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21 dezembro, 2012

DEUS CHAMOU-ME DE MUITAS MANEIRAS E COM VÁRIAS VOZES




Considero que Deus me chamou de muitas maneiras e com várias vozes durante a minha história de vida de 25 anos. Serviu-se de situações, acontecimentos, encontros, pessoas, livros, filmes, experiências, sentimentos, pensamentos, na alegria e na tristeza. Este chamamento misterioso, sussurrante e inefável, foi «escutado» de forma mais intensa nos princípios de 2006.

Vivendo uma conversão gradual na minha vida espiritual e na oração, e ao reflectir sobre a minha vida passada e o meu modo de ser, comecei a perceber que o Senhor me estava a indicar um caminho para a minha vida que me levaria até Ele de uma forma mais intensa e radical.

Recordo que, quando vi os filmes, “Irmão Sol/Irmã Lua” e “A Vida de São Patrício da Irlanda”, fiquei cativado pela Vida Religiosa. Lembro-me que depois de ver cada um destes filmes, me ajoelhei diante dum crucifixo que tinha no meu quarto e ofereci-me a Jesus Crucificado, emocionado e com grande abandono de alma, dando um Sim ao convite especial que vinha a sentir. Fazia sentido que eu entrasse na Vida Religiosa. Sentia um grande alívio e paz ao pensar ser religioso. Não tinha uma carreira ou uma profissão em mente. Nunca tive ambições materiais ou de poder. Procurava algo na vida que fosse mais além e diferente do mundanismo. Ou seja, não procurava algo mas sim Alguém que estivesse mais além. E este Alguém procurava-me também. Queria que fosse mais além, que não tivesse medo à diferença por Ele e com Ele. Foi Ele que criou o vazio que só mesmo Ele poderia preencher. Só Deus poderia satisfazer os desejos mais profundos do meu coração. Uma inquietude que só Ele poderia serenar, como diz Santo Agostinho nas suas Confissões: “Fizeste-nos, Senhor, para Vós e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Vós... Brilhastes, cintilastes, e logo afugentastes a minha cegueira! Exalastes perfume: respirei-o..., suspirando por Vós. Saboreei-Vos e, agora, tenho fome e sede de Vós...”

Tinha passado por muitas desilusões e escuridão de espírito, mas, como diz o nosso Santo Padre, São João da Cruz: “...o passar pelas trevas acaba em grande luz.” Quando vi a Luz de Deus ao fim do túnel da minha vida sem sentido, o que podia fazer senão seguir a Luz para sair das trevas e ajudar outros a encontrar e seguir a mesma Luz. O desejo de partilhar a minha experiência de Deus foi forte desde o início e impeliu-me a anunciar a Boa Nova, principalmente aos jovens que andavam e andam perdidos e enganados por luzes falsas e ruídos hipnotizantes deste mundo, distantes da verdade e do Espírito de Deus.

O Carmelo apareceu na minha vida como um mistério. Um mistério que me seduziu e me levou a entrar neste jardim de Deus. Só sei que a página web vocacional da Província de Portugal teve uma grande influência na minha decisão de escolher a Ordem Religiosa do Carmelo Teresiano. 

Senti-me bem-vindo e chamado às suas portas com estas simples palavras que me sensibilizaram: Serás bem recebido... Estás convidado a aparecer, palavras acolhedoras que nunca tinha visto noutras páginas web vocacionais de outras Ordens Religiosas.

Porquê os Carmelitas? O que mais me despertou desde sempre na Vida Religiosa foi a dimensão contemplativa. Mas, como disse, também queria anunciar a Boa Nova, partilhando os frutos da minha oração e intimidade com Deus. O Carmelo tem os dois lados da moeda. O atendimento espiritual e pastoral do sacramento da reconciliaçâo chamavam-me a atenção também. A literatura espiritual e a criatividade dos santos carmelitas atraíam-me a esta família de místicos. 

A etapa vocacional em que me encontro é uma fase de discernimento diário da vontade de Deus para a minha vida e uma introdução à experiência vital da Vida Religiosa carmelitana, dando corpo ao espírito do chamamento. 

Preciso de tempo e paciência. Tempo para experimentar, tomar decisões e clarificar ideias; paciência com este tempo da experiência e com o meu ritmo próprio. Acredito que com o tempo, a experiência, o discernimento, a paciência, a determinação e a oração, vou assimilando o rico carisma teresiano – o espírito e vida que estou a chamado a viver. Esta sendo para mim um tempo de enamoramento da família teresiana. 
O que mais me apaixona na família dos carmelitas é o facto me tornar discípulo de Cristo segundo o estilo de Santa Teresa de Jesus e de São João da Cruz; é o facto de ser como eles um descendente “daqueles nossos santos padres do Monte Carmelo inspirados pelo espírito inflamado do profeta Elias”; e como Elias ser profeta da presença do Deus Vivo que é Amor, no meio deste mundo que não O conhece ou não O quer conhecer. 

