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11 maio, 2013

A entrada de Jesus Ressuscitado na vida de Paulo (III): Forma, linguagem e 3 relatos



Tendo notado os contrastes existentes entre o livro dos Actos e as Cartas paulinas na maneira de nos narrar este acontecimento, vamos agora tentar perceber, mais de perto, a forma, a linguagem e o porquê de três relatos no escrito lucano. Estaremos, pois, a dar resposta àquelas questões com que terminámos a reflexão anterior. Dissemos que para lhes responder fazia falta não descurar a intencionalidade do autor sagrado. Para ela, também olharemos. 
Lucas, quando se sente movido a redactar a sua obra, é conhecedor duma tradição que diz que o apóstolo, na sua ida a Damasco, tinha sido coroado com e vivido um certo acontecimento sobrenatural, e que alguém de nome Ananias havia tido uma função preponderante nele. Ao estar por dentro dessa tradição, o que ele faz é pegar nesses elementos e construir uma narração segundo a forma das chamadas “lendas de conversão”.
O que vinham a ser essas “lendas”? Eram relatos elaborados com um objectivo bem traçado, ou seja, mostrar como Deus, face a alguém que se apresentava como seu inimigo, era capaz de acabar por convertê-lo mediante sinais portentosos. Um exemplo dessas lendas é a conversão de Heliodoro, ministro do rei Seleuco IV da Síria (ler o segundo livro dos Macabeus, cap. 3). O que nos dá alguma segurança para afirmar que o nosso autor inspirado utiliza este modo convencional de dizer as coisas é que encontramos muitas outras lendas judias que narram da mesma maneira a conversão de alguma figura inimiga de Deus. Assim sendo, ficamos a saber, uma vez mais, que não devemos tomar como históricos os pormenores da conversão de S. Paulo, mas antes, como elementos que fazem parte dum determinado caixilho literário, que sempre que é utilizado, lá aparecem.
Mas porquê tanto interesse de S. Lucas na conversão do apóstolo, ao ponto de não só a engrandecer com pormenores, mas de a repetir nada menos que três vezes (Act 9,3-19; 22,6-16 e 26,12-18)? Porque o autor sagrado, ao longo da sua obra, quer demonstrar o cumprimento da profecia de Jesus que diz que a Palavra de Deus se estenderá por todo o mundo de então. Com efeito, ao princípio, Jesus aparece aos apóstolos e profere-lhes: “Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo” (Act 1,8). E o que se entendia naquele tempo por “confins do mundo”? Era Roma, a capital do império.
Lucas desconhecia que algum dos doze apóstolos tivesse chegado até à capital. No seu escrito, Pedro, o porta-voz e cabeça do grupo, não chega a passar da Judeia e Samaria. João tão-pouco vai para além da Samaria. Tiago maior é morto cedo. Tiago menor nunca chega a sair de Jerusalém. Matias, substituto de Judas, deixa imediatamente de aparecer em cena após a sua eleição. Dos restantes apóstolos não temos nenhuma notícia.
Como demonstrar, pois, que a profecia de Cristo se realiza e que a Igreja se estende “até aos confins do mundo”? O nosso autor pôs-se a pensar e, por inspiração divina, chegou à conclusão de que a melhor maneira seria fazer recair sobre Paulo a realização desta missão. Mas ainda assim uma dificuldade se levantava: segundo Lucas, «apóstolo» era o que tinha conhecido pessoalmente Jesus e recebido d’Ele a tarefa de anunciar o Evangelho (Act 1,21-26); algo que não havia ocorrido com Paulo. Para que não restassem, pois, nenhumas dúvidas de como Paulo é o que realiza a missão de chegar a Roma – missão entregue, na verdade, aos apóstolos – Lucas, no quadro da sua conversão a caminho de Damasco, pinta-o a receber do próprio Jesus esse mesmo encargo. E fala nele por três vezes ao longo do livro, no seu itinerário para Roma, a fim de que não haja mesmo dúvidas.
Já agora, na Bíblia há uma linguagem convencional para exprimir as experiências que as pessoas têm de Deus: a imediatez, o brilho, a luz refulgente, o temor, por parte do ser humano, a missão directa, da parte de Deus. Podeis verificar se nos três textos de Lucas se pode aplicar este esquema.
Há aí um “diálogo de aparição”, muito comum no Antigo Testamento (Ex 3,2-10; 1Sm 3,4-14), que é utilizado oficialmente pelos escritores sagrados sempre que querem narrar a aparição de Deus (ou esse encontro extraordinário, místico, arrebatador, transformante, diferente dos de cada dia…) a alguma pessoa. Esse diálogo possui, na maioria das vezes, quatro elementos: o nome da pessoa é referido por duas vezes (Saulo, Saulo!); uma pergunta muito curta do interpelado (Quem és Tu, Senhor?); o Senhor que se auto-apresenta (Eu sou Jesus, a quem tu persegues) e a missão (Ergue-te, entra na cidade).
Apoderando-se desta linguagem, Lucas quis apresentar e confirmar uma coisa: que esse tal encontro ou experiência grandiosa de Cristo Ressuscitado e com Cristo Ressuscitado foi um acontecimento verdadeiramente real e não uma mera alucinação de Paulo.
Pe. Vasco

04 maio, 2013

A entrada de Jesus Ressuscitado na vida de Paulo (II): Versão de Lucas e de Paulo acerca dessa «entrada»


"Nesse instante, 
caíram-lhe dos olhos uma espécie de escamas
 e recuperou a vista." Act 9, 18 



