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22 julho, 2013

O tempo


Uma criança perguntou timidamente ao pai quando este regressava do trabalho:
— Pai, quanto é que ganhas por hora?
O pai, friamente, respondeu:
— Para que queres tu saber? São dez euros por hora.
— Então, pai, poderias emprestar-me três euros?
— Ah! É por isso que queres saber quando ganho por hora?! Vai para a cama e não me aborreças mais!
Daí a bocado, o pai começou a pensar no que tinha acontecido e sentiu-se culpado. Talvez o filho necessite de comprar algo. Entrou no quarto e perguntou-lhe baixinho:
— Filho, já estás a dormir?
— Não, pai.
— Olha, aqui tens os três euros que me pediste.
— Muito obrigado, pai. Depois a criança levantou-se, foi buscar os sete euros do mealheiro e disse ao pai:
— Agora já tenho dez euros! Pai, podias vender-me uma hora do teu tempo? 

01 julho, 2013

O carpinteiro



Um velho carpinteiro que construía casas estava pronto para se aposentar. Informou o chefe do seu desejo de sair da indústria de construção e passar mais tempo com a família. Ainda disse que sentiria falta do salário, mas realmente queria aposentar-se.
A empresa não seria muito afectada pela saída do carpinteiro, mas o chefe estava triste por ver um bom funcionário partindo e pediu ao carpinteiro para trabalhar em mais um projecto, como favor. O carpinteiro não gostou mas acabou concordando. E foi fácil ver que ele não estava entusiasmado com a ideia.
Assim prosseguiu fazendo um trabalho de segunda qualidade e usando materiais inadequados. Foi uma maneira negativa dele terminar a sua carreira. Quando o carpinteiro acabou, o chefe veio fazer a inspecção da casa construída.
Deu a chave ao carpinteiro e disse:
"Essa é a sua casa. Ela é o meu presente para ti.".
O carpinteiro ficou muito surpreso. Que pena! Se ele soubesse que estava construindo a sua própria casa, teria feito tudo diferente.





24 junho, 2013

Um Rio e dois lagos



Na Terra Santa há dois lagos alimentados pela mesma fonte: o Rio Jordão. Ficam situados a alguns quilómetros de distância um do outro. Mas ambos possuem características bem distintas entre si. Um é o Lago de Genesaré, também conhecido como Mar da Galileia ou Lago de Tiberíades. O outro é o chamado “Mar Morto”.
O primeiro é azul, cheio de vida e de contrastes, de calma e de ondas. Nas suas margens, deflectem-se as flores amarelas dos seus prados. O Mar Morto é uma Lagoa densa de água salgada em que não há vida. A água que vem do rio, ali fica estagnada. O que é que faz destes dois lagos, alimentados pelo mesmo rio, lagos tão diferentes? Simplesmente isto:
O Lago de Genesaré transmite generosamente o que recebe. A sua água, quando chega ali, parte de imediato para remediar a seca dos campos. Sacia a sede dos homens e dos animais. É uma água altruísta. A água do Mar Morto estagna-se. Adormece. É salgada. Pesada. Mata. É uma água egoísta, estagnada, inútil.
Com as pessoas, passa-se o mesmo. Recebem a vida da mesma fonte. As que vivem com generosidade, dando-se e oferecendo-se aos outros, geram vida e fazem viver. As pessoas que, com egoísmo, recebem, guardam e não repartem, são como a água estagnada, que morre e causa a morte à sua volta.
Muitas pessoas são parecidas com o Mar Morto: só recebem, acumulam, não se dão e, assim, constroem uma vida amarga, desgraçada e infeliz. São extremamente salgadas e intragáveis.
Há outras, porém, que dão e se oferecem a si mesmas com generosidade e sem nada esperar como recompensa… Estas são as pessoas mais felizes do mundo. Quanto menos partilhamos, mais pobres nos tornamos. Quanto mais nós damos, mais recebemos.