Vivo entusiasmado ao pensar que posso ser um irmão próximo dos que mais necessitam saber que há um Pai que os ama, ajudando-os a conhecer este Pai Celeste que os criaram para as grandezas da vida espiritual e teologal na intimidade com Ele. A vida interior e a intimidade com Deus despertam-me muito a atenção juntamente com os escritos e vidas exemplares dos santos do Carmelo. Dizia, por exemplo, a Ir. Isabel da Trindade: “Como se é feliz, quando se vive na intimidade com Deus!” – é esta verdade que vou descobrindo. 

Sinto que é no Carmelo Teresiano que vou encontrar esta felicidade e esta intimidade divina e assim sentir-me mais válido para o serviço da Igreja como bom filho de Teresa de Jesus, que morreu exclamando a alegria de ser Filha da Igreja. Como ela quero ser do grupo dos amigos fortes de Deus de que o mundo tanto necessita.

Frei Danny do Divino Espírito Santo

20 dezembro, 2012

"Procurando entrar nos átrios da casa do Senhor"


Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar”(Gn 12,1). 
Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei” (Mt 11,28).



O meu nome é Vitor Boavida Soares. Sou de Timor-Leste, Distrito de Aileu, Concelho de Aileu, Vila e Freguesia de Hoho-lao, e tenho 24 anos. Em casa, éramos 11 irmãos e vivíamos num ambiente religioso promovido pelos nossos pais. Nossa Senhora do Rosário tinha um lugar de destaque na nossa família, aliás como em toda a população da nossa terra, de quem é Padroeira. Alimentávamos a fé através da oração diária, da Eucaristia anual e da celebração da Palavra. Sim, Eucaristia anual, porque na minha terra só há uma vez por ano. Fora disso, o que há, são Celebrações Dominicais da Palavra.

Recordo-me que, quando eu era criança, mais ou menos com a idade de 8 ou 9 anos, a minha irmã começou-me a convidar para ir com ela ensaiar os cânticos da Eucaristia. Olhando para trás e pensando no que, então, ia sentindo, vejo, agora, como todos esses momentos foram fundamentais para eu chegar até este dia. Vejo, claramente, a mão de Deus por detrás de todos eles, uma mão que me ia conduzindo e apontando um caminho a seguir.

Parece que a Eucaristia era um sacramento importante para eu escutar e perceber melhor a voz de Deus… E, assim, ao terminar a escola primária e ao fazer a passagem para o pré-secundário, algo, neste sentido, veio a mudar nos meus dias. Depois de me ter atrevido durante algum tempo a levantar-me cedo para me deslocar para o Ciclo Preparatório, que ficava a duas horas de minha casa, fazendo o percurso a pé, lá me decidi a ficar em Aileu, por seis anos, em casa duma tia. Nesse tempo aí passado, não só tive a oportunidade de me abeirar mais assiduamente da mesa da Eucaristia, mas também de me tornar ministro do altar do Senhor, exercendo o serviço de acólito que outros meus colegas já exerciam. 

Digo-vos que o Senhor da Messe sabe muito bem como nos chamar, pois esse primeiro dia de serviço do altar, a 12 de Novembro de 2005, foi passado numa imensa alegria e com uma especial vontade de entrega a Deus e à Igreja.

Terminado o 12º ano em 2009, proporcionou-se um encontro com uma Irmã Carmelita de Clausura, que me falou desta Ordem, a respeito do seu Carisma e Espiritualidade, dando-me, inclusive, a conhecer os seus santos e a sua missão na Igreja. Tive mais algum encontro e diálogo com ela, e, a seu tempo e por seu intermédio, vim a estabelecer contacto com os carmelitas de Portugal, os quais me prestaram vários tipos de acompanhamento e discernimento da minha vocação e me fizeram vir até eles. Depois de ter feito cá as primeiras etapas de formação, Aspirantado e Postulantado, encontro-me a fazer o Noviciado na comunidade de Avessadas, Marco de Canaveses, etapa que me permite conhecer melhor o estilo de vida desta Ordem e compreender se é, de facto, por ela que o Senhor me chama a uma opção fundamental na Sua Igreja.

O Noviciado começou no dia 02 de Setembro de 2012. Nesse mesmo dia, recebi o Hábito Carmelita, juntamente com mais três jovens como eu. Desde então, sinto-me muito contente pelo que o Senhor vem realizando em mim e por Maria me ter dado o Seu manto para me cobrir. Tenho impressão que o meu contentamento não anda muito longe do estado de alma de Teresa de Jesus, quando ela diz: «Ao vestir o hábito: logo o Senhor me deu a entender como favorece aos que se esforçam para O servir. Isto ninguém percebeu em mim, mas sim uma grandíssima vontade. Na altura, deu-me um tão grande contentamento de ter aquele estado, que nunca jamais me faltou até hoje» (Vida 4,2).

