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14 dezembro, 2013

São João da Cruz


João de Yepes nasceu em Fontiveros, perto de Ávila, Espanha. Seu pai, Gonçalo de Yepes, sendo de nobre família, a tudo renunciou para casar Catarina Álvares, uma pobre órfã. João de Yepes nasceu, num lar pobre, mas de muito amor, a sua pobreza depressa se transformou em miséria com a morte do pai. A partir de então, Catarina, peregrinando de terra em terra, de feira em feira, acabou por se fixar em Medina del Campo onde João foi recolhido num orfanato.
Certo homem rico e conceituado fixou-se nas qualidades de João, dando-lhe possibilidades de estudar, ao mesmo tempo que o empregou no hospital de Medina. Dez anos foi o tempo que o jovem João de Yepes passou a tratar de doentes, vítimas de doenças incuráveis, sobretudo a sífilis que era terrivelmente mortal, aqui João conheceu as histórias mais inverosímeis do mundo e as dores mais atrozes dos homens.
Na sua juventude foi cobiçado por diversas Ordens Religiosas, e pelo seu benfeitor que pensava nele como capelão do hospital, depois de ordenado sacerdote. Aos 21 anos de idade, sem dizer nada a ninguém, João dirigiu-se ao Convento dos Carmelitas onde tomou o hábito e onde nesse dia recebeu o nome de Frei João de S. Matias.
Para João, a escolha da Ordem do Carmo era plenamente justificada: sendo o Carmo a Ordem de Maria e tendo João de Yepes tanto amor à Virgem Nossa Senhora e tendo-o ela livrado de alguns perigos na sua meninice, escolheu servi-la e assim agradecer-lhe.
Estudou em Salamanca e cantou Missa em Medina del Campo. Foi aqui que no ano de 1567 conheceu a Madre Teresa de Jesus, que ficou prendada com as suas qualidades e santidade o convida para primeiro Carmelita Descalço e fundador de entre os frades do novo estilo de vida que ela mesma havia iniciado entre as freiras.
No Verão de 1568, vestindo já o primeiro hábito de Carmelita Descalço, feito precisamente pela Madre Teresa de Jesus, dirigiu-se a Duruelo onde, durante todo o Verão, foi preparando e transformando uma velha e pobre casa no primeiro convento da nova família do Carmo. No dia 28 de Novembro desse ano, primeiro Domingo do Advento, chegaram Frei António de Jesus e Frei José de Cristo que deram oficialmente início à nossa Ordem. A partir deste dia, Frei João de S. Matias passou a chamar-se Frei João da Cruz.
Quando S. Teresa de Jesus foi nomeada priora do convento da Encarnação, em Ávila, pediu a S. João da Cruz que se dirigisse para esta cidade como confessor das freiras deste convento. Aqui permaneceu o nosso Santo durante cinco anos. As pessoas tinham-no por Santo, respeitando-o e amando-o como tal. Foi tentado por uma nobre e formosa mulher de quem nunca revelou o nome. Nesta cidade Frei João pintou o seu célebre desenho de Cristo na Cruz, onde o famoso pintor Dali se inspirou para a sua célebre pintura de Cristo morto sobre o mundo à qual intitulou «Cristo de S. João da Cruz». Frei João da Cruz realizou em Ávila, verdadeiros prodígios, o que levou os abulenses a terem por ele verdadeira admiração e profundo respeito.
Os Carmelitas Calçados de Ávila é que não estavam nada contentes com a boa fama e o apreço que o povo tinha por Frei João da Cruz e pelos frades da nova família de Carmelitas, chamada dos Descalços, por ele fundada. Decidiram, por fim, pôr cobro à situação. E a melhor forma que encontraram foi a de prender a alma do Carmo Descalço, Frei João da Cruz. Assim o pensaram e assim o fizeram uma noite, saltaram silenciosamente o muro da casa onde vivia, arrombaram as portas e prenderam Frei João. Levaram-no em segredo para o convento de Toledo. Ninguém teve tempo para reagir, tudo foi feito em grande sigilo e com tanta rapidez e discrição que ninguém pôde intervir. S. Teresa escreveu ao rei Filipe II, mas como ninguém sabia de nada, Frei João continuara na prisão. Os Calçados tentaram fazer por todos os meios, lícitos e ilícitos, que Frei João abandonasse a obra começada. Torturas físicas e psicológicas, belas ofertas, de poder e de riqueza, até mesmo uma cruz de ouro cravejada de pedras preciosas!
Ao que Frei João respondeu: «Quem procura seguir a Cristo pobre, não precisa de jóias nem de ouro».
Durante nove meses, de Dezembro a Agosto, Frei João permaneceu no cárcere, onde quase morrendo de frio no Inverno, quase asfixiado de calor no Verão, para comer davam-lhe pão, água e algumas sardinhas. Martirizaram o seu corpo com duras disciplinas. Durante mais de meio ano não lhe permitiram mudar ou lavar o hábito. O cárcere consiste num cubículo tão minúsculo que até mesmo Frei João, sendo pequeno de corpo, mal cabia. A 15 de Agosto Frei João pede que lhe deixem celebrar Missa por ser a Festa de Nossa Senhora. Indelicada e brutalmente o Prior recusa o pedido. É então que Frei João da Cruz aproveitando a liberdade que o novo carcereiro concede, Frei João de S. Maria, decide fugir, antes, porém, oferece ao seu carcereiro uma cruz de madeira feita por si, pedindo-lhe perdão de todos os trabalhos que lhe causou. Numa noite de Agosto, correndo os maiores perigos, desconhecendo em absoluto a cidade de Toledo e sem a ajuda de ninguém, muito debilitado fisicamente, no limite das suas forças, tão magro que as apodrecidas tiras de roupa de que se serviu para saltar da janela não rebentaram e assim conseguirá fugir da prisão! Acolheu-se no convento das Carmelitas Descalças que se assustaram e se alvoroçam ao vê-lo, pois mais parecia um morto do que um vivo! Preparam-lhe umas peras assadas com canela!
Finalmente seguro! Os Calçados procuram-no, batem às portas do Convento das Descalças mas não encontram Frei João aí bem escondido, toda a tarde as Carmelitas conversaram com o Santo, escutando enlevadas os poemas que tinha escrito na prisão. Entretanto, as Carmelitas pedem ajuda ao administrador do Hospital que levaram Frei João para sua casa, que ficava mesmo ao lado do convento onde tinha estado preso, tudo foi feito durante dois meses para o restabelecer.
Em Outubro de 1578 Frei João deixou Toledo e dirigiu-se a Almodôvar onde esteve reunido o Capítulo de Lisboa. Aqui, pela primeira vez, contemplou, S. João da Cruz o mar, que o encantou e atraiu profundamente. Quantos o conheceram em Lisboa ficaram encantados e lhe chamavam Santo.
No mês de Junho de 1591, o Capítulo de Madrid deixou-o sem qualquer cargo na Ordem. Frei João desafiou o Geral da Ordem, Frei Nicolau Doria, que discordando dele e chamando-lhe à atenção sobre algumas situações menos claras do seu governo. Eis que paga a factura da sua ousadia singular. Ainda há mais por onde passar e que sofrer. Frei Diogo Evangelista, noutros tempos repreendido pelo Santo, resolve vingar-se dele e difama-o.
Depois do Capítulo Frei João partiu para o convento de La Peñuela. No seu interior leva a secreta tarefa de acabar o quanto antes os seus escritos. Na realidade para aí se desloca aguardando que o chamem para embarcar no barco que o levará de Sevilha para as missões do México. É que Frei João se oferecera para ir como missionário para o México.
Chegou a La Peñuela e prontamente se dedicou aos seus escritos. Mas uma perna se lhe inflamou a tal ponto que a febre se recusou deixá-lo. Era a cruz preparada para o final do caminho que o devia conduzir, não ao México, mas, como ele próprio disse «a outras Índias melhores e mais ricas de tesouros eternos». De La Peñuela levam-no para Úbeda. O carinho e a alegria com que em Úbeda foi recebido pelos frades da comunidade e pelos leigos que conheciam o Santo era indescritível. O único que destoou foi Frei Francisco Crisóstomo, o prior, que aproveitava todas as ocasiões para o fazer sofrer, vingando-se, assim, de Frei João que noutros tempos o tinha repreendido.
A doença agravou-se. Foram cheios de dores atrozes os últimos dias de Frei João. Depois de uma operação dolorosíssima comentou: «Cortem quanto for preciso, em boa hora e a vontade do meu Senhor Jesus Cristo se faça».
No dia 7 de Dezembro soube que morreria a 14, por ser Sábado, dia de Nossa Senhora. Durante o dia 13 perguntou insistentemente as horas, dizendo que nesse dia lhe tinha mandado Deus ir cantar Matinas ao Céu. Antes da meia noite, querem os irmãos rezar-lhe as orações dos agonizantes, mas Frei João diz que não faz falta e pede que lhe leiam o Cântico dos Cânticos. Aos primeiros versículos Frei João comenta: «ó que preciosas margaridas tem o céu!» À meia noite, ouvindo o sino exclama: «Vou cantar Matinas para o Céu» e adormeceu dizendo: «Nas Tuas mãos Senhor entrego o meu espírito».
Era o dia 14 de Dezembro de 1591, Sábado. Uma voz correndo pela cidade foi gritando que tinha morrido o frade Santo do Carmo. O povo, apesar ser de noite e dura a tempestade, acorre e força os frades a abrirem as portas do convento para venerarem os restos mortais daquele homem a quem todos chamavam Santo.