O que acumula apenas para si, chama desesperadamente pela infelicidade e esta vem ter com ele. Recebe de graça e não reparte; acumula só para si e apodrece; enquanto o que reparte, divide, planta, colhe, refloresce. Espera só em Deus e a seu tempo acontece. Aquele que reparte abre a porta à felicidade.



17 junho, 2013

Assim está o mundo


Um homem juntou-se a Jesus, dizendo: «Quero ser teu companheiro». Jesus aceitou, e ambos seguiram viagem. Quando chegaram à margem de um rio, sentaram-se para comer. Levavam três pães. Comeram dois e sobrou um. Depois, Jesus foi ao rio beber água. No regresso, não tendo encontrado  o terceiro pão, perguntou ao homem: «quem tirou o pão?». Ele respondeu:«não sei».
Continuaram a viagem, e, no caminho, Jesus realizou dois milagres. Das duas vezes voltou-se para o companheiro, dizendo: «Em nome d´Aquele que te mostrou este milagre, pergunto-te: quem tirou o pão?». E o homem voltou a responder: «não sei».
Chegaram depois ao deserto e sentaram-se no chão. Jesus dividiu o ouro em três partes e disse: «um terço para ti, um terço para mim e um terço para quem tirou o pão». Aí, o companheiro atirou: «fui eu que tirei o pão!». Jesus disse: «o ouro é todo teu».
Jesus continuou sozinho o seu caminho. Entretanto, chegaram dois salteadores que queriam roubar o ouro ao antigo companheiro. Este, porém, disse: «vamos dividi-lo em três partes e um de vós vai à cidade comprar comida». Um deles foi então à cidade e pensou de si para consigo: «porque hei-de dividir o ouro com estes dois? Vou antes envenenar a comida e ficar com o ouro todo para mim». E comprou comida, que envenenou.
Por sua vez, os que tinham ficado à espera disseram: «porque havemos de dar-lhe um terço do ouro? Em vez disso, vamos é matá-lo, quando regressar, e dividimos o ouro entre os dois».
Quando o terceiro voltou, mataram-no. Depois, comeram a comida envenenada e também morreram os dois. E o ouro ficou no deserto com os três homens mortos ao lado. Aconteceu que Jesus passou por ali e, ao ver aquela miséria, disse aos discípulos: «Assim é o mundo. Tende cuidado».


KHALIDI, Tarif – Jesus Muçulmano: máximas e histórias de Jesus na literatura islâmica.

10 junho, 2013

Cura de Naaman - águas santificadoras do baptismo


«Naaman, general dos exércitos do rei da Síria, gozava de grande prestígio diante do seu amo e era muito estimado, porque, por meio dele, o Senhor salvou a Síria; era um homem robusto e valente, mas leproso. Ora tendo os sírios feito uma incursão no território de Israel, levaram consigo uma jovem donzela, que ficou ao serviço da mulher de Naaman. Ela disse à sua senhora: «Ah, se o meu amo fosse ter com o profeta que vive na Samaria, certamente ficava curado da lepra!» Naaman foi contar ao seu soberano aquilo que dissera a jovem israelita. O rei da Síria respondeu-lhe: «Vai, que eu vou escrever uma carta ao rei de Israel.» Naaman partiu levando consigo dez talentos de prata, seis mil siclos de ouro e dez mudas de roupa. Levou ao rei de Israel uma carta escrita nestes termos: «Juntamente com esta carta, aí te mando o meu servo Naaman, para que o cures da sua lepra.» Ao terminar de ler a carta, o rei de Israel rasgou as suas vestes e exclamou: «Sou eu, porventura, um deus que possa dar a morte ou a vida, de modo que me enviem alguém para eu o curar da lepra? Reparai e vede como ele busca pretextos contra mim.» Mas Eliseu, o homem de Deus, soube que o rei rasgara as suas vestes e mandou-lhe dizer: «Porque rasgaste as tuas vestes? Que ele venha ter comigo e saberá que há um profeta em Israel.» Chegou, pois, Naaman com o seu carro e os seus cavalos e parou à porta de Eliseu. Este mandou-lhe dizer por um mensageiro: «Vai, lava-te sete vezes no Jordão e a tua carne ficará limpa.» Naaman, despeitado, retirou-se, dizendo: «Pensava que ele sairia a receber-me e, diante de mim, invocaria o Senhor, seu Deus, colocaria a sua mão no lugar infectado e me curaria da lepra. Porventura, os rios de Damasco, o Abaná e o Parpar, não são acaso melhores do que todas as águas de Israel? Não me poderia lavar neles e ficar limpo?» E, virando costas, retirou-se indignado. Mas os seus servos aproximaram-se dele e disseram-lhe: «Meu pai, mesmo que o profeta te tivesse mandado uma coisa difícil, não a deverias fazer? Quanto mais agora, ao dizer-te: ‘Lava-te e ficarás curado.’» Naaman desceu ao Jordão e lavou-se sete vezes, como lhe ordenara o homem de Deus, e a sua carne tornou-se como a de uma criança e ficou limpo. Voltou, então, ao homem de Deus com toda a sua comitiva; entrou, apresentou-se diante dele e disse: «Reconheço agora que não há outro Deus em toda a Terra, senão o de Israel. Aceita este presente do teu servo.»Eliseu respondeu: «Pelo Senhor, o Deus vivo a quem sirvo, juro que nada aceitarei.» E, apesar das instâncias de Naaman, ele continuou a recusar.»
2 Rs 5,1-16

