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22 junho, 2013

Bilhete de identidade de Paulo (II)


«Mas Paulo disse aos lictores: «Açoitaram-nos em público, sem julgamento, a nós que somos cidadãos romanos; (…) Depois disso, Paulo afastou-se de Atenas e foi para Corinto. Encontrou ali um judeu chamado Áquila, natural do Ponto, recentemente chegado da Itália com Priscila, sua mulher, porque um édito de Cláudio ordenara que todos os judeus se afastassem de Roma. Paulo foi procurá-los e, como eram da mesma profissão - isto é, fabricantes de tendas - ficou em casa deles e começou a trabalhar» (cf. Act 16,37; 18,3).


Actividade profissional e classe social



Paulo era fabricante de tendas. Tendo em conta as práticas do seu tempo, deve ter aprendido essa actividade com o próprio pai. Tal aprendizagem iniciava aos 13 anos de idade e estendia-se por dois ou três anos. O aprendiz laborava o dia inteiro e obedecia a uma grande disciplina. Aprendia a arte, ou para ter um sustento de vida, como trabalhador, ou para substituir o pai, como gestor dos negócios. Isso tinha a ver com os bens do pai. Qual era a “conta bancária” do pai de Paulo? Paulo, sempre que podia, declarava que era Cidadão Romano, e que possuía esse direito «por nascimento», isto é, herdou-o do pai! Quer dizer que o pai ou o avô de Paulo conseguiu obter a Cidadania Romana, a ponto de poder conferi-la aos filhos! Isso requeria «grande soma de dinheiro (cf. Act 22,28). Alguns especialistas concluem que o pai deve ter sido patrão de uma oficina com empregados. Por isso, é possível que Paulo tenha aprendido a arte, não tanto por causa de um sustento de vida, como trabalhador, mas antes para gerir a oficina do pai, como proprietário. Como cidadão, Paulo era membro oficial da cidade (a polis) e podia participar na assembleia do povo, onde se falava e se tomavam decisões em relação a tudo que se referia à vida e à organização da polis (= cidade). Daí resulta a palavra «política». Naquela época, as cidades eram mais autónomas que hoje. A sociedade dividia-se em três classes básicas: cidadãos, libertos e escravos. Só os cidadãos eram chamados povo (= demos), e só eles participavam nas assembleias. Os escravos, os libertos e, já agora, os estrangeiros, não tinham esse direito. Os gregos chamavam a este sistema «demo (= povo) – cracia (= governo)». Na realidade, não vinha a ser «governo do povo». Era governo apenas da pequena elite dos cidadãos. Dentro do Império Romano, particularmente nas grandes cidades, os judeus viviam organizados em associações, reconhecidas pelos respectivos governos. Essas associações gozavam de certa autonomia. Era através delas que os judeus procuravam fazer valer os seus direitos junto do governo do Império, nomeadamente o direito à plena integração dos seus membros como cidadãos na vida da cidade e à plena liberdade religiosa. Assim, teriam direito à isenção de determinadas taxas e impostos e poderiam observar a Lei de Deus e as «tradições paternas». Nessa luta, conseguiram bons resultados desde os tempos de Júlio César. Desta maneira, entende-se também por que é que os judeus da diáspora não sentiam tanto o peso do domínio romano. Eles não eram tão explorados como os agricultores do interior da Palestina. Tinham até certos privilégios. Em parte, é isso que explica por que é que Paulo não se opunha ao Império. Ele chegou a pedir: «Submeta-se cada qual às autoridades constituídas» (Rm 13,1). Não temos informações acerca do papel do cidadão Paulo de Tarso na vida política da sua cidade ou nas associações dos judeus. Mas sabemos que tinha um papel preponderante na vida da sua comunidade. Reunia competências de líder: foi testemunha oficial na execução de Estêvão (cf. Act 7,58); foi emissário do Sinédrio para Damasco (cf. Act 9,2; 22,5; 26,12); alguns estudiosos pensam que chegou mesmo a ser membro do Sinédrio, isto é, do Supremo Tribunal da Comunidade judaica em Jerusalém. Cidadão Romano, Cidadão de Tarso, aluno de Gamaliel, formação superior, líder nato, membro activo da comunidade, formado muito provavelmente para assegurar a oficina do pai: todos esses títulos e competências fazem-nos vê-lo entre a elite da sociedade, tanto por formação, como por posse e liderança. Paulo tinha diante de si um grande futuro e a possibilidade de uma carreira espectacular. Mas a entrada de Jesus na sua vida alterou essa situação vantajosa. O que era lucro tornou-se perda (cf. Fl 3,7). Por causa de Cristo perdeu tudo. Ele mesmo dirá mais tarde: «Por causa d’Ele tudo desprezei, tudo considero como lixo, a fim de ganhar Cristo» (Fl 3,8).

Pe. Vasco

15 junho, 2013

Bilhete de identidade de Paulo (I)



«Sou judeu, nascido em Tarso da Cilícia, mas fui educado nesta cidade, instruído aos pés de Gamaliel, em todo o rigor da Lei dos nossos pais e cheio de zelo pelas coisas de Deus, como todos vós sois agora» (Act 22,3).

Lugar, ambiente em que nasceu e se criou

Paulo nasceu em Tarso, na região da Cilícia, na Ásia menor, actual Turquia. Era uma cidade bonita e grande. De acordo com os cálculos de alguns estudiosos, teria então cerca de 300.000 habitantes. Para o Sul, a cidade abria-se para o Mediterrâneo; para o Norte, espraiava-se junto a uma serra com 3000 metros de altitude. Tarso era um importante centro de cultura e de comércio. Possuía um porto muito movimentado. Passava por lá a estrada que fazia a ligação entre o Oriente e o Ocidente. Como é que Paulo, sendo judeu, foi nascer numa cidade grega da Ásia Menor? Desde o século VI a.C., muitos judeus emigraram para fora da Palestina. Em quase todas as cidades do Império Romano, havia bairros judeus, cada um com a sua Sinagoga e organização comunitária. Formavam assim a chamada diáspora (dispersão). Havia uma comunicação muito intensa entre Jerusalém e a diáspora: romarias, visitas, promessas, estudo… Jerusalém era o centro espiritual de todos os judeus. Assim se entende por que é que Paulo, nascido em Tarso, foi criado em Jerusalém. Nascido no seio de uma família judaica, Paulo foi criado dentro das exigências da Lei de Deus e das «tradições paternas». Os judeus da diáspora eram judeus praticantes. A sua maior preocupação era a observância da Lei de Deus. Por isso, lutavam contra aquelas leis e costumes do Império Romano que dificultavam ou impediam a observância da Lei de Deus. Por exemplo: prestar culto ao Imperador, trabalhar ao sábado, prestar serviço militar. Deste modo, conservavam viva a obrigação de serem «a nação consagrada, propriedade particular» de Deus e mantinham-se «separados», diferentes dos outros povos. Por causa disso, eram hostilizados e perseguidos. Mas carregavam a cruz da diferença como expressão da vontade de Deus. Paulo nasceu e cresceu nesse ambiente protegido e rígido do bairro judeu. De lá, olhava para o ambiente aberto e hostil da grande cidade grega. Estes dois ambientes marcaram a sua vida. Ele tinha dois nomes, um para cada ambiente: Saulo, o nome judaico, e Paulo, o nome grego. Ele mesmo prefere e assina «Paulo». Deus chama-o «Saulo».