Oração da alma enamorada

Senhor Deus, amado meu!
Se ainda Te recordas dos meus pecados,
para não fazeres o que ando pedindo,
faz neles, Deus meu, a tua vontade,
pois é o que mais quero,
e exerce neles a tua bondade e misericórdia
e serás neles conhecido.
E, se esperas por obras minhas,
para, por meio delas, me concederes o que te rogo,
dá-as Tu, e opera-as Tu por mim,
assim como as penas que quiseres aceitar
e faça-se.
Mas se pelas minhas obras não esperas,
porque esperas, clementíssimo Senhor meu?
Porque tardas?
Porque, se, enfim,
há-de ser graça e misericórdia
o que em teu Filho te peço,
toma a minha insignificância,
pois a queres,
e dá-me este bem,
pois que Tu também o queres.
Quem se poderá libertar dos modos
e termos baixos
se não o levantas Tu a Ti em pureza de amor,
Deus meu?
Como se levantará a Ti o homem
gerado e criado em baixezas,
se não o levantas Tu, Senhor,
com a mão com que o fizeste?
Não me tirarás, Deus meu,
o que uma vez me deste
em teu único Filho Jesus Cristo,
em quem me deste tudo quanto quero.
Por isso folgarei pois não tardarás,
se eu espero.
Com que dilações esperas,
pois, se desde já podes amar a Deus
em teu coração?

Meus são os céus e minha é a terra;
minhas são as gentes,
os justos são meus, e meus os pecadores;
os anjos são meus
e a Mãe de Deus
e todas as coisas são minhas;
e o mesmo Deus é meu e para mim,
porque Cristo é meu e todo para mim.
Que pedes pois e buscas, alma minha?
Tudo isto é teu e tudo para ti.
Não te rebaixes
nem repares nas migalhas
que caem da mesa de teu Pai.
Sai para fora de ti e gloria-te da tua glória,
esconde-te nela e goza,
e alcançarás as petições do teu coração.