Comentário[1]: não devias acreditar apenas no que vês (Cf. 2 Cor 4,18), para que digas: grande mistério que nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem jamais passou pelo pensamento do homem (Cf. 1 Cor 2,9; Is 45,5; Dt 4,32). Se vejo estas águas todos os dias, como posso purificar nelas? Sem espírito, nada purifica.
No baptismo as três testemunhas são uma só: a água, o sangue e o espírito. O que é a água sem a cruz de Cristo? É um elemento comum, sem nenhuma eficácia sacramental. Que mais não foi o madeiro lançado na água de Mara (fonte amarga do deserto) por Moisês (Cf. Ex 15,23-27)? De amarga, tornou-se em doce, com utilidade futura e esperança de salvação.


[1] Ambrósio de Milão (Séc. IV) – In Antologia Litúrgica, nº2035-2036

20 maio, 2013

Esperança de uma vida nova!


    


    Era uma vez uma pequena lagartita às riscas que saiu do ovo que tinha sido a sua casa por muito tempo.
     – Olá, mundo! – disse ela – Como brilha o sol aqui fora!
    Tenho fome – pensou, e logo começou a comer a folha em que havia nascido. E comeu outra folha…, e outra, e cresceu, e outra…e cresceu...
    “Na vida, tem que haver mais que simplesmente comer e crescer” “Isto está a tornar-se aborrecido”
    Então, Risquitas desceu da árvore, sua amiga, que lhe havia dado sombra e alimento. Buscava algo mais!
    E então, decidiu-se a começar um caminho diferente, um caminho desconhecido. E começou a sua aventura! Começou um caminho novo em direcção ao sol.
    
    Muito perto do caminho havia um gafanhoto: 
    Para onde te diriges?-, perguntou-lhe ele.
    Sem deixar de caminhar, a lagartita respondeu: 
    Tive um sonho! Ontem à noite sonhei que desde o cimo da grande montanha conseguia ver todo o vale. Gostei muito do que vi no meu sonho e decidi realizá-lo.
    Surpreendido, o gafanhoto disse, enquanto a sua amiga se afastava: 
    Deves estar louca!,     Como poderás chegar até àquele lugar? -Tu, uma simples lagarta!
   Uma pedra será una montanha, um pequeno charco um mar e qualquer tronco uma barreira intransponível.
    Mas a lagartita já estava longe e não o escutou. Os seus diminutos pés não deixaram de mover-se.
    
