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26 março, 2014
07 fevereiro, 2013
Um pensamento!
"Um só pensamento do homem
vale mais do que todo o mundo;
portanto, SÓ DEUS É DIGNO DELE"
São João da Cruz, Ditos de luz e amor , 39
Quanto pensamos em algo, a nossa atenção e, no fundo, todo o nosso ser, se volta para aquilo que pensamos.
Ao longo do nosso dia, tantas preocupações, ocupações, coisas ou pessoa são objecto do nosso pensamento. Mas, poucas vezes, e tantos dias bem poucas vezes, é Deus o objecto do nosso pensamento.
Quantas vezes nos voltamos para Deus ao longo do nosso dia? Será Ele menos do que todas as outras coisas que ocupam o nosso pensamento? Merecerá Ele menos do que todas as outras coisas que nos ocupam para que não lhe dêmos algo tão valioso? Dêmos, generosamente, a Deus o nosso melhor.
Fr. Renato Pereira
05 fevereiro, 2013
“Testemunha da verdade: A verdade e o amor têm necessidade um do outro” (Edith Stein)
"Depois da sua conversão e de ter
deixado a sua actividade como assistente de Hursserl, Edith iniciou um percurso
de intensa actividade como professora, escritora, tradutora, conferencista,
filósofa, e pedagoga. Mas toda esta actividade não fazia afastar de uma intensa
vida espiritual.
As múltiplas actividades, o estudo e o ensino eram conciliados com uma
profunda vida de oração. Na oração e «solidão»
do diálogo amoroso com Deus, Edith encontrava a força interior que a fortalecia
em todas as acções e no trabalho intelectual.
«O importante é que cada pessoa tenha um cantinho tranquilo, no qual
possa relacionar-se com Deus, como se nada existisse, e isto diariamente: o tempo
mais oportuno parece-me ser as primeiras horas da manhã, antes de começar o
trabalho; é então quando se recebe a missão especial para cada dia, sem
escolher nada por si mesma; nesse momento, finalmente, contempla-se a si mesma
como um mero instrumento, e as forças com que deve trabalhar […] A minha vida
começa de novo cada manhã e termina cada noite; para além disto, não tenho
nenhum plano ou propósito […]»
A sua vida espiritual, longe de a fechar num casulo e de a fazer
centrar-se sobre si mesma, abria-a para a realidade do Outro e dos outros, numa
dimensão comunitária e de solidariedade humana. O intuito era um só: levar o
homem a Deus e Deus ao homem. Inicialmente Edith pensava que só na vida
religiosa conseguiria este equilíbrio e esta vocação, mas descobriu que no
mundo, na sua vida quotidiana, desempenhando a sua profissão, ela podia
igualmente viver uma relação intensa com Deus. Bastava ser fiel à oração
diária. E é neste equilíbrio das obrigações pessoais e profissionais com a vida
espiritual que Edith se revela uma mística, um exemplo de perfeita harmonia
entre fé e vida, oração e acção.
«Durante o tempo imediatamente anterior a minha conversão e ainda um bom
tempo depois, cheguei a pensar que levar uma vida religiosa significava o
abandono de tudo o que era terreno e viver somente no pensamento das coisas
divinas. Pouco a pouco compreendi que neste mundo nos é exigida outra coisa e
que inclusive na vida mais contemplativa, a ligação com o mundo não se deve
romper; creio, inclusivamente, que quanto mais profundamente alguém está
mergulhado em Deus, tanto mais deve, neste sentido, “ sair de si mesmo” ou
melhor dizendo, entrar no mundo para comunicar – lhe a vida divina».
Neste espírito, Edith Stein adiou o seu projecto de entrar no Carmelo
para desenvolver um trabalho/ apostolado como educadora cristã. Ela estava
consciente da importância e da necessidade da sua missão como leiga católica na
Igreja e na escola. Neste sentido, ela antecipou-se uma vez mais ao concílio
Vaticano II, que veio valorizar a importância a missão do leigo na Igreja no
mundo.
