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06 abril, 2014

QUINTO DOMINGO DA QUARESMA: VOLTAR À VIDA




Neste quinto domingo da quaresma, depois de ler o relato da «ressurreição» de Lázaro, levantei o sobrolho da alma para ver se podia gritar: «Ressurreição à vista»! E, verdade se diga, que isto tem-me dado que fazer. Dou-lhe voltas e mais voltas, e não consigo entender bem esta questão da morte e ressurreição. Tranquiliza-me o facto de, no que toca a estas coisas da fé, Nosso Senhor nunca ter perguntado a ninguém se sabia ou entendia. «Disse Jesus (a Marta): «Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre. Crês nisto?» Ela respondeu-lhe: «Sim, ó Senhor; eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo» (Jo 11, 25-27).

S. Paulo diz que renascemos no baptismo, que é participação na morte e ressurreição de Cristo (cf. Rom 6,3). Por isso, o catecúmeno tinha que despir-se do que é velho e entrar nu na água, como se descesse ao sepulcro. Ali recebia o baptismo e, ao sair, era revestido com uma túnica nova, para indicar a nova vida que tinha recebido. Mortos para o pecado e ressuscitados com Cristo, os cristãos estão vocacionados para viver uma vida nova (cf. Rom 6,4). Neste contexto, entendo melhor as palavras do profeta: «Infundirei em Vós o meu espírito e revivereis» (1ª leitura). Sem o Espírito de Jesus ressuscitado somos pouco mais do que um cadáver sem vida, sepultados neste sepulcro do exílio. A ressurreição equivale à posse em plenitude do espírito de Deus. Cristo ressuscitou porque tinha em Si a plenitude do Espírito. Também nós «não estamos sobre o domínio da carne, mas do Espírito» (2ª leitura).

Este quinto domingo quaresmal está-me a dizer que a experiência da ressurreição de Jesus vive-se antes da morte, para cá da morte, fazendo e vivendo como Ele nos ensinou e mandou, pois só assim damos glória a Deus Pai: «Nisto se manifesta a glória de meu Pai: em que deis muito fruto e vos comporteis como meus discípulos» (Jo 15, 8). A força da ressurreição de Cristo é para se viver já, agora e aqui. Sobre a vida «para além da morte» podemos ter uma ideia. Mas a realidade agora é a vida «para cá da morte». Ora, como escreveu o papa Francisco (EG 231): «a realidade é mais importante do que a ideia». Por isso, a nossa esperança na vida eterna não é só para depois da morte. Jesus quer fazer-nos participar já, nesta vida mortal, da vida eterna. Não temos de estar à espera de morrer para começar a gozar a gozar do perdão de Deus e da intimidade com Ele. Os que acreditam não morrerão para sempre, porque, de alguma maneira, já entraram na vida. Assim o dizia a beata carmelita Isabel da Trindade: «Encontrei o meu céu na terra, porque o céu é Deus e Deus está na minha alma». Também Santa Teresa de Jesus, com a alegoria do bicho-da-seda, fala da ressurreição espiritual do cristão, do mistério pascal que se realiza por virtude da ressurreição de Cristo. Mas esta vida nova – viver nesta terra com o espírito de Cristo ressuscitado – exige a nossa colaboração: «Morra, morra este nosso verme – como fez o da seda quando acabou de fazer aquilo para que foi criado – e vereis como havemos de ver a Deus e sentirmo-nos tão metidas na Sua grandeza como aquele vermezito no seu casulo» 5M 2, 6). O nosso povo costuma dizer: «morte certa em hora incerta». Contudo, um cristão (aquele que tem o espírito de Cristo) pode acrescentar: «ressurreição certa em hora certa».


Ao fim destes cinco domingos – que foram verdadeiras catequeses baptismais: as tentações (que são o nosso estado actual), a transfiguração (que é o nosso destino), a Samaritana (que nos recorda que Cristo é a água que pode saciar a nossa sede mais profunda), o cego de nascença (que nos fala de Jesus, luz do mundo) e de Lázaro (que nos convida a pôr os olhos na ressurreição futura) – podemos entrar na Semana Santa e recordar que pelo baptismo morremos ao pecado e ressuscitamos para a graça. Que o Senhor Jesus nos conceda a graça de nos unirmos cada vez mais a Ele, abraçarmo-nos com a Sua cruz e participar um dia da Sua gloriosa ressurreição. Amém.


Agostinho Leal, ocd

31 março, 2014

Experiência em Granada


Da janela do meu quarto contemplava a Serra Nevada. Nevada porque estava a serra cheia de neve no seu cume. Neste momento deixei-me maravilhar como à muito não acontecia. Parecia uma criança a contemplar a novidade que não é nova, mas que nos faz perceber que só com tempo e olhos de ver conseguimos ver aquilo que nas nossas rotinas não vemos. Deparei-me com a obra de um Deus que não se cansa de nos mimar.

E a minha experiência por Granada poderia ficar assim resumida, não fosse ela mais uma etapa no meu caminho de discernimento vocacional. Um caminho no qual me deparo com um amor incondicional deste Deus que me ama e quer para Si. A esta interpelação jamais poderei ficar indiferente e quieto, sem fazer nada.

Sim, sinto-me profundamente amado. Estes foram dias em que reconheço o quão Deus tem sido fiel na minha vida e para comigo. Perante este facto, como ficar indiferente e não querer responder ao Seu apelo?
No Carmelo de Granada continuei a perceber que Deus se continua a manifestar de forma tão simples e profunda, que quer manter uma relação de intimidade e despojamento, de uma maneira tão bonita que só a fraternidade carmelita poderia transmitir. Senti-me verdadeiramente filho de Santa Teresa e de São João da Cruz. Uma fé tão humana e tão divina que nos eleva ao mais profundo de nós mesmos. Aí onde Deus habita e quer efectivamente morar e encontramos a paz e a sabedoria para Lhe darmos o nosso "sim".



Esta minha visita ao Carmelo de Granda, casa de Postulantado Ibérico Carmelita, tinha como objectivo um reencontro com as raízes desta Ordem, tornou-se num passo mais, no sentido de me abrir à Sua vontade, a confiar a vida àqueles que Deus coloca na minha existência e, particularmente, nesta caminhada, para, deste modo, saber ler e discernir o que o Senhor quer de mim. Foi uma experiência que ocorreu entre os dias 17 e 22 de Fevereiro. Agradeço muito a Deus o acolhimento e o carinho com que fui recebido pela comunidade (9 Frades e 2 Postulantes); perceber que em Deus tudo é possível e que o difícil se torna fácil, especialmente quando temos pessoas tão boas para nos acolher e integrar na vida da comunidade.

Uma coisa peço: reze por mim ao Senhor, porque por mim mesmo não serei capaz de percorrer este caminho. Se é verdade que a resposta só eu a posso dar, não é menos verdade que esta vocação seja só minha, mas de todos os que comigo caminham, comigo se cruzam e partilham a vida comigo. Se peço, também agradeço a vida que me foi dada, todos os que fazem parte da minha vida e a possibilidade de poder partilhar de forma tão bonita a minha fé. Amém!

Filipe


30 março, 2014

QUARTO DOMINGO DA QUARESMA: A LUZ DA FÉ!


O quarto domingo da quaresma é denominado liturgicamente como «Domingo Laetare», o «Domingo da Alegria». Também no advento se denomina o 3º Domingo como o «Domingo Gaudete». A caminhada que fizemos para o Natal e esta que estamos a fazer para a Páscoa é feita no sentido da alegria e da felicidade porque «um Menino nos foi dado» e porque «o Senhor veio para nos libertar do pecado com a Sua morte e ressurreição». Era este o pedido da antífona de entrada: Alegra-te, Jerusalém… Exultai de alegria.

A espiritualidade quaresmal quer fortalecer-nos na fé para que cheguemos ao dia de Páscoa e possamos sentir e viver na verdadeira alegria o mistério da morte e ressurreição de Cristo.