Fr. Vitor

19 dezembro, 2012

"Servo do Amor"


“E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, pai, mãe, filhos ou campos por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá por herança a vida eterna” Mt19,29; “toma a tua cruz segue-me” “Vinde e vereis” (Jo 1,39).


Paz e Bem! Amados irmãos e irmãs em Cristo Jesus! Quero partilhar algo que está no meu coração sobre a minha caminhada vocacional. Somos convidados a reflectir sobre a nossa vocação, pois todos nós trazemos uma vocação específica. Claro que a nossa primeira vocação é o Amor, viver uma vida santa, pois somos filhos de Deus, o Santo dos Santos. 

Chamo-me Eugénio Romão Barreto, sou de Timor-Leste, tenho 28 anos, somos dez irmãos e eu sou o segundo filho entre os dez. Lembro-me de ter tido uma infância feliz. Brinquei muito com os meus irmãos e primos. Hoje, à medida que o tempo passa, compreendo melhor a graça que é a família que Deus me deu. Foi dela que recebi muito do que me tornei, sobretudo dos meus pais.

Foram eles que com paciência – muita! – me ajudaram a crescer, a pouco e pouco, nas virtudes humanas e cristãs. Fui baptizado no dia de São Miguel Arcanjo, na capela de Besilau, paróquia São Francisco Xavier, Dare, Díli, Timor-leste 

Os anos foram passando e sentia um chamamento que tocava o meu coração; mas não sabia quem me chamava…Certo dia, na Missa de são Miguel Arcanjo, fui escolhido para acolitar – se, realmente, eu acreditasse no que fazia durante a Missa! – a resposta foi rápida e afirmativa, e ainda hoje me lembro desta cena. Foi uma profissão de fé, consciente e voluntária, que deu origem a uma certa viragem na minha relação com Deus. A partir daquele dia, tudo passou a ser feito com mais vontade e convicção. 

Em minha casa, infelizmente, não tínhamos o hábito de rezar o Terço em família. Digo isto porque o Terço também foi como que um segundo empurrão na minha relação com Jesus e Maria, numa altura em que estava já a estudar na Universidade.
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Um belo dia, fui convidado para ser animador de Taizé na universidade. Foi uma experiência nova e muito marcante, pois convivi com muitos jovens que viviam a sua fé com muita alegria. Num dos dias da universidade, quando estávamos todos a partilhar as conclusões de um tema em que tínhamos reflectido em pequenos grupos, lembro-me de ter tomado a palavra e ter relembrado aquelas palavras de Jesus: “vinde e vede”. O padre que nos acompanhava perguntou-me, logo de seguida, se eu gostava de rezar à maneira de Taizé. Eu tive que admitir publicamente que não rezava à maneira de Taizé, mas rezava o terço com a minha família. Éramos para aí umas quarenta e sete pessoas. Foi humilhante, mas muito salutar. Esta ocasião levou-me a começar a rezar o terço diariamente, graças a Deus, até hoje.

Depois desta actividade, comecei a envolver-me em vários Movimentos Eclesiais que também me ajudaram muito a crescer na minha vocação. Primeiro foi o grupo de acólitos, depois o Grupo de Jovens de São Francisco Xavier e, além destes, o grupo vocacional organizado por uma religiosa. Foi tudo muito bom. No grupo vocacional, fui conhecendo melhor a Palavra de Deus que queimava cá dentro...

Um dia, um colega convidou-me a participar no aniversário dele e escolheu-me para dirigir a oração. Depois de terminar a oração, um dos presentes levantou a voz e disse: “tu pareces um padre a falar”. Confesso que eu ficava um bocado irritado com isso porque Deus tinha-me mostrado que nos chama a todos a sermos santos e que, portanto, todos deveríamos ter zelo e empenho pelas coisas do Senhor e pela salvação das almas e não apenas os padres e as freiras. Para além disso, tinha alguns sonhos que sabia serem compatíveis com a santidade. E o Senhor também me tinha feito perceber que, nos tempos que vivemos, eram necessários santos no meio do mundo, com uma vida normal e, ao mesmo tempo, heróis que brilhassem como estrelas no meio das trevas que nos rodeiam. Esta é a luz que o Senhor me deu acerca da vocação.

Nessa altura, tinha o bom hábito de, antes de me deitar, ler uma pequena passagem do Novo Testamento. Lia continuadamente, ou abria uma passagem ao acaso. Em certas alturas, quando me questionava acerca da Vontade de Deus para mim, fazia uma pequena oração ao Espírito Santo, pedindo-lhe que me iluminasse, e abria o Novo Testamento ao calhas. Parecia incrível – mas a Deus nada é impossível! -, mas saía-me com frequência a passagem “vinde e vereis” (Jo 1,39). E assim comecei a acreditar que a minha vocação seria a alegria da minha alma, a força da minha vida e a esperança para o meu futuro.