Ditos de Luz I, 25-27

S. João da Cruz in As mais belas páginas de S. João da Cruz p. 176,177

02 maio, 2013

Movidos por quem?

Começou ontem o mês de Maio, Mês de Maria. Não seria um bom tempo para vermos quem nos anda a mover?




"A gloriosíssima Virgem Nossa Senhora, a qual, estando desde o princípio elevada neste alto estado, nunca teve gravada na sua alma forma alguma de criatura, nem se moveu por ela, mas foi sempre movida pelo Espírito Santo."

São João da Cruz,  3 S 2, 10

18 abril, 2013

A fonte

Nestes dias em que a Igreja medita e vive o capítulo VI do Evangelho segundo São João, propomos à vossa meditação o Cantar da alma que folga em conhecer a Deus por fé, popularmente conhecido como A Fonte, escrito na prisão de Toledo. João da Cruz vai lembrando e saboreando contemplativamente os mistérios da fé, começando no Deus Uno e Trino até à Eucaristia. É um credo, uma oração, um canto.


Que bem sei eu a fonte que mana e corre
Mesmo sendo noite!

1. Aquela eterna fonte está escondida.
Bem eu sei onde tem sua guarida,
Mesmo sendo noite!

2. Sei que não pode haver coisa tão bela
E sei que os céus e a terra bebem dela,
Mesmo sendo noite!

3. Sua origem não a sei, pois não a tem,
Mas sei que toda a origem dela vem
Mesmo sendo noite!

4. O fundo dela, sei, não pode achar-se;
Jamais por ela a vau pode passar-se,
Mesmo sendo noite!

5. É claridade nunca escurecida
E sei que toda a luz dela é nascida,
Mesmo sendo noite!

6. Tão caudalosas são suas correntes
Que céus e infernos regam, mais as gentes,
Mesmo sendo noite!

7. Nascida de tal fonte, esta corrente
Bem sei que é mui capaz e omnipotente,
Mesmo sendo noite!


8. Das duas a corrente que procede
Sei que nenhuma delas antecede,
Mesmo sendo noite!

9. Aquela eterna fonte está escondida
Neste pão vivo para dar-nos vida,
Mesmo sendo noite!

10. Aqui está chamando as criaturas:
Desta água se saciem, e às escuras,
Porque é de noite!

11. É esta a viva fonte que desejo
E neste pão de vida é que eu a vejo,
Mesmo sendo noite!

São João da Cruz

04 abril, 2013

Pastorzinho de São João da Cruz


Neste poema, João da Cruz transmite uma interpretação da encarnação, vida, morte e ressurreição de Cristo por cada alma, pela Igreja, em clave de amor.




Canções transpostas «ao divino» sobre Cristo e a alma 


Um pastorzinho, só e amargurado,
Alheio de prazer e de contento
Tem na sua pastora o pensamento
E o peito por amor tão magoado.


Não chora por amor o haver chagado,
Pois lhe não dói assim ver-se afligido,
Embora o coração tenha ferido;
Mas chora de pensar ser olvidado.


Que só de se pensar já olvidado
Pela bela pastora, em dor tamanha
Se deixa maltratar em terra estranha,
Seu peito por amor tão magoado.


E diz o pastorzinho: Ai, malfadado
É quem do meu amor buscou a ausência
E quem não quer gozar minha presença,
Por seu amor meu peito magoado!


E, ao fim de grande tempo, ele há trepado
Uma árvore: abriu os braços belos
E morto lá ficou, suspenso deles,
Seu peito por amor tão magoado!

21 fevereiro, 2013

Benditos remendos do alcatrão!


Foi Domingo, pelas 20 horas, que tudo começou. Regressava a casa, no assento do co-piloto (reconheço que vinha a dormitar!), juntamente com os meus irmãos depois de uma actividade juvenil em Fátima. De repetente, o carro estremece todo e eu, também sacudido, acordo total e finalmente e digo: "É por isto que Portugal não vai para a frente: em vez de colocarem o piso todo de novo, já fizeram mais um remendo! Gastam mais dinheiro em remendos do que em estradas!"
Tenho que reconhecer que não é (e, se calhar, não é a última!) que, num acesso de ira, me vem esta enxurrada de palavras à boca. 

Hoje, numa aula de Teologia da Vida religiosa, ao falarmos sobre o radicalismo evangélico, lêmos uma passagem bíblica que me fez voltar a Domingo:

" [Jesus] Disse-lhes [os fariseus e os doutores da Lei murmuravam por Jesus comer com os cobradores de impostos e com os pecadores em casa do neo-convertido Levi] também esta parábola: «Ninguém recorta um bocado de roupa nova para o deitar em roupa velha; aliás, irá estragar-se a roupa nova, e também à roupa velha não se ajustará bem o remendo que vem da nova. E ninguém deita vinho novo em odres velhos; se o fizer, o vinho novo rompe os odres e derrama-se, e os odres ficarão perdidos. Mas deve deitar-se vinho novo em odres novos. E ninguém, depois de ter bebido o velho, quer do novo, pois diz: 'O velho é que é bom!'»
(Lc 5, 36-39)

Bem, Jesus não falou de asfalto e remendos, mas a ideia é a mesma! Reconheço que foi a parte dos remendos que me sacudiu! E pôs-me a pensar:  nesta estrada que é a minha vida, o que é que ando a fazer: a remendar ou a alcatroar de novo? Não será que, em vez de  asfaltar de novo, ando pôr remendos na minha estrada, que me gastam mais recursos do que refazê-la de novo e, além disso, me fazem perder a estabilidade e a tranquilidade? Sim, pôr remendos é mais fácil, mas não é o melhor: e os nossos carros podem ser a prova disso mesmo! E são muitas as vezes que ponho remendos: um remendo aqui na caridade para com este, um remendo ali nos meus maus pensamentos, um remendo acolá na minha inveja! E não nos decidimos a refazer a estrada! E, chegando a um certo ponto, a nossa vida é apenas e só um conjunto de remendos, que estragam os carros e nos deixam com os cabelos em pé! Resolvamos definitivamente o problema, asfaltando de novo a nossa vida, criando um novo modo de ser, agindo não na superfície, mas na raiz do nosso ser! É verdade que dá mais trabalho, mas será a única maneira de chegarmos mais calma e tranquilamente ao destino.


