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07 abril, 2014

Em busca de um caminho


Daniel fazia sozinho o caminho de Santiago de Compostela, uma das peregrinações mais concorridas da Europa, quando foi apanhado por uma tempestade.

Tom, seu pai e médico norte-americano, é imediatamente comunicado do falecimento do filho e desloca-se a França para recuperar o corpo.

Enquanto remexe na bagagem de Daniel e nos seus preparativos para aquela viagem, decide fazê-la ele próprio, no imediato, deixando toda a sua vida suspensa para continuar o objetivo do filho, procurando compreender o mundo que o inspirou e moveu para a ação.

Acarretou o desafio de não ter tempo para se preparar, de planear as coisas, de não lutar contra a reflexão prévia das dificuldades físicas da sua idade e carregou toda a sua bagagem (a da mochila e a de dentro também). Com efeito, deixou-nos perceber que as emoções são responsáveis pelas tomadas de decisão.

Durante o caminho cruza-se com outros 3 peregrinos de vários pontos do mundo e, numa dança entre a procura da solidão e companhia, percorrem-no juntos.

Todos eles com objetivos diferentes, com vivências distintas mas cada um à procura do seu sentido de vida. Entre a resistência em partilhar a sua motivação interior ou não, todos a tinham.

Não raras vezes ouvimos que a satisfação não está em chegar ao final do caminho mas que a aprendizagem está nele mesmo. Olhar para os lados no caminho, para tudo o que está à volta, e reposicionar a percepção do mesmo. A busca do Caminho de Santiago de Compostela é muito rica nisso mesmo.

“Vim para te levar para casa mas agora não tenho nada para levar” diz Tom no final do caminho num diálogo interior para com Daniel. Ele responde-lhe com toda a serenidade “Tem sim”. Talvez enquanto se liberta das cinzas do seu corpo no mar tome consciência de que não nos libertamos das emoções mas transformamo-las. Talvez também perceba que um dos grandes ensinamentos que fazemos aos descendentes é precisamente o de ensiná-los a caminhar. E qual será o caminho para perceber que esse objetivo foi alcançado?

“A “Terra prometida” é um caminho, uma terra que está onde está o homem que a deseja.”




04 abril, 2014

12 Anos Escravo


Steve McQueen é o autor deste oscarizado filme sobre a escravatura. Michael Fassbender volta a colaborar com o realizador – é a terceira vez – ao lado de revelações negras que iluminam a tristeza da servidão com uma humanidade que comove, deleita e ensina. Este é o terceiro filme de McQueen, depois de Hunger e Shame. E o autor é quase um actor – pela omnipresença da sua singular sensibilidade, a perfeição do gesto com a câmara e uma apurada capacidade literária.

O terceiro filósofo do pódio Grego atribuía à verosimilhança uma das qualidades máximas da tragédia. Quanto mais próxima do real fosse a obra, mais verdadeira, mais autêntica. No cinema, o prólogo “baseado em factos reais” (mesmo que não incorporado nas páginas no filme), predispõe o espectador para uma intensidade mais humana do que um filme pode dar à partida – por se tratar de um filme e não da vida. Ou não fosse esta a razão fundamental de se anunciar ao interlocutor a sua dimensão extra-ficcional… Solomon Northup, homem concreto que existiu e pisou a terra como nós, voltou a sua pena para o Norte da literatura autobiográfica e em 1853 publicou a sua assombrosa memória, que vendeu trinta mil exemplares em três anos e depois deslizou para o esquecimento. Só voltaria a ser lida com atenção por dois historiadores que republicaram a história, juntando-lhe notas históricas, em 1968. Mais tarde, deu origem a uma série televisiva, e agora a esta longa-metragem do realizador britânico. Northup, que acompanhamos ao longo de duas horas, encabeça com a sua homónima obra todo um oceano de escravos de que não se conhece a vida porque eram escravos, e muitos porque não escreveram. Neste caso, a veracidade do que se conta parte do próprio ser humano que sofreu aquilo que ouvimos e vemos ser contado. No final do seu livro, o autor reforça aquilo que acaba de ser dito: “Isto não é ficção, não é exagero. Se falhei em alguma coisa, foi em apresentar ao leitor, de forma proeminente, o lado iluminado deste quadro”.

O filme começa com a apresentação da figura principal, Solomon, carpinteiro e violinista oriundo de Nova Iorque, pai de duas crianças, que é recrutado por dois colaboradores de um circo ambulante para um trabalho de breve duração mas alta remuneração. Sem avisar a mulher, Northup aceita o temporário emprego e parte com o par circense em viagem. O seu dom musical é pouca água para o rio que o espera, cuja foz é inesperada para a personagem, mas previsível para o espectador. Drogado e espancado depois do sono, Solomon é levado para Nova Orleães, onde ainda consegue, ao chegar, escrever uma carta à família, mas sem grande efeito – pois o seu rasto perdera-se pelo caminho. Solomon adopta o pseudónimo que lhe é atribuído e, forçado a esquecer a sua vida em Nova Iorque, inicia um novo ciclo da sua vida, que durará doze anos.

Se este filme desperta algum tipo de reflexão no espectador, dela não se pode falar sem mencionar o engenho de McQueen na forma como nos mostra cada fragmento deste filme. Ao falar de escravatura, estamos também a falar em liberdade. E uma das técnicas que McQueen usa para estabelecer esse contraste é alternar passos narrativos duros de ver com planos da natureza circundante, como as árvores ou o cair do dia, que nos trazem as sensações simultâneas de prisão e libertação. Além disso, a personagem principal é ao mesmo tempo a encarnação da ausência de liberdade e o desejo de a encontrar, e é nesse desejo que reside a sua vitória no encontro final com uma nova possibilidade de felicidade e plenitude.

