos fazer ver melhor o Mistério desta Luz-que-vem: «Vem a Luz para ser colocada debaixo do alqueire ou debaixo da cama? Não, antes, para ser colocada sobre o candelabro? Na verdade, nada está escondido que não seja para se manifestar» (Marcos 4,21-22). Na verdade, o Divino, o Filho Unigénito de Deus, Aquele-que-vem, passa escondido na humildade da nossa condição humana. É Ele a Luz-que-vem, que agora está escondida, mas que se manifestará no novo e último candelabro do amor de Deus (Actos 2,36), a Cruz Gloriosa, única fonte do Espírito Santo para nós (sempre Actos 2,32-33; João 19,30.34; 7,38-39). Não esqueçamos que ver o Filho é obra do Espírito Santo em nós (1 Coríntios 12,3). É por isso que o Filho do Homem, Aquele (o Único)-que-de-Deus-vem-e-a-Deus-volta (João 9,13) tem de (deî) ser levantado [= crucificado / ressuscitado /glorificado / exaltado] (João 3,14; cf. Filipenses 2,9): só então se saberá que «Eu Sou» (título divino) (João 8,28), e atrairei todos a Mim (João 12,32).

3. Mas agora, após o Baptismo no Jordão e a Transfiguração / Confirmação no Tabor, durante o dia que é a sua vida toda, eis Jesus passando sempre (parágôn: particípio presente durativo) (João 9,1) e executando a «obra» daquele que o enviou (João 9,4). Na sua condição de «passageiro» total, pascal, no sentido «que de Deus veio e para Deus voltava» (João 13,3), Jesus viu um cego de nascença, e os seus discípulos também viram. Mas Jesus e os discípulos não viram a mesma coisa. Os discípulos viram um cego, e por detrás do cego viram o encadeado «pecado – doença», e por detrás do encadeado viram a manifestação do Deus-garante da «ordem da retribuição». Jesus viu um cego, mas não viu naquela cegueira a manifestação de Deus; antes, viu que «era preciso» (deî) (João 9,4) aquele cego para que Deus se manifestasse nele. Jesus viu um cego e como que disse: preciso deste cego! «É preciso» (deî) que Deus se manifeste neste cego. E como é que Deus se podia manifestar naquele cego? Através das «obras» (tà érga) daquele que Ele enviou (João 9,4), fazendo passar aquele cego do domínio da cegueira para a liberdade da glória dos filhos de Deus, para usar a expressão feliz de Romanos 8,21. Sendo a Luz do mundo (João 8,12; 9,5), Jesus concede o dom da vista ao cego de nascença acompanhado do dom da Luz (Iluminação) em ordem à contemplação das coisas divinas (veja-se a propósito Hebreus 6,4-5: texto baptismal espantoso!). Atente-se bem que o cego de nascença recebeu o dom da vista e o dom baptismal da «divinização» para ver e ouvir as coisas divinas. Perante este segundo dom, também os fariseus eram cegos de nascença, e não o sabiam!

4. Significativamente, o cego recupera a vista e recebe o dom da Luz na «piscina de Siloé» (João 9,7). De notar que «piscina» se diz em grego kolymbêthra, nome que ainda hoje para a Igreja grega significa «fonte baptismal». Siloé é a grecização do aramaico shlîha, hebraico shalîah, que quer dizer «enviado». Santo Agostinho comenta, sempre de forma acertada e penetrante: «Sabeis bem quem é o enviado; se Cristo não tivesse sido enviado, nenhum de nós teria sido desviado do pecado. O cego lavou os olhos naquela fonte que se traduz “Enviado”: foi baptizado em Cristo». A «fonte baptismal» do «enviado» de Deus, daquele-que-vem-de-Deus, o Filho do Homem. O cego recobrou a vista imediatamente. A luz da fé, essa é gradual. Passa por: «não sei» (João 9,12); «é um profeta» (João 9,17); «vem de Deus» (João 9,33); «eu creio, Senhor» (João 9,38).