Reconheço que a reflexão saiu um pouco desajeitada, como tudo o que é a experiência humana. E para que isto não seja uma "desajeitação total", dou a palavra ao Mestre João da Cruz, porque ele sabe dizer o que eu quero dizer melhor do que eu:


"A alma que há-de chegar à divina união há-de carecer
de todos os apetites voluntários;
quer sejam de pecado mortais, que são os mais graves; 
quer de pecado venial, que são os menos graves;
quer somente de imperfeições, que são as menores;
de todos se há-de esvaziar e de todos há-de a alma carecer 
para chegar a esta total união, por mínimos que sejam.

E a razão é porque o estado desta divina união 
consiste em ter a alma, quanto à vontade, 
com tal transformação na vontade de Deus, 
de forma a não haver nela coisa contrária à vontade de Deus,
mas que, em tudo e por tudo, 
o seu movimento seja somente vontade de Deus."

(1 S 11,2)

Na verdade, benditos buracos do alcatrão! Bem, a partir de agora, cada vez que for sacudido por um buraco do asfalto vou tentar não irromper numa enxurrada de palavras nem, muito menos, ir interromper a vida dos outros com a "Grândola Vila Morena", mas perguntar-me: 

ando a remendar ou a alcatroar? 


Fr. Renato.








Ah... e bom alcatroamento neste tempo da Quaresma!? :)


07 fevereiro, 2013

Um pensamento!





"Um só pensamento do homem
vale mais do que todo o mundo;
portanto, SÓ DEUS É DIGNO DELE"

São João da Cruz,  Ditos de luz e amor ,   39


Quanto pensamos em algo, a nossa atenção e, no fundo, todo o nosso ser, se volta para aquilo que pensamos.

Ao longo do nosso dia, tantas preocupações, ocupações, coisas ou pessoa são objecto do nosso pensamento. Mas, poucas vezes, e tantos dias bem poucas vezes, é Deus o objecto do nosso pensamento.

 Quantas vezes nos voltamos para Deus ao longo do nosso dia? Será Ele menos do que todas as outras coisas que ocupam o nosso pensamento? Merecerá Ele menos do que todas as outras coisas que nos ocupam para que não lhe dêmos algo tão valioso? Dêmos, generosamente, a Deus o nosso melhor.

Fr. Renato Pereira

18 janeiro, 2013

Catequese sobre S. João da Cruz (III)




«Estas indicações sobre as obras principais do santo ajudam-nos a aproximar-nos dos pontos salientes da sua vasta e profunda doutrina mística, cuja finalidade é descrever um caminho seguro para alcançar a santidade, a condição de perfeição à qual Deus chama todos nós. Segundo João da Cruz, tudo o que existe, criado por Deus, é bom. Através das criaturas, nós conseguimos chegar à descoberta daquele que nelas deixou um vestígio de Si. De qualquer modo, a fé é a única fonte confiada ao homem para conhecer Deus como Ele é em si mesmo, como Deus Uno e Trino. Tudo o que Deus queria comunicar ao homem, disse-o em Jesus Cristo, a sua Palavra que se fez carne. Jesus Cristo é o único e definitivo caminho para o Pai (cf. Jo 14, 6). Qualquer coisa criada nada é em comparação com Deus, e nada vale fora dele: por conseguinte, para alcançar o amor perfeito de Deus, todos os outros amores devem conformar-se em Cristo com o amor divino. Daqui deriva a insistência de são João da Cruz sobre a necessidade da purificação e do esvaziamento interior para se transformar em Deus, que é a única meta da perfeição. Esta «purificação» não consiste na simples falta física das coisas ou do seu uso; o que torna a alma pura e livre, ao contrário, é eliminar toda a dependência desordenada das coisas. Tudo deve ser inserido em Deus como centro e fim da vida. Sem dúvida, o longo e cansativo processo de purificação exige o esforço pessoal, mas o verdadeiro protagonista é Deus: tudo o que o homem pode fazer é «dispor-se», estar aberto à obra divina e não lhe pôr obstáculos. Vivendo as virtudes teologais, o homem eleva-se e valoriza o próprio compromisso. O ritmo de crescimento da fé, da esperança e da caridade caminha a par e passo com a obra de purificação e com a união progressiva com Deus, até se transformar nele. Quando alcança esta meta, a alma imerge-se na própria vida trinitária, e são João afirma que ela consegue amar a Deus com o mesmo amor com que Ele a ama, porque a ama no Espírito Santo. Eis por que motivo o Doutor místico afirma que não existe verdadeira união de amor com Deus, se não culmina na união trinitária. Neste estado supremo a alma santa conhece tudo em Deus e já não deve passar através das criaturas para chegar a Ele. A alma já se sente inundada pelo amor divino e alegra-se completamente nele.