No texto anterior foram apresentados os relatos que Lucas nos dá no livro dos Actos dos Apóstolos acerca dessa famosa entrada ou experiência de Jesus Ressuscitado na vida do apóstolo das gentes. Dissemos que, posteriormente, iríamos falar dessa entrada ou experiência, a qual considerámos decisiva na vida de Paulo e da Igreja nascente, também carregada de significado e pedra angular da vida de todo o discípulo de Jesus ou da vida cristã.
Uma vida cristã que não tenha na sua base uma verdadeira experiência de encontro com o Senhor vivo e ressuscitado é uma vida que, mais dia, menos dia, tende a ganhar outros contornos, a tornar-se nem “fria nem quente”, e, consequentemente, a sentir maiores dificuldades para estar radicada em Cristo, na Igreja e no Espírito. Do encontro ou dessa experiência extraordinária com que o apóstolo foi coroado pouco nos é descrito, diria mesmo que só conhecemos dela o que ela mesma foi capaz de realizar em Paulo e através de Paulo, não esquecendo, claro, a linguagem e a forma que a traduz nos textos bíblicos, que nos Actos é uma e nas Cartas é outra.
Comecemos por passar os olhos na versão de Lucas e de Paulo nas suas cartas. No texto anterior não fizemos nenhuma referência ao que o próprio apóstolo diz nos seus escritos sobre este acontecimento. Relemos, sobretudo, Act 9,3-19. Não deixa de ser curioso que possamos encontrar alguma falta de coincidência entre ambos os autores sagrados. Em primeiro lugar, Paulo não se detém pormenorizadamente naquilo que se passou consigo a caminho de Damasco. Aliás, em nenhum escrito seu conta o que experimentou durante essa viagem. Nem sequer nos diz que caiu abaixo do cavalo (Lucas também não o diz e convém ter presente que as viagens, nessa época, se faziam a pé; por isso, as representações de Paulo caindo “do cavalo”, que tantas vezes contemplamos em quadros e pinturas, não correspondem à realidade). Alude apenas muito suavemente à sua conversão. E até tinha razões para o fazer de forma diferente, pois seria um bom argumento para contestar os Gálatas que punham em causa a autenticidade do seu ministério (Gl 1,15). Mesmo quando se põe a falar das suas visões ou revelações fá-lo de modo muito discreto, concretamente utilizando a terceira pessoa (“Sei de um homem” 2 Cor 12,2), como se não tivesse grande gosto em contar essas coisas no seu dia-a-dia. Todavia, vemo-lo, nos Actos, a boca cheia a referir-se a esse acontecimento, e, uma vez, até diante de gente desconhecida (Act 22). É caso para perguntar: será este o mesmo Paulo das Cartas? Em segundo lugar, os Actos não mencionam que ele viu Jesus, mas simplesmente que “se viu envolvido por uma intensa luz vinda do céu e que ouviu uma voz que lhe falava” (Act 9,3-4). Ao passo que Paulo, nas cartas, afirma, sem grandes descrições, ter visto a Jesus nessa viagem. Aos cristãos de Corinto, interpela: “Não vi Jesus, nosso Senhor” (1 Cor 9,1)? E noutra ocasião: “Em último lugar, apareceu-me também a mim” (1 Cor 15,8). Em terceiro lugar, o apóstolo faz questão de vincar nos seus escritos que a sua vocação-missão e o evangelho por ele anunciado lhe foram entregues sem qualquer intermediário, ou seja, directamente de Deus: “Paulo, apóstolo – não da parte dos homens, nem por meio de homem algum, mas por meio de Jesus Cristo e de Deus Pai” (Gl 1,1); “Faço-vos saber, irmãos, que o Evangelho por mim anunciado, não o conheci à maneira humana, pois eu não o recebi nem aprendi de homem algum, mas por uma revelação de Jesus Cristo” (Gl 1,11). Pelo contrário, os Actos dizem que houve alguém a dar a entender a Paulo o significado da luz que o envolveu e a ensinar-lhe a doutrina cristã (9,10-18).
Encontramos mais contrastes entre ambas as versões. Por exemplo, Actos descreve esse acontecimento extraordinário no caminho para Damasco como uma «conversão»; Paulo, porém, nunca diz que se converteu, mas fala da sua «vocação» (Gl 1,15). Lucas refere que tudo foi acompanhado de fenómenos exteriores (uma luz celestial, uma voz misteriosa, a queda ao chão, a cegueira). O apóstolo nenhuma insinuação faz a esses fenómenos fantásticos e chama a essa revelação que teve de experiência interior (Gl 1,16). Como se interpretam todos estes contrastes? Qual a razão por que Lucas parece não estar em sintonia com o que Paulo menciona nas suas cartas? Para darmos uma resposta a tudo isto faz falta não descurar a intencionalidade de Lucas no livro dos Actos dos Apóstolos. Daremos essa resposta na reflexão seguinte, continuando a cavar as frases, as palavras, a forma desta e das outras narrações lucanas traduzirem a transformação impressionante do apóstolo.
Pe. Vasco

13 abril, 2013

A entrada de Jesus Ressuscitado na vida de Paulo: textos dos Actos dos Apóstolos




A entrada de Jesus Ressuscitado na vida do apóstolo foi um acontecimento determinante na vida da Igreja primitiva e, por este motivo, o autor deste livro relata-a não uma, mas três vezes. Apresentamos aqui os três relatos fornecidos por S. Lucas, a fim de os lerdes, confrontardes e notardes as diferenças e contradições. O acontecimento é contado com pormenores não somente diferentes, mas até mesmo contraditórios. Trata-se – claro está – de incongruências de pouca importância, mas que existem e são preciosas: sugerem que não interpretemos o relato como um banal facto de crónica, mas como uma experiência espiritual decisiva na vida de Paulo, experiência que tem muito para nos ensinar também hoje e da qual falaremos na próxima publicação.

(Act 9,3-19)
«Estava a caminho e já próximo de Damasco, quando se viu subitamente envolvido por uma intensa luz vinda do Céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: «Saulo, Saulo, porque me persegues?» Ele perguntou: «Quem és Tu, Senhor?» Respondeu: «Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Ergue-te, entra na cidade e dir-te-ão o que tens a fazer.» Os seus companheiros de viagem tinham-se detido, emudecidos, ouvindo a voz, mas sem verem ninguém. Saulo ergueu-se do chão, mas, embora tivesse os olhos abertos, não via nada. Foi necessário levá-lo pela mão e, assim, entrou em Damasco, onde passou três dias sem ver, sem comer nem beber. Havia em Damasco um discípulo chamado Ananias. O Senhor disse-lhe numa visão: «Ananias!» Respondeu: «Aqui estou, Senhor.» O Senhor prosseguiu: «Levanta-te, vai à casa de Judas, na rua Direita, e pergunta por um homem chamado Saulo de Tarso, que está a orar neste momento.» Saulo, entretanto, viu numa visão um homem, de nome Ananias, entrar e impor-lhe as mãos para recobrar a vista. Ananias respondeu: «Senhor, tenho ouvido muita gente falar desse homem e a contar todo o mal que ele tem feito aos teus santos, em Jerusalém. E agora está aqui com plenos poderes dos sumos sacerdotes, para prender todos quantos invocam o teu nome.» Mas o Senhor disse-lhe: «Vai, pois esse homem é instrumento da minha escolha, para levar o meu nome perante os pagãos, os reis e os filhos de Israel. Eu mesmo lhe hei-de mostrar quanto ele tem de sofrer pelo meu nome.» Então, Ananias partiu, entrou na dita casa, impôs as mãos sobre ele e disse: «Saulo, meu irmão, foi o Senhor que me enviou, esse Jesus que te apareceu no caminho em que vinhas, para recobrares a vista e ficares cheio do Espírito Santo.» Nesse instante, caíram-lhe dos olhos uma espécie de escamas e recuperou a vista. Depois, levantou-se e recebeu o baptismo. Depois de se ter alimentado, voltaram-lhe as forças e passou alguns dias com os discípulos, em Damasco».

(Act 22,6-16)
«Ia a caminho, e já próximo de Damasco, quando, por volta do meio-dia, uma intensa luz, vinda do Céu, me rodeou com a sua claridade. Caí por terra e ouvi uma voz que me dizia: ‘Saulo, Saulo, porque me persegues?’ Respondi: ‘Quem és Tu, Senhor?’ Ele disse-me, então: ‘Eu sou Jesus de Nazaré, a quem tu persegues.’ Os meus companheiros viram a luz, mas não ouviram a voz de quem me falava. E prossegui: ‘Que hei-de fazer, Senhor?’ O Senhor respondeu-me: ‘Ergue-te, vai a Damasco, e lá te dirão o que se determinou que fizesses.’ Mas, como eu não via, devido ao brilho daquela luz, fui levado pela mão dos meus companheiros e cheguei a Damasco. Ora um certo Ananias, homem piedoso e cumpridor da Lei, muito respeitado por todos os judeus da cidade, foi procurar-me e disse: ‘Saulo, meu irmão, recupera a vista.’ E, no mesmo instante, comecei a vê-lo. Ele prosseguiu: ‘O Deus dos nossos pais predestinou-te para conheceres a sua vontade, para veres o Justo e para ouvires as palavras da sua boca, porque serás testemunha diante de todos os homens, acerca do que viste e ouviste. E agora, porque esperas? Levanta-te, recebe o baptismo e purifica-te dos teus pecados, invocando o seu nome’».