5. A narrativa vai abrindo cenários sucessivos. O primeiro (João 9,1-7) põe Jesus e os seus discípulos face ao cego, mostra as suas diferentes maneiras de ver, e deixa claro que é a postura criadora e redentora de Jesus que cura o cego. O segundo (João 9,8-12) mostra-nos a discussão estéril que se gera entre os vizinhos acerca do cego. Só palavras. O terceiro (João 9,13-17) traz para a cena a presença dos fariseus, que também discutem o assunto, e também não o entendem nem se entendem. O quarto (João 9,18-23) mostra a atitude dos pais que não se querem comprometer. O quinto (João 9,24-34) põe de novo em cena os judeus e o cego, que apontam os respectivos mestres: Moisés para os judeus; Jesus para o cego. Mas acerca de Jesus, dizem os judeus: «Esse não sabemos DE ONDE (póthen) é» (João 9,29), ao que o cego responde com inteligência, apontando a cegueira deles: «Isso é «espantoso» (tò thaumastón): vós não sabeis DE ONDE (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!» (João 9,30). Que é como quem diz: só não vê quem não quer! O último cenário (João 35-41) traz-nos de volta Jesus, que se revela ao cego, iluminando-o, e deixa os fariseus cada vez mais às escuras!

6. Temos todos algo a ver com o cego de nascença: os baptizados receberam como ele o dom baptismal da Luz para ver e ouvir e viver a vida divina; os catecúmenos recebê-lo-ão. Temos todos a ver com o Enviado, Aquele-que-vem: Ele é o único enviado do Pai para fazer a sua «obra»; nós somos enviados por Ele (João 20,21) para continuar no mundo a sua «obra». Mas temos de reconhecer que muitas vezes ainda vemos as pessoas e as coisas de forma bem diferente de Jesus!

7. O Primeiro Livro de Samuel 16,1-13 serve-nos hoje um texto fantástico em clara sintonia com o Evangelho. Trata-se da unção real do menor dos filhos de Jessé, David, um garoto que andava nos montes a guardar o rebanho. Nem entrava nas contas do seu pai. Teve de ser o profeta Samuel a perguntar a Jessé, depois de este lhe ter apresentado sete filhos e não ter dado sequer a entender que ainda tinha mais um: «Acabaram os teus filhos?» (1 Samuel 16,11). Só aqui é que Jessé se apercebeu que ainda tinha mais um. Mas, como David era ainda um garoto, nunca Jessé pensou que passasse por ele a escolha de Deus! A sua presença é, portanto, tão paradoxal como a do cego de nascença! Mas Deus não vê como nós. Deus vê o coração, e nele deposita o seu Espírito (1 Samuel 16,13; Romanos 5,5). Levamos este tesouro em vasos de barro… (2 Coríntios 4,7). Brilha melhor a Luz de Deus (2 Coríntios 4,6).

8. Cumpre-nos ler também hoje o grande texto da Carta aos Efésios 5,8-14. Iluminados pela Luz da Luz, que é também a Luz do mundo, somos a Luz do mundo: constatação, mas sobretudo desafio e programa! Somos, por isso, «filhos da Luz» (Efésios 5,8; 1 Tessalonicenses 5,5) – um dos termos técnicos de «divinização» – e «filhos do dia» (1 Tessalonicenses 5,5). Chamados das trevas para a luz maravilhosa de Deus (1 Pedro 2,9), devemos tornar-nos operadores das «obras da Luz», que não têm parte com as «obras das trevas». O Apóstolo [= Enviado] dá testemunho do Evangelho e continua no mundo o Evangelho. Passando como Jesus. Vendo como Jesus. Aí está a nossa missão.

9. Tempo para nos deixarmos conduzir pela mão carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom Pastor, cantando o Salmo 23(22). Sim, Ele recebe bem os seus hóspedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de águas muito azuis, unge com óleo perfumado a nossa cabeça, estende no chão do seu céu a «pele de vaca» (hebraico shulhan), que é a sua mesa, serve-nos vinhos generosos…


D. António Couto, in Mesa de Palavras

Nos 499 anos do nascimento de Santa Teresa: os primeiros acordes de festa

E já se começam a ouvir os primeiros acordes de festa!

Ontem, em "La Santa" (casa onde nasceu Santa Teresa, convertida em Convento dos Carmelitas, inaugurado em 1636), foi apresentado o Hino Oficial do V Centenário do Nascimento de Santa Teresa e o Presidente da Conferência Episcopal Espanhola, Mons. Ricardo Blázquez, celebrou, em acção de graças, a Santa Missa no mesmo convento.

O presidente do episcopado espanhol convidou-nos a penetrar no imenso magistério de Santa Teresa, olhando-a como exemplo para a nova evangelização e lendo os seus escritos "Livro da Vida" e "Fundações" em paralelo com a Exortação do Papa Francisco "A Alegria do Evangelho".