Solomon Northup pode ajudar-nos a olhar a nossa vida com a aceitação e paciência próprias de um mártir. Num dos diálogos com Patsey, o seu grito é antes de mais um desejo fortíssimo de verdade e dignidade. “Não vou cair no desespero! Vou manter-me forte até que a liberdade surja!” Ao chegar a casa, depois de uma dezena de anos sob a alçada de latifundiários sem alma, pede perdão à sua família pela ausência. A sua dignidade nunca sucumbe, durante o longo período de servo, à resignação da maioria dos outros desgraçados. Diz ele, em forma de máxima, “Eu não quero sobreviver. Eu quero viver.” É este espírito que o leva a concluir a obra da sua vida com a paz interior que todos nós, filhos do pecado mas ávidos de bem, desejamos para nós mesmos. “Espero daqui para a frente levar uma vida justa e modesta, e por fim descansar no adro da igreja onde o meu pai dorme.”


António Seabra, in http://www.essejota.net/index.php?b=home


26 fevereiro, 2014

Duelo de rivais



Título original: Rush
Realizador: Ron Howard
Com: Daniel Brühl, Chris Hemsworth, Olivia Wilde
Género: Acção, Biografia, Drama,
Outros dados: M/12, EUA/RU, 2013, 122 min, Trailer


Nunca fui um grande fã de Formula 1. No entanto já tinha ouvido falar em Niki Lauda, piloto austríaco muito conhecido pelo grave acidente que teve durante o Grande Prémio da Alemanha em 76. Quando soube que ía sair um filme sobre estes factos decidi pesquisar um pouco mais sobre a sua vida e fiquei com grande vontade de ver o filme.

Ron Howard (realizador) cria um filme onde, simultaneamente, existe drama e humor. As boas interpretações e o excelente trabalho cinematográfico levam-nos a crer que estamos mesmo dentro de um grande circuito de Formula 1.

Rush conta-nos a história incrível e verídica de dois pilotos, e da marcante rivalidade entre eles. Um é Niki Lauda, austríaco, conhecido pela sua capacidade de análise e rigor. O outro é James Hunt, inglês, conhecido pela sua velocidade e por ter uma vida controversa fora das pistas.

O filme vai-nos dando a conhecer a vida, a personalidade e a rivalidade entre estes dois corredores, desde o momento em que se conhecem, numa prova de Formula 3 em Inglaterra no ano de 1970, até ao fim do campeonato de 1976. Pelo meio tomamos conhecimento da vida dentro e fora das pistas, desde o negócio dos contractos aos momentos mais emocionados que antecedem as perigosas corridas. O ano de 1976 ficou não só conhecido pela grande disputa do campeonato, entre Lauda e Hunt, mas também devido ao grave acidente que se deu a 1 de Agosto desse mesmo ano, levando Lauda a ficar em risco de vida e com marcas no rosto para toda a vida.

A partir deste momento, o filme torna-se ainda mais rico e entusiasmante, ao contrário do que se poderia prever. A convalescença de Lauda no hospital, enquanto assiste às corridas e à recuperação do seu rival, deixa-nos impressionados e o seu regresso às corridas, apenas seis semanas depois do acidente, relembra-nos, mais uma vez, de que a esperança é a última a morrer. Muitas vezes ficamos sem esperança, depois de alguma dificuldade que possamos passar. Achamos que os nossos sonhos vão por “água abaixo” e que, é difícil lutar por aquilo que nos traz alegria. Mas há sempre Alguém que nos ama e que, directa ou indirectamente, nos faz querer continuar.

Quem sabe se a Fórmula 1 não ganhou um novo adepto?


António Oom Costa, in http://www.essejota.net/

19 fevereiro, 2014

Cordas



É uma curta-metragem de 10 minutos, mas que transcende qualquer um pelo seu nobre conteúdo, que nos faz questionar até onde somos capazes de partilhar a nossa vida com o próximo.  Foi premiada recentemente com o prémio Goya 2014 para a melhor curta-metragem de animação. Está em espanhol, mas na verdade os gestos transmitem mais da verdadeira beleza deste pequeno filme do que aquilo que podamos não perceber do espanhol.

A rotina de Maria na escola vai ser alterada pela chegada de um menino muito especial. E rapidamente se converterão em grandes amigos.

Será que estes duas crianças têm algo para nos ensinar?


18 fevereiro, 2014

Os Miseráveis



Miserável, segundo o dicionário, é aquele que vive na miséria, que é muito pobre e que inspira desprezo ou que desperta compaixão.
“Os Miseráveis” amplia(m) todos estes conceitos ao plural. No filme também!
“Look down, look down” cantam os prisioneiros em uníssono no princípio, quase que a convidar-nos a “descer” à miséria.

A história alarga-se por várias décadas e assistimos sobretudo aos acontecimentos no intervalo de 1815 a 1832. Na realidade somos transportados para uma França que sente os efeitos da Revolução de 1789 e deixa transparecer a marca da estratificação social e da crise de valores. Uma França cujo sistema legal condena um indivíduo que, vivendo na miséria, rouba pão para alimentar a família, confirmando-nos a ideia já há muito profetizada por Ortega y Gasset : “Nós somos nós e as nossas circunstâncias”.