A luz da fé é um dom de Deus e não uma conquista da inteligência humana ou um gosto pessoal. A primeira leitura mostra-nos como a fé é uma nova maneira de ver as coisas e as pessoas. Quer Samuel, quer Jessé de Belém, pensavam que o rei que o Senhor tinha escolhido para o seu povo era Eliab, porque, além de ser o mais velho, era belo, forte e sábio. Enganaram-se, no entanto. O Senhor tinha escolhido David, que andava a guardar o rebanho e era o mais novo. E porquê? Porque «Deus não vê como o homem; o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração». Apetecia-me lembrar aqui o que diz o nosso povo: «Quem vê caras não vê corações». Ora Deus vê as caras e os corações. Deus vê por dentro. É esta luz que nós precisamos de pedir ao Senhor: a luz do Seu olhar. Quantas vezes, por causa das aparências, não passamos de cegos com os olhos abertos? Isto é, vemos mas estamos cegos para ver mais do que a estatura e a beleza exterior. Se «a bondade e a graça do Senhor nos acomapanharem todos os dias da minha vida» serei capaz de ver o que Deus quer e aderir à Sua vontade.

Cristo é a «Luz verdadeira que a todo o homem ilumina» (Jo 1. 9, 4-5). S. Paulo na Carta aos Efésios alerta para um antes e um depois do baptismo: «Outrora vós ereis trevas, mas agora sois luz no Senhor». Luz e trevas, morte e vida, vida antiga e vida nova, vida pagã e vida cristã. Antes vivíeis na ignorância, no erro, no pecado (as trevas). Agora «vivei como filhos da luz» e «procurai sempre o que mais agrada ao Senhor».

O cego de nascença (Jo 9, 1-41) é imagem do homem que deseja ver. Cristo é a «Luz do  mundo» que nos cura da cegueira interior, iluminando o nosso entendimento, a nossa memória e a nossa vontade para que a nossa fé seja cada vez mais viva e profunda, de modo a reconhecer e confessar Jesus como «o Senhor». Tal como na samaritana, podemos contemplar neste cego um itinerário de fé: ao início, Jesus é simplesmente um homem (v 11); depois, é um profeta (v 17); em seguida, é um homem de Deus (v 32-33); finalmente, é o Senhor (v 38). Na cura vemos acontecer um contraste: o cego abre-se progressivamente à luz do sol e à luz da fé, e os que podem ver (e tinham os olhos abertos) fecham-se à luz de Cristo (excomungam-no dizendo que não é um homem de Deus) e entram numa obscuridade cada vez maior. O cego fez o que Jesus mandou: «lavei-me e fiquei a ver». Nesta quaresma, Cristo, através da sua Igreja, também nos diz: Lavai-vos, purificai-vos dos vossos pecados, abandonai as obras das trevas.

Finalmente, a piscina de Siloé. Em hebraico Siloé significa Enviado. Jesus é o verdadeiro Enviado. Pelo nosso baptismo, fomos lavados e purificados no seu Sangue. Por isso Jesus nos envia a testemunhar a fé: «Como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós» (Jo 20, 21). A fé sem obras está morta. E, no dizer de Santa Teresa de Jesus (2M 1, 5), «quando a fé está morta… queremos mais o que vemos do que aquilo que ela nos diz».

         Senhor, mistura também hoje a tua saliva (símbolo da vida divina) com este barro, que sou eu, para que renasça em mim a nova criatura iluminada pela Luz de Cristo. Amém.


Agostinho Leal, ocd

28 janeiro, 2014

ORDEM DOS CARMELITAS DESCALÇOS


A Ordem dos Carmelitas Descalços é uma família religiosa formada por três expressões ou ramos do mesmo carisma: os frades ou padres carmelitas descalços, que privilegiam a oração pessoal e comunitária e se dedicam sobretudo à pastoral da espiritualidade; as carmelitas descalças, com os seus Carmelos de vida exclusivamente contemplativa; e os carmelitas seculares, leigos que vivem a mesma espiritualidade, mais comprometidos com a transformação das realidades sociais onde vivem.
Todos participam do mesmo carisma que os seus fundadores Santa Teresa de Jesus (1515-1582) e S. João da Cruz (1542-1591) lhes legaram. No entanto, esta Ordem Religiosa mergulha as suas raízes no Séc. XII, na Regra de Vida que um grupo de eremitas idos da Europa para defender os lugares santos na Terra Santa, viveram no Monte Carmelo, na Palestina, imitando a Virgem Maria e o Profeta Elias. Mais tarde, na segunda metade do séc. XII, com as perseguições dos muçulmanos na Terra Santa, viram-se obrigados a regressar à Europa, onde se estabeleceram como Ordem mendicante. Ao chegar ao Séc. XVI, estes dois santos doutores da Igreja, Santa Teresa de Jesus e S. João da Cruz, naturais de Ávila, Espanha, do chamado «Século de Ouro» espanhol, reformaram esta Ordem dos Carmelitas e deram origem a um novo carisma na vida da Igreja – os Carmelitas Descalços.
Estávamos na época do Renascimento, dos Descobrimentos, da Reforma e Contra-Reforma. Teresa de Jesus, monja do Convento da Encarnação, em Ávila, onde viviam cerca de 180 monjas, não se conforma com a mediocridade que se vivia nos conventos carmelitas e, então, empreende uma reforma da vida, espiritualidade e costumes, regressando à inspiração mais evangélica e originária da Ordem tal como a viveram os primeiros frades no Monte Carmelo. Imprime um espírito mais evangélico e comunitário, mais orante e contemplativo, mais humano e fraterno, primeiro, às comunidades de irmãs (24 de Agosto de 1562) e depois, com a ajuda de S. João da Cruz, às comunidades de frades (28 de Novembro de 1568).
Teresa de Jesus diante de uma igreja dividida em lutas disciplinares e teológicas, conhecedora dos novos mundos que então se abriam com os descobrimentos e a necessária evangelização dos povos, com o pouco espírito evangélico que se vivia nas comunidades religiosas e cristãs de então, inspirada por Deus e agraciada com grandes dons espirituais, decide formar novas comunidades de irmãs e de padres, mais pequenas (número máximo de Irmãs por Carmelo são 21), onde se cultivem os valores da amizade, humildade, desprendimento, simplicidade e determinação de seguir Jesus, imitando a Virgem Maria. Uns e outros, irmãs e frades, decidem-se a serem mais fiéis ao espírito da Regra Primitiva, formando comunidades orantes e fraternas, onde se respirasse um verdadeiro espírito evangélico. Às irmãs pede-lhes que se dediquem à oração e contemplação, levando ao seu coração as grandes necessidades da Igreja e do Mundo; e aos padres, pede-lhes que vivam o mesmo ideal de amizade e intimidade com Cristo na oração, mas que também O anunciam onde for mais necessário pelo testemunho e pela pregação.
Assim, o carisma dos (as) carmelitas descalços (as) fica fortemente marcado pelos ideais da comunhão fraterna e da oração fecunda e apostólica. A contemplação do mistério trinitário, o amor e a imitação da Virgem Maria e S. José, que haveriam, segundo o desejo de Santa Teresa, inspirar e proteger a vida das comunidades e fraternidades carmelitas, além da forte experiência de amizade espiritual que Teresa e João da Cruz cultivaram entre si e inculcaram nos membros das comunidades por eles fundadas, lançaram as bases para que o Carmelo possa ser, nos nossos dias, uma Casa e Escola de Comunhão com Deus e entre os irmãos convocados a partilharem a vida, seja nos conventos, seja nos grupos de leigos, formandos por jovens, adultos e famílias.
Este estilo de vida, com uma espiritualidade muito humana e encarnada, gerou na Igreja grandes frutos de santidade. Santa Teresinha do Menino Jesus, Santa Edith Stein, S. Rafael de S. José, Santa Teresa dos Andes, Beata Isabel da Trindade, Beato Francisco Palau… são alguns dos muitos sinais de fecundidade deste carisma na vida da Igreja.
Os cerca de 4.000 frades, distribuídos por 513 comunidades e 83 países; as cerca de 10.000 irmãs contemplativas, distribuídas por 100 países e 759 conventos; e os cerca de 30.000 carmelitas seculares com compromissos, organizados em fraternidades, e presentes em 72 países, formam esta grande família dos Carmelitas Descalços, que têm por vocação e missão testemunharam a presença do Deus Vivo nas suas vidas pessoais e comunitárias, numa vida de encontro e intimidade com Cristo, e a partir daí, propô-Lo ao mundo não como uma ideia ou uma teoria, mas como um Deus experimentado, encarnado em Jesus, próximo e íntimo a cada um de nós. Seja a partir dos leigos carmelitas inseridos na família e na sociedade, seja a partir dos Carmelos de vida contemplativa, seja a partir das comunidades de frades e padres, juntos traduzem toda a riqueza da espiritualidade carmelita. Os padres abraçam os diferentes âmbitos da evangelização da juventude e das famílias, nas comunidades eclesiais já estruturadas e nas terras de missão, sobretudo, mediante a promoção da vida espiritual com a criação de casas de oração, centros de espiritualidade, orientação de retiros, grupos de oração, formação cristã e compromisso preferencial com os mais pobres e simples ao jeito de Jesus.