Por sua vez, o Hino é uma suma bem conseguida de quem foi e é Santa Teresa para os Carmelitas e para a Igreja. Com letra de Carlos Aganzo e música de Francisco Palazón, o hino aborda a figura de Santa Teresa desde 4 perspectivas diferentes: na primeira estrofe, a sua ligação a Ávila e o seu magistério oracional na imagem do Castelo Interior; depois, é apresentada a sua actividade fundadora; em terceiro lugar, a sua vida e qualidades como escritora; por fim, uma belíssima invocação de Teresa como Doutora da Igreja, Doutora Mística.

Saibamos nós juntar-nos a esta corrente de festa e acção de graças, proclamando as maravilhas de Deus em cada ser humano e, especialmente, em Teresa de Jesus, de Ávila, da Igreja, do Mundo e para o Mundo. A ela, na comunhão dos santos, pedimos:

Teresa de Jesús, doctora de la Iglesia,
maestra de la luz, centella del amor,
enséñanos la senda por la que caminaste
con alma enamorada, buscando en ti al Señor.

Teresa de Jesus, doutora da Igreja,
mestra da luz, centelha do amor,
ensina-nos a senda pela qual caminhaste
com alma enamorada, buscando em ti o Senhor.



Links:

-Gravação do Hino pelo Coro Gregoriano de "La Santa", ontem na Missa de celebração dos 499 anos de Santa Teresa:



-Gravação do Hino pelo Coro Gregoriano de "La Santa" (uma outra  gravação da mesma música, mas com mais qualidade auditiva):



- Letra do Hino.

- Download da música

25 março, 2014

Anunciação


1. Dia 25 de Março, Dia grande, Dia solene, que reúne a Igreja inteira, Oriente e Ocidente, em celebração compacta ao seu Único Senhor, venerando a sua Mãe, na Solenidade da Anunciação do Senhor à Virgem Maria, que aponta já para o Natal do Senhor. Ainda que, de facto, separados, hoje os irmãos estão todos unidos e reunidos à mesma mesa da Graça. Dêmos, por isso, graças a Deus. No Oriente, a Anunciação do Senhor permanece um Mistério tão central que, nas rubricas do calendário litúrgico, apenas cede à Sexta-Feira Santa. No rito bizantino, a própria Vigília Pascal, caso caia no dia 25 de Março, reparte a celebração, uma parte do cânon Pascal, outra parte do cânon da Euaggelismós [= Evangelização], nome que este acontecimento recebe no Oriente.

2. O Evangelho neste Dia proclamado (Lucas 1,26-38) é um tecido sublime, que as Igrejas do Ocidente conhecem por «Anunciação», e as do Oriente por «Evangelização». Do céu chega a Alegria incandescente a casa de Maria: «Alegra-te, Maria» [= «Chaîre Maria»; «Ave Maria»], «o Senhor está contigo» (Lucas 1,28), não tenhas medo» (Lucas 1,30), diz a Maria o anjo enviado por Deus. Alguns anos mais tarde, as mulheres que vão ao túmulo de Jesus ouvirão também a mesma música divina: «Alegrai-vos» (Mateus 28,9), «não tenhais medo» (Mateus 28,5). Aí está outra vez a harmonia da Escritura. E nós, Assembleia Santa que hoje se reúne para celebrar os mistérios do seu Senhor e também de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, estamos também permanentemente a ouvir esta divina melodia. Portanto, irmãos amados em Cristo, Alegrai-vos, não tenhais medo, o Senhor está no meio de nós!