Continuei com os estudos. Fiz então uma espécie de contra-proposta a Jesus: não vou terminar o meu curso, porque quero seguir-te (faltavam-me dois anos). Por essa altura, creio que já ia Missa todos os dias, confessava-me de três em três meses e rezava o terço. Foram conselhos que tomei como vindos da Virgem Maria e que mudaram muito a minha vida. Com o passar do tempo a ideia de ser o religioso deixou de ser incómoda e passou a ser o caminho para seguir Jesus incondicionalmente e oferecer toda a minha vontade, todo o meu coração a Nossa Senhora do Carmo. 

“O amor é fonte de todas as coisas e só o amor vence a violência da vida.” (Edith Stein)

Fr. Eugênio

18 dezembro, 2012

História de amizade em história de amor transformada!


Grava-me como selo em teu coração, como selo no teu braço,
porque forte como a morte é o amor.
Nem as águas caudalosas conseguirão apagar o fogo do amor,
nem as torrentes o podem submergir.
(cf. Ct 8, 6)

Olá! Que Cristo esteja contigo! Gostaria de partilhar contigo uma história de amizade a caminho para ser uma história de amor: a minha história vocacional. Falar da vocação é trazer à luz do dia a pérola preciosa e de grande valor que foi colocada no coração, e isso é sempre um tanto ou quanto difícil; mesmo assim, não consigo resistir em contar-ta.

Chamo-me Renato, tenho 20 anos e sou natural da Vila Nova, um belo recanto da Ilha Terceira (Açores). É preciso recuar ao dia 23 de Junho de 1991 para começar a contar a minha história: quando o Paulo e a Natal disseram um sim que até hoje permanece! De facto, quando naquele Maio de 1992, abri os olhos para este mundo, fui recebido num lar onde o amor podia ser visto em cada gesto dos meus pais para comigo e, depois cinco anos mais tarde, para com a minha irmã. E fui crescendo! Cresci a gostar de participar na Eucaristia Dominical, a gostar de rezar, a gostar de obrigar os meus primos e vizinhos a brincar comigo às procissões, a gostar de ler coisas sobre Deus, e a dizer, lá de vez em quando, que queria ser padre. No entanto, enquanto ia crescendo, embora o gosto não desaparecesse, o dizer que queria ser padre foi algo que, com a vergonha, foi ficando cada vez mais só no íntimo do meu coração; até que o fui tentando esquecer.

Enquanto fui crescendo, fui-me integrando na minha comunidade: primeiro no grupo de crianças, depois no grupo de oração, a seguir no grupo de jovens, no curso bíblico, e ainda na catequese, e depois na organização de retiros e outras actividades… E como era feliz! Vivia em amizade com Jesus; uma amizade alimentada na oração, provocada pelo trabalho pastoral, aumentada pelas pequenas contrariedades que ia encontrando, clarificada pelas pessoas que viviam com as mesmas ânsias do que eu. Esperava a cada momento uma palavra de Jesus, em que me manifestasse qual era a sua vontade para mim.

Na altura de escolher a área de estudos para o Secundário, deparei-me de frente com a questão do futuro e da vocação: era necessário preparar caminho para aquilo que Jesus me pedisse; eu não poderia recusar! Não posso esquecer as longas conversas com o meu pároco, o Pe. Francisco, e com alguns amigos e familiares, principalmente a minha mãe, sobre este tema. E comecei a fazer um discernimento vocacional mais sério, a buscar calar a minha voz e deixar falar a voz de Deus. Sentia que Ele me chamava: “cuida do teu povo!”. Sim, a minha primeira vocação é a vocação ao serviço, em clave de amor, ao povo de Deus. Mas esse “teu povo” era, no meu curto horizonte, o povo da minha terra, ou no máximo, da minha diocese.

Até que um dia, Deus abriu-me os horizontes, através do meu director espiritual: porque não experimentar a vida religiosa? Entrei em contacto com os Carmelitas e descobri a beleza do carisma legado por Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz: oração, comunidade e apostolado. A 15 de Outubro de 2010, iniciei o meu postulantado (primeiro período de experiência), no Convento Stella Maris (Porto). Foram dois anos de forte experiência do carisma teresiano. No meio de algumas dúvidas e incertezas, caminhei até à entrada no noviciado (2 de Setembro de 2012).

O que se passou nestes dois anos de vida carmelitana? É quase impossível descrever! A primeira experiência foi a de “deixar”: a família, a comunidade, os amigos, a terra; e, a um nível mais profundo, aquilo que eu pensava ser a vontade de Deus. Afinal, aquele “teu povo” eram e são todos os homens e mulheres, de todos os pontos do globo! Abri os olhos e vi-me com os braços cheios de pessoas de quem tinha que cuidar! Mas ainda faltava algo… faltava a peça central do puzzle!