(Act 26,12-18)
«Foi assim que, indo para Damasco com poder e delegação dos sumos sacerdotes, vi no caminho, ó rei, uma luz vinda do céu, mais brilhante do que o Sol, que refulgia em volta de mim e dos que me acompanhavam. Caímos todos por terra e eu ouvi uma voz dizer-me em língua hebraica: ‘Saulo, Saulo, porque me persegues? É duro para ti recalcitrar contra o aguilhão.’ Perguntei: ‘Quem és tu, Senhor?’ E o Senhor respondeu: ‘Eu sou Jesus a quem tu persegues. Ergue-te e firma-te nos pés, pois para isto te apareci: para te constituir servo e testemunha do que acabas de ver e do que ainda te hei-de mostrar. Livrar-te-ei do povo e dos pagãos, aos quais vou enviar-te, para lhes abrires os olhos e fazê-los passar das trevas à luz, e da sujeição de Satanás para Deus. Alcançarão, assim, o perdão dos seus pecados e a parte que lhes cabe na herança, juntamente com os santificados pela fé em mim’». 
Pe. Vasco      

30 março, 2013

«A amigos muito queridos»




«Por nada vos deixeis inquietar; pelo contrário: em tudo, pela oração e pela prece, apresentai os vossos pedidos a Deus em acções de graças. Então, a paz de Deus, que ultrapassa toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus. De resto, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é respeitável, tudo o que possa ser virtude e mereça louvor, tende isso em mente. E o que aprendestes e recebestes, ouvistes de mim e vistes em mim, ponde isso em prática. Então, o Deus da paz estará convosco» (Fl 4,6-9).

Enquadramento e contexto

A passagem escolhida para beber na torrente da Bíblia é uma passagem da carta aos Filipenses. É já a parte final da carta e apresenta um leque de recomendações, destinadas a recordar aos filipenses algumas obrigações que resultam do seu compromisso com Cristo e com o Evangelho. Quando se põe a escrever a estes cristãos da cidade grega de Filipos, o apóstolo encontra-se preso (em Éfeso?), sem saber o que o futuro imediato lhe reserva.

Ensinamento

Os primeiros dois versículos do nosso texto (vv. 6-7) fazem parte de uma passagem mais longa, na qual o apóstolo aconselha aos cristãos de Filipos que vivam na alegria (vv. 4-7). Esta “alegria” não se confunde com gargalhadas histéricas ou com optimismos inconscientes; mas é a “alegria” que brota de uma vida de união com o Senhor, com tudo o que isso significa em termos de garantia de vida verdadeira e eterna. O cristão vive na alegria, pois a união com Cristo garante-lhe o acesso próximo (“o Senhor está próximo”) à vida plena. Daí desponta a serenidade, a paz, a tranquilidade, que permitem ao crente agarrar a vida sem medo e sentir-se seguro nos braços amorosos de Deus Pai (v. 6a). Ao crente, resta cultivar a união com Deus, entregando-Lhe diariamente a sua vida “com orações, súplicas e acções de graças” (v. 6b).
Depois (v. 8), Paulo sugere aos filipenses um conjunto de seis “qualidades” que eles devem desenvolver e apreciar: a verdade, a nobreza, a justiça, a pureza, a amabilidade e a boa reputação. Tudo isto é “virtude”, tudo isto é digno de louvor. Há quem olhe para este versículo como a “magna carta do humanismo cristão”. Estes valores não são tipicamente do Cristianismo: são valores sãos e louváveis, que fazem parte também do ideal pagão (eram valores igualmente tidos em conta pelos moralistas gregos da época). No entanto, a comunidade cristã deve estar receptiva ao acolhimento de todos os verdadeiros valores humanos. Os cristãos devem ser, antes de mais, arautos e testemunhas dos verdadeiros valores humanos.
Finalmente, o apóstolo exorta os filipenses a porem em prática estas recomendações segundo o exemplo que dele receberam (v. 9). O cristão tem de viver os valores humanos em confronto constante com o Evangelho e na fidelidade ao Evangelho. Às vezes, para não dizer muitas vezes, eles esquecem-se disso mesmo.

Acolher o ensinamento

As palavras de Paulo à comunidade de Filipos traçam alguns dos elementos concretos que devem marcar a nossa caminhada como discípulos do Senhor. Lendo e meditando o texto com atenção, somos capazes de reparar que o apóstolo convida os crentes a não viverem inquietos e preocupados. Os cristãos estão “enxertados” em Cristo e têm a garantia de com Ele ressuscitar para a vida plena. Eles sabem que as dificuldades, os dramas, as perseguições, as incompreensões são apenas acidentes de percurso, que não conseguirão arredá-los da vida verdadeira. Os discípulos de Cristo não são pessoas fracassadas, alienadas, falhadas, mas pessoas com um objectivo final bem definido e bem sugestivo. O caminho de Cristo é um caminho de dom e de entrega da vida; mas não é um caminho de tristeza e de frustração. Porquê, então, a tristeza, a inquietação, o desânimo com que, tantas vezes, enfrentamos as vicissitudes e as dificuldades da nossa caminhada? Os irmãos que nos rodeiam e que nos olham nos olhos recebem de nós um testemunho de paz, de serenidade, de tranquilidade?
Depois, Paulo convida os crentes a terem em conta, na sua vida, esses valores humanos que todos os homens apreciam e amam: a verdade, a justiça, a honradez, a amabilidade, a tolerância, a integridade… Um cristão tem de ser, antes de mais, uma pessoa íntegra, verdadeira, leal, honesta, responsável, coerente. Ouvimos, algumas vezes, dizer que “os que vão à Igreja são piores do que os outros”. Em parte, a expressão serve, sobretudo, a muitos dos chamados “cristãos não-praticantes” para justificar o facto de não irem à Igreja; mas não traduzirá, algumas vezes, o mau testemunho que alguns cristãos dão quanto à vivência dos valores humanos?

Orar com o ensinamento

Senhor, à primeira vista, impressiona-me como Paulo propôs aos seus cristãos os mesmos valores que constavam das listas de valores dos moralistas gregos da sua época… Mas, depois, descubro nessa proposta um convite da tua parte a reflectir sobre a nossa relação com os valores do mundo que nos rodeia e sobre a forma como os aceitamos e integramos na nossa vida. De facto, não nos podemos esconder atrás da nossa muralha fortificada e rejeitar, em bloco, tudo aquilo que o mundo de hoje nos proporciona, como se fosse algo de mau e pecaminoso. O mundo em que vivemos, tanto quanto me permites contemplar e saborear, tem valores muito bonitos e sugestivos, que nos ajudam a crescer de uma forma sã e equilibrada e a integrar uma realidade rica em desafios e esperanças. O que é necessário - e para isso te peço ajuda - é saber discernir, de entre todos os valores que o mundo nos apresenta, aquilo que nos torna mais livres e mais felizes e aquilo que nos torna mais escravos e infelizes, aquilo que não belisca a nossa fé e aquilo que ameaça a essência do Evangelho!…

Pe. Vasco

23 março, 2013

Fomos chamados para a liberdade




«Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes, e não vos sujeiteis outra vez ao jugo da escravidão. Irmãos, de facto, foi para a liberdade que vós fostes chamados. Só que não deveis deixar que essa liberdade se torne numa ocasião para os vossos apetites carnais. Pelo contrário: pelo amor, fazei-vos servos uns dos outros. É que toda a Lei se cumpre plenamente nesta única palavra: Ama o teu próximo como a ti mesmo. Mas, se vos mordeis e devorais uns aos outros, cuidado, não sejais consumidos uns pelos outros. Mas eu digo-vos: caminhai no Espírito, e não realizareis os apetites carnais. Porque a carne deseja o que é contrário ao Espírito, e o Espírito, o que é contrário à carne; são, de facto, realidades que estão em conflito uma com a outra, de tal modo que aquilo que quereis, não o fazeis. Ora, se sois conduzidos pelo Espírito, não estais sob o domínio da Lei» (Gl 5,1.13-18).