Formação

Como todas as crianças judias da época, Paulo recebeu a sua formação básica na casa dos pais, na Sinagoga do bairro e na escola ligada à Sinagoga. A formação básica compreendia: aprender a ler e a escrever; estudar a Lei de Deus e a história do povo; assimilar as tradições religiosas; aprender as orações, sobretudo os Salmos. O método era: pergunta e resposta; repetir e decorar; disciplina e convivência. Além da formação básica em Tarso, Paulo recebeu uma formação superior em Jerusalém. Estudou aos pés de Gamaliel. Esse estudo abrangia as seguintes matérias: a Lei de Deus, chamada Torá (os cinco primeiros livros da Bíblia – o Pentateuco). O estudo era feito através de leituras frequentes, até aprender tudo de memória. A tradição dos Antigos: actualizava a Lei de Deus para o povo. Tinha duas partes, chamadas, na sua língua, halaká e hagadá. A halaká ensinava como viver a vida de acordo com a Lei de Deus. Abarcava os costumes e leis complementares, reconhecidas como tais pelas autoridades competentes. Havia a halaká dos fariseus, a mais rigorosa, e a dos saduceus. Paulo formou-se na Tradição dos fariseus. A hagadá ensinava como ler a vida à luz da Lei de Deus. Não tinha a aprovação oficial das autoridades. Era mais livre. Continha as histórias da Bíblia. O modo de recordar e ler a história antiga ajudava o aluno a ler a sua própria história e a descobrir nela os apelos de Deus. A interpretação da Bíblia, chamada Midrash. Midrash significa procura. Ensinava as regras e o modo de procurar o sentido da Sagrada Escritura para a vida do povo e das pessoas. Ou seja, ensinava a descobrir que a janela do texto, através da qual se vê o passado do povo, é também espelho através do qual se vê o presente do mesmo povo. A leitura da Bíblia era o eixo da formação. Marcava a piedade do povo. Desde criança, os judeus aprendiam a Bíblia. Era sobretudo a mãe, em casa, quem tinha o cuidado de a transmitir aos filhos. Assim, desde pequeno, Paulo aprendeu que «toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, refutar, corrigir e educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e esteja preparado para toda a obra boa» (2 Tm 3,16-17). 

Pe. Vasco

11 maio, 2013

A entrada de Jesus Ressuscitado na vida de Paulo (III): Forma, linguagem e 3 relatos



Tendo notado os contrastes existentes entre o livro dos Actos e as Cartas paulinas na maneira de nos narrar este acontecimento, vamos agora tentar perceber, mais de perto, a forma, a linguagem e o porquê de três relatos no escrito lucano. Estaremos, pois, a dar resposta àquelas questões com que terminámos a reflexão anterior. Dissemos que para lhes responder fazia falta não descurar a intencionalidade do autor sagrado. Para ela, também olharemos. 
Lucas, quando se sente movido a redactar a sua obra, é conhecedor duma tradição que diz que o apóstolo, na sua ida a Damasco, tinha sido coroado com e vivido um certo acontecimento sobrenatural, e que alguém de nome Ananias havia tido uma função preponderante nele. Ao estar por dentro dessa tradição, o que ele faz é pegar nesses elementos e construir uma narração segundo a forma das chamadas “lendas de conversão”.
O que vinham a ser essas “lendas”? Eram relatos elaborados com um objectivo bem traçado, ou seja, mostrar como Deus, face a alguém que se apresentava como seu inimigo, era capaz de acabar por convertê-lo mediante sinais portentosos. Um exemplo dessas lendas é a conversão de Heliodoro, ministro do rei Seleuco IV da Síria (ler o segundo livro dos Macabeus, cap. 3). O que nos dá alguma segurança para afirmar que o nosso autor inspirado utiliza este modo convencional de dizer as coisas é que encontramos muitas outras lendas judias que narram da mesma maneira a conversão de alguma figura inimiga de Deus. Assim sendo, ficamos a saber, uma vez mais, que não devemos tomar como históricos os pormenores da conversão de S. Paulo, mas antes, como elementos que fazem parte dum determinado caixilho literário, que sempre que é utilizado, lá aparecem.
Mas porquê tanto interesse de S. Lucas na conversão do apóstolo, ao ponto de não só a engrandecer com pormenores, mas de a repetir nada menos que três vezes (Act 9,3-19; 22,6-16 e 26,12-18)? Porque o autor sagrado, ao longo da sua obra, quer demonstrar o cumprimento da profecia de Jesus que diz que a Palavra de Deus se estenderá por todo o mundo de então. Com efeito, ao princípio, Jesus aparece aos apóstolos e profere-lhes: “Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo” (Act 1,8). E o que se entendia naquele tempo por “confins do mundo”? Era Roma, a capital do império.
Lucas desconhecia que algum dos doze apóstolos tivesse chegado até à capital. No seu escrito, Pedro, o porta-voz e cabeça do grupo, não chega a passar da Judeia e Samaria. João tão-pouco vai para além da Samaria. Tiago maior é morto cedo. Tiago menor nunca chega a sair de Jerusalém. Matias, substituto de Judas, deixa imediatamente de aparecer em cena após a sua eleição. Dos restantes apóstolos não temos nenhuma notícia.
Como demonstrar, pois, que a profecia de Cristo se realiza e que a Igreja se estende “até aos confins do mundo”? O nosso autor pôs-se a pensar e, por inspiração divina, chegou à conclusão de que a melhor maneira seria fazer recair sobre Paulo a realização desta missão. Mas ainda assim uma dificuldade se levantava: segundo Lucas, «apóstolo» era o que tinha conhecido pessoalmente Jesus e recebido d’Ele a tarefa de anunciar o Evangelho (Act 1,21-26); algo que não havia ocorrido com Paulo. Para que não restassem, pois, nenhumas dúvidas de como Paulo é o que realiza a missão de chegar a Roma – missão entregue, na verdade, aos apóstolos – Lucas, no quadro da sua conversão a caminho de Damasco, pinta-o a receber do próprio Jesus esse mesmo encargo. E fala nele por três vezes ao longo do livro, no seu itinerário para Roma, a fim de que não haja mesmo dúvidas.
Já agora, na Bíblia há uma linguagem convencional para exprimir as experiências que as pessoas têm de Deus: a imediatez, o brilho, a luz refulgente, o temor, por parte do ser humano, a missão directa, da parte de Deus. Podeis verificar se nos três textos de Lucas se pode aplicar este esquema.
Há aí um “diálogo de aparição”, muito comum no Antigo Testamento (Ex 3,2-10; 1Sm 3,4-14), que é utilizado oficialmente pelos escritores sagrados sempre que querem narrar a aparição de Deus (ou esse encontro extraordinário, místico, arrebatador, transformante, diferente dos de cada dia…) a alguma pessoa. Esse diálogo possui, na maioria das vezes, quatro elementos: o nome da pessoa é referido por duas vezes (Saulo, Saulo!); uma pergunta muito curta do interpelado (Quem és Tu, Senhor?); o Senhor que se auto-apresenta (Eu sou Jesus, a quem tu persegues) e a missão (Ergue-te, entra na cidade).
Apoderando-se desta linguagem, Lucas quis apresentar e confirmar uma coisa: que esse tal encontro ou experiência grandiosa de Cristo Ressuscitado e com Cristo Ressuscitado foi um acontecimento verdadeiramente real e não uma mera alucinação de Paulo.
Pe. Vasco

04 maio, 2013

A entrada de Jesus Ressuscitado na vida de Paulo (II): Versão de Lucas e de Paulo acerca dessa «entrada»


"Nesse instante, 
caíram-lhe dos olhos uma espécie de escamas
 e recuperou a vista." Act 9, 18 



