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25 março, 2014
28 janeiro, 2014
ORDEM DOS CARMELITAS DESCALÇOS
A
Ordem dos Carmelitas Descalços é uma família religiosa
formada por três expressões ou ramos do mesmo carisma: os frades ou padres carmelitas
descalços, que privilegiam a oração pessoal e comunitária e se dedicam
sobretudo à pastoral da espiritualidade; as carmelitas descalças, com os seus
Carmelos de vida exclusivamente contemplativa; e os carmelitas seculares,
leigos que vivem a mesma espiritualidade, mais comprometidos com a
transformação das realidades sociais onde vivem.
Todos
participam do mesmo carisma que os seus fundadores Santa Teresa de Jesus
(1515-1582) e S. João da Cruz (1542-1591) lhes legaram. No entanto, esta Ordem
Religiosa mergulha as suas raízes no Séc. XII, na Regra de Vida que um grupo de
eremitas idos da Europa para defender os lugares santos na Terra Santa, viveram
no Monte Carmelo, na Palestina, imitando a Virgem Maria e o Profeta Elias. Mais
tarde, na segunda metade do séc. XII, com as perseguições dos muçulmanos na
Terra Santa, viram-se obrigados a regressar à Europa, onde se estabeleceram
como Ordem mendicante. Ao chegar ao Séc. XVI, estes dois santos doutores da
Igreja, Santa Teresa de Jesus e S. João da Cruz, naturais de Ávila, Espanha, do
chamado «Século de Ouro» espanhol, reformaram esta Ordem dos Carmelitas e deram
origem a um novo carisma na vida da Igreja – os Carmelitas Descalços.
Estávamos
na época do Renascimento, dos Descobrimentos, da Reforma e Contra-Reforma. Teresa
de Jesus, monja do Convento da Encarnação, em Ávila, onde viviam cerca de 180
monjas, não se conforma com a mediocridade que se vivia nos conventos carmelitas
e, então, empreende uma reforma da vida, espiritualidade e costumes,
regressando à inspiração mais evangélica e originária da Ordem tal como a viveram
os primeiros frades no Monte Carmelo. Imprime um espírito mais evangélico e
comunitário, mais orante e contemplativo, mais humano e fraterno, primeiro, às
comunidades de irmãs (24 de Agosto de 1562) e depois, com a ajuda de S. João da
Cruz, às comunidades de frades (28 de Novembro de 1568).
Teresa
de Jesus diante de uma igreja dividida em lutas disciplinares e teológicas,
conhecedora dos novos mundos que então se abriam com os descobrimentos e a
necessária evangelização dos povos, com o pouco espírito evangélico que se vivia
nas comunidades religiosas e cristãs de então, inspirada por Deus e agraciada
com grandes dons espirituais, decide formar novas comunidades de irmãs e de
padres, mais pequenas (número máximo de Irmãs por Carmelo são 21), onde se
cultivem os valores da amizade, humildade, desprendimento, simplicidade e
determinação de seguir Jesus, imitando a Virgem Maria. Uns e outros, irmãs e
frades, decidem-se a serem mais fiéis ao espírito da Regra Primitiva, formando
comunidades orantes e fraternas, onde se respirasse um verdadeiro espírito
evangélico. Às irmãs pede-lhes que se dediquem à oração e contemplação, levando
ao seu coração as grandes necessidades da Igreja e do Mundo; e aos padres,
pede-lhes que vivam o mesmo ideal de amizade e intimidade com Cristo na oração,
mas que também O anunciam onde for mais necessário pelo testemunho e pela
pregação.
Assim,
o carisma dos (as) carmelitas descalços (as) fica fortemente marcado pelos
ideais da comunhão fraterna e da oração fecunda e apostólica. A contemplação do
mistério trinitário, o amor e a imitação da Virgem Maria e S. José, que haveriam,
segundo o desejo de Santa Teresa, inspirar e proteger a vida das comunidades e
fraternidades carmelitas, além da forte experiência de amizade espiritual que
Teresa e João da Cruz cultivaram entre si e inculcaram nos membros das
comunidades por eles fundadas, lançaram as bases para que o Carmelo possa ser,
nos nossos dias, uma Casa e Escola de Comunhão com Deus e entre os irmãos
convocados a partilharem a vida, seja nos conventos, seja nos grupos de leigos,
formandos por jovens, adultos e famílias.
Este
estilo de vida, com uma espiritualidade muito humana e encarnada, gerou na
Igreja grandes frutos de santidade. Santa Teresinha do Menino Jesus, Santa
Edith Stein, S. Rafael de S. José, Santa Teresa dos Andes, Beata Isabel da
Trindade, Beato Francisco Palau… são alguns dos muitos sinais de fecundidade
deste carisma na vida da Igreja.