Caros irmãos e irmãs, no fim permanece esta pergunta: com a sua mística excelsa, com este árduo caminho rumo ao cimo da perfeição, este santo tem algo a dizer também a nós, ao cristão normal que vive nas circunstâncias desta vida de hoje, ou é um exemplo, um modelo apenas para poucas almas escolhidas que podem realmente empreender este caminho da purificação, da ascese mística? Para encontrar a resposta, em primeiro lugar temos que ter presente que a vida de são João da Cruz não foi um «voar sobre as nuvens místicas», mas uma vida muito árdua, deveras prática e concreta, quer como reformador da ordem, onde encontrou muitas oposições, quer como superior provincial, quer ainda no cárcere dos seus irmãos de hábito, onde esteve exposto a insultos incríveis e a maus tratos físicos. Foi uma vida dura, mas precisamente nos meses passados na prisão, ele escreveu uma das suas obras mais bonitas. E assim podemos compreender que o caminho com Cristo, o andar com Cristo, «o Caminho», não é um peso acrescentado ao fardo já suficientemente grave da nossa vida, não é algo que tornaria ainda mais pesada esta carga, mas é algo totalmente diferente, é uma luz, uma força que nos ajuda a carregar este peso. Se um homem tem em si um grande amor, este amor quase lhe dá asas, e suporta mais facilmente todas as moléstias da vida, porque traz em si esta grande luz; esta é a fé: ser amado por Deus e deixar-se amar por Deus em Cristo Jesus. Este deixar-se amar é a luz que nos ajuda a carregar o fardo de todos os dias. E a santidade não é uma obra nossa, muito difícil, mas é precisamente esta «abertura»: abrir as janelas da nossa alma, para que a luz de Deus possa entrar, não esquecer Deus, porque é precisamente na abertura à sua luz que se encontra a força, a alegria dos remidos. Oremos ao Senhor para que nos ajude a encontrar esta santidade, deixando-nos amar por Deus, que é a vocação de todos nós e a verdadeira redenção. Obrigado!

Saudação

Amados peregrinos de língua portuguesa: a todos saúdo cordialmente e recordo, com São João da Cruz, que a santidade não é privilégio de poucos, mas vocação a qual todo cristão é chamado. Por isso, exorto-vos a entrardes de modo sempre mais decidido no caminho de purificação do coração e da vida, para irdes ao encontro de Cristo. Somente nele jaz a verdadeira felicidade. Ide em paz!»

Bento XVI, In Audiência Geral de 16 de Fevereiro de 2011

17 janeiro, 2013

Catequese sobre S. João da Cruz (II)



«João é considerado um dos mais importantes poetas líricos da literatura espanhola. As obras principais são quatro: Subida ao Monte Carmelo, Noite obscura, Cântico espiritual e Chama de amor viva.

No Cântico espiritual, são João apresenta o caminho de purificação da alma, ou seja, a posse progressiva e jubilosa de Deus, até que a alma chegue a sentir que ama a Deus com o mesmo amor com que é por Ele amada. A Chama de amor viva continua nesta perspectiva, descrevendo mais pormenorizadamente o estado de união transformadora com Deus. A comparação utilizada por João é sempre a do fogo: assim como o fogo, quanto mais arde e consome a madeira, tanto mais se torna incandescente até se tornar chama, também o Espírito Santo, que durante a noite obscura purifica e «limpa» a alma, com o tempo ilumina-a e aquece-a como se fosse uma chama. A vida da alma é uma festa contínua do Espírito Santo, que deixa entrever a glória da união com Deus na eternidade.

A Subida ao Monte Carmelo apresenta o itinerário espiritual sob o ponto de vista da purificação progressiva da alma, necessária para escalar a montanha da perfeição cristã, simbolizada pelo cimo do Monte Carmelo. Tal purificação é proposta como um caminho que o homem empreende, colaborando com a obra divina, para libertar a alma de todo o apego ou afecto contrário à vontade de Deus. A purificação, que para alcançar a união com Deus deve ser total, começa a partir daquela da vida dos sentidos e continua com a que se alcança por meio das três virtudes teologais: fé, esperança e caridade, que purificam a intenção, a memória e a vontade. A Noite obscura descreve o aspecto «passivo», ou seja, a intervenção de Deus neste processo de «purificação» da alma. Com efeito, o esforço humano sozinho é incapaz de chegar às profundas raízes das más inclinações e hábitos da pessoa: só os pode impedir, mas não consegue erradicá-los completamente. Para o fazer, é necessária a acção especial de Deus, que purifica radicalmente o espírito e o dispõe para a união de amor com Ele. São João define «passiva» tal purificação, precisamente porque, embora seja aceite pela alma, é realizada pela obra misteriosa do Espírito Santo que, como chama de fogo, consome toda a impureza. Neste estado, a alma é submetida a todo o tipo de provações, como se se encontasse numa noite obscura.»

Bento XVI, In Audiência Geral de 16 de Fevereiro de 2011

16 janeiro, 2013

Catequese sobre S. João da Cruz (I)




«Queridos irmãos e irmãs,

Há duas semanas apresentei a figura da grande mística espanhola Teresa de Jesus. Hoje gostaria de falar de outro importante santo daquelas terras, amigo espiritual de santa Teresa, reformador com ela da família religiosa carmelita: são João da Cruz, proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Pio XI em 1926, e chamado na tradição Doctor mysticus, «Doutor místico».

João da Cruz nasceu em 1542 no povoado de Fontiveros, perto de Ávila, na Velha Castela, de Gonzalo de Yepes e Catalina Alvarez. A família era extremamente pobre porque o pai, de nobre origem de Toledo, tinha sido expulso de casa e deserdado por ter casado com Catalina, uma humilde tecelã de seda. Órfão de pai em tenra idade, com nove anos, transferiu-se com a mãe e o irmão Francisco para Medina del Campo, perto de Valladolid, centro comercial e cultural. Ali frequentou o Colégio de los Doctrinos, desempenhando também alguns trabalhos humildes para as irmãs da igreja-convento da Madalena. Em seguida, considerando as suas qualidades humanas e os seus resultados nos estudos, foi admitido primeiro como enfermeiro no Hospital da Conceição, depois no Colégio dos Jesuítas, recém-fundado em Medina del Campo: ali João entrou com dezoito anos e estudou ciências humanas, retórica e línguas clássicas durante três anos. No final da formação, ele viu claramente qual era a sua vocação: a vida religiosa e, entre as muitas ordens presentes em Medina, sentiu-se chamado ao Carmelo.