E é isto que, de uma maneira mais radical, estou a começar a descobrir: a vocação a entregar-me a Deus. Sim, Deus pede-me a vida para Ele, como o amante pede a vida da amada, pede-me todo para Ele, na expressão concreta dos votos de pobreza, castidade e obediência. Só depois de me unir ao Amado, de me centrar no essencial, poderei cuidar de tantos e tantas que precisam encontrar esse amor.

No fundo, foi o amor a chave que me fez compreender a minha vida. Para mim, amar é “dar tudo e dar-se a si mesmo” (Sta. Teresinha). Sim, dei a Deus/deixei (não os abandonando, claro!) a minha família, a minha comunidade, os meus amigos, a minha terra, não porque não os ame ou não me sinta amado, mas porque encontrei um Amor Maior, tal como os amantes deixam as suas casas porque encontram um amor maior do que todos os amores. E agora vivo na busca de dar-me a Deus, de entregar a totalidade da minha vida, do meu amor Àquele que me amou. Sim, vivo a abrir-me à beleza transformante da epifania do Amor, manifestada na Cruz. Ainda não me entreguei totalmente a Ele, nem Ele a mim, é certo! Mas, ainda no anoitecer da minha procura (sim, porque é de Noite que se procura o amado!), os que já o encontraram e vivem em união de amor com Ele – Sta. Teresa de Jesus, S. João da Cruz, Sta. Teresinha, Sta. Teresa Benedita da Cruz, B. Isabel da Trindade -, ao comunicar-me a sua experiência, fazem-me ter a certeza de que é Ele o que o meu coração procura.

Mas desengane-se quem pensa que sou um homem maduro e muito silencioso, do qual mal se nota a presença! Sou um jovem que, como tantos outros, gosta de rir, conversar, estar com os amigos e com outros jovens e fazer festa. Sou um jovem que vive feliz na nova família que Deus lhe deu: a multidão de irmãos carmelitas, na expressão concreta da comunidade onde estou, que faz cada dia ser mais alegre. Sou um jovem que, no meio das dúvidas e certezas, vai, por montes e ribeiras, à procura do Amor, vendo a sua história de amizade com Jesus ser transformada em história de amor.

Fr. Renato

17 dezembro, 2012

Passos para uma entrega.




Olá, estimados irmãos, eu sou o Carlos e escrevo-vos desde o Convento do Menino Jesus de Praga, em Marco de Canaveses, onde actualmente estou a viver. Aqui no Marco estou a fazer o noviciado, que começou no passado dia 2 de Setembro. Eu sou natural daqui do Marco de Canaveses e tenho 24 anos.

Para vos falar um pouco do meu caminho de discernimento vocacional preciso de fazer convosco uma pequena digressão pela minha vida. A primeira paragem é no início de 2009, onde hoje, ao olhar para o passado e ao reler os acontecimentos, concluo que Deus agiu sobre a minha vida. Nesses primeiros dias do ano houve um Padre Carmelita na minha paróquia que falou aos fiéis de um jovem que tinham acabado de receber na sua comunidade. Esse jovem, depois de ter uma vida construída, achou que Deus lhe falava e que o chamava a procurar a sua realização pessoal no serviço ao próximo. Eu, quando ouvi aquele testemunho, logo me perguntei: E se fosse eu? E se fosse eu a sentir o chamamento de Deus na minha vida? Seria eu capaz de deixar a minha vida para procurar servir os outros, renunciando a mim próprio? Pensei alguns dias nestas questões, pondo-me na situação deste jovem, perguntando-me sobre quais seriam as suas razões. Porém, devido às situações pessoais que vivia no momento, fui pondo estas perguntas a um canto na minha consciência.

Apesar disso, durante esse mesmo ano fui-me comprometendo com a paróquia: como leitor, como responsável pelos acólitos, como catequista, etc... E com o passar do tempo ia-me sentindo mais feliz e entusiasmado com a ideia de me entregar aos outros através destes pequenos serviços. O que não acontecia antes de me questionar sobre o sentido da vida, antes não sentia a necessidade de me entregar aos outros, bem pelo contrário, pensava apenas em mim e em satisfazer aquilo a que hoje, com a devida propriedade do tempo, posso chamar egoísmo, no qual o “eu” tinha todas as prioridades.

Durante o período que antecedeu esta viragem não ia regularmente à Eucaristia dominical, porque não encontrava um sentido para isso, nem me preocupava em encontra-lo. Hoje, ao olhar para o passado, vejo que esse período foi particularmente difícil, sentia que me faltava alguma coisa, sentia que faltava um sentido para dar à vida. Regressei à Igreja sensivelmente no início de 2009, pouco antes de ouvir falar nesse jovem que queria ser carmelita. Este testemunho representou um novo passo na minha vida, uma era de mudança para a verdadeira felicidade.