A rectidão e simplicidade de vida, a serenidade, bondade e
disponibilidade, a amizade e o trato com os outros fazem dela um estandarte
duma católica convicta com uma fé forte. Nela não há dicotomia entra a fé e a
vida. Fé e a vida interligam – se de tal forma que são uma só. Ela dá
testemunho da sua vocação como cristã baptizada. Para isso não precisava de
fazer discursos ou dar conferências, bastava o seu testemunho da vida."
“A verdade e o amor têm necessidade um do outro” (Edith Stein)
MACHADO, António José Gomes - Edith Stein: Pedagoga e Mística.
Braga: Editorial A. O., 2008, pp. 147-149. Santos para hoje.
Recolha de Fr. Eugénio.
14 janeiro, 2013
Vigília com São João da Cruz
No dia 15 de Dezembro, aqui no Convento do Menino Jesus de Praga, desenrolou-se uma vigília de oração com São João da Cruz. Esta vigília foi concebida com a participação do grupo de jovens GPS para as crianças dos vários grupos de catequese da paróquia de Avessadas.
Ao longo da vigília, fomos entrando na experiência de Deus através dos ensinamentos de São João da Cruz. O homem, que se depara com o seu nada e com o sem-sentido da vida, orientado, simplesmente, para o materialismo, muitas vezes, dá-se conta do vazio que há em si. Umas vezes, ele procura encher esse vazio com mais e mais bens materiais, e, outras vezes, dá-se conta de que, por mais que se encha desses bens, nunca poderá preencher essa falta que leva dentro de si.
Há pessoas que, ao dar-se conta deste vazio, compreendem que há Alguém que as pode preencher, compreendem que estão vazias, porque esse lugar pertence a Alguém que é quem dá sentido à existência humana. Muitas das experiências de fé começam, precisamente, pelo dar-se conta de se ser incompleto. Muitas pessoas sentem-se, realmente, tocadas por Deus neste vazio existencial e saem ao Seu encontro.
São João da Cruz propõe-nos um caminho espiritual semelhante. Entremos dentro de nós e vejamos como estamos ocos, como nos falta algo e dediquemo-nos a procurar Deus, o único que pode dar sentido a esse vazio. Esta busca tem que se dar pela oração e pelo esforço humano de melhorar o que é a acção, sempre com o intuito de ir ao encontro dos outros, que clamam por nós, que clamam por ajuda.
A oração é uma relação que se estabelece com o próprio Deus, relação que nos leva a encontrarmo-nos a nós mesmos, relação que nos leva a sair de nós para ir ao encontro das necessidades do outro, relação que nos leva a ser verdadeiramente humanos, a ser aquilo para que fomos criados: seres livres e em comunhão com Deus.
Noviços
03 janeiro, 2013
Vigília de oração com Santa Teresa
No passado dia 20 de Outubro, nós, os noviços, em colaboração com o grupo de jovens GPS da paróquia de Avessadas, dirigimos uma vigília de oração, com o intuito de assinalar a solenidade de Santa Teresa de Jesus, a 15 de Outubro. Esta vigília aconteceu alguns dias após a solenidade, para que se pudesse reunir os jovens do grupo.
Uma vez que esta vigília era destinada a orar com Teresa de Jesus, fundadora desta grande família, que é o Carmelo Descalço, a oração não poderia deixar de a ter por tema. Assim, todos procuramos fazer um percurso com Santa Teresa, que nos explicou toda a dinâmica da oração como história de amizade com Deus. Na preparação da vigília, tivemos em conta, essencialmente, a sua definição de oração (“oração […] não é mais do que uma relação de amizade, estando muitas vezes a sós, com Quem sabemos que nos ama” V 8, 5) e os quatro graus de oração, que marcam as principais etapas no aprofundamento da intimidade com Deus.
Neste sentido, procuramos aproveitar os espaços da mata que retratam, precisamente, estes quatro graus de oração, que são também uma comparação com os quatro modos de regar. O primeiro grau da oração é o poço: o orante que inicia o caminho de oração ainda se sente muito longe de Deus e para conseguir orar precisa de pôr muito trabalho da sua parte, o qual consiste, essencialmente, em se determinar a responder de todo o coração ao amor infinito que Deus lhe tem, tal como o jardineiro que tem que, determinadamente, atirar o balde ao poço para tirar água, puxá-lo e levar a água até às plantas que precisam de ser regadas.