    Logo se ouviu a voz dum escaravelho: 
    Para onde vais com tanto empenho?
    Já suando, a lagartita disse-lhe radiante: 
    Tive um sonho e desejo realizá-lo, subirei àquela montanha e desde aí contemplarei todo o nosso mundo.    O escaravelho não pôde conter o riso, soltou uma gargalhada e logo disse: 
    Nem eu, com patas tão grandes, tentaria uma empresa tão ambiciosa.
    Ele ficou deitado por terra por causa do riso, enquanto a lagartita continuou o seu caminho, havendo avançado já uns quantos centímetros.
    Do mesmo modo, a aranha, a toupeira, a rã e a flor aconselharam a nossa amiga a desistir.
Não o conseguirás jamais! – disseram-lhe –,  mas no seu interior havia um impulso que a obrigava a seguir.

    Já completamente esgotado, sem forças e a ponto de morrer, decidiu parar para descansar e construir com os seus últimos esforços um lugar onde pernoitar. – Estarei melhor! – foram as suas últimas palavras e morreu.

    Todos os animais do vale, durante dias a fio, foram ver os seus restos mortais. Aí estava o animal mais loco da povoação. Tinha construído, como sua sepultura, um monumento à insensatez. Aí estava um duro refúgio, digno de alguém que morreu por querer realizar um sonho irrealizável.
    Numa manhãzita, em que o sol brilhava de uma maneira especial, todos os animais congregaram-se junto àquilo que se tonara uma advertência para os atrevidos.
Rapidamente ficaram atónitos. Aquela carapaça dura começou quebrar-se e com assombro apareceram uns olhos e depois uma antena que não podia ser a da lagartita que acreditavam estar morta.
    Pouco a pouco, como se fosse para dar-lhes tempo de recomporem-se do impacto, foram saindo umas belíssimas asas em arco-íris daquele impressionante ser que tinham frente a eles: Uma borboleta!
    Não houve nada para dizer, todos sabiam o que faria a nova borboletazinha. Iria voar até à grande montanha e realizaria um sonho, o sonho pelo qual havia vivido, pelo qual havia morrido e pelo qual havia voltado a viver. Todos se tinham enganado.

Conto tradicional mexicano.

13 maio, 2013

As Portas da Floresta



Quando o grande mestre Rabbi Israel Baal Shem-Tov via a desgraça a ameaçar os judeus costumava dirigir-se a um determinado lugar na floresta para meditar. Quando lá chegava, acendia uma luz e dizia uma oração apropriada; o milagre realizava-se e a desgraça afastava-se.

Mais tarde, quando a desgraça voltava a ameaçar, o seu célebre discípulo, Magi de Mezeritch, dirigia-se para o mesmo lugar na floresta, e dizia: «Senhor do universo, escuta! Não sei acender a luz, mas ainda sou capaz de dizer a oração». E o milagre realizava-se outra vez.

Mais tarde ainda, Rabbi Moshe-Leib de Sassov, este, discípulo do anterior, para salvar uma vez mais o seu povo, dirigia-se para a floresta e dizia: «não sei acender a luz, não sei a oração, mas sei o lugar e isto será suficiente». E era suficiente, o milagre voltava a realizar-se.

Aconteceu, ainda muito mais tarde, a desgraça voltar novamente, e agora, Rabbi Israel de Rizhin, discípulo do anterior, sentou-se na sua cadeira de braços, pôs a cabeça entre as mãos, e falou a Deus: «já nem sequer sei encontrar o lugar certo na floresta. Tudo o que posso fazer é contar a história, e isto deve ser suficiente». E foi suficiente.

WIESEL, Elie – As Portas da Floresta. In COUTO, António – Pentateuco - Caminho da Vida Agraciada. 2ª ed. Lisboa: Universidade Católica Editora, 2005, p. 185. Colecção Estudos Teológicos; 13. 