O ano foi decorrendo, muitas coisas aconteceram no meu percurso e eu, como disse, fui pondo todo o questionamento de lado. Chegou o Outono e decidi começar a participar nas actividades do Carmo Jovem, das quais me tinham falado uns amigos. A primeira actividade em que participei foi uma caminhada em Vila Nova de Cerveira, na qual encontrei pessoas que, com a sua entrega, me fizeram lembrar todas as questões que tinha esquecido. Nesse dia, descobri e comecei a conhecer os Padres Carmelitas, os quais não conhecia, apesar de viver com eles ao meu lado desde que nasci. Este estilo de vida que me era apresentado questionou-me, pela vida de entrega ao outro. E assim, foi acrescentado um novo vigor à minha pergunta: Qual é o sentido da minha vida?

Nos dias seguintes fui reflectindo sobre todo o meu percurso, sobre o porquê de me sentir mais cheio ao dar-me aos outros, sobre qual seria o sentido para a minha vida. Concluí que tinha de dar um sentido mais profundo à vida e então procurei um Padre Carmelita, com quem tive longas conversas. Ele apresentou-me a espiritualidade carmelita e apresentou-me a possibilidade da vida religiosa, dando assim início a um caminho de discernimento vocacional. Nas conversas que tive com ele disse-lhe, entre outras coisas, que procurava esse sentido mais profundo, que procurava entregar-me aos outros, mas não uma simples entrega pontual, procurava antes entregar toda a minha vida para servir os outros. De acordo com esses diálogos convidou-me a experimentar o estilo de vida dos Carmelitas. O que eu aceitei de imediato, passando a frequentar regularmente e de forma mais familiar a comunidade dos Padres Carmelitas.

Daí em diante comecei a ser acompanhado pelo Padre responsável pela formação no meu discernimento vocacional e, ao fim de alguns meses, ele convidou-me a dar mais um passo no caminho. Desta forma, em Julho de 2010, pedi ao superior do convento para iniciar o postulantado, uma etapa de iniciação à vida religiosa. Desde então tenho feito uma experiência de vida que me realiza, pois encontro neste estilo de vida uma forma de dar um sentido profundo à minha juventude, dando-me aos outros, tal como Cristo fez, por isso pedi para ser admitido ao noviciado, para O procurar imitar o mais que a Graça de Deus me permitir.

Vim para o Marco para dar mais alguns passos e assim nesta casa de formação, que é o noviciado, continuo a aprofundar os meus conhecimentos sobre a Ordem do Carmo e estou a ser inserido mais profundamente na vida religiosa e no carisma teresiano que se fundamenta em três belos princípios: oração, comunidade e apostolado.

Neste momento, sinto-me realizado com a opção que tomei, apesar de nem todos os dias ser fácil dizer sim a esta entrega. Porque, sinto-me muito pequeno ao ver a entrega, totalmente por amor, de Jesus, mas caminho na esperança de também eu dar a minha vida pelos amigos.
Para terminar esta apresentação peço-vos que continueis a pedir ao Senhor da Messe pelas vocações e convido-vos a pensar na seguinte questão: Qual o sentido da minha vida?

Obrigado!

Fr. Carlos

15 dezembro, 2012

ANO DE PROCURA




Jesus voltou-se e, notando que eles o seguiam, 
perguntou-lhes: «Que procurais?» (Jo 1,38)



Jesus voltou-se e, notando que 4 jovens o seguiam, levantou, de novo, a questão: “Que procurais?”. 
Desde o dia 02 de Setembro deste ano que esses quatro jovens em formação se encontram à volta da resposta à questão. Uma questão que não é uma questão qualquer, basta pensarmos que sai da boca de Jesus, mas que os coloca diante do seu valor e do sentido da sua vida. Uma resposta que, com mais consciência ou menos consciência, só pelo facto de terem recebido de bom grado a proposta de passar a uma nova etapa e de tomar o hábito carmelita, já começou a ser dada. 

É interessante notar que Jesus não está nada preocupado com os nomes dos primeiros discípulos e destes quatro jovens: se se chamavam Pedro, André, Tiago e João ou Renato, Carlos, Eugénio e Vitor; aliás, nem lhes pergunta quem são (A pergunta é doutro teor). Nem sequer se uns e outros eram citadinos ou campesinos, do continente ou das Ilhas, gente com estudos ou a iniciar, calejada por uma profissão ou à espera dela; se tinham passaporte e se ele indicava que eram judeus, portugueses ou timorenses. A pergunta, como dissemos entre parêntesis, mas “mais certeira que a luz do meio-dia”, é doutro teor. E é doutro teor, porque, para Jesus, cada um deles e cada um de nós vale por aquilo que procura. No que procuramos, está ou não o nosso valor e o sentido ou sem-sentido da nossa vida.