Jean Valjean cumpriu pena de 19 anos por este crime e quando libertado comprova o rótulo que lhe atribuíram, voltando a roubar para sobreviver. Mas, quando experimenta a compaixão de um Bispo que o acolhe numa sociedade muito afastada da “liberdade, igualdade e fraternidade”, deixa-se perdoar e abraça o caminho da conversão. E é nestas circunstâncias que sobressaem um conjunto de mudanças comportamentais. “Quem sou eu?” diz-nos a dada altura Jean Valjean.
É dentro da temática dos valores morais, susceptíveis de nos guiarem, de se renovarem, que vemos várias histórias cruzadas e transversais, vários caminhos possíveis e também o nosso:

Será o nosso caminho o mesmo que Valjean escolheu e seguiu, proferido por ele já às portas da morte: “Amar outra pessoa é ver a face de Deus”?
Será que nos deixamos sucumbir de cada vez que a esperança nos desilude, como a Fantine?
Será que somos capazes de ir além das nossas circunstâncias, como Éponine, que nos revela um amor gratuito e sem interesse, apesar de uma educação num ambiente hostil e interesseiro?
Seremos nós também capazes de renunciar às origens pelo sentido de justiça e liberdade, como Marius?
Será que estaremos condenados (e é mesmo isso, condenados!) a pensar como Javert, quando diz: “Homens como tu não mudam”?

Podemos viver vidas difíceis, mas o espírito humano é mais forte do que qualquer outra coisa. E é possível continuar sempre a sonhar, como Fantine, que “o Senhor é piedoso” e (acrescento) os “homens misericordiosos”, e como todas as outras personagens “Depois da barricada há um Mundo a ver”. Na luta Ele dá força e acompanha!
É que às vezes a única coisa a que nos podemos comprometer é a isso mesmo: a estar lá na miséria e no sofrimento. E isso de miserável nada tem!




03 fevereiro, 2014

A rapariga que roubava livros



Título original: The book thief
Realizador: Brian Percival
Com: Sophie Nélisse, Nico Liersch, Emily Watson, Geoffrey Rush
Género: drama, guerra
Outros dados: 2013, cores, 131min, EUA, Trailer

Sou um sortudo por poder escrever sobre um dos filmes mais bonitos e marcantes que alguma vez vi. As relações de amizade desenroladas, a grande interpretação de Geoffrey Rush e a banda sonora composta pelo eterno John Williams são algumas das belezas deste filme.

A Rapariga que Roubava Livros baseia-se no bestseller de Markus Zusak e tem a sua acção na Alemanha, durante a II Guerra Mundial. O enredo é narrado pela própria morte, que nos conta a história de uma rapariga, Liesel Meminger, que lhe captou o interesse. Liesel, filha de uma comunista perseguida pelo regime Nazi, é entregue a uma família de acolhimento alemã, composta por Rosa e Hans. Rosa é uma mulher fria e pouco alegre enquanto que Hans, pelo contrário, é um homem bastante amável e bondoso.

Hans, homem culto, descobre que Liesel não sabe ler nem escrever e decide então ensinar-lhe o abecedário. A rapariga vai alimentando o seu gosto pela leitura ao mesmo tempo que conhece o pequeno Rudy, com quem cria uma forte amizade. É uma amizade que comove. Os pequenos gestos, filmados com um especial encanto, como a alegria que os dois demonstram quando brincam.

Tocou-me muito a amizade nascida e construída entre cada uma das personagens. É engraçado verificar que são as suas coesas relações que lhes dão a esperança, em tempos de crise. Não estará na altura, de confiarmos verdadeiramente nas pessoas que mais querem o nosso bem, para ultrapassarmos os momentos difíceis?

Este é um filme que nos faz pensar sobre as nossas amizades e sobre como usar as nossas qualidades para afastar a escuridão. Temos muito medo da morte, do desconhecido, mas a bondade presente em cada um de nós e a vontade de amar cada vez mais ajudam-nos a relativizá-la. Se calhar não somos nós que somos assombrados pela morte, mas é ela que é assombrada por todos nós...

António Oom Costa, in http://www.essejota.net/

31.01.2014


27 janeiro, 2014

O porto


Titulo original: Le Havre
De: Aki Kaurismäki
Com: André Wilms, Jean-Pierre Darroussin, Kati Outinen, Blondin Miguel
Género: drama, comedia
Outros dados: França, 2011, cores, 93min, M/12


Le Havre, o último filme de Aki Kaurismäki, é uma demonstração do amor. É um tanto ou quanto repentino e inconsequente classificá-lo assim, mas é o que ele é. Não se pense com isto que é um filme romântico, não. Não um amor apaixonado, juvenil ou plastificado. Pelo contrário, muito maduro e fiel, com o seu quê de ingenuidade.

A história começa, num dia de pouca luz, no porto deLe Havre, França, quando Marcel Marx (André Wilms) se aprontava para o seu almoço de todos os dias, preparado, meticulosamente, pela sua mulher Arletty (Kati Outinen), e se depara com uma criança africana escondida entre as madeiras molhadas da doca, a olhar fixamente para ele. Idrissa (Blondin Miguel) é um rapaz novo, que fugiu do seu país por uma vida melhor, com destino Londres, via um contentor de mercadorias, como tantos outros. Vendo-o perdido, Marcel decide então levá-lo para sua casa. Mas ao chegar, encontra a casa vazia, sem Arletty, nem comida para o pobre rapaz.

Idrissa não poderia estar mais bem entregue. Desde Marcel, o seu novo pai, que nem jantar tem para lhe dar, a amigos do bairro de cabelo comprido e cigarro no canto da boca, ao dono da mercearia a quem Marcel deve fiado, à empregada do café que dá os melhores conselhos, e ao bom coração do inspector da polícia que o quer capturar para o mandar de volta para o seu país.

Le Havre mostra-nos a dignidade na pobreza. Marcel que sempre engraxou sapatos pelo pão de cada dia, mesmo não tendo nada para oferecer a Idrissa, ao chegar a casa, oferece-lhe ensinamentos.
Mostra-nos a amizade na pobreza, quando o rabugento dono da mercearia coloca às escondidas o jantar no saco de Idrissa, ao mesmo tempo que grita com Marcel para ele lhe pagar o que deve.
E enche-nos com o humor na pobreza. Ingénuo, ao mesmo tempo que inteligente e denunciador. Em cenários pobres, dias escuros e personagens cansadas, consegue fazer-nos rir.