3. O centro da cena é de Maria, que podemos ver em alta sintonia com a Palavra da Alegria que lhe chega de Deus. Ao contrário da nossa muito ocidental maneira de ver e de sentir, note-se bem que Maria não esboça qualquer reacção à presença do anjo, que tão-pouco é narrada. Ela fica perturbada é com a Palavra que lhe cai nos ouvidos e no coração (Lucas 1,29). «Conceberá no ventre» o Filho de Deus (Lucas 1,31-33). «Conceber no ventre» é um pleonasmo intencional só dito de Maria por duas vezes (Lucas 1,31 e 2,21), claramente para a pôr em pura sintonia com o Deus do «ventre das misericórdias» (Lucas 1,78). Note-se como, na sequência do texto, de Isabel só se diz que «concebeu» (Lucas 1,36). Surge então a esperada objecção de Maria: «Como será isso, se não conheço homem?» (Lucas 1,34). O anjo explica que essa concepção terá a ver com a intervenção de Deus, pois se trata do Filho de Deus (Lucas 1,35). Já atrás Maria tinha sido apresentada como «virgem casada» (parthénos emnêsteuménê) (Lucas 1,27). Não se trata de uma subtileza, mas de um estatuto jurídico em que as pessoas consagravam a Deus a sua virgindade e se dedicavam completamente a Deus. Casavam-se, não em ordem à procriação, mas à protecção mútua. Este estatuto jurídico, não sendo usual no mundo judaico do seu tempo, está, porém, solidamente documentado nos últimos séculos antes de Cristo e depois de Cristo.

4. Ultrapassada a objecção, Maria responde: «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra» (Lucas 1,38). Maria responde que Sim. Deus chama, mas não impõe. A Maria, e a cada um de nós. Podemos sempre aceitar Deus ou esconder-nos de Deus. Deixar Deus entrar, ou fechar-lhe a porta. Maria aceitou, e, por isso, todas as gerações a proclamarão Bem-aventurada. É o que estamos hoje e aqui a fazer: Feliz és tu, Maria, pioneira de um mundo novo, porque acreditaste em tudo quanto te foi dito da parte do Senhor! Feliz também aquele que ouve a Palavra de Deus e a põe em prática!

5. Memorial desta beleza incandescente é a Basílica da Anunciação, em Nazaré. Esta grandiosa Basílica, em três planos, foi inaugurada em 25 de Março de 1969, e foi visitada, ainda as obras estavam em curso, em 1964, pelo Papa Paulo VI. Escavações feitas antes desta grandiosa construção puseram a descoberto, e podem ver-se ainda hoje, os majestosos pilares de uma Catedral levantada em 1099 pelo príncipe cruzado Tancredo, bem como o pavimento em mosaico de uma igreja bizantina, que pode ser datada do ano 450. Mas, descendo mais fundo, até às entranhas da actual Basílica, acede-se à Gruta da Anunciação, sob cujo altar se lê a inscrição Verbum caro hic factum est[«Aqui o Verbo se fez carne»], e a outros lugares de culto antigos, talvez já do século II. Numa grafite antiga foi encontrada a gravação XE MAPIA, abreviação de Chaîre Maria, a primeira Ave-Maria da história.

6. Já se ouve a música de Isaías 7,10-14; 8,10. O cenário é a guerra siro-efraimita, que são dois exércitos, da Síria e de Israel, que põem cerco a Jerusalém, capital do Reino de Judá, no ano 734 a. C., com o intuito de depor Acaz, rei de Judá. Já se vê um Isaías firme e confiante, que, enviado por Deus (Isaías 7,3), atravessa sem medo o cenário da guerra siro-efraimita, para levar ao amedrontado e trémulo rei Acaz (Isaías 7,2), que se encontra junto da nascente de Gihôn, a inspeccionar as águas, uma palavra de conforto e de esperança. Para significar melhor tudo isto, Isaías leva o seu filho, que ostenta um nome de esperança She’ar yashûb [= «um “resto” voltará»], pela mão (Isaías 7,3). Um pai, que ousa atravessar um cenário de guerra levando um filho pela mão, é, na verdade, testemunha de outra segurança! A mensagem que Isaías comunica a Acaz consta de quatro pontos: a) tem calma; b) não tenhas medo; c) segura-te em Deus; d) pede um sinal (Isaías 7,11). Já se sabe que o descrente Acaz não pedirá o sinal, diz ele, para não tentar a Deus (Isaías 7,12), isto é, hipocritamente alega uma razão aparentemente religiosa como paravento para esconder a sua incredulidade. Ora, pedir um «sinal», nestas circunstâncias, era sinal de fé e de humildade que reconhece a sua pobreza, como se depreende do comportamento de Abraão (Génesis 15,8), de Gedeão (Juízes 6,36-40) e de Ezequias (2 Reis 20,8-11). Marcada pela incredulidade era antes a recusa de pedir esse «sinal», como sucede com Acaz, que julga Deus incapaz de se interessar pelos nossos problemas.