No texto anterior foram apresentados os relatos que Lucas nos dá no livro dos Actos dos Apóstolos acerca dessa famosa entrada ou experiência de Jesus Ressuscitado na vida do apóstolo das gentes. Dissemos que, posteriormente, iríamos falar dessa entrada ou experiência, a qual considerámos decisiva na vida de Paulo e da Igreja nascente, também carregada de significado e pedra angular da vida de todo o discípulo de Jesus ou da vida cristã.
Uma vida cristã que não tenha na sua base uma verdadeira experiência de encontro com o Senhor vivo e ressuscitado é uma vida que, mais dia, menos dia, tende a ganhar outros contornos, a tornar-se nem “fria nem quente”, e, consequentemente, a sentir maiores dificuldades para estar radicada em Cristo, na Igreja e no Espírito. Do encontro ou dessa experiência extraordinária com que o apóstolo foi coroado pouco nos é descrito, diria mesmo que só conhecemos dela o que ela mesma foi capaz de realizar em Paulo e através de Paulo, não esquecendo, claro, a linguagem e a forma que a traduz nos textos bíblicos, que nos Actos é uma e nas Cartas é outra.
Comecemos por passar os olhos na versão de Lucas e de Paulo nas suas cartas. No texto anterior não fizemos nenhuma referência ao que o próprio apóstolo diz nos seus escritos sobre este acontecimento. Relemos, sobretudo, Act 9,3-19. Não deixa de ser curioso que possamos encontrar alguma falta de coincidência entre ambos os autores sagrados. Em primeiro lugar, Paulo não se detém pormenorizadamente naquilo que se passou consigo a caminho de Damasco. Aliás, em nenhum escrito seu conta o que experimentou durante essa viagem. Nem sequer nos diz que caiu abaixo do cavalo (Lucas também não o diz e convém ter presente que as viagens, nessa época, se faziam a pé; por isso, as representações de Paulo caindo “do cavalo”, que tantas vezes contemplamos em quadros e pinturas, não correspondem à realidade). Alude apenas muito suavemente à sua conversão. E até tinha razões para o fazer de forma diferente, pois seria um bom argumento para contestar os Gálatas que punham em causa a autenticidade do seu ministério (Gl 1,15). Mesmo quando se põe a falar das suas visões ou revelações fá-lo de modo muito discreto, concretamente utilizando a terceira pessoa (“Sei de um homem” 2 Cor 12,2), como se não tivesse grande gosto em contar essas coisas no seu dia-a-dia. Todavia, vemo-lo, nos Actos, a boca cheia a referir-se a esse acontecimento, e, uma vez, até diante de gente desconhecida (Act 22). É caso para perguntar: será este o mesmo Paulo das Cartas? Em segundo lugar, os Actos não mencionam que ele viu Jesus, mas simplesmente que “se viu envolvido por uma intensa luz vinda do céu e que ouviu uma voz que lhe falava” (Act 9,3-4). Ao passo que Paulo, nas cartas, afirma, sem grandes descrições, ter visto a Jesus nessa viagem. Aos cristãos de Corinto, interpela: “Não vi Jesus, nosso Senhor” (1 Cor 9,1)? E noutra ocasião: “Em último lugar, apareceu-me também a mim” (1 Cor 15,8). Em terceiro lugar, o apóstolo faz questão de vincar nos seus escritos que a sua vocação-missão e o evangelho por ele anunciado lhe foram entregues sem qualquer intermediário, ou seja, directamente de Deus: “Paulo, apóstolo – não da parte dos homens, nem por meio de homem algum, mas por meio de Jesus Cristo e de Deus Pai” (Gl 1,1); “Faço-vos saber, irmãos, que o Evangelho por mim anunciado, não o conheci à maneira humana, pois eu não o recebi nem aprendi de homem algum, mas por uma revelação de Jesus Cristo” (Gl 1,11). Pelo contrário, os Actos dizem que houve alguém a dar a entender a Paulo o significado da luz que o envolveu e a ensinar-lhe a doutrina cristã (9,10-18).
Encontramos mais contrastes entre ambas as versões. Por exemplo, Actos descreve esse acontecimento extraordinário no caminho para Damasco como uma «conversão»; Paulo, porém, nunca diz que se converteu, mas fala da sua «vocação» (Gl 1,15). Lucas refere que tudo foi acompanhado de fenómenos exteriores (uma luz celestial, uma voz misteriosa, a queda ao chão, a cegueira). O apóstolo nenhuma insinuação faz a esses fenómenos fantásticos e chama a essa revelação que teve de experiência interior (Gl 1,16). Como se interpretam todos estes contrastes? Qual a razão por que Lucas parece não estar em sintonia com o que Paulo menciona nas suas cartas? Para darmos uma resposta a tudo isto faz falta não descurar a intencionalidade de Lucas no livro dos Actos dos Apóstolos. Daremos essa resposta na reflexão seguinte, continuando a cavar as frases, as palavras, a forma desta e das outras narrações lucanas traduzirem a transformação impressionante do apóstolo.
Pe. Vasco

13 abril, 2013

A entrada de Jesus Ressuscitado na vida de Paulo: textos dos Actos dos Apóstolos




A entrada de Jesus Ressuscitado na vida do apóstolo foi um acontecimento determinante na vida da Igreja primitiva e, por este motivo, o autor deste livro relata-a não uma, mas três vezes. Apresentamos aqui os três relatos fornecidos por S. Lucas, a fim de os lerdes, confrontardes e notardes as diferenças e contradições. O acontecimento é contado com pormenores não somente diferentes, mas até mesmo contraditórios. Trata-se – claro está – de incongruências de pouca importância, mas que existem e são preciosas: sugerem que não interpretemos o relato como um banal facto de crónica, mas como uma experiência espiritual decisiva na vida de Paulo, experiência que tem muito para nos ensinar também hoje e da qual falaremos na próxima publicação.

(Act 9,3-19)
«Estava a caminho e já próximo de Damasco, quando se viu subitamente envolvido por uma intensa luz vinda do Céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: «Saulo, Saulo, porque me persegues?» Ele perguntou: «Quem és Tu, Senhor?» Respondeu: «Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Ergue-te, entra na cidade e dir-te-ão o que tens a fazer.» Os seus companheiros de viagem tinham-se detido, emudecidos, ouvindo a voz, mas sem verem ninguém. Saulo ergueu-se do chão, mas, embora tivesse os olhos abertos, não via nada. Foi necessário levá-lo pela mão e, assim, entrou em Damasco, onde passou três dias sem ver, sem comer nem beber. Havia em Damasco um discípulo chamado Ananias. O Senhor disse-lhe numa visão: «Ananias!» Respondeu: «Aqui estou, Senhor.» O Senhor prosseguiu: «Levanta-te, vai à casa de Judas, na rua Direita, e pergunta por um homem chamado Saulo de Tarso, que está a orar neste momento.» Saulo, entretanto, viu numa visão um homem, de nome Ananias, entrar e impor-lhe as mãos para recobrar a vista. Ananias respondeu: «Senhor, tenho ouvido muita gente falar desse homem e a contar todo o mal que ele tem feito aos teus santos, em Jerusalém. E agora está aqui com plenos poderes dos sumos sacerdotes, para prender todos quantos invocam o teu nome.» Mas o Senhor disse-lhe: «Vai, pois esse homem é instrumento da minha escolha, para levar o meu nome perante os pagãos, os reis e os filhos de Israel. Eu mesmo lhe hei-de mostrar quanto ele tem de sofrer pelo meu nome.» Então, Ananias partiu, entrou na dita casa, impôs as mãos sobre ele e disse: «Saulo, meu irmão, foi o Senhor que me enviou, esse Jesus que te apareceu no caminho em que vinhas, para recobrares a vista e ficares cheio do Espírito Santo.» Nesse instante, caíram-lhe dos olhos uma espécie de escamas e recuperou a vista. Depois, levantou-se e recebeu o baptismo. Depois de se ter alimentado, voltaram-lhe as forças e passou alguns dias com os discípulos, em Damasco».

(Act 22,6-16)
«Ia a caminho, e já próximo de Damasco, quando, por volta do meio-dia, uma intensa luz, vinda do Céu, me rodeou com a sua claridade. Caí por terra e ouvi uma voz que me dizia: ‘Saulo, Saulo, porque me persegues?’ Respondi: ‘Quem és Tu, Senhor?’ Ele disse-me, então: ‘Eu sou Jesus de Nazaré, a quem tu persegues.’ Os meus companheiros viram a luz, mas não ouviram a voz de quem me falava. E prossegui: ‘Que hei-de fazer, Senhor?’ O Senhor respondeu-me: ‘Ergue-te, vai a Damasco, e lá te dirão o que se determinou que fizesses.’ Mas, como eu não via, devido ao brilho daquela luz, fui levado pela mão dos meus companheiros e cheguei a Damasco. Ora um certo Ananias, homem piedoso e cumpridor da Lei, muito respeitado por todos os judeus da cidade, foi procurar-me e disse: ‘Saulo, meu irmão, recupera a vista.’ E, no mesmo instante, comecei a vê-lo. Ele prosseguiu: ‘O Deus dos nossos pais predestinou-te para conheceres a sua vontade, para veres o Justo e para ouvires as palavras da sua boca, porque serás testemunha diante de todos os homens, acerca do que viste e ouviste. E agora, porque esperas? Levanta-te, recebe o baptismo e purifica-te dos teus pecados, invocando o seu nome’».