Envolta na miséria, uma relação nasce, estende-se, sacrifica-se e supera-se. Do sítio de onde poderia nascer a vigarice, o individualismo, ou o desespero. Porque seria tão mais fácil assim. Aki Kaurismäki filma um milagre dos nossos dias. Saímos do filme a querer viver nos barracões daquele bairro, a querer absorver tudo o que a empregada do café tem para nos dizer, a querer beber uns copos com o Marcel, mesmo sabendo que quando chegarmos a casa a mesa vai estar vazia. Mas não é deste preenchido que vos falo, deste conforto gordo. Falo-vos de um nada que se transforma em tudo, e se espraia até perder de vista, que não termina na pobreza, inesgotável. Um alimento que se multiplica e não deixa fome. Que nos desarma sem nos magoar. Que põe em perspectiva, que vê para lá do olhar. Um tudo que preenche e basta por si mesmo. Só no amor Le Havre pode existir.

Concha Pais de Carvalho, in http://www.essejota.net/index.php?b=home

20 janeiro, 2014

A ESSÊNCIA DO AMOR


De: Terrence Malick
Com: Ben Affleck, Olga Kurylenko, Rachel McAdams, Javier Bardem
Drama, M/12, EUA, 2012, 112 min
Trailer.

Malick é um realizador único e importante. Contudo, o seu último filme, A Essência do Amor, parece a obra de um discípulo menor a tentar imitar o mestre. É inevitável a comparação com A Árvore da Vida, não só pela invulgar proximidade temporal entre ambos, como porque, a vários níveis, A Essência do Amor parece ser uma versão histriónica falhada do opus anterior de Malick: com excepção de Rachel McAdams, não se pode propriamente falar de uma performance dos actores; a banda sonora, elemento tão distintivo da estética malickiana, não envolve, apesar da sua qualidade; o registo explicitamente alegórico em que A Árvore da Vida já operava atinge aqui um paroxismo em que os personagens são esvaziados em nome de um simbolismo enfezado se não estéril.

O filme, a confiar no comunicado de imprensa divulgado, pretende ser uma exploração do amor nas suas diversas formas. O confronto mais óbvio, a esse nível, é o que opõe amor “carnal” (dominante na relação Marina-Neil) e “espiritual” (que encontra o seu espaço, de certo modo, em Jane), o qual, por sua vez, evoca um outro, a que se alude abertamente na fita: amor humano | amor divino. O padre interpretado por Javier Bardem insiste nos seus sermões em que o primeiro se funde no segundo e o imite, pois só assim conquistará a permanência. Tal implica, como ele realça, uma decisão activa, que transcenda o mero sentimento, que não faça a relação depender do desejo mas sim da vontade. Bardem enfatiza, no fundo, a necessidade de compromisso, mas, acima de tudo, ilustra-a.

De facto, Quintana está, ele próprio, a passar por uma crise de fé: também a sua relação com Deus atravessa um período difícil, em que se interroga sobre o sentido e a realidade daquilo em que diz acreditar. Ao contrário, porém, de Marina ou Neil, que ante o desgaste do seu amor optam pela solução mais fácil (a separação ou a traição), Quintana persevera na sua vocação e insiste em a cumprir enquanto doação, visitando presos, toxicodependentes e portadores de deficiência. Ele é a resposta palpável ao discurso moderno individualista apresentado por Anna, a amiga italiana de Marina, que afirma: «eu sou a experiência de mim própria». Anna representa o ideal contemporâneo da liberdade absoluta, hostil ao compromisso, que vê como prisão. A felicidade que resulta desse desprendimento revela-se, porém, demasiado esporádica. Só a fidelidade na entrega pode erguer o verdadeiro e o futuro: amar é cativar, como ensinou a Raposa ao Princepezinho.




João Diogo Loureiro, in http://www.essejota.net/index.php?b=home

16 janeiro, 2014

21 Gramas



De: Alejandro González Iñárritu
Com: Sean Penn, Benicio Del Toro e Naomi Watts
Drama, M/16, EUA, 2003, 124 min.

O filme conta-nos a história de três pessoas diferentes, de mundos distantes entre si, sem nada em comum, sem nada que as aproxime... aparentemente. Christina Peck (Naomi Watts), uma mãe de família que leva uma vida calma e tranquila com as suas duas filhas e o seu adorado marido; Jack Jordon (Benicio Del Toro), um ex-presidiário, que encontrou na sua fé a saída para um caminho melhor, junto da sua família; e Paul Rivers (Sean Penn), um professor de matemática que sofre de uma doença terminal e se vê num casamento destruído e sem amor. Mas este não seria um filme de Alejandro González Iñárritu se, por um terrível acaso, não existisse uma forma de aproximar estas três vidas. Se por um cruzamento, matematicamente improvável, não fosse possível unir estas três linhas num mesmo eixo de dor, perda e culpa.



A morte dos "mais-que-tudo" de Christina (o seu marido e as suas filhas); a carrinha de Jack que fez a curva depressa demais; e um coração, que ainda bate, e que salva a vida de Paul. É este terrível acidente, um ínfimo ponto de cruzamento num espaço e num tempo, que tornará mais próximas estas três pessoas, e as distanciará para sempre da vida que tinham, de tudo o que eram. Christina que se vê sem nada nem ninguém, num mundo não real, criado pela sua dor, pelo seu alcoolismo e toxicodependência. A revolta de Jack contra Deus, contra o seu Deus, que tanto o ajudou e agora o castiga. Revolta que não encontra nem razão, nem perdão, e o afasta das suas antigas certezas e refúgios. Uma nova vida para Paul, uma possibilidade de fuga da sua vida anterior, que pensa já não ser sua. Uma oportunidade para refazer o que já era feito, para voltar atrás e enganar o tempo. Tempo ele que não se engana.