Como comunhão de uma única Família, em três ramos, todos assumem, segundo a sua especificidade própria, o compromisso de serem um testemunho alegre da íntima comunhão com Deus e com os irmãos, transbordando para o mundo, a abundância da graça que Deus derrama em seus corações pela oração, entendida como trato amigo e contínuo com Cristo. 

Pe. Joaquim Teixeira

29 novembro, 2013

Beatos Dionísio da Natividade e Redento da Cruz



















Santos irmãos, Redento e Dionísio,
agora no Sol, que é Deus, imersos,
bendizeis a mão toda bondade,
que não vos traçou rumos diversos.

Amantes de Cristo até ao martírio,
irmanados na mesma vocação,
ofereceis a Deus, no mesmo cálice,
sangue de almas de oração.

Este sangue unido ao de Cristo,
que dá valor a toda a oblação,
caia hoje sobre a vossa família
como o Batismo de Vida e Redenção.

E a nós, vossos irmãos carmelitas,
que louvamos a Cristo no vosso louvor,
ajudai-nos a dar-lhe todos dias
continua prova de nosso amor.

Glória a ti, ó Pai celeste,
pelo teu Filho, o Senhor Jesus,
e ao Espírito, Força dos mártires,
fonte de amor e fonte de Luz!

Os carmelitas, Dionisio e Redento, encontraram-se no ano de 1635, no Convento do Carmo, em Goa. Sem antes se conhecerem, aqui se juntaram para virem a ser os primeiros mártires da família fundada por Santa Teresa de Jesus e S. João da Cruz. O Beato Redento da Cruz é portugês, natural de Cunha,Paredes de Coura, Viana do Castelo. Aqui nasceu em 1598. O seu nome de baptismo foi Tomás Rodrigues da Cunha. Cresceu embalado por sonhos dourados de guerreiro e de glória. Muito jovem ainda dirigiu-se a Lisboa, onde embarcou para a India vindo a ser nomeado capitão pela sua valentia nas batalhas em que tomou parte. Não só devido à sua valentia, mas também à destreza e ao seu espírito afável e temperamento comunicativo e alegre, conquistava as simpatias de quantos o conheciam. Na cidade de Tatá, no reino de Sinde, conheceu os carmelitas descalços que aí tinham uma comunidade. Depressa se sentiu atraído peio estilo de vida destes homens que, seguindo os passos de S. Teresa de Jesus e S. João da Cruz, viviam uma santidade alegre e comunicativa. A princípio, o prior do convento escusou-se a admitir o capitão da guarda de Meliapor pensando que ele não era para aquele género de vida. Mas Tomás Rodrigues da Cunha tanto insistiu que o prior acedeu ao seu pedido deixando-o tomar hábito e iniciar o noviciado. Tomás deixou tudo: a carreira militar, a posição social, a glória e até o nome vindo a chamar-se, desde então, Frei Redento da Cruz.
No ano de 1620, foi fundado o nosso convento do Carmo de Goa, para onde foi enviado Frei Redento, depois de também ter sido frade conventual no convento de Diu. Frei Redento cativava com a sua simpatia e era estimado por todos por ser alegre, simpático e com um grande sentido de humor. Em Goa, deram-lhe o ofício de porteiro e sacristão. No ano de 1600, em França, nasceu Pedro Berthelot. Também este jovem se inclinou para o mar fazendo-se marinheiro apenas com 12 anos de idade. Em 1619, também ele embarca para a India, onde trabalhou para a armada francesa e holandesa, ao serviço de quem se tornou célebre, ascendendo a piloto de caravela. Finalmente colocou-se ao serviço dos portugueses que o nomearam Piloto-mor e Cosmógrafo das Indias. Deixou-se contagiar pelo testemunho do carmelita, Frei Filipe da Santíssima Trindade e decidiu, como ele, fazer-se carmelita. Todos os dias visitava a igreja do Carmo e um dia decidiu tomar hábito. Era a véspera do Natal e recebeu o nome de Frei Dionísio da Natividade.
Em 1636, os holandeses atacaram Goa. O Vice-rei das índias escreve ao Prior do Carmo pedindo-lhe licença para o noviço Frei Dionísio comandar as operações. O que aconteceu. O Piloto-mor e Cosmógrafo das Indias, agora vestido de hábito castanho e capa branca e calçando sandálias, conduziu a esquadra portuguesa à vitória. Em 1638 foi ordenado sacerdote.
O Irmão Redento da Cruz continuava o seu ofício de porteiro do convento do Carmo de Goa, enquanto Frei Dionísio se preparava para o sacerdócio. Todos conheciam o porteiro do Carmo e todos o tinham por santo. Não perdia ocasião de a todos edificar oferecendo fios, que arrancava do seu hábito, às pessoas suas amigas, dizendo-lhes que eram relíquias de santo. As pessoas riam-se com Frei Redento, mas ele apenas dizia: «agora riem-se, mas esperem um pouco e haveis de ter pena de não ter mais relíquias minhas». Deus segredava-lhe ao coração que um dia seria santo. Em 1638 novamente foi solicitado ao Prior dos carmelitas que autorizasse Frei Dionísio a comandar uma nova expedição. Concertadas as coisas, Frei Dionísio escolheu e pediu por companheiro a Frei Redento da Cruz que ao despedir-se da comunidade disse sereno e de bom humor: «se eu for martirizado pintem-me com os pés bem de fora do hábito, para que vendo as sandálias todos saibam que sou carmelita descalço». Tentaram, as pessoas e benfeitores do convento, impedir por todos os meios a saída do santo porteiro do Carmo temendo o seu martírio. Finalmente, como último recurso, colocaram-lhe drogas na comida para o adormecerem, mas estas não surtiram efeito. Seguidamente embarcou o santo exclamando: «vamo-nos que tenho de ser mártir».
De facto, traídos pelo rei de Achem, a armada portuguesa foi surpreendida e detida. Forçaram-nos a renegar a fé mas não conseguiram tal traição a Cristo de nenhum dos 60 prisioneiros. Decidiram o seu martírio. Muitos dos sessenta prisioneiros eram rapazes jovens. Havia também um sacerdote indiano que recusou a liberdade. Frei Redento foi o primeiro a ser martirizado, encorajando os companheiros de martírio; Frei Dionísio, o último para a todos confortar. Era o dia 29 de Novembro de 1638. Quando em Goa se soube do acontecimento, repicaram os sinos na igreja do Carmo como em dia de grande festa e cantaram um Te Deum em acção de graças.


Oração

Senhor, nosso Deus,
Que concedestes aos mártires Dionísio da Natividade e Redento da Cruz
a honra e a graça de dar a vida pelo nome de Cristo, infundi em nós a vossa força,
pois somos fracos,
e a exemplo daqueles que morreram corajosamente por vosso amor,
fazei que saibamos mantermo-nos fortes e fiéis

para dar testemunho do vosso amor com a nossa vida.