No Verão de 1563 começou o noviciado com os Carmelitas da cidade, assumindo o nome religioso de João de São Matias. No ano seguinte foi destinado à prestigiosa Universidade de Salamanca, onde por três anos estudou artes e filosofia. Em 1567 foi ordenado sacerdote e voltou a Medina del Campo para celebrar a sua primeira Missa circundado pelo carinho dos familiares. Precisamente ali teve lugar o primeiro encontro entre João e Teresa de Jesus. O encontro foi decisivo para ambos: Teresa expôs-lhes o seu plano de reforma do Carmelo também no ramo masculino da Ordem e propôs a João que se adaptasse «para maior glória de Deus»; o jovem sacerdote ficou fascinado pelas ideias de Teresa, a ponto de se tornar um grande defensor do projecto. Os dois trabalharam juntos alguns meses, compartilhando ideais e propostas para inaugurar quanto antes possível a primeira casa de Carmelitas Descalços: a abertura ocorreu a 28 de Dezembro de 1568 em Duruelo, lugar solitário da província de Ávila. Com João formavam esta primeira comunidade masculina reformada outros três companheiros. Ao renovar a sua profissão religiosa segundo a Regra primitiva, os quatro assumiram um novo nome: Então, João denominou-se «da Cruz», como depois será conhecido universalmente. No final de 1572, a pedido de santa Teresa, tornou-se confessor e vigário do mosteiro da Encarnação em Ávila, onde a santa era priora. Foram anos de estreita colaboração e amizade espiritual, que a ambos enriqueceram. A esse período remontam inclusive as mais importantes obras teresianas e os primeiros escritos de João.

A adesão à reforma carmelita não foi fácil, e causou a João também graves sofrimentos. O episódio mais traumático foi, em 1577, o seu rapto e aprisionamento no convento dos Carmelitas de Antiga Observância de Toledo, devido a uma acusação injusta. O santo permaneceu preso durante meses, submetido a privações e constrições físicas e morais. Ali compôs, além de outras poesias, o célebre Cântico espiritual. Finalmente, na noite entre 16 e 17 de Agosto de 1578, conseguiu fugir de modo aventuroso, refugiando-se no mosteiro das Carmelitas Descalças da cidade. Santa Teresa e os companheiros reformados celebraram com imensa alegria a sua libertação e, após um breve período de recuperação das forças, João foi destinado para a Andalusia, onde transcorreu dez anos em vários conventos, especialmente em Granada. Assumiu cargos cada vez mais importantes na Ordem, até se tornar Vigário provincial, e completou a redacção dos seus tratados espirituais. Depois, voltou para a sua terra natal, como membro do governo geral da família religiosa teresiana, que já gozava de plena autonomia jurídica. Habitou no Carmelo de Segóvia, desempenhando a função de superior daquela comunidade. Em 1591 foi eximido de qualquer responsabilidade e destinado à nova Província religiosa do México. Enquanto se preparava para a longa viagem com outros dez companheiros, retirou-se num convento solitário perto de Jaén, onde adoeceu gravemente. João enfrentou com serenidade e paciência exemplares normes sofrimentos. Falceu na noite entre 13 e 14 de Dezembro de 1591, enquanto os irmãos de hábito recitavam o Ofício matutino. Despediu-se deles, dizendo: «Hoje vou cantar o Ofício no Céu». Os seus restos mortais foram trasladados para Segóvia. Foi beatificado por Clemente x em 1675 e canonizado por Bento XIII em 1726.»

Bento XVI, In Audiência Geral de 16 de Fevereiro de 2011

15 janeiro, 2013

Vigília de Natal e comemoração de São João da Cruz




Para a vigília de oração com São João da Cruz pediu-se aos meninos da catequese que cada um viesse à festa com a almofada com que dorme. Este pedido despertou muita curiosidade não só nos meninos como em todas as outras pessoas que souberam. Foi uma semana de curiosidade e até mesmo de ansiedade.

Quando chegou o dia, as crianças apareceram em grande número, se calhar mais do que era esperado. A almofada foi o bilhete de entrada; ensaiou-se uma música com as almofadas, distribui-se uma vela por cada menino e, depois dos familiares e convidados terem entrado no santuário, entramos nós catequistas e os meninos. Lá dentro, tinha-se criado um cenário: bancos recuados nas laterais, luzes, música, velas em arranjos junto à passadeira e, no lugar dos bancos, espaços vazios que foram preenchidos pelos meninos sentados nas suas almofadas.

Deu-se início à vigília com dois jovens a discutir, um deles é afastado e a outra fica a lamentar o facto de ter tudo (um telemóvel, viagens, entre outras coisas ….) o que é bem material mas continuar a sentir-se só, abandonada. Então aparece Jesus na cruz e lhe mostra que não está sozinha. Depois, aparecem os Reis Magos que seguem a estrela que os levam ao menino Jesus. A jovem continua a questionar a sua fé e a presença de Jesus e é então que lhe fala São João da Cruz, que sempre dedicou a sua vida de sofrimento aos outros. Por fim, aparece-lhe um anjo. 

Pelo meio, foram-se cantando algumas músicas que envolveram todos os presentes. A vigília finalizou-se com o reconhecimento de que nunca se está só e que se pode dar muito de nós aos outros; basta acreditar. Por fim, os meninos acenderem as suas velas como símbolo da sua própria fé, cantaram e dançaram a música que anteriormente ensaiaram com as almofadas.