Dizem que todos perdemos 21 gramas no exacto momento da nossa morte.
Mas quanto é 21 gramas? Quanto nos pesa? A uns pesará os estilhaços perdidos de uma outra vida que já não existe; a outros pesará um mundo de culpa, que carregarão às costas para o resto da vida; e a outros não pesa - alivia. Porque a perda também traz com ela oportunidade. E da perda renascerá a esperança, e surgirá o caminho, à espera de ser caminhado. E aos passos por dar neste caminho futuro, chegará a liberdade para o percorrer, e a força para nos levantar e fazer seguir, neste caminho em espera de ser vincado. E com estes passos nos traçaremos, nos edificaremos. E com eles construiremos outros trilhos, outras pontes, outros cursos, e outros caminhos... Até um próximo cruzamento.

"E quando o que se tinha perdido foi queimado, os campos de milho voltaram a ser verdes."


08 abril, 2013

O Fazedor de Milagres



Em tempo de Natal, surgem em todos os écrans televisivos aproximações à narração da história de Jesus.
Argumento/Sinopse 

O filme decorre durante o século primeiro acompanhando a história de uma menina que padece de uma doença que ninguém pode curar. Na tentativa de descobrir uma forma de sarar a filha, a família encontra um carpinteiro chamado Jesus que anuncia as maravilhas de Deus. O encontro com Jesus vai fazer nascer uma esperança e uma atitude nova. Todos juntos acompanham Jesus enquanto Ele forma os seus discípulos, enfrenta as autoridades corruptas e cura os doentes e antes de enfrentar a parte mais terrível da sua missão: dar a vida para salvação de todos. A perspectiva escolhida para narrar a trama, a partir da óptica de Tamar, a filha de Jairo que Jesus ressuscita, torna-a ainda mais emotiva. Tamar é uma personagem simpática, terna e sensível, transportando-nos para um mundo de sensibilidade e ternura tocantes ao longo do filme. Em paralelo, surge a história de Jesus, com medida certa e abordagem interessante e feliz. 

Crítica 

“O Fazedor de Milagres” é um relato em animação da história de Jesus aclamado pela crítica. Ao nível de “Toy story” e outros filmes de animação de alta qualidade, o realismo das suas imagens conduz a uma aproximação da realidade confundindo os espectadores. Nele, a história de Jesus é contada fluentemente, com recurso ao desenho animado para os momentos de flashback. Os autores tomam simplesmente a história dos evangelhos, com algumas modificações menores (fundamentalmente nas figuras negativas de Herodes e Pilatos, um pouco à imagem de “Rei dos Reis” de Nicholas Ray), e converte toda a essência da história de Jesus num filme feito de imagens em plasticina. De fora, ficam alguns momentos importantes de modo a respeitar todos os públicos evangélicos (não católicos): a anunciação a Maria, a visita a Isabel ou a fuga para o Egipto; como ausente está a Transfiguração, a confissão de Pedro e as chaves do Reino. Mesmo assim, consegue o quase impossível respeito pelo original evangélico ao mesmo tempo sem cair no aborrecimento, numa visão de Jesus segundo os evangelhos, religiosamente neutra. 

Aplicações 

O mundo da animação é sempre uma proposta simpática de abordagem para a história de Jesus. Este “fazedor de milagres” extraordinário que transforma as vidas dos que com Ele se cruzam. Realizado entre a Inglaterra e a Rússia, podemos neste Natal usá-la como ponto de referência para a apresentação da vida de Jesus. Mas pode ser usado em tantas outras situações: em referência ao chamamento dos discípulos, à paixão e ressurreição de Jesus, a algumas parábolas, enfim, a tantos aspectos da vida de Jesus. 

Actividade 

“Rasguem caminhos através do deserto. Abri os corações ao Senhor que está para chegar” – diz-nos João. Esta é a nossa tarefa de Advento: preparar a vinda do Senhor que está para chegar ao nosso coração. 

Sequências 

- 0:00:00 – 0:08:50 – No início do filme apresenta-se Jesus como carpinteiro iniciando uma missão. Em flashback, surge a perda de Jesus no Templo e o nascimento de Jesus, com os presentes e a epifania aos Reis Magos. E a voz de João no deserto: preparai os vossos corações para o Senhor que está para chegar. 

1. Dialogar a partir das imagens vistas. Jesus está de novo a chegar, como em cada Natal. Que sentido tem prepararmos a vinda de Jesus? Como poderemos, também nós, abrir o nosso coração? 

2. Mais: que significa hoje abrir o nosso coração a Jesus para que seja morada de Deus? Diante das mil cores do Natal, das mil propostas do comércio e do consumismo, como poderemos proteger o nosso coração daquilo que não interessa deste Natal? 

3. Diálogo final. Há muita gente que não sabe o que é o Natal de Jesus, mesmo que a sua rua esteja enfeitada, mesmo que recebendo presentes de Natal, mesmo que atordoados pela publicidade deste tempo. Há uma canção do CD “Natal de Esperança” das Edições Salesianas, que diz “Não sabem que é Natal”: há noutra terra, homens em guerra, gente gritando, gente chorando, gostava tanto que eles soubessem que é Natal”. Que podemos fazer para tornar verdade o Natal hoje? 

“Presente para Jesus: o nosso coração cheio de ti” 

Qual seria o melhor presente que poderíamos oferecer a Jesus neste Natal? Certamente, que um gesto de solidariedade, de partilha, de encontro com o mais pobre. Dependendo da idade dos nossos destinatários, podemos criar algo de novo para este tempo de Natal e Epifania, de manifestação da presença de Deus no nosso mundo. Propomos agora um presente simples de realizar para idades mais pequeninas, enriquecidas pelo amor que enche os nossos corações. No centro do nosso coração está o presépio: o nascimento de Jesus – na simplicidade dos que nada têm, na vida dos que sofrem, na vida de tantos que, como nós, querem que haja Natal de novo. 
Propomos fazer, sobretudo para os mais pequenos, um cartão que seja um “presente para Jesus” que se pode colocar junto do Presépio. Num cartão simples, que pode ter as figuras principais do presépio (José, Maria e o Menino), cada catequizando poderá apresentar o seu presente para Jesus, sabendo que no mundo (e no nosso mundo), há muitos que “não sabem que é Natal”. Que o compromisso de cada um seja autêntico e possível de realizar. 