Enquadramento e contexto da passagem

Estamos perante um texto que aparece na parte final da Carta aos Gálatas. É o começo de uma reflexão acerca da verdadeira liberdade, que é fruto do Espírito (cf. Gl 5,1-6,10). Para melhor compreensão da mensagem, torna-se conveniente perguntar-nos pelo problema fundamental aí tratado: esta comunidade cristã está a ser incomodada por um grupo de judaízantes, isto é, cristãos provenientes do judaísmo, gente ainda agarrada à antiga lei, concretamente às suas regras, normas, disposições e práticas exteriores, as quais consideram também necessárias para chegar à vida em plenitude ou à salvação; e Paulo – para quem Cristo basta e para quem as obras da Lei já não dizem nada – procura fazer com que toda a comunidade não se sujeite mais a nenhum tipo de escravidão.

Ensinamento

As palavras do apóstolo são um convite enérgico à liberdade. Ele avisa os Gálatas que foi para a liberdade que Cristo os libertou (a repetição destina-se a dar ao verbo “libertar” um sentido mais intenso) e que não convém recair no jugo da escravidão (Paulo identifica essa escravidão com a Lei e a circuncisão). Mas o que vem a ser a liberdade para o cristão? Será que tem a ver com a faculdade de optar entre duas coisas distintas e opostas? Não. Será que tem a ver com uma espécie de independência ético-moral, em virtude da qual cada um pode fazer o que lhe dá na gana, sem impedimentos de qualquer espécie? Também não. Para Paulo, a verdadeira liberdade consiste em viver no amor. O que nos escraviza, nos limita e nos impede de atingir a vida em plenitude ou a salvação é o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência; mas vencer esse fechamento em nós próprios e fazer da nossa vida um dom de amor torna-nos autenticamente livres. Só é verdadeiramente livre aquele que se libertou de si próprio e vive para se dar aos outros. Como é que esta “liberdade” (a capacidade de amar, de dar a vida) nasce em nós? Ela nasce da vida que Cristo nos dá: pela adesão a Cristo, gera-se em cada pessoa um dinamismo interior que a identifica com Cristo e lhe dá uma capacidade infinita de amar, de ultrapassar o egoísmo, o orgulho e os limites. É o Espírito que alimenta, dia a dia, essa vida de liberdade (ou de amor) que se gerou em nós, a partir da nossa adesão a Cristo. Viver na escravidão é continuar a viver uma vida centrada em si próprio (cf. 5,19-21); viver na liberdade (“segundo o Espírito”) é sair de si e fazer da sua vida um dom, uma partilha (cf. 5,22-23).

Acolher o ensinamento

Os homens da nossa época anseiam por esse valor chamado “liberdade”; contudo, têm, frequentemente, uma ideia bastante egoísta deste valor essencial. Quando a liberdade se entende desde o eu, identifica-se com libertinagem: é a capacidade de eu fazer o que quero; é a capacidade de eu poder escolher; é a capacidade de eu poder tomar as minhas decisões sem que ninguém me entrave… Esta liberdade não provoca, tantas vezes, orgulho, egoísmo, auto-suficiência, isolamento e, portanto, escravidão? Para Paulo, só se é verdadeiramente livre quando se ama. Aí, eu não me prendo a nada do que é meu, deixo de viver obcecado comigo e com os meus interesses e estou sempre disponível para me partilhar com os meus irmãos. É esta experiência de liberdade que faz hoje tanta gente que não reserva a própria vida para si própria, mas faz dela uma oferta de amor aos irmãos mais necessitados. Como dar este testemunho e passar esta mensagem aos homens do nosso tempo, sempre obcecados com a verdadeira liberdade? Como dar a saber que só o amor nos faz totalmente livres?
Orar com o ensinamento

Nem é tarde nem é cedo: Senhor, vamos a isso. Era essa a liberdade que eu buscava…
Pe. Vasco

09 março, 2013

«Porque eu sou bom» (I)



                «1Porque o Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que saiu de manhã cedo para contratar trabalhadores para a sua vinha. 2Depois de combinar com os trabalhadores um denário por dia, mandou-os para a vinha. 3Tornando a sair pela hora terceira, viu outros que estavam na praça, desocupados, 4e disse-lhes: ‘Ide, também vós para a vinha, e eu vos darei o que for justo’. 5Eles foram. Tornando a sair pela hora sexta e pela hora nona, fez a mesma coisa. 6Saindo pela hora undécima, encontrou outros que lá estavam e disse-lhes: ‘Por que ficais aí o dia inteiro desocupados? 7Responderam: ‘Porque ninguém nos contratou’. Disse-lhes: ‘Ide, também vós, para a vinha’. 8Chegada a tarde, disse o dono da vinha ao seu administrador: ‘Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário começando pelos últimos até aos primeiros’. 9Vindo os da hora undécima, receberam um denário cada um. 10E vindo os primeiros, pensaram que receberiam mais, mas receberam um denário cada um também eles. 11Ao receber, murmuravam contra o pai de família, dizendo: 12’Estes últimos fizeram uma hora só e tu os igualaste a nós, que suportamos o peso do dia e o calor do sol’. 13Ele, então, disse a um deles: ‘Amigo, não fui injusto contigo. Não combinaste um denário? 14Toma o que é teu e vai. Eu quero dar a este último o mesmo que a ti. 15Não tenho o direito de fazer o que eu quero com o que é meu? Ou o teu olho é mau porque eu sou bom?’. 16Assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos» (Mt 20,1-16).

Olhemos para o texto

            Trata-se de ler e reler o texto, identificando os seus elementos mais importantes.

1. Personagens
Fala-se num pai de família ou dono da vinha, num administrador e em trabalhadores.
            2. Contratos
Contamos cinco, efectuados pelo pai de família:
            - O contrato com os trabalhadores do amanhecer
            - O contrato com os trabalhadores da hora terceira
            - O contrato com os trabalhadores da hora sexta e da hora nona
            - O contrato com os trabalhadores da hora undécima.