Para acabar a festa, realizamos um lanche com chocolate quente, chá, cafés, bolos, biscoitos, entre outras coisas que deram continuidade ao convívio entre as pessoas da paróquia, o que também superou as expectativas, pois foram bastantes as pessoas presentes.

Foi uma festa de Natal diferente de todas as outras, mas foi divertida, alegre e muito envolvente. 
Parabéns a todos quantos fizeram parte dela.



Catequista 
 Teresa Moura  

14 janeiro, 2013

Vigília com São João da Cruz


No dia 15 de Dezembro, aqui no Convento do Menino Jesus de Praga, desenrolou-se uma vigília de oração com São João da Cruz. Esta vigília foi concebida com a participação do grupo de jovens GPS para as crianças dos vários grupos de catequese da paróquia de Avessadas.

Ao longo da vigília, fomos entrando na experiência de Deus através dos ensinamentos de São João da Cruz. O homem, que se depara com o seu nada e com o sem-sentido da vida, orientado, simplesmente, para o materialismo, muitas vezes, dá-se conta do vazio que há em si. Umas vezes, ele procura encher esse vazio com mais e mais bens materiais, e, outras vezes, dá-se conta de que, por mais que se encha desses bens, nunca poderá preencher essa falta que leva dentro de si.

Há pessoas que, ao dar-se conta deste vazio, compreendem que há Alguém que as pode preencher, compreendem que estão vazias, porque esse lugar pertence a Alguém que é quem dá sentido à existência humana. Muitas das experiências de fé começam, precisamente, pelo dar-se conta de se ser incompleto. Muitas pessoas sentem-se, realmente, tocadas por Deus neste vazio existencial e saem ao Seu encontro.

São João da Cruz propõe-nos um caminho espiritual semelhante. Entremos dentro de nós e vejamos como estamos ocos, como nos falta algo e dediquemo-nos a procurar Deus, o único que pode dar sentido a esse vazio. Esta busca tem que se dar pela oração e pelo esforço humano de melhorar o que é a acção, sempre com o intuito de ir ao encontro dos outros, que clamam por nós, que clamam por ajuda.

A oração é uma relação que se estabelece com o próprio Deus, relação que nos leva a encontrarmo-nos a nós mesmos, relação que nos leva a sair de nós para ir ao encontro das necessidades do outro, relação que nos leva a ser verdadeiramente humanos, a ser aquilo para que fomos criados: seres livres e em comunhão com Deus.

Noviços


24 dezembro, 2012

S. João da Cruz e o Natal



É natural que, nesta quadra natalícia, nos perguntemos pelo modo como os nossos fundadores celebravam a festa do Nascimento de Jesus. Qualquer carmelita sabe que Teresa de Jesus e João da Cruz modernamente são contados entre aqueles santos que mais contribuíram para difundir a devoção ao Menino de Belém. Também, quem é próximo ao Carmelo, sabe que nestes conventos, ou castelos onde Deus mora, a marca da casa é a humildade, a oração e a alegria. Dizia Teresa: “Tristeza e melancolia não as quero em minha casa”. E João da Cruz arrematava: “Neste estado de vida tão perfeita, a alma anda sempre, interior e exteriormente, como de festa; no paladar do seu espírito traz frequentemente um grande júbilo de Deus, uma espécie de canto novo, que é sempre novo, envolto em alegria e amor” (Ch 2, 36).

Deixo aqui um breve lamiré sobre o modo de S. João da Cruz celebrar o Natal. Convém lembrar, já de entrada, que o mistério de Cristo – o Amado e o Esposo – é central na sua vida. Por isso, meditou, contemplou e cantou a gloriosa humanidade de Cristo: “Na qual a Suma Trindade/de carne o Verbo vestia. E embora de três a obra,/somente num se fazia;/ficou o Verbo encarnado/ em o ventre de Maria. E o que tinha apenas Pai,/também já Mãe possuía” (Romance In principio…, nº 8). O mistério da encarnação – o Natal – é, juntamente com o mistério da redenção, obra maior, em comparação com a criação e as criaturas (obras menores). A encarnação é obra excelsa na qual o Pai mais reparou e se deleitou. Belém é o tálamo do abraço de amor eterno entre o céu e a terra. 

Segundo a Ir. Maria da Paz, João da Cruz “amava muito a nosso Senhor e andava sempre em oração, agradando a Deus, e isso notava-se-lhe porque o seu rosto acomodava-se às festas”. Esta testemunha estava persuadida de que, conforme às festas, assim trazia o seu afeto em Deus. “Se era natal, denunciava ternura” (BMC 14, 45). Foi atendendo a esta testemunha que Juan Vicente Rodriguez batizou João da Cruz como “o homem do tempo litúrgico”.