(Act 26,12-18)
«Foi assim que, indo para Damasco com poder e delegação dos sumos sacerdotes, vi no caminho, ó rei, uma luz vinda do céu, mais brilhante do que o Sol, que refulgia em volta de mim e dos que me acompanhavam. Caímos todos por terra e eu ouvi uma voz dizer-me em língua hebraica: ‘Saulo, Saulo, porque me persegues? É duro para ti recalcitrar contra o aguilhão.’ Perguntei: ‘Quem és tu, Senhor?’ E o Senhor respondeu: ‘Eu sou Jesus a quem tu persegues. Ergue-te e firma-te nos pés, pois para isto te apareci: para te constituir servo e testemunha do que acabas de ver e do que ainda te hei-de mostrar. Livrar-te-ei do povo e dos pagãos, aos quais vou enviar-te, para lhes abrires os olhos e fazê-los passar das trevas à luz, e da sujeição de Satanás para Deus. Alcançarão, assim, o perdão dos seus pecados e a parte que lhes cabe na herança, juntamente com os santificados pela fé em mim’». 
Pe. Vasco      

30 março, 2013

«A amigos muito queridos»




«Por nada vos deixeis inquietar; pelo contrário: em tudo, pela oração e pela prece, apresentai os vossos pedidos a Deus em acções de graças. Então, a paz de Deus, que ultrapassa toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus. De resto, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é respeitável, tudo o que possa ser virtude e mereça louvor, tende isso em mente. E o que aprendestes e recebestes, ouvistes de mim e vistes em mim, ponde isso em prática. Então, o Deus da paz estará convosco» (Fl 4,6-9).

Enquadramento e contexto

A passagem escolhida para beber na torrente da Bíblia é uma passagem da carta aos Filipenses. É já a parte final da carta e apresenta um leque de recomendações, destinadas a recordar aos filipenses algumas obrigações que resultam do seu compromisso com Cristo e com o Evangelho. Quando se põe a escrever a estes cristãos da cidade grega de Filipos, o apóstolo encontra-se preso (em Éfeso?), sem saber o que o futuro imediato lhe reserva.

Ensinamento

Os primeiros dois versículos do nosso texto (vv. 6-7) fazem parte de uma passagem mais longa, na qual o apóstolo aconselha aos cristãos de Filipos que vivam na alegria (vv. 4-7). Esta “alegria” não se confunde com gargalhadas histéricas ou com optimismos inconscientes; mas é a “alegria” que brota de uma vida de união com o Senhor, com tudo o que isso significa em termos de garantia de vida verdadeira e eterna. O cristão vive na alegria, pois a união com Cristo garante-lhe o acesso próximo (“o Senhor está próximo”) à vida plena. Daí desponta a serenidade, a paz, a tranquilidade, que permitem ao crente agarrar a vida sem medo e sentir-se seguro nos braços amorosos de Deus Pai (v. 6a). Ao crente, resta cultivar a união com Deus, entregando-Lhe diariamente a sua vida “com orações, súplicas e acções de graças” (v. 6b).
Depois (v. 8), Paulo sugere aos filipenses um conjunto de seis “qualidades” que eles devem desenvolver e apreciar: a verdade, a nobreza, a justiça, a pureza, a amabilidade e a boa reputação. Tudo isto é “virtude”, tudo isto é digno de louvor. Há quem olhe para este versículo como a “magna carta do humanismo cristão”. Estes valores não são tipicamente do Cristianismo: são valores sãos e louváveis, que fazem parte também do ideal pagão (eram valores igualmente tidos em conta pelos moralistas gregos da época). No entanto, a comunidade cristã deve estar receptiva ao acolhimento de todos os verdadeiros valores humanos. Os cristãos devem ser, antes de mais, arautos e testemunhas dos verdadeiros valores humanos.
Finalmente, o apóstolo exorta os filipenses a porem em prática estas recomendações segundo o exemplo que dele receberam (v. 9). O cristão tem de viver os valores humanos em confronto constante com o Evangelho e na fidelidade ao Evangelho. Às vezes, para não dizer muitas vezes, eles esquecem-se disso mesmo.

Acolher o ensinamento

As palavras de Paulo à comunidade de Filipos traçam alguns dos elementos concretos que devem marcar a nossa caminhada como discípulos do Senhor. Lendo e meditando o texto com atenção, somos capazes de reparar que o apóstolo convida os crentes a não viverem inquietos e preocupados. Os cristãos estão “enxertados” em Cristo e têm a garantia de com Ele ressuscitar para a vida plena. Eles sabem que as dificuldades, os dramas, as perseguições, as incompreensões são apenas acidentes de percurso, que não conseguirão arredá-los da vida verdadeira. Os discípulos de Cristo não são pessoas fracassadas, alienadas, falhadas, mas pessoas com um objectivo final bem definido e bem sugestivo. O caminho de Cristo é um caminho de dom e de entrega da vida; mas não é um caminho de tristeza e de frustração. Porquê, então, a tristeza, a inquietação, o desânimo com que, tantas vezes, enfrentamos as vicissitudes e as dificuldades da nossa caminhada? Os irmãos que nos rodeiam e que nos olham nos olhos recebem de nós um testemunho de paz, de serenidade, de tranquilidade?
Depois, Paulo convida os crentes a terem em conta, na sua vida, esses valores humanos que todos os homens apreciam e amam: a verdade, a justiça, a honradez, a amabilidade, a tolerância, a integridade… Um cristão tem de ser, antes de mais, uma pessoa íntegra, verdadeira, leal, honesta, responsável, coerente. Ouvimos, algumas vezes, dizer que “os que vão à Igreja são piores do que os outros”. Em parte, a expressão serve, sobretudo, a muitos dos chamados “cristãos não-praticantes” para justificar o facto de não irem à Igreja; mas não traduzirá, algumas vezes, o mau testemunho que alguns cristãos dão quanto à vivência dos valores humanos?

Orar com o ensinamento

Senhor, à primeira vista, impressiona-me como Paulo propôs aos seus cristãos os mesmos valores que constavam das listas de valores dos moralistas gregos da sua época… Mas, depois, descubro nessa proposta um convite da tua parte a reflectir sobre a nossa relação com os valores do mundo que nos rodeia e sobre a forma como os aceitamos e integramos na nossa vida. De facto, não nos podemos esconder atrás da nossa muralha fortificada e rejeitar, em bloco, tudo aquilo que o mundo de hoje nos proporciona, como se fosse algo de mau e pecaminoso. O mundo em que vivemos, tanto quanto me permites contemplar e saborear, tem valores muito bonitos e sugestivos, que nos ajudam a crescer de uma forma sã e equilibrada e a integrar uma realidade rica em desafios e esperanças. O que é necessário - e para isso te peço ajuda - é saber discernir, de entre todos os valores que o mundo nos apresenta, aquilo que nos torna mais livres e mais felizes e aquilo que nos torna mais escravos e infelizes, aquilo que não belisca a nossa fé e aquilo que ameaça a essência do Evangelho!…

Pe. Vasco

23 março, 2013

Fomos chamados para a liberdade




«Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes, e não vos sujeiteis outra vez ao jugo da escravidão. Irmãos, de facto, foi para a liberdade que vós fostes chamados. Só que não deveis deixar que essa liberdade se torne numa ocasião para os vossos apetites carnais. Pelo contrário: pelo amor, fazei-vos servos uns dos outros. É que toda a Lei se cumpre plenamente nesta única palavra: Ama o teu próximo como a ti mesmo. Mas, se vos mordeis e devorais uns aos outros, cuidado, não sejais consumidos uns pelos outros. Mas eu digo-vos: caminhai no Espírito, e não realizareis os apetites carnais. Porque a carne deseja o que é contrário ao Espírito, e o Espírito, o que é contrário à carne; são, de facto, realidades que estão em conflito uma com a outra, de tal modo que aquilo que quereis, não o fazeis. Ora, se sois conduzidos pelo Espírito, não estais sob o domínio da Lei» (Gl 5,1.13-18).

Enquadramento e contexto da passagem

Estamos perante um texto que aparece na parte final da Carta aos Gálatas. É o começo de uma reflexão acerca da verdadeira liberdade, que é fruto do Espírito (cf. Gl 5,1-6,10). Para melhor compreensão da mensagem, torna-se conveniente perguntar-nos pelo problema fundamental aí tratado: esta comunidade cristã está a ser incomodada por um grupo de judaízantes, isto é, cristãos provenientes do judaísmo, gente ainda agarrada à antiga lei, concretamente às suas regras, normas, disposições e práticas exteriores, as quais consideram também necessárias para chegar à vida em plenitude ou à salvação; e Paulo – para quem Cristo basta e para quem as obras da Lei já não dizem nada – procura fazer com que toda a comunidade não se sujeite mais a nenhum tipo de escravidão.