29 abril, 2013

Anúncio da Ressurreição



Havia um jardim vedado por altos muros que suscitava a curiosidade de muitas pessoas. Finalmente, uma noite quatro homens arranjaram um escadote muito, muito alto para ver o que havia do outro lado.
Quando o primeiro chegou ao cimo do muro, começou a rir muito alto e saltou para dentro do jardim.
Foi a vez do segundo, subiu e, lá em cima, desatou a rir e saltou também ele, lá para dentro.
A mesma coisa fez o terceiro.
Quando foi a vez do quarto, este viu do alto do muro um jardim fantástico (árvores de fruta, fontes, estátuas, flores de toda a espécie e milhares de coisas aprazíveis, atraentes e belas). O desejo de rir e saltar para aquele oásis tão viçoso e ameno era forte, mas um outro desejo teve mais força: o de voltar para o mundo e falar a todos da existência daquele jardim e da sua beleza.
In Folha paroquial: comunidade paroquial de Santo António dos olivais, ano 25, nº26, 15/04/2012 - Coimbra

22 abril, 2013

O velho, o rapaz e o burro



Vivia no monte um homem muito velho que tinha na sua companhia um neto. Certo dia o velho resolveu descer ao povoado com o seu burro fazendo-se acompanhar do neto. Seguiam a pé, o velho à frente seguido do burro e atrás o neto. Ao passarem por uma povoação logo foram criticados pelos que observavam a sua passagem:
- Olhem aqueles patetas, ali com um burro e vão a pé.
O velho disse ao neto que se montasse no burro e este assim fez. Um pouco mais adiante passaram junto de outras pessoas que logo opinaram:
- O garoto que é forte montado no burro e o velho, coitado, é que vai a pé .
Então o velho mandou apear o neto e montou ele no burro. Andaram um pouco mais até que encontraram novo grupo de pessoas e mais uma vez foram censurados:
- Olhem para isto. A pobre criança a pé e ele repimpado no burro.
Ordenou então o velho ao neto:
- Sobe rapaz, seguimos os dois montados no burro.
O rapaz obedeceu de imediato e continuaram a viagem mas um pouco mais adiante um grupo de pessoas enfrentou-os com indignação:
- Apeiem-se homens cruéis, querem matar o burrinho?
Descendo do burro, disse o velho ao rapaz:
- Desce, continuamos a viagem como começamos. Está visto que não podemos calar a boca ao mundo.

Moral da estória: Cada cabeça, sua sentença.


15 abril, 2013

Parábola de uma herança abençoada




O pai, velho e doente, pressentia a sua morte próxima e convocou ao seu leito os quatro filhos.
A minha vida está a terminar e Deus chama-me a deixar os meus bens. Sinto-me abençoado. Tive uma esposa que foi a alegria dos meus dias e a luz das minhas noites. E Deus presenteou-me com a melhor colheita que um lavrador como eu pôde sonhar: sois vós, os quatro filhos do meu amor e das minhas entranhas. Estou-lhe grato: só lhe posso estar grato. Vós sois a minha melhor herança.

As terras, que durante tantos anos semeámos, serão para ti, Amador. És o mais velho dos quatro irmãos e serás o dono da terra que contemplou os nossos passos, recebeu os nossos suores e nos ofereceu o alimento. Trata dela. Temos muitos motivos para confiar nela.

Mercês, o poço da alameda é para ti. Dele beberam os nossos avós e a sua generosidade fertilizou os nossos campos, lavou os nossos corpos e apagou a nossa sede. Não o deixes contaminar porque sem ele cairá sobre vós a morte da seca.

O arado é para ti, Vítor. Ele é obra dos nossos avós e o instrumento que tornou possível lavrar a terra. Sem o arado, os nossos passos teriam sido estéreis e inúteis o nosso suor. Graças a ele os nossos esforços produziram e a terra agradeceu os nossos cuidados. Ele é apenas um instrumento, mas é tão valioso que aliviará o teu cansaço e compensará o teu esforço.

Daniel, tu ficarás com as sementes que nos restam da última colheita. É verdade, não são muitas. Com elas amassamos o pão e foram o alimento necessário para as nossas vidas. Elas têm a qualidade do milagre porque são capazes de se multiplicarem quando caem à terra e nela apodrecem. Contudo, transformar-se-ão em pó se as puseres num pedestal de ouro. De ti depende o seu poder; não te esqueças.