O Eugénio é um desses jovens que Jesus notou que O estava a seguir: tem 28 anos e é natural de Timor-Leste. O Vitor, qual outro discípulo de João Baptista, mas natural de Timor-Leste, não ficou atrás: ao ouvir alguém a pronunciar um nome tão grandioso como o de “Cordeiro de Deus, e só com 24 anos, pôs-se no Seu caminho. Apareceram, ainda, dois jovens chamados Carlos e Renato: o primeiro com 24 anos, natural do Marco de Canaveses, mais concretamente da freguesia de Rosém, o segundo com 20 anos e das Ilhas dos Açores, nomeadamente da Ilha Terceira. Estes não faziam parte dos discípulos de João Baptista, mas nem por isso deixavam de ter algo em comum com os outros dois: também eles “procuravam” e tinham um simples e profundo desejo de “ir e ver”.

O terem-se posto a seguir Jesus, deu nisto: actualmente, e depois de já terem passado por mais duas etapas formativas (Aspirantado e Postulantado), estão entre os Religiosos e as Religiosas carmelitas, filhos e filhas de Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz. No Centro de Espiritualidade em Avessadas, Marco de Canaveses, com uma comunidade de 5 Religiosos Professos e Sacerdotes, frequentam a etapa formativa do Noviciado que, de dia para dia, vai-lhes proporcionando esse “ir e ver” e a descoberta do que “procuram”, bem como o discernimento dessa «procura», isto é, se se trata duma procura que dá valor e sentido ou se, pelo contrário, o que comporta é ausência de valor e sentido. 

A descoberta e a resposta à questão de Jesus podem implicar muito tempo: um ano, por exemplo, que, por acaso, é o tempo estipulado, neste momento, para o noviciado nesta Província de Carmelitas Descalços. Mas não só: implica, sobretudo, silêncio, um voltar-se para o interior, um conhecer-se a si próprio, um conhecer a Jesus e o Deus de Jesus, uma oração-amizade, uma abertura ao Evangelho e à Igreja, uma comunidade, um carisma e uma espiritualidade, um acompanhamento e trato com outros testemunhos credíveis que se puseram a seguir o Mestre. Quais são esses testemunhos credíveis? Pergunta à Igreja, mas, se quiseres, a seu tempo, também esses 4 jovens te poderão dizer. 

E, tudo isto, eles recebem, nesta Ordem, na qual se encontram!... Queres também chegar a saber o que procuras? 

Pe. Vasco Nuno 

14 dezembro, 2012

Falemos da abundância do coração




Felicito-vos, estudantes carmelitas, pela abertura desta nova porta de partilha e diálogo com o mundo. O cristão só deve falar da abundância do coração. Acredito que a vossa caminhada vocacional irá transbordar para este novo espaço. Seduzidos por Cristo, iluminados pelos santos carmelitas e guiados pela comunidade dos frades carmelitas descalços de Avessadas podeis presentear os vossos leitores com a frescura e entusiasmo das vossas vidas jovens.
Espero que os jovens do nosso tempo sejam os vossos principais interlocutores. O vosso testemunho será desafiante e interpelador.
Santa Teresa de Jesus teve uma longa etapa da sua vida em que vacilava entre Deus e o Mundo, até que o encontro com Cristo marcou um novo rumo à sua existência deixando atrás de si um rasto de luz e fecundidade eclesial. S. João da Cruz, por sua vez, é o místico do Tudo e do Nada; apresenta os nadas como caminho para chegar ao Tudo. Estes dois exemplos de seguimento convidam à opção, à decisão firme e radical por Cristo e pelos que Ele mais ama. Na Sua entrega, nós esboçamos e construímos a nossa, descobrindo que a alegria e felicidade de todo o ser humano está no dar e sobretudo no dar-se.
Que este esforço de partilha e diálogo que ides empreender neste blogue revele o vosso desejo e decisão de viverdes para os outros e para o Outro, de jogardes toda a vossa vida pelas causas do Reino que Jesus apresentou. Que tudo quanto aqui apareça saia da abundância dos vossos jovens corações e desbrave largos horizontes para os homens e mulheres do nosso tempo, sobretudo para os jovens como vós.

Fr. Joaquim Teixeira

De S. João da Cruz a um Carmelita Descalço



Que a paz de Jesus Cristo esteja sempre na sua alma, meu filho.
Recebi a carta […] em que me fala dos grandes desejos que Nosso Senhor lhe concedeu para trazer a sua vontade somente n’Ele, amando-O sobre todas as coisas. E pede-me alguns conselhos para o conseguir.

Alegro-me por Deus lhe haver dado tão santos desejos, e muito mais me alegrarei se os puser em prática. Para isso convém-lhe saber que todos os gostos, gozos e afectos nascem sempre na alma mediante a vontade e o querer das coisas que se lhe apresentam como boas, convenientes e agradáveis, por lhe parecerem agradáveis e preciosas. Segundo isto, encaminha para elas os apetites da vontade, espera possuí-las, goza-as enquanto as tem, teme perdê-las, e sofre quando as perde. Portanto, a alma vive perturbada e inquieta segundo o afecto e o gozo das coisas.