Ensinamento

As palavras do apóstolo são um convite enérgico à liberdade. Ele avisa os Gálatas que foi para a liberdade que Cristo os libertou (a repetição destina-se a dar ao verbo “libertar” um sentido mais intenso) e que não convém recair no jugo da escravidão (Paulo identifica essa escravidão com a Lei e a circuncisão). Mas o que vem a ser a liberdade para o cristão? Será que tem a ver com a faculdade de optar entre duas coisas distintas e opostas? Não. Será que tem a ver com uma espécie de independência ético-moral, em virtude da qual cada um pode fazer o que lhe dá na gana, sem impedimentos de qualquer espécie? Também não. Para Paulo, a verdadeira liberdade consiste em viver no amor. O que nos escraviza, nos limita e nos impede de atingir a vida em plenitude ou a salvação é o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência; mas vencer esse fechamento em nós próprios e fazer da nossa vida um dom de amor torna-nos autenticamente livres. Só é verdadeiramente livre aquele que se libertou de si próprio e vive para se dar aos outros. Como é que esta “liberdade” (a capacidade de amar, de dar a vida) nasce em nós? Ela nasce da vida que Cristo nos dá: pela adesão a Cristo, gera-se em cada pessoa um dinamismo interior que a identifica com Cristo e lhe dá uma capacidade infinita de amar, de ultrapassar o egoísmo, o orgulho e os limites. É o Espírito que alimenta, dia a dia, essa vida de liberdade (ou de amor) que se gerou em nós, a partir da nossa adesão a Cristo. Viver na escravidão é continuar a viver uma vida centrada em si próprio (cf. 5,19-21); viver na liberdade (“segundo o Espírito”) é sair de si e fazer da sua vida um dom, uma partilha (cf. 5,22-23).

Acolher o ensinamento

Os homens da nossa época anseiam por esse valor chamado “liberdade”; contudo, têm, frequentemente, uma ideia bastante egoísta deste valor essencial. Quando a liberdade se entende desde o eu, identifica-se com libertinagem: é a capacidade de eu fazer o que quero; é a capacidade de eu poder escolher; é a capacidade de eu poder tomar as minhas decisões sem que ninguém me entrave… Esta liberdade não provoca, tantas vezes, orgulho, egoísmo, auto-suficiência, isolamento e, portanto, escravidão? Para Paulo, só se é verdadeiramente livre quando se ama. Aí, eu não me prendo a nada do que é meu, deixo de viver obcecado comigo e com os meus interesses e estou sempre disponível para me partilhar com os meus irmãos. É esta experiência de liberdade que faz hoje tanta gente que não reserva a própria vida para si própria, mas faz dela uma oferta de amor aos irmãos mais necessitados. Como dar este testemunho e passar esta mensagem aos homens do nosso tempo, sempre obcecados com a verdadeira liberdade? Como dar a saber que só o amor nos faz totalmente livres?
Orar com o ensinamento

Nem é tarde nem é cedo: Senhor, vamos a isso. Era essa a liberdade que eu buscava…
Pe. Vasco

16 março, 2013

«Porque eu sou bom» (II)



Aprofundemos a Palavra

            É a vez de tentar descobrir o significado de alguns desses elementos e de me perguntar pelo ensinamento do Jesus de Mateus. Para se compreender bem esse ensinamento, ajuda muito saber o ambiente que está por detrás do texto.

            - Pai de família: a figura de Deus. A Ele pertence o Reino e a iniciativa da chamada.
- Reino dos Céus: um mundo novo de salvação e vida plena, oferecido a todos sem excepção.
            - Vinha: imagem do Antigo Testamento para designar o povo eleito (Sl 78,9; Is 5,1). É o povo do Senhor, a Igreja, a comunidade cristã.
            - Horas: o dono da vinha sai ao amanhecer, a meio da manhã, ao meio-dia, a meio da tarde e ao cair da tarde.
            - Os trabalhadores da primeira hora e da última hora: os cumpridores acérrimos da lei (escribas e fariseus) e os não cumpridores (pecadores). Os cristãos provindos do judaísmo e os cristãos provindos do paganismo. Os que passaram todos os dias da sua vida na intimidade com Deus e na escuta da Sua palavra e os que andaram arredados delas.
            - O mesmo salário: Nesta vinha, não há trabalhadores mais importantes do que os outros, não há trabalhadores de primeira e de segunda classe. Mas todos têm a mesma dignidade e importância.
            - O trabalho na vinha: os diversos serviços ou ministérios a desenvolver na comunidade. Qual é o meu lugar ou a minha tarefa a realizar na vinha do Senhor?
            - O comportamento do dono da vinha: uma denúncia da religião dos “méritos”, ensinada pelos guias espirituais de então. Estes tinham levado o povo a substituir o Deus bom, pai, esposo e amigo fiel, anunciado pelos profetas, por um deus distante, legislador, juiz, negociante e contabilista.

            Ambiente

            Neste texto proposto pelo evangelista, Jesus continua a instruir os discípulos, a fim de que compreendam a realidade do Reino e, após a sua partida, dêem testemunho dele.
O cenário que a parábola nos mostra reflecte bastante bem a realidade social e económica dos tempos de Jesus. A Galileia estava cheia de camponeses que, por causa da pressão fiscal ou de anos contínuos de más colheitas, tinham perdido as terras que pertenciam à sua família. Para sobreviver, esses camponeses sem terra alugavam a sua força de trabalho. Juntavam-se na praça da cidade e esperavam que os grandes latifundiários os contratassem para trabalhar nos seus campos ou nas suas vinhas. Normalmente, cada senhor tinha os seus “trabalhadores” em quem ele confiava e a quem contratava regularmente. Naturalmente, todos eles recebiam um tratamento de favor. Esse tratamento de favor implicava, concretamente, que esses “trabalhadores” fossem sempre os primeiros a ser contratados, a fim de que pudessem ganhar um dia de serviço. 

Ensinamento

A parábola refere-se a um dono de uma vinha que, ao romper da manhã, se dirigiu à praça e chamou os seus “clientes” para trabalhar na sua vinha, ajustando com eles o preço habitual: um denário. As muitas tarefas a realizar na vinha fez com que ele voltasse a sair outras vezes e trouxesse um novo grupo de trabalhadores. O trabalho decorreu sem problemas, até ao final do dia. Ao anoitecer, os trabalhadores foram chamados diante do senhor, a fim de receberem a paga do trabalho. Todos receberam o mesmo: um denário. Porém, os trabalhadores da primeira hora, ou seja, os “clientes” habituais do dono da vinha, manifestaram a sua surpresa e o seu desconcerto por, desta vez, não terem recebido um tratamento “de favor”.
A resposta final do dono da vinha afirma que ninguém tem nada a reclamar se ele decide derramar a sua justiça e a sua misericórdia sobre todos, sem excepção. Ele cumpre as suas obrigações para com aqueles que trabalham com ele desde o início; não poderá ser bondoso e misericordioso para com aqueles que só chegam no fim?
Quase de certeza que a parábola, primeiramente, serviu a Jesus para responder às críticas de quem se opunha ao seu comportamento demasiado próximo aos pecadores. Através dela, Jesus revela que o amor do Pai se difunde sobre todos os seus filhos, sem excepção e por igual. Para Deus, não é fulcral a hora a que se respondeu ao seu apelo; o que é fulcral é que se tenha respondido ao seu convite para trabalhar na vinha do Reino. Para Deus, não há tratamento especial por razões de antiguidade; para Deus, todos os seus filhos são iguais e merecem o seu amor.
A parábola serviu também a Jesus para pôr por terra a ideia que os guias espirituais de Israel tinham de Deus e da salvação. Para os fariseus, sobretudo, Deus era um patrão que pagava conforme as acções do homem. Se o homem cumprisse escrupulosamente a Lei, conquistaria determinados méritos e Deus pagar-lhe-ia convenientemente. O seu “deus” era uma espécie de comerciante, que todos os dias apontava no seu caderno de contas as dívidas e os créditos do homem, que um dia faria as contas finais, veria o saldo e daria a recompensa ou aplicaria o castigo. Segundo este ponto de vista, Deus não dá nada; é o homem que conquista tudo.
Para Jesus, no entanto, Deus não é um comerciante, sempre de lápis em punho a fazer contas para pagar aos homens consoante os seus merecimentos. Ele é um pai, cheio de bondade, que ama todos os seus filhos por igual e que derrama sobre todos, sem excepção, o seu amor.
A parábola foi mais tarde proposta pelo evangelista à sua comunidade para iluminar a situação concreta que a mesma estava a viver com a entrada maciça de pagãos na Igreja. Alguns cristãos de origem judaica não conseguiam entender que os pagãos, vindo mais tarde, estivessem em pé de igualdade com aqueles que tinham acolhido a proposta do Reino desde a primeira hora. Mateus deixa, no entanto, claro que o Reino é um dom oferecido por Deus a todos os seus filhos. Judeus ou gregos, escravos ou livres, cristãos da primeira ou da última hora, todos são filhos amados do Pai. Na comunidade de Jesus não há graus de antiguidade, de raça, de classe social, de merecimento. O dom de Deus é para todos, por igual.       