25 março, 2013

Os Croods


Na pré-história os Croods são uma família de seis que vive ao abrigo do sentido de protecção do patriarca. Confinando-os à caverna onde habitam e a uma escassa área em seu redor, Grug, o pai, crê ser esta a melhor forma de cuidar dos seus, não os expondo a nenhum tipo de ameaça... desnecessária.
Porém, quando um fenómeno incontrolável destrói a caverna e o idílio em que Grug imaginava poder viver para sempre, não resta aos Croods senão partirem em busca de um novo lugar para viver. Assim começa uma grande aventura que, sem evitar perigos lhes, proporcionará inúmeras descobertas e ótimas surpresas.
Desde 1998 que a Dreamworks Animation mantém em pleno o seu ritmo de produção cinematográfica pensado para o público mais novo, destacando-se filmes como o primogénito "Ant Z - Formiga Z", "O Príncipe do Egito", "Shrek", "Pular a Cerca", "Madagáscar", "O Panda do Kung Fu" e, mais recentemente, "O Gato das Botas"
Na sua linha, variando embora os estilos, temas abordados e equipas encarregues da concretização de cada projeto, permanecem o espírito de aventura e a preocupação de uma mensagem pedagogicamente válida.
Os filmes da Dreamworks veiculam valores universais como o espírito de entreajuda, a amizade, a abertura ao outro, sobretudo o desconhecido ou diferente, o respeito pela natureza, as virtudes da esperança ou da caridade e a importância do sentido para a vida – o que normalmente move as personagens a ultrapassar o que crêem ser os seus próprios limites.
"O Príncipe do Egipto" é um caso, de certa forma, à parte, não pela ausência de valores mas por provir de fonte própria – o livro bíblico do Êxodo.
Sem se desviar da linha a que a produtora nos habituou, "Os Croods" transformam-se na proposta da Páscoa para o público português mais novo.
Com pouco mais de hora e meia de animada aventura, esta história de risco em que os ganhos resultam sempre superiores às perdas não evita o facilitismo de estereótipos que pouco contribuem para diferenciar o cinema como proposta de genuína interpelação humana.
Por outro lado o filme cumpre uma fórmula certeira com a passagem de uma mensagem positiva relativamente à disponibilidade para o desconhecido e à importância de se sair da zona de conforto para se poder ir mais longe – como pessoa e como família. Rejeitando o heroísmo individualista e transformando o que parece ser "o fim" num surpreendente "reinício". O que nos tempos que correm faz bom sentido.

04 março, 2013

As crónicas de Nárnia



O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (2) 

Os paralelismos entre este filme “As Crónicas de Nárnia: o Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa” e o cristianismo são muitas. Se na primeira parte vê-se as características das personagens, nesta, quer-se descobrir algumas possibilidades do seu uso catequético. 
Jogos de espaços 

No primeiro filme de “Nárnia”, conhecemos dois mundos: o primeiro, o “real”, está inundado pela guerra e pela seriedade da casa que acolhe as crianças; pela desordem e pela ordem. No “novo mundo” de Nárnia, duas realidades se conjugam: o Inverno constante que domina a vida inundada pela força do mal e a Primavera a despertar uma nova possibilidade com cor, energia, Vida. Jadis, rainha de gelo, é a dominadora da situação permanente de invernia; Aslan é portador do colorido que o bem faz irromper no mundo das trevas de Jadis. Conforme vai ganhando espaço a novidade profética da nova era, o mundo novo vai ganhando espaço. Até ao confronto final. Frio e calor, confrontam-se, na esperança da vitória do bem sobre o mal. 

Sentido temporal 

Não são apenas os personagens, os objectos e os acontecimentos que parecem ter uma dimensão simbólica, mas também a sequência temporal (a cronologia) da história. A história de Nárnia começa em casa, num jogo de esconde-esconde, e passa-se ao novo mundo através da porta de um guarda-roupa. Mas apenas para quem acredita. Lucy, primeiro, depois os irmãos, quando surge a necessidade. É preciso fé. Também em Cristo, descobrimos a porta que nos conduz ao encontro com o Reino de Deus. Este “novo mundo” que Lucy descobre, existe “paralelamente” ao nosso mundo. Mais, antes do nosso mundo começar, vivendo na necessidade de uma redenção que termine o Inverno que o atormenta. 
No personagem Aslan, surge a imagem representativa de Cristo. Percebemos como a “mesa de pedra” simboliza o “lugar do Gólgota” no qual Cristo dá a vida pela remissão dos que são seus, oferecendo a vida em vez do “traidor” Edmund, que, mesmo arrependido, deve ser pertença de Jadis. Em troca desta pertença, Aslan oferece-se em sacrifício. Na sua entrega, pela sua vida, novos horizontes ressurgem e, nesse lugar de tormento e sacrifício, rodeado pelos personagens maléficos de Jadis, Aslan oferece-se, na certeza da redenção. E, como que ressuscitando, volta para se colocar ao lado dos que se mantiveram fiéis no campo do bem. 
A história mostra ainda a forma de usar os dons que Deus na nossa luta constante pela fé (Ef 6, 13), como a armadura da fé capacita para o discernimento e a constância na fé. Por fim, a história coloca diante de todos a importância de cada um escolher o melhor dos lados, e defender a fé até ao final, enfrentando todas as dificuldades no caminho da verdade, do amor e da vida de Deus em nós, no novo Reino de Deus em nós. 