Os
cerca de 4.000 frades, distribuídos por 513 comunidades e 83 países; as cerca
de 10.000 irmãs contemplativas, distribuídas por 100 países e 759 conventos; e os
cerca de 30.000 carmelitas seculares com compromissos, organizados em
fraternidades, e presentes em 72 países, formam esta grande família dos
Carmelitas Descalços, que têm por vocação e missão testemunharam a presença do
Deus Vivo nas suas vidas pessoais e comunitárias, numa vida de encontro e
intimidade com Cristo, e a partir daí, propô-Lo ao mundo não como uma ideia ou
uma teoria, mas como um Deus experimentado, encarnado em Jesus, próximo e íntimo
a cada um de nós. Seja a partir dos leigos carmelitas inseridos na família e na
sociedade, seja a partir dos Carmelos de vida contemplativa, seja a partir das comunidades
de frades e padres, juntos traduzem toda a riqueza da espiritualidade carmelita.
Os padres abraçam os diferentes âmbitos da evangelização da juventude e das
famílias, nas comunidades eclesiais já estruturadas e nas terras de missão,
sobretudo, mediante a promoção da vida espiritual com a criação de casas de
oração, centros de espiritualidade, orientação de retiros, grupos de oração,
formação cristã e compromisso preferencial com os mais pobres e simples ao
jeito de Jesus.
Como
comunhão de uma única Família, em três ramos, todos assumem, segundo a sua
especificidade própria, o compromisso de serem um testemunho alegre da íntima
comunhão com Deus e com os irmãos, transbordando para o mundo, a abundância da
graça que Deus derrama em seus corações pela oração, entendida como trato amigo
e contínuo com Cristo.
Pe. Joaquim Teixeira
Imagem in Provocar - Vocacional Carmelo Descalço
31 março, 2013
«Não nos ardia cá dentro o coração?!»
Queridos irmãos e irmãs
carmelitas, a minha saudação pascal! É tempo de Páscoa, é tempo de reconhecer
que, no caminho de cada dia, não caminhamos sós, mas há Alguém que discretamente
caminha ao nosso lado. Estamos acompanhados por Jesus Ressuscitado que dá um
sentido novo à nossa existência! Os discípulos de Emaús também se sentiram acompanhados.
Reconheceram Jesus na Fracção do Pão e partilharam um com o outro: «Não nos
ardia cá dentro o coração!?».
A celebração da eucaristia
é um mistério de luz e de amor. É mistério de luz porque ao partir o Pão, a luz
do Ressuscitado invade o nosso coração e na Sua luz abrem-se os nossos olhos que
começam a ver o que antes estava velado; é mistério de amor, porque em cada eucaristia,
o nosso coração é invadido pelas torrentes da caridade divina do próprio amor
de Jesus ressuscitado!
O encontro com Jesus,
o acolhimento da Sua amizade e companhia introduziu rupturas na vida dos
discípulos de Emaús que estavam de costas voltadas para a comunidade. Consciencializaram
a profunda tristeza e desilusão em que estavam mergulhados e arrepiaram
caminho, mudaram de sentido, deixaram a direcção de Emaús, símbolo do
individualismo solitário e triste, e voltaram-se para Jerusalém; partiram ao
encontro da comunidade dos discípulos, recuperando a alegria e o entusiasmo. Na
verdade, o encontro com Jesus cria a necessidade do encontro e comunhão com os
outros discípulos para partilhar e celebrar a alegria numa comunidade de fé, de
vida e de amor.
Ao partirmos o pão quotidiano
em cada eucaristia, também nós somos empurrados pelo Ressuscitado para fora de
nós mesmos, para fora da casa fechada do nosso egoísmo e enviados para a comunidade
- o lugar da comunhão, da festa e do amor partilhado, o lugar onde se encarna a
comunidade trinitária sobre a terra!
Nós, carmelitas, somos
homens e mulheres que vivem o seguimento de Jesus Cristo formando comunidades
que se alimentam do essencial cristão pela escuta da Palavra de Deus, pela
experiência pascal, pela fé no Crucificado e Ressuscitado, pelo tom carismático
que a Virgem Maria e os nossos fundadores nos legaram. As nossas comunidades,
sejam de consagrados ou de fiéis leigos, hão-de ser centros de irradiação da
fé, do amor e da compaixão de Deus, traduzidos em obras e gestos salvíficos.
Hoje, a Igreja
identifica particulares sinais de esperança com a eleição do Papa Francisco. Os
seus primeiros gestos e palavras interpelam a grande comunidade de comunidades
que é a Igreja. A aparição deste pastor universal à frente da Igreja traz-nos um
convite à pobreza, à simplicidade e radicalidade evangélicas. Convida-nos a
reconhecer Jesus nos caminhos e nas pousadas, a deixarmo-nos invadir pela luz e
amor do Ressuscitado e a partir em direcção aos outros, à comunidade, levando a
alegria transbordante da fé pascal. A fidelidade transparente ao Evangelho
sensibiliza, arrasta, dá esperança a crentes e não crentes, toca e aquece os
corações… Saibamos ler estes sinais programáticos que evangelizam por irradiação
e pelo testemunho.