Segue-se a nora de alcatruzes: tal como o jardineiro tira mais água e com menos trabalho, assim também o orante começa a sentir Deus cada vez mais perto de si e torna-se também mais consciente do grande amor de Deus por ele. A tensão amorosa entre Deus e o orante começa a tornar-se cada vez mais intensa.
Haverá menos trabalho da parte do jardineiro e do orante, se a água provém de uma fonte ou de um rio, porque basta encaminhar a água até ao sítio devido. Neste terceiro grau da oração, o próprio Deus começa a fazer-se presente ao orante, tendo este menos trabalho em procurar Deus, que não pode ver nem sentir com os seus sentidos exteriores. Este grau de oração é também significado de uma grande intimidade entre Deus e o orante, resultado de um esforço do orante por corresponder ao amor que lhe vem de Deus, esforço que é cada vez mais determinado, porque o orante começa a receber o fruto que deseja, a proximidade com o seu Criador.
Contudo, há mais uma forma de regar o jardim: a chuva. Então não há trabalho nenhum do jardineiro, nem do orante, que, simplesmente, vê o seu Senhor a fazer brotar as flores do seu jardim, no qual Ele se vem deleitar com os preciosos perfumes das flores.
Esta comparação expõe o orante como jardineiro que tem por função cuidar do jardim, que é a sua própria alma. Neste jardim, estão as sementes que darão origem às plantas e, posteriormente, às flores. Estas últimas são as virtudes. Destas flores, exala o perfume que deleita o Senhor do jardim, Deus. O jardineiro tem que regar as sementes e as plantas para que elas cresçam até que floresçam as flores, as quais têm que continuar a ser regadas, para não secarem. A água que alimenta as virtudes é o amor que procede da relação amorosa entre a Pessoa de Deus e a pessoa do orante. Este amor é uma “dupla corrente” entre Deus e o orante, pois o amor é dado por Deus a todo o ser humano, mas para que este amor se complete, perfeitamente, necessita de uma resposta afirmativa do orante. Deste modo, estabelece-se entre o orante e Deus uma tensão amorosa que os aproxima cada vez mais. Quanto mais intensa é a resposta do orante, mais intensa é a intimidade entre Deus e o orante; e quanto mais intensa é a intimidade, mais intensa é a resposta do orante a Deus. Desta tensão amorosa crescente resulta a simplificação da pessoa do orante e, como consequência, desenvolvem-se no orante as virtudes.
Teresa não nos escondeu que orar é difícil, porque é difícil ser simples a quem leva tanta experiência em ser complicado. O homem à medida que se torna mais complexo, com o processo normal de crescimento, também se torna mais complicado e isso dificulta-lhe o contacto com o Transcendente, com o absolutamente Outro que o interpela. Assim, todo o trabalho do orante para chegar à intimidade de Deus resume-se a um processo de simplificação que se torna sofrido pela resistência, consciente ou inconsciente, do orante à simplificação. O agente principal desta simplificação é Deus, o orante só tem que se abrir e dar o seu consentimento à acção de Deus em si. Mas Teresa também garante que a todo aquele que se determina a empreender esta relação de amizade com Deus, Deus não o abandona, nem o deixa morrer à sede, ou seja, não o deixará morrer sem o Seu amor.
Os Noviços
28 dezembro, 2012
VIGÍLIA DE ORAÇÃO COM SANTA TERESINHA
Após o início do noviciado, no 2 de Setembro de 2012, no dia 1 de Outubro, nós, os noviços, organizamos uma vigília de oração com Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face, com os cristãos da paróquia de Avessadas e de Rosem.
O tema desta vigília foi “Orar Com Santa Teresinha”. A vigília decorreu num dos claustros do convento. Neste ambiente tão propício para a oração e para o silêncio. O mundo de hoje não entende a oração, porque não entende o silêncio, não entende esse momento em que prescindimos das palavras, dos movimentos exteriores e interiores, em que descemos ao mais íntimo de nós mesmos, a esse espaço intimíssimo, onde, além de nós, nenhuma outra pessoa pode entrar. É nesse espaço mais íntimo que vemos quem somos, que vemos como somos, que nos apercebemos do rumo dos nossos passos, do sentido do nosso caminho. Só no silêncio é que podemos sentir e contemplar a Deus no nosso interior.