Aplicações 

Dado o cariz deste filme, pode ser usado em diferentes circunstâncias na catequese. Perdão, fidelidade, compromisso, arrependimento, amparo mútuo, luta constante pelo bem, apoio em Jesus que por nós dá a vida, atenção a todos, são alguns dos temas possíveis de serem tratados com este filme. Aqui apresentamos algumas ideias. 

Actividade 

1. “As crónicas da nossa vida” 

As “Crónicas de Nárnia” narram a aventura de quatro irmãos e o seu papel na identidade de um mundo novo onde Deus e o seu filho Jesus se fazem presentes. Também na nossa vida há muitas circunstâncias que estão marcadas pela presença de Deus. Começando pelo nosso nascimento, pelo Baptismo, a Primeira Comunhão, em tudo o que nos acontece. A nós, cabe-nos construir nesta vida uma crónica de amor, uma resposta que corresponda ao Evangelho de Jesus na nossa vida. Podemos começar por escrever essas “crónicas” fazendo notar como Deus actua no nosso existir. 

2. “Não falhar aos amigos” 

No início do filme, há o encontro entre Lucy e Mr. Tumnos, o Fauno. O Fauno faz tudo para cativar Lucy para depois a entregar à Rainha Jadis. Não falhar aos amigos, torna-se aqui um tormento para Tumnos que sente os maiores remorsos do mundo por ter entregue Lucy. Um pouco do mesmo se passa com Edmund, que em troca de uns bombons e a promessa de poder, se entrega a Jadis, entregando, em consequência, toda a sua família. A passagem destas sequências pode gerar uma reflexão sobre a fidelidade aos outros e à nossa família. 

3. Escrever uma carta desde Nárnia 

No mundo de Nárnia, todas as coisas são diferentes. Com qual dos quatro personagens – Peter, Susan, Edmund ou Lucy – vos identificais mais? Imaginando que sois o vosso personagem preferido, procurai escrever uma carta desde Nárnia, fazendo notar o que há de especial em Nárnia. Achas que há alguma coisa ou alguém que no nosso mundo seja como a rainha Jadis? Imagina que no nosso mundo era sempre Inverno... 

4. Metáfora de Jesus em Aslan 

No filme, há uma cena simples, mas cheia de significado, que descreve os sentimentos das crianças a primeira vez que ouvem o nome de Aslan. Edmund sente medo. O Peter sente a vontade da bravura. A Susan ouve uma bela melodia. E a Lucy sente-se como no primeiro dia de férias de verão. Os diferentes sentimentos que sentem revelam as suas personalidades, o seu carácter e a sua resposta a Aslan. Aslan, pode aqui representar a Jesus. De que modo? Porquê? 

5. Bandeira dos seguidores de Aslan 

Aslan é uma personagem essencial deste filme. Para uma identificação com Aslan (uma imagem possível de Jesus), pede-se aos membros do grupo para fazer uma bandeira que identifique os seguidores de Aslan. 

Materiais: 

- Dois paus: um com 30 cm, outro com 70 cm 
- Pano com 28cmx60cm 
- Tintas de água 
- Tesoura 
- Fio para prender os paus em cruz e a bandeira aos paus 

Com os dois paus, faz-se uma cruz. A ideia é criar uma bandeira de estilo “medieval” com os símbolos dos seguidores de Aslan. Depois pinta-se a bandeira e prende-se nos dois paus em cruz tal como indica o esquema. 

11 fevereiro, 2013

"NUNCA É TARDE”



Andamos sempre atrás de bons propósitos e grandes projectos. Procurando um horizonte de sentido e realização pessoal. Dando o melhor para fazer desta vida um sonho realizado de felicidade e santidade (dizemos os cristãos). Com optimismo, com verdade, com alegria. Sendo felizes, tornando os outros felizes. Mas o tempo para tudo isto escasseia. Passa demasiado veloz para sermos felizes. E santos. E não tem volta atrás. Não sabemos o dia nem a hora. Porque tudo pode ser novo de um momento para o outro, não esqueçamos: “nunca é demasiado tarde”!
Argumento/Sinopse

“Nunca é tarde”, 2007, realizador Rob Reiner, com Jack Nicholson e Morgan Freeman, gen. Drama/aventura/comédia, 137 minutos.
A história é simples. Dois personagens totalmente díspares têm um elemento comum – a certeza, devido a um cancro terminal, da morte a curto prazo. Um mesmo quarto do hospital. Um mesmo tempo: seis meses a um ano de vida. De um lado, Jack Nicholson (Edwardo Cole) interpreta o papel de um bilionário mal-humorado, impaciente, só e pouco amigável. Quatro vezes divorciado, diz-se casado com o seu próprio dinheiro. Morgan Freeman (Cárter Chambers) é o oposto. Mecânico de automóveis para sobreviver, simpático, amigo, conhecedor de praticamente tudo, feliz com a família que ama e onde é amado. A ambos é diagnosticado um cancro. Que fazer? Porque nunca é tarde demais, é preciso aproveitar o tempo para ser feliz. Diria, egoísticamente feliz. Numa lista longa, estabelecem-se as possíveis realizações: sky-jumping, conduzir um Shleby 350, fazer uma tatuagem, visitar os Himalaias, as pirâmides do Egipto, o Taj Majal, fazer um safari em África, beijar a rapariga mais bonita do mundo, rir até chorar ou ajudar um estranho por bem: eis alguma das possíveis acções. E no fim? A quase certeza do dever cumprido. Será?