Acolhamos o ensinamento

            O que se pretende aqui é entrar em diálogo com a palavra de Deus, através de algumas questões: Que me diz Jesus? Põe-me alerta contra quê? Que atitude me sugere no dia-a-dia?

O Deus que Jesus me revela é um Deus que não faz negócio comigo. Ele não precisa da minha mercadoria. Não me contabiliza os créditos, nem me paga em consequência. O Deus que Jesus me anuncia é um Pai que me quer ver livre e feliz, derramando sobre mim o Seu amor de forma gratuita e incondicional.
Jesus pede-me que, ao entender esta verdade sobre Deus, isto é, que Ele não é um negociante mas um pai cheio de amor por mim, renuncie a uma lógica interesseira no meu relacionamento com Ele. Como seu filho, não devo fazer as coisas por interesse mas por estar convicto de que o comportamento que Ele me propõe é o caminho para a verdadeira vida. Quem segue o caminho certo, é feliz, encontra a paz e a serenidade e colhe, logo aí, a sua recompensa.     
O seu Reino é para mim e para todos, sem excepção. Para Ele não há marginalizados, excluídos, indignos, desclassificados… Para Ele, há homens e mulheres – todos seus filhos, independentemente da cor da pele, da nacionalidade, da classe social – a quem Ele ama, a quem Ele quer oferecer a salvação e a quem Ele convida para trabalhar na sua vinha.

Oremos com o ensinamento

            A oração é a nossa resposta a Deus; ela emerge da escuta, do aprofundamento e do acolhimento do texto sagrado, e dirige-se ao Senhor sob diversas formas.

            Senhor, ensina-me a estar diante de ti com um coração livre daqueles preconceitos que ofuscam em mim a tua imagem. Dá-me um coração simples que saiba perceber, na palavra das Sagradas Escrituras, meditadas quotidianamente, o teu rosto de Deus que salva, se torna próximo de cada homem para libertá-lo do pecado. Um coração capaz de usufruir de tudo o que me ofereces, disposto a uma escuta obediente.

Apliquemo-lo à vida

            Tudo teria sido em vão se o ensinamento não viesse a dar fruto na minha existência. Quais as medidas concretas a assumir a partir deste ensinamento que escutei, aprofundei, acolhi e orei?

                Estarei mais atento ao meu trabalho na Sua vinha e ao espírito com que o faço. Farei tudo por dar a conhecer o Seu rosto de bondade e generosidade aos meus irmãos. Alegrar-me-ei com a chegada de novos trabalhadores e não requererei qualquer tipo de privilégios ou qualquer superioridade sobre esses irmãos.
Pe. Vasco

09 março, 2013

«Porque eu sou bom» (I)



                «1Porque o Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que saiu de manhã cedo para contratar trabalhadores para a sua vinha. 2Depois de combinar com os trabalhadores um denário por dia, mandou-os para a vinha. 3Tornando a sair pela hora terceira, viu outros que estavam na praça, desocupados, 4e disse-lhes: ‘Ide, também vós para a vinha, e eu vos darei o que for justo’. 5Eles foram. Tornando a sair pela hora sexta e pela hora nona, fez a mesma coisa. 6Saindo pela hora undécima, encontrou outros que lá estavam e disse-lhes: ‘Por que ficais aí o dia inteiro desocupados? 7Responderam: ‘Porque ninguém nos contratou’. Disse-lhes: ‘Ide, também vós, para a vinha’. 8Chegada a tarde, disse o dono da vinha ao seu administrador: ‘Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário começando pelos últimos até aos primeiros’. 9Vindo os da hora undécima, receberam um denário cada um. 10E vindo os primeiros, pensaram que receberiam mais, mas receberam um denário cada um também eles. 11Ao receber, murmuravam contra o pai de família, dizendo: 12’Estes últimos fizeram uma hora só e tu os igualaste a nós, que suportamos o peso do dia e o calor do sol’. 13Ele, então, disse a um deles: ‘Amigo, não fui injusto contigo. Não combinaste um denário? 14Toma o que é teu e vai. Eu quero dar a este último o mesmo que a ti. 15Não tenho o direito de fazer o que eu quero com o que é meu? Ou o teu olho é mau porque eu sou bom?’. 16Assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos» (Mt 20,1-16).

Olhemos para o texto

            Trata-se de ler e reler o texto, identificando os seus elementos mais importantes.

1. Personagens
Fala-se num pai de família ou dono da vinha, num administrador e em trabalhadores.
            2. Contratos
Contamos cinco, efectuados pelo pai de família:
            - O contrato com os trabalhadores do amanhecer
            - O contrato com os trabalhadores da hora terceira
            - O contrato com os trabalhadores da hora sexta e da hora nona
            - O contrato com os trabalhadores da hora undécima.

            Note-se as particularidades de todos eles: no primeiro, acerta-se o salário em «um denário por dia» (v. 2); no segundo, no «que for justo» (v. 4); no terceiro e quarto diz-se «fazendo a mesma coisa» (v. 5), ou seja, ajustando o salário em um denário por dia ou com a promessa de vir a dar o que for justo; no quinto, nem sequer se fala em salário (vv. 6-7), mas, pelo que os trabalhadores vêem a receber, ficamos a saber que o acerto não foi diferente. O pai de família apenas diz: «’Ide, também vós, para a vinha’».
            Além destas pequenas diferenças, são contratos que não têm muito a ver com os nossos. Os nossos têm em conta determinadas cláusulas, princípios concretos. Ora, estas cláusulas ou princípios não são tidos em conta por este Senhor.
3. O comportamento do dono da vinha e do administrador
Um comportamento diferente do comportamento dos patrões e dos administradores que conhecemos. Se este dono da vinha ou pai de família fosse verdadeiramente um «patrão», tal como o concebemos, o seu administrador ter-lhe-ia certamente recordado que nem todos chegaram e trabalharam o mesmo número de horas. Mas ele não é um dos patrões que nós conhecemos.
4. As horas
Este pai de família saiu a várias horas para contratar trabalhadores para a sua vinha: de «manhã cedo», pela «hora terceira», «hora sexta e hora nona», «hora undécima». Existe ainda uma outra referência temporal que nos indica o momento do pagamento aos seus trabalhadores: «Chegada a tarde».
5. A vinha
Todos os trabalhadores são contratados a pensar na vinha. Aparece por quatro vezes a expressão «para a vinha», numa das vezes subentendida (v. 5), e uma vez «para a sua vinha».
6. Género literário
Neste olhar para o texto, também não podemos deixar de reparar que se trata duma parábola. A parábola é sempre uma história tirada da vida corrente, com dois ou três personagens, tendo cada um deles comportamentos mais ou menos contrários ou contraditórios, com o intuito de fazer captar uma verdade vivida, ou mal vivida ou contestada. Esta é uma parábola do reino (v. 1).
7. A reacção dos trabalhadores
Embora este Senhor não seja um patrão, os trabalhadores vêem-no como tal e por isso exigem dele um salário conforme ao seu esforço (v. 12).
O texto não diz tudo acerca deste elemento. Depois das palavras do pai de família, de que modo reagiram os que murmuravam? Aceitaram? Continuaram a queixar-se? Responderam com ofensas? A reacção que formos capazes de lhes atribuir pode ser muito bem a nossa reacção diante deste Senhor que não é patrão.
Pe. Vasco

02 março, 2013

Orar à maneira de Jesus e daqueles que se encontraram com Ele... (IV)




2) Oração de adoração e louvor

         São aquelas orações que têm a ver com uma confissão de fé na divindade da pessoa de Jesus e na sua actividade messiânica.
         Sobre o reconhecimento e a proclamação da divindade de Jesus, temos os seguintes textos no IV evangelho:

         «Rabi, tu és o Filho de Deus» (1,49); «Senhor, a quem iremos? Tens palavras de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que tu és o santo de Deus» (6,68-69); «Eu creio, Senhor!» (9,38); «Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus que vem ao mundo» (11,27); «Agora vemos que sabes tudo e não tens necessidade de que alguém te interrogue. Por isso cremos que saíste de Deus» (16,30); «Meu Senhor e meu Deus!» (20,28).