E nós, carmelitas, como
é que nos situamos diante desta evidência que a frescura do Evangelho incarnado
exerce? De que estamos à espera? Também nós precisamos de devolver à Igreja, à
nossa Ordem, às nossas comunidades e às nossas vidas pessoais o verdadeiro
rosto de Cristo Ressuscitado com o fermento transformador do Seu Evangelho. Os
hábitos, os rituais, a idade, os costumes, as estruturas tendem a arrastar-nos
para uma certa mediocridade, rotina e conformismo, perdendo a relevância do
poder desafiante de Jesus. Não nos acomodemos, deixemos Emaús e partamos para
Jerusalém!
O Papa Francisco na
sua Missa inaugural exortava-nos: «Não
devemos ter medo da bondade, ou mesmo da ternura. (…) A ternura (…) não é a
virtude dos fracos, antes pelo contrário denota fortaleza de ânimo e capacidade
de solicitude, de compaixão, de verdadeira abertura ao outro, de amor. Não
devemos ter medo da bondade, da ternura!» A ternura e a bondade são a face
visível do amor invisível que arde no nosso coração e nas nossas comunidades.
Estimados
irmãos e irmãs carmelitas, consagrados e seculares, demo-nos conta como também
o nosso coração arde na presença do Ressuscitado. Reconheçamo-Lo e convertamo-nos
de novo a Ele e à vida em comunidade. Regressemos, depois de cada eucaristia, a
Jerusalém, à comunidade, ao encontro com os outros discípulos de Jesus nesta
vinha do Carmelo. Na partilha dos bens morais, intelectuais, materiais e,
sobretudo, espirituais descobriremos o enorme potencial evangelizador da comunidade.
É a partir de uma forte experiência de fraternidade que podemos partir para a
missão, que seremos capazes de saltar para as periferias, indo de encontro aos
que estão longe geográfica, afectiva e espiritualmente, edificando, nos gestos
concretos de amor, na comunidade e na missão, o grande Corpo da Igreja,
presente em toda a terra.
Neste
Dia de Páscoa e em todo o tempo pascal deixemo-nos atingir pela luz e calor da
Ressurreição rezando com o Papa Bento XVI: «A explosão da vossa Ressurreição,
Senhor, agarrou-nos no Baptismo para nos atrair. A vossa Ressurreição
alcançou-nos e agarrou-nos. Senhor ressuscitado, a Vós nos agarramos, sabendo
que nos segurais firmemente, mesmo quando as nossas mãos se debilitam.
Agarrados à Vossa mão, Senhor, seguramos também, as mãos uns dos outros,
tornamo-nos um único corpo», nesta grande comunhão de todos os baptizados (cf.
Bento XVI, Homilia, 15 de Abril de 2006). Guardai-nos, Senhor, nesta grande
comunhão de família cristã e carmelita e dai-no-la a saborear, desde já, na
beleza de cada Liturgia celebrada, como antegozo da eternidade que nos espera!
Que Jesus Ressuscitado vos aqueça e ilumine o coração!
Santa Páscoa! Abraço-vos a todos com amizade, Pe Joaquim Teixeira, prov.
14 dezembro, 2012
Falemos da abundância do coração
Felicito-vos, estudantes carmelitas, pela abertura desta nova porta de partilha e diálogo com o mundo. O cristão só deve falar da abundância do coração. Acredito que a vossa caminhada vocacional irá transbordar para este novo espaço. Seduzidos por Cristo, iluminados pelos santos carmelitas e guiados pela comunidade dos frades carmelitas descalços de Avessadas podeis presentear os vossos leitores com a frescura e entusiasmo das vossas vidas jovens.
Espero que os jovens do nosso tempo sejam os vossos principais interlocutores. O vosso testemunho será desafiante e interpelador.
Santa Teresa de Jesus teve uma longa etapa da sua vida em que vacilava entre Deus e o Mundo, até que o encontro com Cristo marcou um novo rumo à sua existência deixando atrás de si um rasto de luz e fecundidade eclesial. S. João da Cruz, por sua vez, é o místico do Tudo e do Nada; apresenta os nadas como caminho para chegar ao Tudo. Estes dois exemplos de seguimento convidam à opção, à decisão firme e radical por Cristo e pelos que Ele mais ama. Na Sua entrega, nós esboçamos e construímos a nossa, descobrindo que a alegria e felicidade de todo o ser humano está no dar e sobretudo no dar-se.
Que este esforço de partilha e diálogo que ides empreender neste blogue revele o vosso desejo e decisão de viverdes para os outros e para o Outro, de jogardes toda a vossa vida pelas causas do Reino que Jesus apresentou. Que tudo quanto aqui apareça saia da abundância dos vossos jovens corações e desbrave largos horizontes para os homens e mulheres do nosso tempo, sobretudo para os jovens como vós.
Fr. Joaquim Teixeira
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