            Note-se as particularidades de todos eles: no primeiro, acerta-se o salário em «um denário por dia» (v. 2); no segundo, no «que for justo» (v. 4); no terceiro e quarto diz-se «fazendo a mesma coisa» (v. 5), ou seja, ajustando o salário em um denário por dia ou com a promessa de vir a dar o que for justo; no quinto, nem sequer se fala em salário (vv. 6-7), mas, pelo que os trabalhadores vêem a receber, ficamos a saber que o acerto não foi diferente. O pai de família apenas diz: «’Ide, também vós, para a vinha’».
            Além destas pequenas diferenças, são contratos que não têm muito a ver com os nossos. Os nossos têm em conta determinadas cláusulas, princípios concretos. Ora, estas cláusulas ou princípios não são tidos em conta por este Senhor.
3. O comportamento do dono da vinha e do administrador
Um comportamento diferente do comportamento dos patrões e dos administradores que conhecemos. Se este dono da vinha ou pai de família fosse verdadeiramente um «patrão», tal como o concebemos, o seu administrador ter-lhe-ia certamente recordado que nem todos chegaram e trabalharam o mesmo número de horas. Mas ele não é um dos patrões que nós conhecemos.
4. As horas
Este pai de família saiu a várias horas para contratar trabalhadores para a sua vinha: de «manhã cedo», pela «hora terceira», «hora sexta e hora nona», «hora undécima». Existe ainda uma outra referência temporal que nos indica o momento do pagamento aos seus trabalhadores: «Chegada a tarde».
5. A vinha
Todos os trabalhadores são contratados a pensar na vinha. Aparece por quatro vezes a expressão «para a vinha», numa das vezes subentendida (v. 5), e uma vez «para a sua vinha».
6. Género literário
Neste olhar para o texto, também não podemos deixar de reparar que se trata duma parábola. A parábola é sempre uma história tirada da vida corrente, com dois ou três personagens, tendo cada um deles comportamentos mais ou menos contrários ou contraditórios, com o intuito de fazer captar uma verdade vivida, ou mal vivida ou contestada. Esta é uma parábola do reino (v. 1).
7. A reacção dos trabalhadores
Embora este Senhor não seja um patrão, os trabalhadores vêem-no como tal e por isso exigem dele um salário conforme ao seu esforço (v. 12).
O texto não diz tudo acerca deste elemento. Depois das palavras do pai de família, de que modo reagiram os que murmuravam? Aceitaram? Continuaram a queixar-se? Responderam com ofensas? A reacção que formos capazes de lhes atribuir pode ser muito bem a nossa reacção diante deste Senhor que não é patrão.
Pe. Vasco

02 março, 2013

Orar à maneira de Jesus e daqueles que se encontraram com Ele... (IV)




2) Oração de adoração e louvor

         São aquelas orações que têm a ver com uma confissão de fé na divindade da pessoa de Jesus e na sua actividade messiânica.
         Sobre o reconhecimento e a proclamação da divindade de Jesus, temos os seguintes textos no IV evangelho:

         «Rabi, tu és o Filho de Deus» (1,49); «Senhor, a quem iremos? Tens palavras de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que tu és o santo de Deus» (6,68-69); «Eu creio, Senhor!» (9,38); «Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus que vem ao mundo» (11,27); «Agora vemos que sabes tudo e não tens necessidade de que alguém te interrogue. Por isso cremos que saíste de Deus» (16,30); «Meu Senhor e meu Deus!» (20,28).

         No que diz respeito à confissão de fé na sua actividade messiânica, temos estes outros:
«Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo» (1,29); «Rabi, tu és o Rei de Israel» (1,49); «Esse é, verdadeiramente, o profeta que deve vir ao mundo» (6,14); «Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor e o rei de Israel!» (12,13).

      Digno de destaque nestas diversas orações de adoração e louvor é que todas elas não ficam apenas por nos dar informações acerca da pessoa de Jesus, mas indicam qual deve ser a atitude do cristão diante da pessoa e da actividade de Jesus.

       Como os seus contemporâneos, também nós somos convidados a confessar a Jesus que reconhecemos nele o mestre (1,49), o Senhor (9,38), o dador de vida (6,68), o Filho de Deus (11,27), o Santo por excelência (6,69), o Salvador (11,27), o único e verdadeiro profeta digno deste nome (6,14) e o único e verdadeiro rei investido de poderes divinos (12,13).

         Porém, se louvamos e adoramos Jesus desta maneira, com todos estes reconhecimentos e proclamações labiais, não devemos esquecer que depois deles segue-se um adequado compromisso na vida.
         Ao confessarmos com a boca ser Jesus o mestre, temos, então, de nos deixar instruir por ele; se confessamos ser o Senhor, temos, então, de nos deixar guiar por ele; se confessamos ser o nosso dador de vida, temos, então, de dar frutos de vida; se confessamos ser o Filho de Deus, temos, então, de nos entregar totalmente a ele; se confessamos ser o santo, temos, então, de caminhar com ele na santidade; se confessamos ser o salvador, temos, então, de nos deixar olhar e salvar por ele; se confessamos ser o profeta, temos, então, de escutar a sua palavra; se confessamos ser o rei, temos, então, de nos deixar governar por ele.


         No fundo, é sempre a velha questão de devermos rezar com a nossa verdade pessoal. E esta acontece quando as nossas palavras de louvor e adoração se traduzem na vida e a vida se traduz nas nossas palavras!...

Pe. Vasco

23 fevereiro, 2013

Orar à maneira de Jesus e daqueles que se encontraram com Ele... (III)




2. A oração das pessoas que se encontraram com Jesus

       Tudo o que foi dito até agora sobre o tema da oração, referiu-se directamente à pessoa de Jesus. Folheando, porém, o evangelho de João, é possível detectar-se outros protagonistas e expressões orantes. Estamos a falar, concretamente, de todas aquelas pessoas que um dia vieram a encontrar-se com Jesus e que, sob o impulso desta excepcional experiência, se dirigiram a Ele com a petição de qualquer graça ou exprimindo-lhe sentimentos de adoração e louvor.
         Debruçando-nos sobre cada uma das suas orações, surge no nosso interior a seguinte interrogação: será que ainda hoje podemos orar com todas elas? Será que podemos continuar a evocar, a ter presente os seus conteúdos? A resposta é positiva. Não só podemos rezar com as mesmas expressões orantes, mas também assumir redondamente os seus conteúdos. No entretanto, há que primeiro compreendê-los ao nível da mente e do coração...
         Elenquemos algumas dessas principais orações e notemos os seus conteúdos.

         1) Orações de súplica

         «Ora, não havia mais vinho, pois o vinho do casamento tinha-se acabado. Então a mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm mais vinho» (2,3)

Primeira oração de súplica: “Eles não têm mais vinho”

         (Explicitamente vemos a apresentação de uma necessidade. Implicitamente reconhecemos a atenção, preocupação, solicitude, compaixão, amor pelos mais necessitados. O Diálogo de Deus com os homens - “a sua oração” - também se reveste destes mesmos sentimentos, atitudes, valores, qualidades, características...)  
        
         Maria ora deste jeito pela ocasião das núpcias de Caná. Mais concretamente, depois de se ter dado conta que a eventual falta de vinho poderá causar um grave embaraço aos esposos. À parte de ser a apresentação de uma necessidade a Jesus, é uma oração carregada de atenção, preocupação, solicitude, compaixão, ternura, despojamento, oblação e amor pelos mais necessitados.
         Demonstra, pois, qual seja a sensibilidade da mãe de Jesus diante das pessoas em apuros. Maria faz-se aqui dom e esperança para os mais desprotegidos.
         Da nossa parte, ao assumirmos a súplica de Maria - “olha que eles não têm vinho” - estamos também a apresentar a Deus as necessidades do nosso próximo e a manifestar-lhe os nossos sentimentos/atitudes por cada um deles. Se quisermos, estamos ainda a dizer-lhe que já nos desinteressamos de nós mesmos para fazermo-nos dom e ocasião de esperança para o irmão.

«Jesus lhe respondeu: “Aquele que bebe desta água terá sede novamente; mas quem beber da água que eu lhe darei, nunca mais terá sede. Pois a água que eu lhe der tornar-se-á nele uma fonte de água jorrando para a vida eterna”. Disse-lhe a mulher: “Senhor, dá-me dessa água...”» (4,13-15)

         Segunda oração de súplica: “Senhor, dá-me dessa água”

         Poderemos rezar hoje com a mesma súplica? Quando a Samaritana dirigia estas palavras a Jesus, ela pensava na água do seu poço e na possibilidade de se dessedentar de uma vez para sempre.
Nós sabemos, porém, que a água de que fala Jesus é a água da sua palavra colocada pelo Espírito nos nossos corações para que nos tornemos fonte de vida e de obras boas.
Estamos, pois, em condições, até mais que a Samaritana, de pedir a Jesus este tipo de água e de repetir com o salmista: «Como a corça bramindo por águas correntes, assim minha alma está bramindo por ti, Ó meu Deus!» (Sl 42,2-3); «Ó Deus, tu és o meu Deus, eu te procuro. Minha alma tem sede de ti, minha carne te deseja com ardor, como terra seca, esgotada, sem água» (Sl 63,2).