         No que diz respeito à confissão de fé na sua actividade messiânica, temos estes outros:
«Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo» (1,29); «Rabi, tu és o Rei de Israel» (1,49); «Esse é, verdadeiramente, o profeta que deve vir ao mundo» (6,14); «Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor e o rei de Israel!» (12,13).

      Digno de destaque nestas diversas orações de adoração e louvor é que todas elas não ficam apenas por nos dar informações acerca da pessoa de Jesus, mas indicam qual deve ser a atitude do cristão diante da pessoa e da actividade de Jesus.

       Como os seus contemporâneos, também nós somos convidados a confessar a Jesus que reconhecemos nele o mestre (1,49), o Senhor (9,38), o dador de vida (6,68), o Filho de Deus (11,27), o Santo por excelência (6,69), o Salvador (11,27), o único e verdadeiro profeta digno deste nome (6,14) e o único e verdadeiro rei investido de poderes divinos (12,13).

         Porém, se louvamos e adoramos Jesus desta maneira, com todos estes reconhecimentos e proclamações labiais, não devemos esquecer que depois deles segue-se um adequado compromisso na vida.
         Ao confessarmos com a boca ser Jesus o mestre, temos, então, de nos deixar instruir por ele; se confessamos ser o Senhor, temos, então, de nos deixar guiar por ele; se confessamos ser o nosso dador de vida, temos, então, de dar frutos de vida; se confessamos ser o Filho de Deus, temos, então, de nos entregar totalmente a ele; se confessamos ser o santo, temos, então, de caminhar com ele na santidade; se confessamos ser o salvador, temos, então, de nos deixar olhar e salvar por ele; se confessamos ser o profeta, temos, então, de escutar a sua palavra; se confessamos ser o rei, temos, então, de nos deixar governar por ele.


         No fundo, é sempre a velha questão de devermos rezar com a nossa verdade pessoal. E esta acontece quando as nossas palavras de louvor e adoração se traduzem na vida e a vida se traduz nas nossas palavras!...

Pe. Vasco

23 fevereiro, 2013

Orar à maneira de Jesus e daqueles que se encontraram com Ele... (III)




2. A oração das pessoas que se encontraram com Jesus

       Tudo o que foi dito até agora sobre o tema da oração, referiu-se directamente à pessoa de Jesus. Folheando, porém, o evangelho de João, é possível detectar-se outros protagonistas e expressões orantes. Estamos a falar, concretamente, de todas aquelas pessoas que um dia vieram a encontrar-se com Jesus e que, sob o impulso desta excepcional experiência, se dirigiram a Ele com a petição de qualquer graça ou exprimindo-lhe sentimentos de adoração e louvor.
         Debruçando-nos sobre cada uma das suas orações, surge no nosso interior a seguinte interrogação: será que ainda hoje podemos orar com todas elas? Será que podemos continuar a evocar, a ter presente os seus conteúdos? A resposta é positiva. Não só podemos rezar com as mesmas expressões orantes, mas também assumir redondamente os seus conteúdos. No entretanto, há que primeiro compreendê-los ao nível da mente e do coração...
         Elenquemos algumas dessas principais orações e notemos os seus conteúdos.

         1) Orações de súplica

         «Ora, não havia mais vinho, pois o vinho do casamento tinha-se acabado. Então a mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm mais vinho» (2,3)

Primeira oração de súplica: “Eles não têm mais vinho”

         (Explicitamente vemos a apresentação de uma necessidade. Implicitamente reconhecemos a atenção, preocupação, solicitude, compaixão, amor pelos mais necessitados. O Diálogo de Deus com os homens - “a sua oração” - também se reveste destes mesmos sentimentos, atitudes, valores, qualidades, características...)  
        
         Maria ora deste jeito pela ocasião das núpcias de Caná. Mais concretamente, depois de se ter dado conta que a eventual falta de vinho poderá causar um grave embaraço aos esposos. À parte de ser a apresentação de uma necessidade a Jesus, é uma oração carregada de atenção, preocupação, solicitude, compaixão, ternura, despojamento, oblação e amor pelos mais necessitados.
         Demonstra, pois, qual seja a sensibilidade da mãe de Jesus diante das pessoas em apuros. Maria faz-se aqui dom e esperança para os mais desprotegidos.
         Da nossa parte, ao assumirmos a súplica de Maria - “olha que eles não têm vinho” - estamos também a apresentar a Deus as necessidades do nosso próximo e a manifestar-lhe os nossos sentimentos/atitudes por cada um deles. Se quisermos, estamos ainda a dizer-lhe que já nos desinteressamos de nós mesmos para fazermo-nos dom e ocasião de esperança para o irmão.

«Jesus lhe respondeu: “Aquele que bebe desta água terá sede novamente; mas quem beber da água que eu lhe darei, nunca mais terá sede. Pois a água que eu lhe der tornar-se-á nele uma fonte de água jorrando para a vida eterna”. Disse-lhe a mulher: “Senhor, dá-me dessa água...”» (4,13-15)

         Segunda oração de súplica: “Senhor, dá-me dessa água”

         Poderemos rezar hoje com a mesma súplica? Quando a Samaritana dirigia estas palavras a Jesus, ela pensava na água do seu poço e na possibilidade de se dessedentar de uma vez para sempre.
Nós sabemos, porém, que a água de que fala Jesus é a água da sua palavra colocada pelo Espírito nos nossos corações para que nos tornemos fonte de vida e de obras boas.
Estamos, pois, em condições, até mais que a Samaritana, de pedir a Jesus este tipo de água e de repetir com o salmista: «Como a corça bramindo por águas correntes, assim minha alma está bramindo por ti, Ó meu Deus!» (Sl 42,2-3); «Ó Deus, tu és o meu Deus, eu te procuro. Minha alma tem sede de ti, minha carne te deseja com ardor, como terra seca, esgotada, sem água» (Sl 63,2).

         «Ouvindo dizer (um funcionário régio) que Jesus viera da Judéia para a Galiléia, foi procurá-lo, e pedia-lhe que descesse e curasse seu filho, que estava à morte» (4,47).

         Terceira oração de súplica: “Pediu-lhe que descesse e curasse seu Filho”

         Ao crente não é proibido pedir ao Senhor o que lhe é útil e necessário desde o ponto de vista estritamente humano. A intervenção de Jesus, aliás, mostra como o seu Deus é alguém de rosto humano e sempre disposto a ajudar quem se encontra enfermo. Não é por acaso que o salmista se mete a confessar publicamente: «Bendiz a Iahweh, ó minha alma, e não esqueças nenhum dos seus benefícios. É ele quem perdoa tua culpa toda e cura todos os teus males. É ele quem redime tua vida da cova e te coroa de amor e compaixão. É ele quem sacia teus anos de bens e, como a da águia, tua juventude se renova» (Sl 103,2-5).
No entretanto, aquilo que conta, no acto de suplicar, é ter, como o oficial régio, uma fé ilimitada no Senhor (4,50.53) e servir-se das graças recebidas para robustecê-la ainda mais (4,53).

         «(Respondeu-lhes Jesus): porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá a vida ao mundo. Disseram-lhe: “Senhor, dá-nos sempre deste pão”» (6,33-34)

         Quarta oração de súplica: “Senhor, dá-nos sempre deste pão”

         Na boca da gente de Cafarnaum, esta súplica refere-se aos pães que Jesus tinha multiplicado. Para o evangelista, porém, refere-se ao pão da palavra de Deus e ao pão eucarístico que dá acesso à vida plena.
A nós cristãos, obviamente, interessa esta segunda leitura. E é perfeitamente natural que, diante de um pão trasbordante de vida, queiramo-lo pedir muitas vezes – “Senhor, dá-nos sempre deste pão” - e sintamos a necessidade de recordar: «Trabalhai, não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até à vida eterna» (6,27); «O pão de Deus é aquele que desce do céu e dá a vida ao mundo» (6,33); «Eu sou o pão da vida» (6,35); «Quem comer deste pão viverá eternamente» (6,51).
Seria, contudo, redutor e mesquinho limitar-nos a pedir. Como Jesus, também nós somos chamados a fazer-nos pão para os outros; quer dizer, dom, ajuda, conforto, esperança, salvação, liberação. Como Jesus, também nós devemos tornar-nos carne que se imola e sangue que se derrama para bem do mundo.