O barulho do nosso dia-a-dia, muitas vezes, impede-nos de meditar. Não fazemos silêncio porque temos medo do silêncio, porque temos medo de ver quem somos, como somos; temos medo de que as nossas máscaras caiam e tenhamos que nos confrontar com a nossa pequenez, que tantas vezes mascaramos com soberbas e orgulhos; temos medo de perceber o sem sentido dos nossos passos; temos medo de ouvir as nossas palavras tantas vezes hipócritas; temos medo de ver que deixamos de olhar aqueles que mais nos amam; temos medo de sentir os impulsos de desamor do nosso coração. Eis que o silêncio se torna, assim, a mais eloquente melodia: a melodia dos nossos acertos e desacertos, das nossas harmonias e desarmonias. Indo mais profundo, descobrimos que o nosso coração, o nosso olhar e o nosso falar são chamados a mais, são convocados para “algo mais”, que não encontramos no decorrer habitual do nosso mundo. Mas, tantas e tantas vezes, este apelo a “algo mais” fica esquecido, como esquecida fica aquela pequena flor que um dia nos espantou.
«A oração é um impulso do coração, é um simples olhar lançado para o céu, é um grito de gratidão e de amor, tanto no meio da tribulação como no meio da alegria; enfim, é algo de grande, de sobrenatural, que me dilata a alma e me une a Jesus» (História de uma alma, Ms C25 rº-vº).
Esta vigília encerrou com o evangelho de são Lc 11, 9-13 proclamado pelo Pe. Superior do Convento de Avessadas, Santuário do Menino Jesus. Este evangelho exorta-nos a orar ao Pai incessantemente, pois Ele sempre atende aqueles que se Lhe dirigem. Ele não deixa de enviar aos seus filhos o Espírito Santo, o qual nos ensina a orar e que ora connosco ao Pai, para que um dia cheguemos à perfeita união de amor com Deus, para que cheguemos a participar verdadeiramente da natureza divina.
Fr. Eugénio e Fr. Vitor
25 dezembro, 2012
ATENÇÃO, HOJE É NATAL!
Hoje é Natal! «Sim, hoje! Hoje mesmo! Não celebramos, à maneira de recordação, um acontecimento do passado, que ocorreu uma vez e passou; é algo presente que é, ao mesmo tempo, começo de um futuro eterno que de nós se avizinha!» Assim li em algum sítio estas palavras como tendo sido escritas ou pronunciadas pelo grande teólogo que foi Karl Rahner.
E creio que é um dia muito bonito para eu entrar nesta página que o nosso «bicho-da-seda» começou a construir já lá vão alguns dias. Sim, começou esta obra há pouco mais de 10 dias, praticamente está ainda em gestação, mas já tem pernas para andar. Ah, é que este «bicho-da-seda» mais parece uma centopeia, embora não tenha tantos pés... Mas entranha uma grande sabedoria e não se inspirasse a sua mensagem na doutrina do cantor das «Insulas estranhas»!
Não é difícil de recordar a vida deste minúsculo animal! Bom, quando começa a ser tal e quando deixa de o ser? Como do pequeno ovo sobre o qual se vai irradiando algum calor se vai desenvolvendo uma pequenina larva a qual, alimentada com folhas de amoreira, vai construindo, por sua vez, um casulo, a casa onde ela mesma há-de morrer para dar lugar, depois, a uma belíssima nova criatura que encanta flores, animais e gentes que a admiram no seu esvoaçar, no seu leve poisar, e no seu absoluto silêncio no andar/voar.