7. Pouco importa. Eis que Deus dá, de igual maneira, o seu sinal: «A jovem» (‘almah TM; parthénos LXX) concebeu e dará à luz um filho a quem porá o nome de ‘immanû ’el [= «Connosco Deus»]» (Isaías 7,14). A jovem, aqui mencionada, é, em primeira leitura, certamente Abia, filha de Zacarias, esposa de Acaz, mãe de Ezequias (2 Crónicas 29,1). O filho, cujo nascimento é anunciado é certamente, em primeira leitura, Ezequias, filho de Acaz e de Abia, que ainda não tinha dado a Acaz um herdeiro. O nascimento de Ezequias parece ter ocorrido em 733, depois da guerra siro-efraimita. Todavia, como ele não é nomeado, a promessa não se esgota na pessoa de Ezequias. Abre-se ao herdeiro dinástico de qualquer tempo, portador das promessas de Deus para o seu povo. Este «filho» fica assim no campo dos «sinais», de resto como Isaías e os seus filhos (Isaías 8,18), e Mateus procede de forma correcta ao ver a promessa realizar-se em Jesus (Mateus 1,18-25). Em primeira leitura, o «sinal» dado a Acaz é que a dinastia davídica, que corria perigo em 734, se salvará. Virá mesmo um tempo de prosperidade e de paz que marcará a infância daquele menino, que se alimentará de leite coalhado e mel (Isaías 7,15), alimentos que simbolizam abundância porque são dom de Deus (Deuteronómio 6,3; 11,9; 32,13-14; Êxodo 3,8 e 17).

8. Por outro lado, antes que o menino atinja a idade da razão, portanto, dentro em breve, os reinos de Israel e da Síria, agora agressores, serão reduzidos a escombros (Isaías 7,16; cf. 8,3-4). O que acontece, de facto, sendo a Síria anexada pela Assíria ainda em 734, o mesmo acontecendo a grande parte do território de Israel, em 733. A paz e a felicidade dos dias de David e Salomão, ou mesmo do tempo dos Juízes, serão recordadas e vividas em Judá. É o que pretende dizer o oráculo: «O Senhor fará vir sobre ti […] dias tais como não existiram desde o dia em que Efraim se separou de Judá» (Isaías 7,17), ou seja, desde 926, data da morte de Salomão e da separação do Reino de Israel (Norte) da Corte de Jerusalém.

9. Logo a seguir, Isaías introduz um oráculo de desgraça sobre Judá: as águas impetuosas da Assíria virão sobre Judá e submergi-lo-ão (Isaías 8,6-8). Mas é neste novo contexto que o profeta deixa sair, por duas vezes, o desabafo: «‘immanû ’el»! (8,8 e 10). Acostagem extraordinária da salvação à desgraça! Com este suspiro, num novo contexto, a profecia do Emanuel tornou-se tradição já para o próprio Isaías. Esta tradição tem a sua história. Já não temos apenas um sentido histórico único e determinado, mas começa a história da tradição do oráculo do Emanuel que, passando por Is 9,5 e 11,1-9, chegará ao Novo Testamento (Mateus 1,23). Deus connosco sempre.

10. A toada musical que hoje embala a nossa vida está em consonância com esta avenida de sentido que atravessa a Escritura Santa. Travessia que jamais fazemos sozinhos, porque Ele está connosco sempre, e é Ele que abre a Escritura para nós (Lucas 24,32). Na verdade, canta assim o Salmo Responsorial de hoje: «Sacrifício e oblação não Te agradaram,/ mas escavaste-me os ouvidos» (Salmo 40,7). E o texto, notável, da Carta aos Hebreus cita actualizando assim: «Sacrifício e oblação Tu não quiseste,/ mas formaste-me um corpo» (Hebreus 10,5). E é assim, que vem ao nosso mundo, nascendo de Maria, para, no seu corpo e com o seu corpo, mãos, pés, entranhas, coração, inteligência, fazer a vontade de Deus (Hebreus 10,7 e 9; cf. Salmo 40,9), como está escrito acerca d’Ele no rolo antigo (Hebreus 10,7; cf. Salmo 40,8). Assim é ultrapassada a Economia antiga dos muitos sacrifícios e ofertas pela Economia nova em que somos santificados por meio da oferta (minhah) do corpo de Jesus Cristo uma vez por todas (epáphax) (Hebreus 10,10).


D. António Couto, in Mesa de Palvras