Para aniquilar e mortificar estes afectos de gostos acerca de tudo o que não é Deus, deve […] notar que […] nenhuma coisa suave e deleitável em que ela [vontade] se possa gozar e deleitar é Deus, porque, assim como Deus não pode ser apreendido pelas outras potências, também não pode ser objecto dos apetites e gostos da vontade. Assim como a alma neste mundo não pode saborear a Deus na Sua essência, assim também toda a suavidade e deleite que gozar […] não pode ser Deus; de igual modo, a vontade só pode gostar e desejar distintamente o que conhece […]. Se a vontade nunca saboreou a Deus como Ele é, nem O conhece sob qualquer apreensão do apetite, também não sabe como é Deus, nem o seu gosto o pode saber, nem o seu ser, apetite e gosto chegarão a saber desejar Deus, porque isso ultrapassa as suas capacidades. Portanto, nenhuma das coisas que a alma possa gozar distintamente é Deus. E, assim, para se unir a Ele, há-de a alma esvaziar-se e desprender-se de qualquer afecto desordenado de apetite ou gosto que tenha em relação ao que se possa gozar distintamente […], a fim de que, purificada e limpa de quaisquer gostos, gozos e apetites desordenados, se empregue totalmente, com todos os seus afectos, em amar a Deus. Porque, se de alguma maneira a vontade pode apropriar-se de Deus e unir-se a Ele, não é por qualquer meio apreensivo do apetite, mas pelo amor. Ora, como nenhum deleite, suavidade ou gosto apreendido pela vontade é amor, deduz-se que nenhum dos sentimentos saborosos pode ser meio apropriado para a vontade se unir a Deus; só o é a operação da vontade. A operação da vontade é muito diferente do seu sentimento: a operação une a Deus e termina n’Ele, que é amor; o sentimento e apreensão do seu apetite, fixa-se na alma como fim e termo. Os sentimentos só servem de motivo para amar, se a vontade quiser passar adiante e nada mais. Assim, os sentimentos saborosos não encaminham a alma para Deus, mas fixam-na em si mesmos, enquanto a operação da vontade, que é amar a Deus, faz com que a alma ponha só n’Ele o seu afecto, gozo, gosto, contentamento e amor, após ter deixado tudo para trás e amando-O sobre todas as coisas. Daí que, se alguém se persuade a amar a Deus pela suavidade que sente, já deixa para trás esta suavidade e põe o amor em Deus, a quem não sente. Se o pusesse na suavidade e gosto que experimentou, reparando e detendo-se nele, já estaria a pô-lo nas criaturas ou coisa delas […]. Se Deus é incompreensível e inacessível, a vontade não há-de pôr a sua operação de amor naquilo que pode tocar e apreender com o apetite, – a fim de a pôr em Deus –, mas naquilo que não pode compreender nem alcançar com ele. Desta maneira, a vontade fica a amar por certo e deveras ao gosto da fé, ou seja, vazia de seus sentimentos e às escuras de todos os que pode conceber com o entendimento do seu intelecto, acreditando e amando acima de tudo o que pode entender.

Portanto, muito insensato seria quem, ao faltar-lhe a suavidade e a consolação espiritual, pensasse que Deus lhe faltaria por isso; ou, ao experimentar gozo e consolação, julgasse que possuía a Deus por isso. Mas mais insensato seria se andasse a procurar esta suavidade em Deus, detendo-se a gozar nela; isso já não seria procurar a Deus com a vontade fundada em desnudez de fé e caridade, mas procurar o gosto e a suavidade espiritual, que é criatura, seguindo o seu gosto e apetite. Desta maneira, já não estaria a amar puramente a Deus […], porque, apegando-se e apoiando-se naquela criatura com o apetite, a vontade não se eleva acima dela até Deus, que é inacessível. É impossível à vontade chegar à suavidade e consolação da divina união […] se não for pela desnudez e vazio do apetite em qualquer gosto particular […]. 

[…] Na verdade, quando se põe o apetite nalguma coisa, a essa mesma coisa se reduz, porque fora de Deus tudo é apertado. Por isso, para a alma acertar no caminho para Deus e se unir com Ele, há-de ter a boca da vontade aberta só para Deus, vazia e sem nenhum pedaço de apetite, a fim de que Deus a encha e farte do seu amor e doçura; há-de viver com fome e sede só de Deus, sem querer satisfazer-se com mais nada, pois aqui não pode saborear Deus como Ele é; o que se pode saborear também é impedimento se, como digo, aí entrar o apetite. […]
Portanto, muito convém e importa […], se quiser gozar de uma grande paz na sua alma e chegar à perfeição, entregar toda a sua vontade a Deus, para assim se unir a Ele, e não a encher com as coisas vis e baixas da terra.

Que Sua Majestade o faça tão espiritual e santo como eu desejo.

Segóvia, 14 de Abril [de 1589].
Frei João da Cruz