         «(Responde Jesus a Pedro): “Se eu não te lavar, não terás parte comigo”. Lhe disse Simão Pedro: “Senhor, não apenas meus pés, mas também as mãos e a cabeça”» (13,8-9)

         Quinta oração de súplica: “Senhor, lava-me...”

         O motivo que leva Pedro a pedir a Jesus para lhe lavar os pés, as mãos e a cabeça é o medo de ser separado dele. Não se dá conta, em nenhum momento, que Jesus não quer lavá-lo por fora, mas por dentro, no interior e que esta lavagem acontecerá com a sua morte na cruz.
         Nós, porém, ao contrário de Pedro, estamos já ao corrente deste simbolismo. Logo, estamos obrigados a suplicar a Jesus que nos lave realmente como nos tem pensado lavar, isto é interiormente de todas as imundícies, e nos dê a pureza espiritual que fala o salmista: «Tem piedade de mim, ó Deus, por teu amor! Apaga minhas transgressões, por tua grande compaixão! Lava-me inteiro da minha iniquidade e purifica-me do meu pecado... Purifica meu pecado com o hissope e ficarei puro, lava-me, e ficarei mais branco do que a neve... Cria em mim um coração puro, renova um espírito firme no meu peito» (Sl 51,3-4.9.12).

         «Se me conheceis, também conhecereis a meu Pai. Desde agora o conheceis e o vistes. Filipe lhe diz: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta!” (14,7-8).

         Sexta oração de súplica: “Mostra-nos o Pai”

         Ao fazer a Jesus este pedido, o apóstolo Filipe mostra não ter compreendido absolutamente nada do que Ele acaba de dizer. O apóstolo pensa poder ver o Pai em carne e osso, de tal maneira que recebe esta resposta: «Quem me vê, vê o Pai. Como podes dizer: ‘Mostra-nos o Pai!’? Não crês que estou no Pai e o Pai está em mim? (vv. 9-10)
         De acordo com as palavras de Jesus, vimos a saber que não devemos aspirar uma visão directa do Pai. Se desejamos vê-lo, não temos se não que pedir um conhecimento sempre mais claro e profundo da pessoa de Jesus. O pedido deste conhecimento não deve, contudo, restringir-se ao simples campo teórico. Para João, conhecer Jesus significa também fazer experiência dele e entrar numa relação de grande intimidade (10,3-4). Significa conhecer mas, ao mesmo tempo, amar, escutar, acolher, observar, viver.

Pe. Vasco

16 fevereiro, 2013

Orar à maneira de Jesus e daqueles que se encontraram com Ele... (II)





- Segundo o desígnio de Deus e, como tal, eficaz

A oração de Jesus não se fundamenta em interesses pessoais ou na força das palavras e dos gestos. Aliás, se isto viesse acontecer, não passaria de uma oração ao jeito dos pagãos (Mt 6,7-8), tantas vezes criticada por ele. Os pagãos, à base de tanto insistirem, de tanto pedirem, de tanto informarem, de tanto persuadirem com as suas palavras e gestos, é que pensavam ser escutados pela divindade.    

Fundamenta-se, sim, na vontade do Pai, aliás como toda a sua vida: «Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou (4,34); (...) Eu não procuro a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou (5,30); (...) E quem me enviou está comigo. Não me deixou sozinho, porque faço sempre o que lhe agrada» (8,29).

Daí, precisamente, a sua eficácia: «(Marta diz a Jesus): Mas ainda agora sei que tudo o que pedires a Deus, Ele te concederá» (11,22); «Jesus ergueu os olhos para o alto e disse: “Pai, dou-te graças porque me ouviste. Eu sabia que sempre me ouves...”.

- Pelos seus discípulos (por cada um de nós) (17,9-19)

No capítulo 17, conhecido pela grande oração de Jesus ao Pai, é possível observar como os discípulos também fazem parte da sua oração. E os motivos pelos quais os inclui são variados: para que, no meio do mundo hostil e já na sua ausência, não abandonem a fé (vv. 11-15); para que sejam guardados no nome do Pai e preservados do poder do mal (vv. 11.15); para que, mesmo habitando num mundo incrédulo, cheguem a formar uma coisa só com Ele e com o Pai (v.11); para que o ódio do mundo não os impeça de gozar a sua plena alegria (v. 13); para que, como Ele, também eles sejam “santificados na verdade” (vv. 17.19) e se tornem verdadeiras testemunhas diante dos homens (v. 18);

À parte deste elenco de motivos, podemos destacar ainda a própria identidade do discipulado. Jesus ora de modo a que os seus discípulos venham a ser propriedade exclusiva de Deus (v.9), a viver numa situação diversa daquela em que vive o mundo (vv. 9.14-16), a encontrar-se no mundo, sendo para o mundo mas sem ser do mundo (vv.9.11.14.16), a acolher e a observar a palavra de Jesus como enviado do Pai (vv.8.17.19), a aspirar sempre uma comunhão mais profunda (v. 11).

- Por todos os que virão a acreditar nele (17,20-26)

Agora não se trata mais dos discípulos estritamente ditos, mas de todos aqueles que acreditarão nele mediante o anúncio deles (de cada um de nós). O v. 20 é claro, vejamos: «Não rogo somente por eles, mas pelos que, por meio da sua palavra, crerão em mim».


Esta súplica, de acordo com a temática da unidade e do amor que caracterizam esta secção, destina-se a faze-los participar da sua comunhão de vida e amor com o Pai: «a fim de que todos sejam um (como nós...); (...) Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós» (v. 21); «... para que sejam um, como nós somos um» (v. 22); «Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo saiba.. que os amaste como amaste a mim» (v.23); «Pai, ... quero que, onde eu estou, também eles estejam comigo» (v.24); «a fim de que o amor com que me amaste esteja neles e eu neles» (v.26).


- Que alcança alguns dons

Entre os muitos dons que Jesus pede e obtém do Pai para os seus discípulos, está o do Espírito Santo. A indicá-lo vemos o trecho de Jo 14,16-17: «E rogarei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito, para que convosco permaneça para sempre, o Espírito da Verdade, que o mundo não pode acolher, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque permanece convosco».

Tratando-se do Espírito, talvez fosse melhor falar do dom por excelência ou do dom-fonte, enquanto nascente de todos os dons divinos ou responsável por toda a riqueza espiritual dos crentes.

Para fazermos uma ideia de quanto seja importante esta petição de Jesus, bem como da importância de continuar a assumi-la nas nossas próprias orações, basta termos presente aquilo que o evangelho e as cartas de João atribuem à obra do Espírito. É próprio do Espírito tornar os homens filhos de Deus (3,3-8), ajudá-los a superar um modo de pensar puramente humano e sintonizá-los totalmente com o modo de pensar do Senhor (3,3-8), promover o culto espiritual (4,23-24), instruir (14,26), confirmar na fé (15,26-27), levar a um conhecimento sempre mais profundo e claro do mistério de Cristo (16,13-15; 1Jo 5,6), orientar para uma vida de comunhão e de caridade (1Jo 3,24; 4,13), transmitir fielmente a palavra de Jesus (1Jo 4,6) e fazê-la penetrar no íntimo dos corações (Jo 6,63).

Usando outros termos menos técnicos e mais próximos à nossa linguagem, podemos dizer que a actividade do Espírito é verdadeiramente excepcional enquanto tende a criar pessoas vivas, não mortas; impacientes de novidade, não resignadas; lutadoras, não rendidas; trasbordantes de amor, não tépidas (ñ indiferentes/mornas no amor); novas, não habituadas; autênticas, não hipócritas; abertas aos valores, não às aparências; encaminhadas para o futuro, não agarradas ao passado.

Numa palavra, pessoas animadas por aquele mesmo impulso interior que fazia escrever S. Teresinha do Menino Jesus: «(Quero) ser carmelita, Esposa e Mãe. No entanto, sinto em mim outras vocações, sinto a vocação de Guerreiro, de Sacerdote, de Apóstolo, de Doutor, de Mártir; (...) Quereria ser Missionário (....), mas quereria, sobretudo, Ó meu Bem-amado Salvador, quereria derramar o meu sangue (isto é, a minha vida) por ti, até à última gota...» (MsB 2vº, 3rº).

Pe. Vasco