Crítica

Nesta comédia simples, por vezes negra, a interpretação histriónica de dois grandes nomes de Hollywood relança a pergunta pelo sentido da vida. Apesar do tema (a doença e a morte), é uma história cheia de bom humor. Poderia ser, no entanto, muito mais emotiva e mais humana, atendendo aos temas em questão. Duas personalidades opostas levam por diante o sonho hedonista de não deixar de fazer o que sempre se sonhou fazer. No fundo, parece que nenhum dos dois enfrenta realmente a morte: quem abandonaria a família – objecto de atenção, prioridade e privação durante 45 anos – num momento tão delicado como a doença terminal de um cancro, como faz Chambers? Ou viajar à volta do mundo, sabendo que tudo isto está para terminar? E no meio de tudo isto, a procura da felicidade (passageira) neste aquém de existir. Onde ficam os grandes princípios e a razão última por que vivemos? A história torna-se, então, previsível, passando demasiado tempo “em viagem”. Ainda por cima, a realização deixa a desejar, já que com facilidade percebemos, pela fragilidade dos efeitos especiais, que nem Nicholson, nem Freeman estiveram no Egipto, em África ou na Índia. O que poderia ser um excelente contributo narrativo sobre o sentido da vida fica-se pelo “Nunca é tarde demais” de dois velhos, por vezes a querer coisas de jovens na ilusão da eterna juventude…

Aplicações

Apesar da temática geral do filme (morte e cancro), há um conjunto de pequenas cenas que se poderão utilizar em diferentes contextos e temáticas, sobretudo na catequese com jovens (recordo que o filme é para maiores de 13 anos). A pergunta pelo sentido da vida, a procura da felicidade, da missão que temos a desempenhar neste mundo. Mas também se pode abordar o tema da solidão, da família e da relação entre fé e razão, fé e agnosticismo.

Actividade

Com este filme, podem-se desenvolver diferentes tipos de actividade consoante o tema a ser tratado. É de notar que um certo tom no filme de pendor negativo no que toca ao presentismo excessivo deverá ser tido em conta para uma abordagem de fé à temática da morte.

Sequência

Nesta sequência inicial, o personagem de Freeman pergunta pelo sentido da existência que é difícil avaliar a vida de uma pessoa: será pela fé? Será pelo amor? Importante é descobrirmos a forma de abrir o nosso coração. Esta cena completa-se com a cena final do filme. Que nos move nesta vida? Que é que nos serve para avaliarmos, nós cristãos, a vida que vivemos?

Nesta sequência, é explicado o sentido da “lista” que estão prestes a desenvolver antes de “bater a bota” (“the Bucket list” é o titulo original do filme).

Durante a viagem, os dois personagens estabelecem um interessante diálogo sobre a fé. Afinal, o que é a fé? O que é acreditar? Qual a relação entre razão e fé? O diálogo é curto e pode servir de introdução a uma apresentação sobre a fé e razão (por exemplo, com o texto de João Paulo II, fides et Ratio)

No cimo das pirâmides do Egipto, Cárter conta uma história sobre a felicidade. Quando se chegar ao outro lado da vida, os deuses egípcios antes de deixar entrar no céu perguntarão: encontraste felicidade em vida? E a tua vida, deu felicidade a outro? Estas são também questões importantes a serem respondidas na nossa vida.

Querendo tratar o tema da família, da qualidade das relações interpessoais entre os membros da família versus a tristeza de se viver só, aqui encontra uma sequência, que apesar de curta, é demonstrativa das diferenças.

Sequência final do filme em que se cumprem os elementos que faltam à lista e se compreende a sequencia inicial que aqui fica completa. 

19 janeiro, 2013

Rango: quem sou eu?


Rango (Johnny Depp) é um camaleão da grande cidade que vai parar, após um acidente, em pleno velho oeste, à cidade de Poeira, no deserto Mojave, na Califórnia. De uma hora para outra, a sua rotina de animal de estimação muda radicalmente. Agora ele tem que deixar a sua vida "camuflada" para enfrentar os perigos do mundo real. O mundo real vai fazê-lo experimentar a verdadeira amizade, a inimizade, a verdade, a mentira, a preocupação pelos que ama, a doação, entre muitas outras dimensões da vida real, quando a vida é agarrada, por cada um, com determinação e não apenas com passividade.

O personagem principal sai do comodismo da vida sem sentido, para fazer uma viagem interior, uma viagem de auto-conhecimento, a qual o leva a descobrir o sentido da sua própria vida. Nesta viagem vai descobrir como é necessário sair do seu mundo para descobrir quem é verdadeiramente, por isso é que esta viagem mais do que exterior é interior. Rango deixa a sua vida quotidiana para se encontrar com o seu verdadeiro "eu". "Quem sou eu?" É a pergunta que atravessa toda a história deste camaleão, profissional em escolher a personagem que mais se adapta ao meio em que se encontra.

A descoberta do seu verdadeiro "eu", vai levar Rango a descobrir que cada pessoa tem um papel importante na sociedade e na construção da mesma, um papel muito concreto. Por mais simples que seja a nossa contribuição para a sociedade, quando ela é feita com verdade, pode provocar uma mudança no rumo da sociedade. A tradição judaica costuma dizer: "Salva um homem e terás salvo toda a humanidade". 

A vida real demonstra-nos que a melhor forma de estar, seja em que meio for, é sendo aquilo que somos verdadeiramente. E só saberemos o que somos verdadeiramente, quando permitirmos a nós próprios ouvir a interpelação que o outro me faz, na suas pobreza e fragilidade. O outro precisa da minha ajuda e clama pelo meu auxílio, mesmo quando esse outro não admite de consciência que precisa de ajuda. Tal como Rango, deixemos que a vida nos interpele e que nos leve ao encontro da necessidade do outro, dos outros; deixemos que a vida nos leve a descobrir quem realmente somos no encontro com o outro. Este encontro só tem lugar quando cada um de nós sair da sua própria casa, do mundo que construiu para si mesmo.