Não sei se estais a ver a ligação desta pequena história que estou para aqui a soletrar e o Natal que é hoje! E que insistia nesse «hoje», como o faz, com tanta força e insistência também a própria liturgia que a Igreja celebra. Hoje é Natal! Mas é mesmo hoje! Nem foi ontem, nem é amanhã! Insisto: é hoje! Porque Jesus, o Senhor, o Salvador, Deus mesmo, vem em cada hoje, cada momento ao nosso encontro; a cada batida do coração Ele nasce, Ele vem. E eu creio que muitas vezes esquecemos isto: julgamos, ou pelo menos vivemos, como se o Natal fosse só uma vez por ano, só um dia no ano: e isso para darmos as boas festas, enviarmos mensagens, desejarmos felicidades, fazermos votos de boa saúde e bem-estar; partilharmos alguma coisa com alguém, talvez até lembrar-nos dos mais débeis, fracos e pobres..., tanto mais que nós sentimo-nos muito bem, mas entra-nos o remorso de consciência ao ver ou pensar nesses deserdados. E então pensamos, e dizemos: ah! É Natal! E lá vamos nós com gestos, com atitudes, com palavras de circunstância, puramente esporádicos.
Que pobres que somos estes «bichinhos da seda», todos nós! E quanta resistência vamos fazendo para que em nós se dê um novo nascimento, o verdadeiro, transformando-nos de... «larva em crisálida, de crisálida em borboleta»!
Sim, porque Natal é transformação, é mudança: das trevas em Luz (‘no mundo que andava em trevas, brilhou uma grande luz!’), do silêncio em Palavra (‘no princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus’), da morte em Vida (‘a vida que estava junto do Pai manifestou-se na terra’). Natal é início da vida na terra enquanto a Páscoa será início da vida no céu: é verdade, o Natal está profundamente unido à Pascoa; e não se compreende um sem a outra.
Natal é vida, é família, amizade, partilha, comunhão, abraço, reunião; é alegria, paz, felicidade... Natal é antecipação do céu, por isso há tréguas, há cessar de conflitos, há silêncio, escuta, acolhimento do outro, do diferente...
Que bom se todos os dias fosse Natal! E não apenas pela abundância da mesa, pelas luzinhas e as flores, pelas cantos e as músicas, pelas prendas e felicitações, pelos bons desejos e até pelos gestos esporádicos de caridade e bem-fazer pelos mais pobres e necessitados, pelos que estão a passar frio e não têm um tecto para se abrigar; mas um Natal permanente e eterno no qual o verdadeiro protagonista, Jesus que nasce hoje, estivesse realmente presente e fosse o «motor» que move os nossos corações para fazermos comunhão, unidade, corpo com os nossos semelhantes.
Atenção! Muita atenção! Hoje é Natal! E só existe o hoje porque, como dizia aquela jovem doutora: «Para Te amar, ó Deus amante, eu só tenho o dia de hoje»!
Santo e Feliz Natal para todos!
P. Alpoim Portugal
14 dezembro, 2012
De S. João da Cruz a um Carmelita Descalço
Que a paz de Jesus Cristo esteja sempre na sua alma, meu filho.
Recebi a carta […] em que me fala dos grandes desejos que Nosso Senhor lhe concedeu para trazer a sua vontade somente n’Ele, amando-O sobre todas as coisas. E pede-me alguns conselhos para o conseguir.
Alegro-me por Deus lhe haver dado tão santos desejos, e muito mais me alegrarei se os puser em prática. Para isso convém-lhe saber que todos os gostos, gozos e afectos nascem sempre na alma mediante a vontade e o querer das coisas que se lhe apresentam como boas, convenientes e agradáveis, por lhe parecerem agradáveis e preciosas. Segundo isto, encaminha para elas os apetites da vontade, espera possuí-las, goza-as enquanto as tem, teme perdê-las, e sofre quando as perde. Portanto, a alma vive perturbada e inquieta segundo o afecto e o gozo das coisas.