28 novembro, 2013

Fundação do primeiro convento de Carmelitas Descalços -- 28 de Novembro de 1568



Apesar de este dia não estar contemplado no calendário litúrgico da Ordem, nós, os carmelitas descalços, não podemos esquecê-lo, porque foi neste dia, no ano de 1568, que S. João da Cruz, primeiro carmelita descalço, juntamente com Frei António de Jesus e Frei José de Cristo, iniciou na pobre, desconhecida e isolada aldeia de Duruelo, a vida de carmelitas descalços que desde então a nossa família tem vivido.
Meditemos no que nos conta daqueles primeiros tempos a Santa Teresa de Jesus que visitou o local do futuro convento e, mais tarde ali voltou, dizendo: «Eu tinha visto aquela casita, que pouco antes nela não se podia viver, e via agora a simplicidade em toda ela. Para onde quer que se olhasse, tinha eu muito com que me santificar. E percebi na maneira como viviam os primeiros descalços, e com a mortificação e a oração e o bom exemplo que davam, que se havia começado algo que muito proveito daria à nossa Ordem no serviço a Nosso Senhor. E por isso, eu não me cansava de dar graças a Nosso Senhor, com uma grandíssima alegria interior».
Nunca S. João da Cruz revelou nada acerca daqueles tempos primeiros. Quando em Úbeda, estando já às portas da morte, e a Madre Teresa já tinha entrado na Vida sem fim, foi visitado por Frei António de Jesus, que lhe recordou aqueles tempos sossegados que soavam a algo tão transcendental quanto indescritível, o Santo retorquiu: «Recorde-me, Padre, os meus pecados e não isso». E Frei António, edificado, respondeu renovando a descrição daqueles feitos nunca ditos, dos tempos do primeiro convento da Ordem masculina, das pregações apostólicas, da oração e da vida simples e serena do pequeno conventinho. Ao que o Santo, com visível embaraço, perguntou: «Padre, não tínhamos dado a palavra, um ao outro, de nunca falarmos disso?». Mas Frei António não podia conter os rios da alma, pois bem viam seus olhos que o Santo se finava, pelo que, não se contendo, ia recordando maravilhado e com saudade os pormenores daquela vida santa e sacrificada levada em Duruelo, enquanto Deus lhe ia permitindo a companhia de tão santo homem, ao que o S. João da Cruz rematou contrafeito e desconsolado: «ele vai, a pouco a pouco, contar tudo!» João da Cruz não queria que alguém soubesse o que se tinha passado, sofrido e vivido, nos tempos do pobre primeiro convento da Ordem, pois como um dia disse: «Nas coisas que faço por Deus, não quero recompensa de ninguém. Só d'Ele!»


Meditação


Leitura do Livro das Fundações escrito pela Santa Madre Teresa de Jesus

«Saímos de manhã para Duruelo, mas como não sabíamos o caminho perdemo-nos. E, sendo o lugar pouco conhecido, ninguém sabia dar indicações precisas.
Quando entrámos na casa, estava de tal maneira que não nos atrevemos a ficar ali naquela noite. Tinha um portal razoável, uma sala, um sótão e uma pequena cozinha. Pensei que do portal podia fazer-se a igreja, o sótão servia bem para o coro e a sala para dormir.
As minhas companheiras diziam-me: «Madre, não há com certeza, homem, por santo que seja, que resista a viver nesta casa».
Mas frei João da Cruz, concordava com a pobreza da casa para convento. Combinámos, pois, que o padre frei João da Cruz fosse acomodar a casa para poderem entrar. Tardou pouco o arranjo da casa, porque ainda que se quisesse fazer muito, não havia dinheiro.
No primeiro domingo do Advento deste ano de 1568 celebrou-se a primeira Missa naquele pequeno portal de Belém. Chamo-lhe assim, porque não creio que fosse melhor que o presépio.
Os quartos tinham feno por cama, porque o lugar era muito frio, e, pedras por cabeceira. Muitas vezes, depois de rezarem levavam muita neve nos hábitos que neles caía pêlos buracos do telhado.
Iam pregar a muitos lugares próximos dali, o que me deixou muito contente. Iam descalços e com muita neve e frio; porque no princípio, não usavam calçado, como mais tarde, lhes mandaram.
Em tão pouco tempo, alcançaram tanta estima das pessoas, que nunca lhes faltava alimentos, pois traziam-lhes mais do que o necessário. Isto foi para mim grande consolo, quando o soube.
Praza ao Senhor fazê-los perseverar no caminho que agora começaram».



Oração

Senhor, nosso Deus,
que chamastes S. João da Cruz ao Carmo
para o fazerdes experimentar a doçura do vosso amor
e o constituístes pai espiritual duma multidão de filhos e filhas,
fazei que, seguindo o seu exemplo e doutrina na Subida do Monte Carmelo,
pela senda da fé, da esperança e do amor,
iluminados na Noite Escura pela Chama Viva do vosso amor,
alcancemos a perfeita liberdade dos vossos filhos,
para entoarmos um dia o Cântico Espiritual

que para sempre ressoa nas moradas eternas.

16 maio, 2013

Escapulário, o hábito de Maria


Hoje, no Carmelo, celebramos São Simão Stock. Não são muitas as notícias que temos deste nosso Santo. Sabemos que era inglês, que viveu no séc. XIII, que morreu em Bordéus, e que frequentou a Universidade de Oxford onde se doutorou em Teologia. É venerado na Ordem do Carmo pela sua grande santidade e pela sua admirável devoção à Virgem Maria. A sua festa sempre foi celebrada no dia 16 de Maio, como sendo o dia da sua morte. Pensa-se que era natural do condado de Kent e que, muito jovem, optou por uma vida eremítica, vivendo muitos anos na concavidade de um tronco, por isso lhe chamam Stock, que em inglês quer dizer «tronco».

A partir do ano 1232, os carmelitas visitaram várias vezes a Inglaterra, até que em 1242, fundam lá o seu primeiro convento. Numa destas visitas Simão conheceu os carmelitas e deixou-se cativar por eles, vindo a pedir o hábito da Ordem. Dirigiu-se para a Terra Santa, com os religiosos, tendo vivido no Monte Carmelo.

Quando, em 1242, os carmelitas fundam em Inglaterra, Simão acompanha-os e intervém nas primeiras fundações. Cinco anos mais tarde, a Ordem celebrou o Capítulo Geral em Inglaterra e Frei Simão Stock foi eleito Prior Geral da Europa.

A vinda dos carmelitas para a Europa e a sua rápida extensão atraía a si imensos jovens universitários cativados pelo estilo de vida do Carmo desencadeando-se, ao mesmo tempo, uma onda de ciúme e inveja em muitos sectores da Igreja. Párocos, Reitores e Bispos moveram uma guerra surda aos carmelitas «não deixando construir igrejas e obrigando-os a impostos e serviços graves insuportáveis, que nunca tinham tido no Monte Carmelo ou em outros conventos da Terra Santa».

Em 1251, Frei Simão Stock convocou um Capítulo Geral pedindo a toda a Ordem que rezasse noite e dia pela resolução do problema. Acudiram ao Céu e ao Papa. S. Simão liderava esta campanha rezando com insistência à Mãe do Carmo para que deles se compadecesse. Um dia em que, como tantas vezes, rezava a oração do «Flos Carmeli», apareceu-lhe a Virgem Maria na sua cela e entregou-lhe o Escapulário dizendo que este símbolo era o sinal da sua protecção para com os carmelitas e para quem a partir de então o usasse. Pensa-se que esta aparição se deu na noite de 15 ou 16 de Julho. Era o ano de 1251. A 13 de Janeiro de 1252, o Papa escreve uma carta aos bispos defendendo os carmelitas. Porém, quatro anos mais tarde, sobrevém novo ataque aos carmelitas e mais perigoso que o primeiro, pois os frades estão divididos: uns querem apenas a vida eremítica tal como se vivia no principio, no Monte do Carmo. Outros, como Frei S. Simão Stock, pretendem uma vida equilibrada e adaptada à Europa: solidão e apostolado, o que exigia a fundação de conventos, não no deserto, mas junto de cidades e universidades. Recorre Frei Simão, Prior Geral, ao Papa que lhe concede razão e protecção. Mais uma vez, em 1264, S. Simão presidiu ao Capítulo Geral em Tolosa, França, vindo a morrer em Bordéus no ano de 1265, onde ainda hoje se guardam os seus restos mortais. 

Com a sua morte, não cessou, contudo, a devoção ao escapulário. Este sinal de especial protecção de Maria aos seus filhos faz parte do hábito do carmelita.  Santa Teresa no Caminho de Perfeição (C 13,3), dirigindo-se às suas irmãs, exorta-as:

"Minhas filhas, pareçamo-nos nalguma coisa à grande humildade da Sacratíssima Virgem, cujo hábito trazemos. É uma afronta dizer que somos suas freiras, pois, por muito que nos pareça que nos humilhamos, ficamos bem longe de ser filhas de tal Mãe e esposas de tal Esposo."