O velho pai morreu e enterraram-no junto à árvore que ele próprio havia plantado no extremo da terra que trabalhou durante toda a sua vida.

O tempo avançava muito mais depressa do que se esperava. Os irmãos, cada um com a sua herança, sentiam que os dias passavam e a infelicidade aumentava. De vez em quando invadia-os a saudade e recordavam como tinham sido felizes nos tempos passados.

Amador possuía a terra mas já estava a monte. As silvas e os arbustos tinham-na invadido até se tornar intransitável. Mercês tinha água em abundância mas começava a cheirar mal. A água estancada converte-se em ameaça para ela mesma, tal como o ser humano parado.

Vitor conservava o seu arado, mas a falta de uso tinha-lhe aberto fendas e uma invasão de teias de aranha tinha-lhe desfigurado a sua imagem e o seu futuro.

Daniel tinha cada vez menos sementes. Estava agradecido por dispor de pão abundante, quente e fresco. Mas aquele monte de sementes que o pai lhe havia deixado era agora só um punhado quase a acabar.

Então perguntaram-se: porque é que o nosso pai dividiu e repartiu a quinta? O que é que o nosso pai faria se ainda vivesse connosco?

Pensando em conjunto, descobriram que unindo as suas forças e as suas riquezas, aquela terra voltaria a ser lavrada, semeada, regada e voltaria a dar alimento para todos. Puseram mãos à obra e sentiram que o seu pai vivia e trabalhava novamente com eles. Fez muito bem em repartir a sua quinta.

01 abril, 2013

A cor das lentes com que se… vê



Que alegria sentiu aquele viajante quando viu ao longe o oásis!
Já tinha percorrido centenas de quilómetros sobre as areias de uma imponente planície desértica. 
À sombra de algumas palmeiras, os habitantes pareciam um paraíso de felicidade: as crianças brincavam, as mulheres cumprimentavam sorridentes e os homens passavam as horas em agradável convívio.

Se antes o nosso viajante imaginava como único paraíso a sombra e a água, agora acabava de descobrir que a felicidade também está, e cresce com o acolhimento, a comunicação e as relações amigáveis.

Aquele ambiente pareceu-lhe tão extraordinário que quis conhecer a sua razão de ser. Ao ver um velho que brincava com uma criança perguntou-lhe: «Oiça, procuro um lugar agradável para viver. Como são as pessoas desta terra?». O venerável ancião não lhe respondeu, mas perguntou por sua vez: «e como são as da sua terra?».

O viajante, respondeu um pouco aborrecido: «As pessoas da minha terra são egoístas, desconfiadas e pouco credíveis». «Pois, aqui as pessoas - disse o ancião – são muito parecidas com essas».
        
O viajante, decepcionado, disse para consigo: «Nem tudo o que reluz é ouro. Mais vale ir procurar outro oásis».

Mas eis que algumas horas mais tarde, casualmente, chegou outro viajante que, ao ver o mesmo espectáculo, fez a mesma pergunta. E o ancião, por sua vez fez também a sua pergunta: «como são as da sua terra?».

O novo viajante lembrou, radiante de alegria, as pessoas da sua aldeia como pessoas cheias de bondade, de boa vizinhança, de alegria e de solidariedade…recordava-as com grande carinho.

O ancião respondeu com o mesmo tom: «Pois, aqui as pessoas também são assim, são muito parecidas».

O viajante foi-se embora contente por ter encontrado tanta gente boa e feliz. Quando ficaram a sós, a criança perguntou admirada ao ancião porque é que respondeu do mesmo modo a pessoas tão diferentes.

O ancião, com ar afável e misterioso, respondeu-lhe: «Não fugi à verdade. O bem e o mal não estão fora, mas dentro de cada um. Costumamos ver com os olhos do coração. Quem desconfia das pessoas no lugar onde vive, também desconfiará no lugar para onde for». 