Para aniquilar e mortificar estes afectos de gostos acerca de tudo o que não é Deus, deve […] notar que […] nenhuma coisa suave e deleitável em que ela [vontade] se possa gozar e deleitar é Deus, porque, assim como Deus não pode ser apreendido pelas outras potências, também não pode ser objecto dos apetites e gostos da vontade. Assim como a alma neste mundo não pode saborear a Deus na Sua essência, assim também toda a suavidade e deleite que gozar […] não pode ser Deus; de igual modo, a vontade só pode gostar e desejar distintamente o que conhece […]. Se a vontade nunca saboreou a Deus como Ele é, nem O conhece sob qualquer apreensão do apetite, também não sabe como é Deus, nem o seu gosto o pode saber, nem o seu ser, apetite e gosto chegarão a saber desejar Deus, porque isso ultrapassa as suas capacidades. Portanto, nenhuma das coisas que a alma possa gozar distintamente é Deus. E, assim, para se unir a Ele, há-de a alma esvaziar-se e desprender-se de qualquer afecto desordenado de apetite ou gosto que tenha em relação ao que se possa gozar distintamente […], a fim de que, purificada e limpa de quaisquer gostos, gozos e apetites desordenados, se empregue totalmente, com todos os seus afectos, em amar a Deus. Porque, se de alguma maneira a vontade pode apropriar-se de Deus e unir-se a Ele, não é por qualquer meio apreensivo do apetite, mas pelo amor. Ora, como nenhum deleite, suavidade ou gosto apreendido pela vontade é amor, deduz-se que nenhum dos sentimentos saborosos pode ser meio apropriado para a vontade se unir a Deus; só o é a operação da vontade. A operação da vontade é muito diferente do seu sentimento: a operação une a Deus e termina n’Ele, que é amor; o sentimento e apreensão do seu apetite, fixa-se na alma como fim e termo. Os sentimentos só servem de motivo para amar, se a vontade quiser passar adiante e nada mais. Assim, os sentimentos saborosos não encaminham a alma para Deus, mas fixam-na em si mesmos, enquanto a operação da vontade, que é amar a Deus, faz com que a alma ponha só n’Ele o seu afecto, gozo, gosto, contentamento e amor, após ter deixado tudo para trás e amando-O sobre todas as coisas. Daí que, se alguém se persuade a amar a Deus pela suavidade que sente, já deixa para trás esta suavidade e põe o amor em Deus, a quem não sente. Se o pusesse na suavidade e gosto que experimentou, reparando e detendo-se nele, já estaria a pô-lo nas criaturas ou coisa delas […]. Se Deus é incompreensível e inacessível, a vontade não há-de pôr a sua operação de amor naquilo que pode tocar e apreender com o apetite, – a fim de a pôr em Deus –, mas naquilo que não pode compreender nem alcançar com ele. Desta maneira, a vontade fica a amar por certo e deveras ao gosto da fé, ou seja, vazia de seus sentimentos e às escuras de todos os que pode conceber com o entendimento do seu intelecto, acreditando e amando acima de tudo o que pode entender.
Portanto, muito insensato seria quem, ao faltar-lhe a suavidade e a consolação espiritual, pensasse que Deus lhe faltaria por isso; ou, ao experimentar gozo e consolação, julgasse que possuía a Deus por isso. Mas mais insensato seria se andasse a procurar esta suavidade em Deus, detendo-se a gozar nela; isso já não seria procurar a Deus com a vontade fundada em desnudez de fé e caridade, mas procurar o gosto e a suavidade espiritual, que é criatura, seguindo o seu gosto e apetite. Desta maneira, já não estaria a amar puramente a Deus […], porque, apegando-se e apoiando-se naquela criatura com o apetite, a vontade não se eleva acima dela até Deus, que é inacessível. É impossível à vontade chegar à suavidade e consolação da divina união […] se não for pela desnudez e vazio do apetite em qualquer gosto particular […].
[…] Na verdade, quando se põe o apetite nalguma coisa, a essa mesma coisa se reduz, porque fora de Deus tudo é apertado. Por isso, para a alma acertar no caminho para Deus e se unir com Ele, há-de ter a boca da vontade aberta só para Deus, vazia e sem nenhum pedaço de apetite, a fim de que Deus a encha e farte do seu amor e doçura; há-de viver com fome e sede só de Deus, sem querer satisfazer-se com mais nada, pois aqui não pode saborear Deus como Ele é; o que se pode saborear também é impedimento se, como digo, aí entrar o apetite. […]
Portanto, muito convém e importa […], se quiser gozar de uma grande paz na sua alma e chegar à perfeição, entregar toda a sua vontade a Deus, para assim se unir a Ele, e não a encher com as coisas vis e baixas da terra.
Que Sua Majestade o faça tão espiritual e santo como eu desejo.
Segóvia, 14 de Abril [de 1589].
Frei João da Cruz
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