Neste dia de Maio, recordando o amor que S. Simão Stock tinha a Nossa Senhora do Carmo e com grande vontade de nos parecermos à Sacratíssima Virgem, rezemos a oração que rezava este nosso Santo:

Do Carmo a Flor
vide florida
do céu esplendor.
Virgem fecunda,
singular
Mãe sem par
De homem ignorada!
Ao Carmo vem dar
a tua ajuda.
Estrela do mar! 

(Imagem do altar-mor do Convento dos Carmelitas em Segóvia: 
São João da Cruz recebendo o escapulário)



13 abril, 2013

A entrada de Jesus Ressuscitado na vida de Paulo: textos dos Actos dos Apóstolos




A entrada de Jesus Ressuscitado na vida do apóstolo foi um acontecimento determinante na vida da Igreja primitiva e, por este motivo, o autor deste livro relata-a não uma, mas três vezes. Apresentamos aqui os três relatos fornecidos por S. Lucas, a fim de os lerdes, confrontardes e notardes as diferenças e contradições. O acontecimento é contado com pormenores não somente diferentes, mas até mesmo contraditórios. Trata-se – claro está – de incongruências de pouca importância, mas que existem e são preciosas: sugerem que não interpretemos o relato como um banal facto de crónica, mas como uma experiência espiritual decisiva na vida de Paulo, experiência que tem muito para nos ensinar também hoje e da qual falaremos na próxima publicação.

(Act 9,3-19)
«Estava a caminho e já próximo de Damasco, quando se viu subitamente envolvido por uma intensa luz vinda do Céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: «Saulo, Saulo, porque me persegues?» Ele perguntou: «Quem és Tu, Senhor?» Respondeu: «Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Ergue-te, entra na cidade e dir-te-ão o que tens a fazer.» Os seus companheiros de viagem tinham-se detido, emudecidos, ouvindo a voz, mas sem verem ninguém. Saulo ergueu-se do chão, mas, embora tivesse os olhos abertos, não via nada. Foi necessário levá-lo pela mão e, assim, entrou em Damasco, onde passou três dias sem ver, sem comer nem beber. Havia em Damasco um discípulo chamado Ananias. O Senhor disse-lhe numa visão: «Ananias!» Respondeu: «Aqui estou, Senhor.» O Senhor prosseguiu: «Levanta-te, vai à casa de Judas, na rua Direita, e pergunta por um homem chamado Saulo de Tarso, que está a orar neste momento.» Saulo, entretanto, viu numa visão um homem, de nome Ananias, entrar e impor-lhe as mãos para recobrar a vista. Ananias respondeu: «Senhor, tenho ouvido muita gente falar desse homem e a contar todo o mal que ele tem feito aos teus santos, em Jerusalém. E agora está aqui com plenos poderes dos sumos sacerdotes, para prender todos quantos invocam o teu nome.» Mas o Senhor disse-lhe: «Vai, pois esse homem é instrumento da minha escolha, para levar o meu nome perante os pagãos, os reis e os filhos de Israel. Eu mesmo lhe hei-de mostrar quanto ele tem de sofrer pelo meu nome.» Então, Ananias partiu, entrou na dita casa, impôs as mãos sobre ele e disse: «Saulo, meu irmão, foi o Senhor que me enviou, esse Jesus que te apareceu no caminho em que vinhas, para recobrares a vista e ficares cheio do Espírito Santo.» Nesse instante, caíram-lhe dos olhos uma espécie de escamas e recuperou a vista. Depois, levantou-se e recebeu o baptismo. Depois de se ter alimentado, voltaram-lhe as forças e passou alguns dias com os discípulos, em Damasco».

(Act 22,6-16)
«Ia a caminho, e já próximo de Damasco, quando, por volta do meio-dia, uma intensa luz, vinda do Céu, me rodeou com a sua claridade. Caí por terra e ouvi uma voz que me dizia: ‘Saulo, Saulo, porque me persegues?’ Respondi: ‘Quem és Tu, Senhor?’ Ele disse-me, então: ‘Eu sou Jesus de Nazaré, a quem tu persegues.’ Os meus companheiros viram a luz, mas não ouviram a voz de quem me falava. E prossegui: ‘Que hei-de fazer, Senhor?’ O Senhor respondeu-me: ‘Ergue-te, vai a Damasco, e lá te dirão o que se determinou que fizesses.’ Mas, como eu não via, devido ao brilho daquela luz, fui levado pela mão dos meus companheiros e cheguei a Damasco. Ora um certo Ananias, homem piedoso e cumpridor da Lei, muito respeitado por todos os judeus da cidade, foi procurar-me e disse: ‘Saulo, meu irmão, recupera a vista.’ E, no mesmo instante, comecei a vê-lo. Ele prosseguiu: ‘O Deus dos nossos pais predestinou-te para conheceres a sua vontade, para veres o Justo e para ouvires as palavras da sua boca, porque serás testemunha diante de todos os homens, acerca do que viste e ouviste. E agora, porque esperas? Levanta-te, recebe o baptismo e purifica-te dos teus pecados, invocando o seu nome’».

(Act 26,12-18)
«Foi assim que, indo para Damasco com poder e delegação dos sumos sacerdotes, vi no caminho, ó rei, uma luz vinda do céu, mais brilhante do que o Sol, que refulgia em volta de mim e dos que me acompanhavam. Caímos todos por terra e eu ouvi uma voz dizer-me em língua hebraica: ‘Saulo, Saulo, porque me persegues? É duro para ti recalcitrar contra o aguilhão.’ Perguntei: ‘Quem és tu, Senhor?’ E o Senhor respondeu: ‘Eu sou Jesus a quem tu persegues. Ergue-te e firma-te nos pés, pois para isto te apareci: para te constituir servo e testemunha do que acabas de ver e do que ainda te hei-de mostrar. Livrar-te-ei do povo e dos pagãos, aos quais vou enviar-te, para lhes abrires os olhos e fazê-los passar das trevas à luz, e da sujeição de Satanás para Deus. Alcançarão, assim, o perdão dos seus pecados e a parte que lhes cabe na herança, juntamente com os santificados pela fé em mim’». 
Pe. Vasco      

30 março, 2013

«A amigos muito queridos»




«Por nada vos deixeis inquietar; pelo contrário: em tudo, pela oração e pela prece, apresentai os vossos pedidos a Deus em acções de graças. Então, a paz de Deus, que ultrapassa toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus. De resto, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é respeitável, tudo o que possa ser virtude e mereça louvor, tende isso em mente. E o que aprendestes e recebestes, ouvistes de mim e vistes em mim, ponde isso em prática. Então, o Deus da paz estará convosco» (Fl 4,6-9).

Enquadramento e contexto

A passagem escolhida para beber na torrente da Bíblia é uma passagem da carta aos Filipenses. É já a parte final da carta e apresenta um leque de recomendações, destinadas a recordar aos filipenses algumas obrigações que resultam do seu compromisso com Cristo e com o Evangelho. Quando se põe a escrever a estes cristãos da cidade grega de Filipos, o apóstolo encontra-se preso (em Éfeso?), sem saber o que o futuro imediato lhe reserva.

Ensinamento

Os primeiros dois versículos do nosso texto (vv. 6-7) fazem parte de uma passagem mais longa, na qual o apóstolo aconselha aos cristãos de Filipos que vivam na alegria (vv. 4-7). Esta “alegria” não se confunde com gargalhadas histéricas ou com optimismos inconscientes; mas é a “alegria” que brota de uma vida de união com o Senhor, com tudo o que isso significa em termos de garantia de vida verdadeira e eterna. O cristão vive na alegria, pois a união com Cristo garante-lhe o acesso próximo (“o Senhor está próximo”) à vida plena. Daí desponta a serenidade, a paz, a tranquilidade, que permitem ao crente agarrar a vida sem medo e sentir-se seguro nos braços amorosos de Deus Pai (v. 6a). Ao crente, resta cultivar a união com Deus, entregando-Lhe diariamente a sua vida “com orações, súplicas e acções de graças” (v. 6b).
Depois (v. 8), Paulo sugere aos filipenses um conjunto de seis “qualidades” que eles devem desenvolver e apreciar: a verdade, a nobreza, a justiça, a pureza, a amabilidade e a boa reputação. Tudo isto é “virtude”, tudo isto é digno de louvor. Há quem olhe para este versículo como a “magna carta do humanismo cristão”. Estes valores não são tipicamente do Cristianismo: são valores sãos e louváveis, que fazem parte também do ideal pagão (eram valores igualmente tidos em conta pelos moralistas gregos da época). No entanto, a comunidade cristã deve estar receptiva ao acolhimento de todos os verdadeiros valores humanos. Os cristãos devem ser, antes de mais, arautos e testemunhas dos verdadeiros valores humanos.
Finalmente, o apóstolo exorta os filipenses a porem em prática estas recomendações segundo o exemplo que dele receberam (v. 9). O cristão tem de viver os valores humanos em confronto constante com o Evangelho e na fidelidade ao Evangelho. Às vezes, para não dizer muitas vezes, eles esquecem-se disso mesmo.