In Parábolas de Hoje

18 março, 2013

O frasco de vidro e o café




Um professor diante da sua turma de filosofia, sem dizer uma palavra, pegou num frasco de vidro, grande e vazio, e começou a enchê-lo com bolas de golfe. A seguir perguntou aos estudantes se o frasco estava cheio. Todos estiveram de acordo em dizer que "sim".

O professor tomou então uma caixa com pedrinhas e vazou-a dentro do frasco. As pedrinhas preencheram os espaços vazios entre as bolas de golfe. O professor voltou a perguntar aos alunos se o frasco estava cheio, e eles voltaram a responder que "sim".

Logo, o professor pegou uma caixa de areia e vazou-a dentro do frasco. Obviamente que a areia encheu todos os espaços vazios e o professor questionou novamente se o frasco estava cheio. Os alunos responderam-lhe com um "sim" unânime.

A seguir, o professor adicionou duas chávenas de café ao conteúdo do frasco. Elas preencheram todos os espaços vazios entre a areia. Os estudantes, desta vez, riram-se.

Quando os risos terminaram, o professor comentou: "Quero que percebam que este frasco representa a vida. As bolas de golfe são as coisas importantes, como Deus, a família, os filhos, a saúde, os amigos, as coisas que nos apaixonam. Se perdêssemos tudo e ficássemos só com estas coisas, mesmo assim a nossa vida ainda estaria cheia. As pedrinhas são outras coisas importantes, como o trabalho, a casa, o carro etc. A areia é o resto, as pequenas coisas.

"Se colocássemos a areia no frasco em primeiro lugar, não haveria espaço nem para as pedrinhas, nem para as bolas de golfe. O mesmo acontece na vida. Se gastássemos todo o nosso tempo e energias com as coisas pequenas, nunca teríamos tempo para as coisas que realmente são importantes.

Presta atenção, em primeiro lugar, às coisas que são realmente importantes para ti. Define quais são as tuas prioridades, e o resto é só areia."

Um dos estudantes levantou a mão e perguntou: - E o que significa o café?

O professor sorriu e disse-lhe: " Alegro-me por teres feito a pergunta! O café demonstra que, por mais ocupada que pareça estar a nossa vida, há sempre um tempo para o tomar com um amigo. ".

Pensa e medita
Esta parábola pode lembrar-nos que, apesar da nossa vida parecer estar muito preenchida, no frasco de cada dia há sempre um espaço um bocadinho de tempo para tomar café com o amigo. Jesus é esse Amigo. Arranja um bocadinho de tempo para a oração. É nela e por ela que Jesus nos faz ver as coisas mais importantes da jornada para nós.
Na correria do dia, Jesus cruza-se comigo e diz-me: «Queres tomar um café»? 

11 março, 2013

História do Burro



Um dia, o burro de um aldeão caiu num poço. O animal zurrou fortemente durante algumas horas, enquanto o dono procurava ajuda para retirá-lo do poço. Não a encontrando, acabou por decidir que, sendo o burro já velho e estando o poço já seco, o melhor era tapar o poço e não valia a pena tirar o burro.
Convidou então todos os vizinhos para o ajudarem. Cada um pegou numa pá e começaram a atirar terra para dentro do poço. O burro, ao ver o que se estava a passar, começou desesperadamente a zurrar. Mas, pouco depois, para surpresa de todos, calou-se, e só se ouvia o som de pazadas a cair. O aldeão, olhando para o fundo do poço, ficou surpreendido com o que o burro estava a fazer. Sacudia a terra que ia caindo nas costas e dava mais um passo para cima da terra.
Rapidamente, todos viram com espanto como o burro chegou à boca do poço, saltou por cima dos bordos e partiu…
A vida vai-te atirar muita terra para cima, terra de todos os géneros. O segredo para saíres do teu poço é sacudi-la e usá-la para dares um passo para cima. Cada um dos nossos problemas é um degrau para subir. Assim, podemos sair dos vazios mais profundos, se não nos dermos por vencidos… Usa a terra que te atiram, para caminhares em frente.