         «Ouvindo dizer (um funcionário régio) que Jesus viera da Judéia para a Galiléia, foi procurá-lo, e pedia-lhe que descesse e curasse seu filho, que estava à morte» (4,47).

         Terceira oração de súplica: “Pediu-lhe que descesse e curasse seu Filho”

         Ao crente não é proibido pedir ao Senhor o que lhe é útil e necessário desde o ponto de vista estritamente humano. A intervenção de Jesus, aliás, mostra como o seu Deus é alguém de rosto humano e sempre disposto a ajudar quem se encontra enfermo. Não é por acaso que o salmista se mete a confessar publicamente: «Bendiz a Iahweh, ó minha alma, e não esqueças nenhum dos seus benefícios. É ele quem perdoa tua culpa toda e cura todos os teus males. É ele quem redime tua vida da cova e te coroa de amor e compaixão. É ele quem sacia teus anos de bens e, como a da águia, tua juventude se renova» (Sl 103,2-5).
No entretanto, aquilo que conta, no acto de suplicar, é ter, como o oficial régio, uma fé ilimitada no Senhor (4,50.53) e servir-se das graças recebidas para robustecê-la ainda mais (4,53).

         «(Respondeu-lhes Jesus): porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá a vida ao mundo. Disseram-lhe: “Senhor, dá-nos sempre deste pão”» (6,33-34)

         Quarta oração de súplica: “Senhor, dá-nos sempre deste pão”

         Na boca da gente de Cafarnaum, esta súplica refere-se aos pães que Jesus tinha multiplicado. Para o evangelista, porém, refere-se ao pão da palavra de Deus e ao pão eucarístico que dá acesso à vida plena.
A nós cristãos, obviamente, interessa esta segunda leitura. E é perfeitamente natural que, diante de um pão trasbordante de vida, queiramo-lo pedir muitas vezes – “Senhor, dá-nos sempre deste pão” - e sintamos a necessidade de recordar: «Trabalhai, não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até à vida eterna» (6,27); «O pão de Deus é aquele que desce do céu e dá a vida ao mundo» (6,33); «Eu sou o pão da vida» (6,35); «Quem comer deste pão viverá eternamente» (6,51).
Seria, contudo, redutor e mesquinho limitar-nos a pedir. Como Jesus, também nós somos chamados a fazer-nos pão para os outros; quer dizer, dom, ajuda, conforto, esperança, salvação, liberação. Como Jesus, também nós devemos tornar-nos carne que se imola e sangue que se derrama para bem do mundo.

         «(Responde Jesus a Pedro): “Se eu não te lavar, não terás parte comigo”. Lhe disse Simão Pedro: “Senhor, não apenas meus pés, mas também as mãos e a cabeça”» (13,8-9)

         Quinta oração de súplica: “Senhor, lava-me...”

         O motivo que leva Pedro a pedir a Jesus para lhe lavar os pés, as mãos e a cabeça é o medo de ser separado dele. Não se dá conta, em nenhum momento, que Jesus não quer lavá-lo por fora, mas por dentro, no interior e que esta lavagem acontecerá com a sua morte na cruz.
         Nós, porém, ao contrário de Pedro, estamos já ao corrente deste simbolismo. Logo, estamos obrigados a suplicar a Jesus que nos lave realmente como nos tem pensado lavar, isto é interiormente de todas as imundícies, e nos dê a pureza espiritual que fala o salmista: «Tem piedade de mim, ó Deus, por teu amor! Apaga minhas transgressões, por tua grande compaixão! Lava-me inteiro da minha iniquidade e purifica-me do meu pecado... Purifica meu pecado com o hissope e ficarei puro, lava-me, e ficarei mais branco do que a neve... Cria em mim um coração puro, renova um espírito firme no meu peito» (Sl 51,3-4.9.12).

         «Se me conheceis, também conhecereis a meu Pai. Desde agora o conheceis e o vistes. Filipe lhe diz: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta!” (14,7-8).

         Sexta oração de súplica: “Mostra-nos o Pai”

         Ao fazer a Jesus este pedido, o apóstolo Filipe mostra não ter compreendido absolutamente nada do que Ele acaba de dizer. O apóstolo pensa poder ver o Pai em carne e osso, de tal maneira que recebe esta resposta: «Quem me vê, vê o Pai. Como podes dizer: ‘Mostra-nos o Pai!’? Não crês que estou no Pai e o Pai está em mim? (vv. 9-10)
         De acordo com as palavras de Jesus, vimos a saber que não devemos aspirar uma visão directa do Pai. Se desejamos vê-lo, não temos se não que pedir um conhecimento sempre mais claro e profundo da pessoa de Jesus. O pedido deste conhecimento não deve, contudo, restringir-se ao simples campo teórico. Para João, conhecer Jesus significa também fazer experiência dele e entrar numa relação de grande intimidade (10,3-4). Significa conhecer mas, ao mesmo tempo, amar, escutar, acolher, observar, viver.

Pe. Vasco

16 fevereiro, 2013

Orar à maneira de Jesus e daqueles que se encontraram com Ele... (II)





- Segundo o desígnio de Deus e, como tal, eficaz

A oração de Jesus não se fundamenta em interesses pessoais ou na força das palavras e dos gestos. Aliás, se isto viesse acontecer, não passaria de uma oração ao jeito dos pagãos (Mt 6,7-8), tantas vezes criticada por ele. Os pagãos, à base de tanto insistirem, de tanto pedirem, de tanto informarem, de tanto persuadirem com as suas palavras e gestos, é que pensavam ser escutados pela divindade.    

Fundamenta-se, sim, na vontade do Pai, aliás como toda a sua vida: «Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou (4,34); (...) Eu não procuro a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou (5,30); (...) E quem me enviou está comigo. Não me deixou sozinho, porque faço sempre o que lhe agrada» (8,29).

Daí, precisamente, a sua eficácia: «(Marta diz a Jesus): Mas ainda agora sei que tudo o que pedires a Deus, Ele te concederá» (11,22); «Jesus ergueu os olhos para o alto e disse: “Pai, dou-te graças porque me ouviste. Eu sabia que sempre me ouves...”.

- Pelos seus discípulos (por cada um de nós) (17,9-19)

No capítulo 17, conhecido pela grande oração de Jesus ao Pai, é possível observar como os discípulos também fazem parte da sua oração. E os motivos pelos quais os inclui são variados: para que, no meio do mundo hostil e já na sua ausência, não abandonem a fé (vv. 11-15); para que sejam guardados no nome do Pai e preservados do poder do mal (vv. 11.15); para que, mesmo habitando num mundo incrédulo, cheguem a formar uma coisa só com Ele e com o Pai (v.11); para que o ódio do mundo não os impeça de gozar a sua plena alegria (v. 13); para que, como Ele, também eles sejam “santificados na verdade” (vv. 17.19) e se tornem verdadeiras testemunhas diante dos homens (v. 18);

À parte deste elenco de motivos, podemos destacar ainda a própria identidade do discipulado. Jesus ora de modo a que os seus discípulos venham a ser propriedade exclusiva de Deus (v.9), a viver numa situação diversa daquela em que vive o mundo (vv. 9.14-16), a encontrar-se no mundo, sendo para o mundo mas sem ser do mundo (vv.9.11.14.16), a acolher e a observar a palavra de Jesus como enviado do Pai (vv.8.17.19), a aspirar sempre uma comunhão mais profunda (v. 11).