Acolher o ensinamento

As palavras de Paulo à comunidade de Filipos traçam alguns dos elementos concretos que devem marcar a nossa caminhada como discípulos do Senhor. Lendo e meditando o texto com atenção, somos capazes de reparar que o apóstolo convida os crentes a não viverem inquietos e preocupados. Os cristãos estão “enxertados” em Cristo e têm a garantia de com Ele ressuscitar para a vida plena. Eles sabem que as dificuldades, os dramas, as perseguições, as incompreensões são apenas acidentes de percurso, que não conseguirão arredá-los da vida verdadeira. Os discípulos de Cristo não são pessoas fracassadas, alienadas, falhadas, mas pessoas com um objectivo final bem definido e bem sugestivo. O caminho de Cristo é um caminho de dom e de entrega da vida; mas não é um caminho de tristeza e de frustração. Porquê, então, a tristeza, a inquietação, o desânimo com que, tantas vezes, enfrentamos as vicissitudes e as dificuldades da nossa caminhada? Os irmãos que nos rodeiam e que nos olham nos olhos recebem de nós um testemunho de paz, de serenidade, de tranquilidade?
Depois, Paulo convida os crentes a terem em conta, na sua vida, esses valores humanos que todos os homens apreciam e amam: a verdade, a justiça, a honradez, a amabilidade, a tolerância, a integridade… Um cristão tem de ser, antes de mais, uma pessoa íntegra, verdadeira, leal, honesta, responsável, coerente. Ouvimos, algumas vezes, dizer que “os que vão à Igreja são piores do que os outros”. Em parte, a expressão serve, sobretudo, a muitos dos chamados “cristãos não-praticantes” para justificar o facto de não irem à Igreja; mas não traduzirá, algumas vezes, o mau testemunho que alguns cristãos dão quanto à vivência dos valores humanos?

Orar com o ensinamento

Senhor, à primeira vista, impressiona-me como Paulo propôs aos seus cristãos os mesmos valores que constavam das listas de valores dos moralistas gregos da sua época… Mas, depois, descubro nessa proposta um convite da tua parte a reflectir sobre a nossa relação com os valores do mundo que nos rodeia e sobre a forma como os aceitamos e integramos na nossa vida. De facto, não nos podemos esconder atrás da nossa muralha fortificada e rejeitar, em bloco, tudo aquilo que o mundo de hoje nos proporciona, como se fosse algo de mau e pecaminoso. O mundo em que vivemos, tanto quanto me permites contemplar e saborear, tem valores muito bonitos e sugestivos, que nos ajudam a crescer de uma forma sã e equilibrada e a integrar uma realidade rica em desafios e esperanças. O que é necessário - e para isso te peço ajuda - é saber discernir, de entre todos os valores que o mundo nos apresenta, aquilo que nos torna mais livres e mais felizes e aquilo que nos torna mais escravos e infelizes, aquilo que não belisca a nossa fé e aquilo que ameaça a essência do Evangelho!…

Pe. Vasco

23 março, 2013

Fomos chamados para a liberdade




«Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes, e não vos sujeiteis outra vez ao jugo da escravidão. Irmãos, de facto, foi para a liberdade que vós fostes chamados. Só que não deveis deixar que essa liberdade se torne numa ocasião para os vossos apetites carnais. Pelo contrário: pelo amor, fazei-vos servos uns dos outros. É que toda a Lei se cumpre plenamente nesta única palavra: Ama o teu próximo como a ti mesmo. Mas, se vos mordeis e devorais uns aos outros, cuidado, não sejais consumidos uns pelos outros. Mas eu digo-vos: caminhai no Espírito, e não realizareis os apetites carnais. Porque a carne deseja o que é contrário ao Espírito, e o Espírito, o que é contrário à carne; são, de facto, realidades que estão em conflito uma com a outra, de tal modo que aquilo que quereis, não o fazeis. Ora, se sois conduzidos pelo Espírito, não estais sob o domínio da Lei» (Gl 5,1.13-18).

Enquadramento e contexto da passagem

Estamos perante um texto que aparece na parte final da Carta aos Gálatas. É o começo de uma reflexão acerca da verdadeira liberdade, que é fruto do Espírito (cf. Gl 5,1-6,10). Para melhor compreensão da mensagem, torna-se conveniente perguntar-nos pelo problema fundamental aí tratado: esta comunidade cristã está a ser incomodada por um grupo de judaízantes, isto é, cristãos provenientes do judaísmo, gente ainda agarrada à antiga lei, concretamente às suas regras, normas, disposições e práticas exteriores, as quais consideram também necessárias para chegar à vida em plenitude ou à salvação; e Paulo – para quem Cristo basta e para quem as obras da Lei já não dizem nada – procura fazer com que toda a comunidade não se sujeite mais a nenhum tipo de escravidão.

Ensinamento

As palavras do apóstolo são um convite enérgico à liberdade. Ele avisa os Gálatas que foi para a liberdade que Cristo os libertou (a repetição destina-se a dar ao verbo “libertar” um sentido mais intenso) e que não convém recair no jugo da escravidão (Paulo identifica essa escravidão com a Lei e a circuncisão). Mas o que vem a ser a liberdade para o cristão? Será que tem a ver com a faculdade de optar entre duas coisas distintas e opostas? Não. Será que tem a ver com uma espécie de independência ético-moral, em virtude da qual cada um pode fazer o que lhe dá na gana, sem impedimentos de qualquer espécie? Também não. Para Paulo, a verdadeira liberdade consiste em viver no amor. O que nos escraviza, nos limita e nos impede de atingir a vida em plenitude ou a salvação é o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência; mas vencer esse fechamento em nós próprios e fazer da nossa vida um dom de amor torna-nos autenticamente livres. Só é verdadeiramente livre aquele que se libertou de si próprio e vive para se dar aos outros. Como é que esta “liberdade” (a capacidade de amar, de dar a vida) nasce em nós? Ela nasce da vida que Cristo nos dá: pela adesão a Cristo, gera-se em cada pessoa um dinamismo interior que a identifica com Cristo e lhe dá uma capacidade infinita de amar, de ultrapassar o egoísmo, o orgulho e os limites. É o Espírito que alimenta, dia a dia, essa vida de liberdade (ou de amor) que se gerou em nós, a partir da nossa adesão a Cristo. Viver na escravidão é continuar a viver uma vida centrada em si próprio (cf. 5,19-21); viver na liberdade (“segundo o Espírito”) é sair de si e fazer da sua vida um dom, uma partilha (cf. 5,22-23).

Acolher o ensinamento

Os homens da nossa época anseiam por esse valor chamado “liberdade”; contudo, têm, frequentemente, uma ideia bastante egoísta deste valor essencial. Quando a liberdade se entende desde o eu, identifica-se com libertinagem: é a capacidade de eu fazer o que quero; é a capacidade de eu poder escolher; é a capacidade de eu poder tomar as minhas decisões sem que ninguém me entrave… Esta liberdade não provoca, tantas vezes, orgulho, egoísmo, auto-suficiência, isolamento e, portanto, escravidão? Para Paulo, só se é verdadeiramente livre quando se ama. Aí, eu não me prendo a nada do que é meu, deixo de viver obcecado comigo e com os meus interesses e estou sempre disponível para me partilhar com os meus irmãos. É esta experiência de liberdade que faz hoje tanta gente que não reserva a própria vida para si própria, mas faz dela uma oferta de amor aos irmãos mais necessitados. Como dar este testemunho e passar esta mensagem aos homens do nosso tempo, sempre obcecados com a verdadeira liberdade? Como dar a saber que só o amor nos faz totalmente livres?
Orar com o ensinamento

Nem é tarde nem é cedo: Senhor, vamos a isso. Era essa a liberdade que eu buscava…
Pe. Vasco

16 março, 2013

«Porque eu sou bom» (II)



Aprofundemos a Palavra

            É a vez de tentar descobrir o significado de alguns desses elementos e de me perguntar pelo ensinamento do Jesus de Mateus. Para se compreender bem esse ensinamento, ajuda muito saber o ambiente que está por detrás do texto.