18 fevereiro, 2013

O choupo e a azinheira




Era uma vez um choupo esbelto que crescia junto a um rio.
Era o último do choupal.
Perto dele havia uma azinheira, frondosa e sapuda.
Era a primeira de um azinhal situado numa encosta.

- Disse o choupo à azinheira:
 «Como é que ficaste tão baixinha?
Eu pensava que irias crescer mais do que eu».

        - A azinheira respondeu:
«Não sou baixinha.
O que acontece é que eu cresci também para baixo.
Tenho raízes fortes. Elas dão-me segurança.
 Digo-te mais: até me metes dó quando o vento sopra fortemente e te vejo a balancear. Parece que vais partir de um momento para o outro. Porque é que crescestes assim?».

-   Respondeu-lhe o choupo: 
«Eu vou sempre à procura do que é novo: novo céu, novo ar, nova luz. Se ficar aí em baixo, abafo. Aborreço-me de estar sempre na mesma. Adoro a novidade. Se visses a paisagem que se vislumbra aqui de cima...!»

-   Disse-lhe a azinheira:
«Olha lá: e se fizéssemos um enxerto de choupo na azinheira? Teríamos a minha segurança e a tua novidade. Que filho tão bonito que nos sairia!».

-   «Excelente! – disse o choupo. Os agrónomos não pensaram nisso, mas nós vamos conseguir».

In Mensageiro do Menino Jesus de Praga

04 fevereiro, 2013

A canoa




Num rio largo e profundo trabalhava um barqueiro simpático e experiente, que atravessava na sua pequena canoa as pessoas de uma margem para a outra.

Certo dia, entraram na sua canoa duas pessoas cultas. Um advogado e uma professora. No meio da viagem, o advogado quebrou o silêncio, perguntando ao barqueiro:
- Você sabe alguma coisa de leis?
- Não, respondeu sorrindo o barqueiro.
- Que pena! Perdeu metade da vida
- Disse compadecido o advogado.
A professora também quis fazer graça e perguntou: você sabe ler e escrever?
- Não sei.
- Que pena perdeu metade da vida.
A canoa continuou a deslizar, mas uma corrente forte virou-a e os passageiros caíram à água.
- Vocês sabem nadar?
- Não! Gritam eles.
- Que pena! Perderam a vida.

Nas travessias da vida, contactamos com gente – numerosa gente – de vários saberes. E nem sempre valorizamos o valor, o saber das pessoas simples com quem contactamos: é o lavrador de mãos calejadas e rosto queimado pelo sol, é o pescador que arriscava a vida todos os dias para brindar com peixes pessoas que nem sequer conhece, são todos trabalhadores que sabem resolver os nossos problemas, os quais não sabemos solucionar.

Quantas vezes descobrimos debaixo de roupas rotas e em mãos calejadas alguém com um saber importante – talvez sem saber ler ou escrever – mas com a sabedoria da vida: servindo e amando os outros.
Nestes tempos de valorização dos valores materiais: do carro que possuem, da vivenda em que habitam, da roupa luxuosa que ostentam, etc… quantas vezes se olha com sobranceirismo orgulhoso para gente que trabalha connosco, que serve com o seu saber elevado e precioso. Cada pessoa, embora não pareça, tem algo de bom, de interessante, de valioso para nos ensinar.
Há muita gente que pela riqueza da experiência, se moldou e aprendeu a “nadar” na vida, com a prática da honestidade, de serviço aos outros.

Certo professor de psicologia fez um teste aos seus alunos, mas nenhum deles soube responder a esta pergunta: Qual o nome da mulher da limpeza da sala de aula?
Nenhum soube responder, embora passassem todos os dias por ela, indiferentemente, como se ela fosse uma pessoa sem valor.
Olhemos para os humildes que a vida de muitos deles contém uma lição surpreendente e bela, merecedora de respeito e digna de imitação.  

In Mensageiro do Menino Jesus de Praga