- Por todos os que virão a acreditar nele (17,20-26)

Agora não se trata mais dos discípulos estritamente ditos, mas de todos aqueles que acreditarão nele mediante o anúncio deles (de cada um de nós). O v. 20 é claro, vejamos: «Não rogo somente por eles, mas pelos que, por meio da sua palavra, crerão em mim».


Esta súplica, de acordo com a temática da unidade e do amor que caracterizam esta secção, destina-se a faze-los participar da sua comunhão de vida e amor com o Pai: «a fim de que todos sejam um (como nós...); (...) Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós» (v. 21); «... para que sejam um, como nós somos um» (v. 22); «Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo saiba.. que os amaste como amaste a mim» (v.23); «Pai, ... quero que, onde eu estou, também eles estejam comigo» (v.24); «a fim de que o amor com que me amaste esteja neles e eu neles» (v.26).


- Que alcança alguns dons

Entre os muitos dons que Jesus pede e obtém do Pai para os seus discípulos, está o do Espírito Santo. A indicá-lo vemos o trecho de Jo 14,16-17: «E rogarei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito, para que convosco permaneça para sempre, o Espírito da Verdade, que o mundo não pode acolher, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque permanece convosco».

Tratando-se do Espírito, talvez fosse melhor falar do dom por excelência ou do dom-fonte, enquanto nascente de todos os dons divinos ou responsável por toda a riqueza espiritual dos crentes.

Para fazermos uma ideia de quanto seja importante esta petição de Jesus, bem como da importância de continuar a assumi-la nas nossas próprias orações, basta termos presente aquilo que o evangelho e as cartas de João atribuem à obra do Espírito. É próprio do Espírito tornar os homens filhos de Deus (3,3-8), ajudá-los a superar um modo de pensar puramente humano e sintonizá-los totalmente com o modo de pensar do Senhor (3,3-8), promover o culto espiritual (4,23-24), instruir (14,26), confirmar na fé (15,26-27), levar a um conhecimento sempre mais profundo e claro do mistério de Cristo (16,13-15; 1Jo 5,6), orientar para uma vida de comunhão e de caridade (1Jo 3,24; 4,13), transmitir fielmente a palavra de Jesus (1Jo 4,6) e fazê-la penetrar no íntimo dos corações (Jo 6,63).

Usando outros termos menos técnicos e mais próximos à nossa linguagem, podemos dizer que a actividade do Espírito é verdadeiramente excepcional enquanto tende a criar pessoas vivas, não mortas; impacientes de novidade, não resignadas; lutadoras, não rendidas; trasbordantes de amor, não tépidas (ñ indiferentes/mornas no amor); novas, não habituadas; autênticas, não hipócritas; abertas aos valores, não às aparências; encaminhadas para o futuro, não agarradas ao passado.

Numa palavra, pessoas animadas por aquele mesmo impulso interior que fazia escrever S. Teresinha do Menino Jesus: «(Quero) ser carmelita, Esposa e Mãe. No entanto, sinto em mim outras vocações, sinto a vocação de Guerreiro, de Sacerdote, de Apóstolo, de Doutor, de Mártir; (...) Quereria ser Missionário (....), mas quereria, sobretudo, Ó meu Bem-amado Salvador, quereria derramar o meu sangue (isto é, a minha vida) por ti, até à última gota...» (MsB 2vº, 3rº).

Pe. Vasco

09 fevereiro, 2013

Orar à maneira de Jesus e daqueles que se encontraram com Ele... (I)




Objectivos:

- Conhecer os conteúdos salvíficos presentes nestas orações
            - Acolher esses conteúdos nas nossas próprias orações, a fim de as tornarmos mais humanas e evangélicas (isto é, orações que levam o nosso ser, a nossa vida, a nossa história e o autêntico rosto de Deus)
- Fazer notar como ainda hoje, e em sentido lato, podemos rezar com algumas dessas expressões orantes.

Meios/recursos: Para desenvolver este tema, não obstante comecemos por mencionar alguns dados dos evangelistas Mateus, Marcos e Lucas, deitamos mãos à visão Joanina sobre a oração.

I. A oração de Jesus:

       - Em lugares e momentos importantes da sua vida

       Nos evangelhos sinópticos, aparece muitas vezes Jesus em atitude de oração. Os evangelistas fazem-nos compreender que Ele ora, de preferência, em lugares solitários (Mc 1,35) e em ocasiões importantes da sua vida pública.
         Assim, Ele ora pela ocasião do Baptismo (Lc 3,21-22), quando realiza os milagres (Lc 5,16), na escolha dos doze (Lc 6,12), antes de ensinar o «Pai nosso» (Lc 11,1), no contexto da profecia sobre a renegação de Pedro e a sua conversão (Lc 22,32), no horto das Oliveiras (Lc 22,41-45) e pouco antes de morrer (Lc 23,34.46).
        
         - Não só a Deus, mas a um Deus que é Pai (Jo 17,1)

       É de uma grande importância este facto. Pois, significa que a sua oração ou relação com Deus é vivida, fundamentalmente, não num clima de medo, angústia, receio ou desconfiança, mas de amor, diálogo, abertura, adesão, segurança, confidência e de grande intimidade.
         Que este seja, de facto, o seu modo de orar a Deus, o comprovam muitos outros textos, por exemplo, o prólogo de S. João ao afirmar que é próprio de Jesus tender, desde sempre, para o pai, desejar a plena comunhão e abrir-se, no amor, a uma total e incondicionada dependência dele: «No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. No princípio, Ele estava com Deus; (...) Ninguém jamais viu a Deus: o Filho único, que está voltado para o seio do Pai, este o deu a conhecer (1,1-2.18)».

         - Mais que uma invocação/imploração ou súplica de ajuda, uma disposição total para cumprir a vontade do Pai

       O evangelista João, embora conheça, no seu conjunto, as narrações dos outros evangelistas, mostra uma grande originalidade na escolha e no tratamento dos textos referentes à oração de Jesus. Tal originalidade deve-se à sua experiência/conhecimento/visão pessoal de Jesus. Por exemplo, no seu evangelho, Jesus nunca ora como pessoa necessitada, indigente, débil ou angustiada. Por isso, no quarto evangelho não encontramos alguma alusão ao trecho de Mc 14,33-36 e paralelos: «E, levando consigo Pedro, Tiago e João, começou a apavorar-se e angustiar-se. E disse-lhes: “A minha alma está triste até a morte. Permanecei aqui e vigiai”. E, indo um pouco adiante, caiu por terra, e orava para que, se possível, passasse dele a hora. E dizia: “Abba! Ó Pai! Tudo é possível para ti: afasta de mim este cálice; porém, não o que eu quero, mas o que tu queres”».
         O Jesus de João jamais implora ou suplica ao Pai para que venha em sua ajuda. Mais que invocação de ajuda, a sua oração de súplica vem a ser uma entrega total à vontade do Pai e um declarar-lhe abertamente que está disposto a colaborar em todo o seu desígnio salvífico para que venha a concretizar-se a ordem eternamente estabelecida.
         Daí, em lugar do trecho acima citado, aparecer antes: «Minha alma está agora conturbada. Que direi? Pai, salva-me desta hora? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim» (12,27).