            - Pai de família: a figura de Deus. A Ele pertence o Reino e a iniciativa da chamada.
- Reino dos Céus: um mundo novo de salvação e vida plena, oferecido a todos sem excepção.
            - Vinha: imagem do Antigo Testamento para designar o povo eleito (Sl 78,9; Is 5,1). É o povo do Senhor, a Igreja, a comunidade cristã.
            - Horas: o dono da vinha sai ao amanhecer, a meio da manhã, ao meio-dia, a meio da tarde e ao cair da tarde.
            - Os trabalhadores da primeira hora e da última hora: os cumpridores acérrimos da lei (escribas e fariseus) e os não cumpridores (pecadores). Os cristãos provindos do judaísmo e os cristãos provindos do paganismo. Os que passaram todos os dias da sua vida na intimidade com Deus e na escuta da Sua palavra e os que andaram arredados delas.
            - O mesmo salário: Nesta vinha, não há trabalhadores mais importantes do que os outros, não há trabalhadores de primeira e de segunda classe. Mas todos têm a mesma dignidade e importância.
            - O trabalho na vinha: os diversos serviços ou ministérios a desenvolver na comunidade. Qual é o meu lugar ou a minha tarefa a realizar na vinha do Senhor?
            - O comportamento do dono da vinha: uma denúncia da religião dos “méritos”, ensinada pelos guias espirituais de então. Estes tinham levado o povo a substituir o Deus bom, pai, esposo e amigo fiel, anunciado pelos profetas, por um deus distante, legislador, juiz, negociante e contabilista.

            Ambiente

            Neste texto proposto pelo evangelista, Jesus continua a instruir os discípulos, a fim de que compreendam a realidade do Reino e, após a sua partida, dêem testemunho dele.
O cenário que a parábola nos mostra reflecte bastante bem a realidade social e económica dos tempos de Jesus. A Galileia estava cheia de camponeses que, por causa da pressão fiscal ou de anos contínuos de más colheitas, tinham perdido as terras que pertenciam à sua família. Para sobreviver, esses camponeses sem terra alugavam a sua força de trabalho. Juntavam-se na praça da cidade e esperavam que os grandes latifundiários os contratassem para trabalhar nos seus campos ou nas suas vinhas. Normalmente, cada senhor tinha os seus “trabalhadores” em quem ele confiava e a quem contratava regularmente. Naturalmente, todos eles recebiam um tratamento de favor. Esse tratamento de favor implicava, concretamente, que esses “trabalhadores” fossem sempre os primeiros a ser contratados, a fim de que pudessem ganhar um dia de serviço. 

Ensinamento

A parábola refere-se a um dono de uma vinha que, ao romper da manhã, se dirigiu à praça e chamou os seus “clientes” para trabalhar na sua vinha, ajustando com eles o preço habitual: um denário. As muitas tarefas a realizar na vinha fez com que ele voltasse a sair outras vezes e trouxesse um novo grupo de trabalhadores. O trabalho decorreu sem problemas, até ao final do dia. Ao anoitecer, os trabalhadores foram chamados diante do senhor, a fim de receberem a paga do trabalho. Todos receberam o mesmo: um denário. Porém, os trabalhadores da primeira hora, ou seja, os “clientes” habituais do dono da vinha, manifestaram a sua surpresa e o seu desconcerto por, desta vez, não terem recebido um tratamento “de favor”.
A resposta final do dono da vinha afirma que ninguém tem nada a reclamar se ele decide derramar a sua justiça e a sua misericórdia sobre todos, sem excepção. Ele cumpre as suas obrigações para com aqueles que trabalham com ele desde o início; não poderá ser bondoso e misericordioso para com aqueles que só chegam no fim?
Quase de certeza que a parábola, primeiramente, serviu a Jesus para responder às críticas de quem se opunha ao seu comportamento demasiado próximo aos pecadores. Através dela, Jesus revela que o amor do Pai se difunde sobre todos os seus filhos, sem excepção e por igual. Para Deus, não é fulcral a hora a que se respondeu ao seu apelo; o que é fulcral é que se tenha respondido ao seu convite para trabalhar na vinha do Reino. Para Deus, não há tratamento especial por razões de antiguidade; para Deus, todos os seus filhos são iguais e merecem o seu amor.
A parábola serviu também a Jesus para pôr por terra a ideia que os guias espirituais de Israel tinham de Deus e da salvação. Para os fariseus, sobretudo, Deus era um patrão que pagava conforme as acções do homem. Se o homem cumprisse escrupulosamente a Lei, conquistaria determinados méritos e Deus pagar-lhe-ia convenientemente. O seu “deus” era uma espécie de comerciante, que todos os dias apontava no seu caderno de contas as dívidas e os créditos do homem, que um dia faria as contas finais, veria o saldo e daria a recompensa ou aplicaria o castigo. Segundo este ponto de vista, Deus não dá nada; é o homem que conquista tudo.
Para Jesus, no entanto, Deus não é um comerciante, sempre de lápis em punho a fazer contas para pagar aos homens consoante os seus merecimentos. Ele é um pai, cheio de bondade, que ama todos os seus filhos por igual e que derrama sobre todos, sem excepção, o seu amor.
A parábola foi mais tarde proposta pelo evangelista à sua comunidade para iluminar a situação concreta que a mesma estava a viver com a entrada maciça de pagãos na Igreja. Alguns cristãos de origem judaica não conseguiam entender que os pagãos, vindo mais tarde, estivessem em pé de igualdade com aqueles que tinham acolhido a proposta do Reino desde a primeira hora. Mateus deixa, no entanto, claro que o Reino é um dom oferecido por Deus a todos os seus filhos. Judeus ou gregos, escravos ou livres, cristãos da primeira ou da última hora, todos são filhos amados do Pai. Na comunidade de Jesus não há graus de antiguidade, de raça, de classe social, de merecimento. O dom de Deus é para todos, por igual.       

Acolhamos o ensinamento

            O que se pretende aqui é entrar em diálogo com a palavra de Deus, através de algumas questões: Que me diz Jesus? Põe-me alerta contra quê? Que atitude me sugere no dia-a-dia?

O Deus que Jesus me revela é um Deus que não faz negócio comigo. Ele não precisa da minha mercadoria. Não me contabiliza os créditos, nem me paga em consequência. O Deus que Jesus me anuncia é um Pai que me quer ver livre e feliz, derramando sobre mim o Seu amor de forma gratuita e incondicional.
Jesus pede-me que, ao entender esta verdade sobre Deus, isto é, que Ele não é um negociante mas um pai cheio de amor por mim, renuncie a uma lógica interesseira no meu relacionamento com Ele. Como seu filho, não devo fazer as coisas por interesse mas por estar convicto de que o comportamento que Ele me propõe é o caminho para a verdadeira vida. Quem segue o caminho certo, é feliz, encontra a paz e a serenidade e colhe, logo aí, a sua recompensa.     
O seu Reino é para mim e para todos, sem excepção. Para Ele não há marginalizados, excluídos, indignos, desclassificados… Para Ele, há homens e mulheres – todos seus filhos, independentemente da cor da pele, da nacionalidade, da classe social – a quem Ele ama, a quem Ele quer oferecer a salvação e a quem Ele convida para trabalhar na sua vinha.

Oremos com o ensinamento

            A oração é a nossa resposta a Deus; ela emerge da escuta, do aprofundamento e do acolhimento do texto sagrado, e dirige-se ao Senhor sob diversas formas.

            Senhor, ensina-me a estar diante de ti com um coração livre daqueles preconceitos que ofuscam em mim a tua imagem. Dá-me um coração simples que saiba perceber, na palavra das Sagradas Escrituras, meditadas quotidianamente, o teu rosto de Deus que salva, se torna próximo de cada homem para libertá-lo do pecado. Um coração capaz de usufruir de tudo o que me ofereces, disposto a uma escuta obediente.

Apliquemo-lo à vida

            Tudo teria sido em vão se o ensinamento não viesse a dar fruto na minha existência. Quais as medidas concretas a assumir a partir deste ensinamento que escutei, aprofundei, acolhi e orei?

                Estarei mais atento ao meu trabalho na Sua vinha e ao espírito com que o faço. Farei tudo por dar a conhecer o Seu rosto de bondade e generosidade aos meus irmãos. Alegrar-me-ei com a chegada de novos trabalhadores e não requererei qualquer tipo de privilégios ou qualquer superioridade sobre esses irmãos.
Pe. Vasco

10 março, 2013

"Acolhe-nos com a Tua luz"



Este quarto domingo da Quaresma, é tradicionalmente designado como domingo "Laetare", uma palavra latina que significa «alegria». Este Domingo está repleto de uma alegria que de certa forma atenua o clima penitencial deste tempo quaresmal: "Alegra-te Jerusalém… Exultai e rejubilai, vós que vivíeis na tristeza". A este convite contido na antífona de entrada e nas orações da liturgia de hoje, fez eco o  Salmo responsorial. Mas é espontâneo perguntar-nos: qual é o motivo pelo qual nos devemos alegrar? Certamente um motivo é o aproximar-se da Páscoa, a nossa festa mais importante como cristãos, cuja previsão nos faz pregustar a alegria do encontro com Cristo ressuscitado. Contudo, a  razão mais profunda da nossa alegria consiste na mensagem oferecida pelas leituras bíblicas que a liturgia hoje propõe. Elas recordam que, apesar das nossas faltas, erros e fraquezas, nós somos os destinatários da misericórdia infinita de Deus.
Precisamente, o tema do amor de Deus é o que sobressai na parábola que  escutamos no Evangelho .
A parábola do Filho Pródigo já teve diferentes títulos, porque tudo depende de como cada um a lê e da ressonância que ela tem no coração de cada um. Porque, ao contrário de outras parábolas, esta tem um carácter muito pessoal, ou seja, nela cabe o retrato de cada um de nós. É a parábola de Deus Pai. É a parábola do coração de Deus. Mas também é a parábola de cada um de nós, porque há cenas que se repetem também nas nossas vidas onde há um pai que nos ama incondicionalmente. Mas que ama tanto que só pode respeitar a liberdade de cada homem. O Seu amor pela humanidade é sem limites e por isso, concedeu-nos o dom da liberdade. Liberdade, inclusive, de O negar e de nos afastarmos d’Ele. Há, portanto, uma liberdade mal usada e que só pode trazer miséria, degradação e desespero.
Mas a parábola não tem tanto a finalidade de nos descrever a nós mesmos, mas sim de descrever o coração de Deus e de nos convidar a amar como Ele ama, a perdoar como Ele perdoa e a celebrar como ele celebra o regresso de alguém à casa do Pai. Ele sai a receber o filho que regressa de longe. E sai a chamar o Filho que está próximo mas que se nega a entrar na casa paterna.
Talvez há já demasiado tempo que temos o coração de ambos os filhos. É o momento de termos o coração do Pai. É o momento de amar como o Pai. É o momento de perdoar como temos sido perdoados. É o momento de descobrir que ser cristãos, ser Filhos de Deus, é experimentar o abraço terno deste Pai que nos traz de novo à vida. Que devolve rumo, dignidade e alegria.
Esta é a historia de Deus com cada um de nós. Uma bela história de amor, uma bela história de beijos, abraços e festa onde o protagonista é Deus.
Assim é Deus, tão bom, tão compreensivo, tão indulgente com quem se arrepende, tão cheio de misericórdia e tão transbordante de amor.
Continuemos com fé viva e espirito generoso o nosso caminho rumo a Páscoa.
Pe. Víctor

09 março, 2013

«Porque eu sou bom» (I)



                «1Porque o Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que saiu de manhã cedo para contratar trabalhadores para a sua vinha. 2Depois de combinar com os trabalhadores um denário por dia, mandou-os para a vinha. 3Tornando a sair pela hora terceira, viu outros que estavam na praça, desocupados, 4e disse-lhes: ‘Ide, também vós para a vinha, e eu vos darei o que for justo’. 5Eles foram. Tornando a sair pela hora sexta e pela hora nona, fez a mesma coisa. 6Saindo pela hora undécima, encontrou outros que lá estavam e disse-lhes: ‘Por que ficais aí o dia inteiro desocupados? 7Responderam: ‘Porque ninguém nos contratou’. Disse-lhes: ‘Ide, também vós, para a vinha’. 8Chegada a tarde, disse o dono da vinha ao seu administrador: ‘Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário começando pelos últimos até aos primeiros’. 9Vindo os da hora undécima, receberam um denário cada um. 10E vindo os primeiros, pensaram que receberiam mais, mas receberam um denário cada um também eles. 11Ao receber, murmuravam contra o pai de família, dizendo: 12’Estes últimos fizeram uma hora só e tu os igualaste a nós, que suportamos o peso do dia e o calor do sol’. 13Ele, então, disse a um deles: ‘Amigo, não fui injusto contigo. Não combinaste um denário? 14Toma o que é teu e vai. Eu quero dar a este último o mesmo que a ti. 15Não tenho o direito de fazer o que eu quero com o que é meu? Ou o teu olho é mau porque eu sou bom?’. 16Assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos» (Mt 20,1-16).

Olhemos para o texto

            Trata-se de ler e reler o texto, identificando os seus elementos mais importantes.

1. Personagens
Fala-se num pai de família ou dono da vinha, num administrador e em trabalhadores.
            2. Contratos
Contamos cinco, efectuados pelo pai de família:
            - O contrato com os trabalhadores do amanhecer
            - O contrato com os trabalhadores da hora terceira
            - O contrato com os trabalhadores da hora sexta e da hora nona
            - O contrato com os trabalhadores da hora undécima.

            Note-se as particularidades de todos eles: no primeiro, acerta-se o salário em «um denário por dia» (v. 2); no segundo, no «que for justo» (v. 4); no terceiro e quarto diz-se «fazendo a mesma coisa» (v. 5), ou seja, ajustando o salário em um denário por dia ou com a promessa de vir a dar o que for justo; no quinto, nem sequer se fala em salário (vv. 6-7), mas, pelo que os trabalhadores vêem a receber, ficamos a saber que o acerto não foi diferente. O pai de família apenas diz: «’Ide, também vós, para a vinha’».
            Além destas pequenas diferenças, são contratos que não têm muito a ver com os nossos. Os nossos têm em conta determinadas cláusulas, princípios concretos. Ora, estas cláusulas ou princípios não são tidos em conta por este Senhor.
3. O comportamento do dono da vinha e do administrador
Um comportamento diferente do comportamento dos patrões e dos administradores que conhecemos. Se este dono da vinha ou pai de família fosse verdadeiramente um «patrão», tal como o concebemos, o seu administrador ter-lhe-ia certamente recordado que nem todos chegaram e trabalharam o mesmo número de horas. Mas ele não é um dos patrões que nós conhecemos.
4. As horas
Este pai de família saiu a várias horas para contratar trabalhadores para a sua vinha: de «manhã cedo», pela «hora terceira», «hora sexta e hora nona», «hora undécima». Existe ainda uma outra referência temporal que nos indica o momento do pagamento aos seus trabalhadores: «Chegada a tarde».
5. A vinha
Todos os trabalhadores são contratados a pensar na vinha. Aparece por quatro vezes a expressão «para a vinha», numa das vezes subentendida (v. 5), e uma vez «para a sua vinha».
6. Género literário
Neste olhar para o texto, também não podemos deixar de reparar que se trata duma parábola. A parábola é sempre uma história tirada da vida corrente, com dois ou três personagens, tendo cada um deles comportamentos mais ou menos contrários ou contraditórios, com o intuito de fazer captar uma verdade vivida, ou mal vivida ou contestada. Esta é uma parábola do reino (v. 1).
7. A reacção dos trabalhadores
Embora este Senhor não seja um patrão, os trabalhadores vêem-no como tal e por isso exigem dele um salário conforme ao seu esforço (v. 12).
O texto não diz tudo acerca deste elemento. Depois das palavras do pai de família, de que modo reagiram os que murmuravam? Aceitaram? Continuaram a queixar-se? Responderam com ofensas? A reacção que formos capazes de lhes atribuir pode ser muito bem a nossa reacção diante deste Senhor que não é patrão.
Pe. Vasco