Pe. Vasco

02 janeiro, 2013

A bênção de Deus! (Homilia no primeiro dia do ano )



Estimados irmãos: nós, cristãos, entramos no novo ano, não com o rosto carregado de amargura, de dor, de sofrimento ou incertezas, mas de confiança e de esperança num novo amanhã. Embora façamos parte duma sociedade e dum mundo que se dizem em crise, entramos no novo ano debaixo da bênção. 

A primeira bênção de Deus dada à humanidade na plenitude dos tempos foi o “sim” de Maria. Depois outras se seguiram: Jesus, o Messias que estava para vir ao mundo, o Evangelho ou a Boa Nova que nos haveria de ensinar a ser e a viver, a formação da Igreja, povo de Deus, a instituição dos sacramentos, com especial destaque para o Baptismo, Eucaristia e Confirmação, a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, o testemunho dos cristãos nos primeiros séculos e a fé recebida dos nossos pais e familiares. 

A primeira leitura deste dia colocava-nos a todos debaixo da bênção de Deus, à semelhança do que Ele fez, outrora, com o seu povo, Israel. As mesmas palavras que o Senhor pediu a Moisés que dissesse a Aarão e aos seus filhos, para que eles, por sua vez, as dirigissem a todo o povo, assim pede, hoje, aos seus apóstolos, como eu, para que as pronunciem sobre vós: “O Senhor vos abençoe e vos proteja. O Senhor faça brilhar sobre vós a sua face e vos seja favorável. O Senhor volte para vós os seus olhos e vos conceda a paz”. 

Porém, a bênção do Senhor requer a nossa participação, a nossa colaboração em cada dia. Mas em que sentido ou de que forma? Podemos ficar todos a sabê-lo através duma oração composta, outrora, pelo Papa João XXIII ao “hoje”, ao nosso “santo hoje”, ao modo como podemos viver a oportunidade do “agora” e de cada momento como se fosse único:

Hoje, apenas hoje!

«Procurarei viver pensando apenas no dia de hoje, sem querer resolver de uma só vez todos os problemas da minha vida.

Hoje, apenas hoje, terei o máximo cuidado com a minha convivência: afável nas minhas maneiras, a ninguém criticarei, nem pretenderei melhorar ou corrigir ninguém à força, senão a mim mesmo. 

Hoje, apenas hoje, serei feliz na certeza de que fui criado para a felicidade, não só no outro mundo, mas também já neste.

Hoje, apenas hoje, adaptar-me-ei às circunstâncias sem pretender que sejam todas as circunstâncias a adaptarem-se aos meus desejos.

Hoje, apenas hoje, dedicarei dez minutos a uma boa leitura. Assim como o alimento é necessário para a vida do corpo, assim a boa leitura é necessária à vida do espírito.

Hoje, apenas hoje, farei uma boa acção e não direi nada a ninguém.

Hoje, apenas hoje, farei ao menos uma coisa que me custe fazer; e se me sentir ofendido nos meus sentimentos, procurarei que ninguém o saiba.

Hoje, apenas hoje, executarei um programa pormenorizado. Talvez não o cumpra fielmente, mas ao menos escrevê-lo-ei. E fugirei de dois males: a pressa e a indecisão.

Hoje, apenas hoje, acreditarei firmemente – embora as circunstâncias mostrem o contrário – que Deus se ocupa de mim como se não existisse mais ninguém no mundo.

Hoje, apenas hoje, não terei qualquer medo. De modo especial, não terei medo de apreciar o que é belo e crer na bondade».

Amen.

(João XXIII)

Pe. Vasco

15 dezembro, 2012

ANO DE PROCURA




Jesus voltou-se e, notando que eles o seguiam, 
perguntou-lhes: «Que procurais?» (Jo 1,38)



Jesus voltou-se e, notando que 4 jovens o seguiam, levantou, de novo, a questão: “Que procurais?”. 
Desde o dia 02 de Setembro deste ano que esses quatro jovens em formação se encontram à volta da resposta à questão. Uma questão que não é uma questão qualquer, basta pensarmos que sai da boca de Jesus, mas que os coloca diante do seu valor e do sentido da sua vida. Uma resposta que, com mais consciência ou menos consciência, só pelo facto de terem recebido de bom grado a proposta de passar a uma nova etapa e de tomar o hábito carmelita, já começou a ser dada. 

É interessante notar que Jesus não está nada preocupado com os nomes dos primeiros discípulos e destes quatro jovens: se se chamavam Pedro, André, Tiago e João ou Renato, Carlos, Eugénio e Vitor; aliás, nem lhes pergunta quem são (A pergunta é doutro teor). Nem sequer se uns e outros eram citadinos ou campesinos, do continente ou das Ilhas, gente com estudos ou a iniciar, calejada por uma profissão ou à espera dela; se tinham passaporte e se ele indicava que eram judeus, portugueses ou timorenses. A pergunta, como dissemos entre parêntesis, mas “mais certeira que a luz do meio-dia”, é doutro teor. E é doutro teor, porque, para Jesus, cada um deles e cada um de nós vale por aquilo que procura. No que procuramos, está ou não o nosso valor e o sentido ou sem-sentido da nossa vida.

O Eugénio é um desses jovens que Jesus notou que O estava a seguir: tem 28 anos e é natural de Timor-Leste. O Vitor, qual outro discípulo de João Baptista, mas natural de Timor-Leste, não ficou atrás: ao ouvir alguém a pronunciar um nome tão grandioso como o de “Cordeiro de Deus, e só com 24 anos, pôs-se no Seu caminho. Apareceram, ainda, dois jovens chamados Carlos e Renato: o primeiro com 24 anos, natural do Marco de Canaveses, mais concretamente da freguesia de Rosém, o segundo com 20 anos e das Ilhas dos Açores, nomeadamente da Ilha Terceira. Estes não faziam parte dos discípulos de João Baptista, mas nem por isso deixavam de ter algo em comum com os outros dois: também eles “procuravam” e tinham um simples e profundo desejo de “ir e ver”.

O terem-se posto a seguir Jesus, deu nisto: actualmente, e depois de já terem passado por mais duas etapas formativas (Aspirantado e Postulantado), estão entre os Religiosos e as Religiosas carmelitas, filhos e filhas de Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz. No Centro de Espiritualidade em Avessadas, Marco de Canaveses, com uma comunidade de 5 Religiosos Professos e Sacerdotes, frequentam a etapa formativa do Noviciado que, de dia para dia, vai-lhes proporcionando esse “ir e ver” e a descoberta do que “procuram”, bem como o discernimento dessa «procura», isto é, se se trata duma procura que dá valor e sentido ou se, pelo contrário, o que comporta é ausência de valor e sentido. 

A descoberta e a resposta à questão de Jesus podem implicar muito tempo: um ano, por exemplo, que, por acaso, é o tempo estipulado, neste momento, para o noviciado nesta Província de Carmelitas Descalços. Mas não só: implica, sobretudo, silêncio, um voltar-se para o interior, um conhecer-se a si próprio, um conhecer a Jesus e o Deus de Jesus, uma oração-amizade, uma abertura ao Evangelho e à Igreja, uma comunidade, um carisma e uma espiritualidade, um acompanhamento e trato com outros testemunhos credíveis que se puseram a seguir o Mestre. Quais são esses testemunhos credíveis? Pergunta à Igreja, mas, se quiseres, a seu tempo, também esses 4 jovens te poderão dizer. 

E, tudo isto, eles recebem, nesta Ordem, na qual se encontram!... Queres também chegar a saber o que procuras? 

Pe. Vasco Nuno