Era nas festas de Natal que João da Cruz mais se extasiava. Em Baeza, Granada e Segóvia animava a sua comunidade com versos, cantos e pequenas representações teatrais que entretinham e enterneciam os seus frades. Frei João de Santa Eufémia, o cozinheiro da comunidade de Baeza, diz que “na noite de Natal, o dito frei João da Cruz fez que dois dos seus religiosos, representando Nossa Senhora e S. José, andassem pelo claustro do convento a pedir pousada. E daquilo que diziam estes dois frades, João da Cruz tirava pensamentos divinos que partilhava para grande consolação dos religiosos… E, quando estas festas se celebravam na igreja, o povo ficava muito edificado e cheio de devoção” (BMC 14, 25). Também em Granada, segundo Alonso da Mãe de Deus, frei João “colocou a mãe de Deus num andor, e, posta aos ombros, acompanhada por este servo do Senhor e pelos religiosos que a seguiam pelo claustro, batiam às portas que nele havia a pedir pousada para aquela Senhora em horta de parto e seu marido. Chegados à primeira porta cantaram esta letra que o santo compôs: Do Verbo divino/ a Virgem prenhada/ lá vem a caminho./ Dar-lhe-eis pousada? Esta letra foi-se repetindo de porta em porta. Lá dentro, o santo tinha colocado religiosos que respondiam secamente. João da Cruz respondia-lhes dizendo quem eram os hóspedes, do tempo que fazia e da importância daquela hora. O ardor das suas palavras e das maravilhas que apresentava enternecia o coração de quantos o ouviam e nas suas almas ficava impresso este mistério e um grande amor a Deus”. Gabriel da Mãe de Deus, o velho sacristão do convento, descreve uma procissão idêntica que entrava na igreja à meia-noite. Ao lado do ambão estava montado o presépio – feito de ramos, palha e terra – onde não faltava a mula e o boi, bem como a imagem de S. José. Ao chegar punha-se a Virgem Maria na gruta. Todos adoraram o Menino recém-nascido. Era tal o realismo com que se fazia a celebração “que não parecia representação de uma coisa passada, mas tal acontecimento via-se presente, como se acontecesse naquele instante diante dos seus olhos” (Jerónimo, História, lib 4, c. 11, 427-428). Este mesmo documento histórico relata o momento em que frei João da Cruz, estando afalar aos seus frades sobre a riqueza do amor de Deus feito Menino, sentindo um impulso irreprimível, dirigiu-se a uma mesa onde estava uma imagem do Menino Jesus que recebia todas as alegrias daquele tempo litúrgico, pegou nela nos braços e começou a dançar com toda a arte e fervor. A letra que acompanhava a sua dança dizia: “Meu doce e terno Jesus,/ se amores me hão-de matar,/ agora tenham lugar”.

Ó carmelitas, haja alegria, dancemos, bailemos, porque Jesus nasceu para nos salvar. Abramos a pousada da nossa alma a José e a Maria, porque, no seu seio, trazem-nos o Menino Deus, o Redentor. Feliz Natal!

Agostinho Leal, ocd

14 dezembro, 2012

De S. João da Cruz a um Carmelita Descalço



Que a paz de Jesus Cristo esteja sempre na sua alma, meu filho.
Recebi a carta […] em que me fala dos grandes desejos que Nosso Senhor lhe concedeu para trazer a sua vontade somente n’Ele, amando-O sobre todas as coisas. E pede-me alguns conselhos para o conseguir.

Alegro-me por Deus lhe haver dado tão santos desejos, e muito mais me alegrarei se os puser em prática. Para isso convém-lhe saber que todos os gostos, gozos e afectos nascem sempre na alma mediante a vontade e o querer das coisas que se lhe apresentam como boas, convenientes e agradáveis, por lhe parecerem agradáveis e preciosas. Segundo isto, encaminha para elas os apetites da vontade, espera possuí-las, goza-as enquanto as tem, teme perdê-las, e sofre quando as perde. Portanto, a alma vive perturbada e inquieta segundo o afecto e o gozo das coisas.

Para aniquilar e mortificar estes afectos de gostos acerca de tudo o que não é Deus, deve […] notar que […] nenhuma coisa suave e deleitável em que ela [vontade] se possa gozar e deleitar é Deus, porque, assim como Deus não pode ser apreendido pelas outras potências, também não pode ser objecto dos apetites e gostos da vontade. Assim como a alma neste mundo não pode saborear a Deus na Sua essência, assim também toda a suavidade e deleite que gozar […] não pode ser Deus; de igual modo, a vontade só pode gostar e desejar distintamente o que conhece […]. Se a vontade nunca saboreou a Deus como Ele é, nem O conhece sob qualquer apreensão do apetite, também não sabe como é Deus, nem o seu gosto o pode saber, nem o seu ser, apetite e gosto chegarão a saber desejar Deus, porque isso ultrapassa as suas capacidades. Portanto, nenhuma das coisas que a alma possa gozar distintamente é Deus. E, assim, para se unir a Ele, há-de a alma esvaziar-se e desprender-se de qualquer afecto desordenado de apetite ou gosto que tenha em relação ao que se possa gozar distintamente […], a fim de que, purificada e limpa de quaisquer gostos, gozos e apetites desordenados, se empregue totalmente, com todos os seus afectos, em amar a Deus. Porque, se de alguma maneira a vontade pode apropriar-se de Deus e unir-se a Ele, não é por qualquer meio apreensivo do apetite, mas pelo amor. Ora, como nenhum deleite, suavidade ou gosto apreendido pela vontade é amor, deduz-se que nenhum dos sentimentos saborosos pode ser meio apropriado para a vontade se unir a Deus; só o é a operação da vontade. A operação da vontade é muito diferente do seu sentimento: a operação une a Deus e termina n’Ele, que é amor; o sentimento e apreensão do seu apetite, fixa-se na alma como fim e termo. Os sentimentos só servem de motivo para amar, se a vontade quiser passar adiante e nada mais. Assim, os sentimentos saborosos não encaminham a alma para Deus, mas fixam-na em si mesmos, enquanto a operação da vontade, que é amar a Deus, faz com que a alma ponha só n’Ele o seu afecto, gozo, gosto, contentamento e amor, após ter deixado tudo para trás e amando-O sobre todas as coisas. Daí que, se alguém se persuade a amar a Deus pela suavidade que sente, já deixa para trás esta suavidade e põe o amor em Deus, a quem não sente. Se o pusesse na suavidade e gosto que experimentou, reparando e detendo-se nele, já estaria a pô-lo nas criaturas ou coisa delas […]. Se Deus é incompreensível e inacessível, a vontade não há-de pôr a sua operação de amor naquilo que pode tocar e apreender com o apetite, – a fim de a pôr em Deus –, mas naquilo que não pode compreender nem alcançar com ele. Desta maneira, a vontade fica a amar por certo e deveras ao gosto da fé, ou seja, vazia de seus sentimentos e às escuras de todos os que pode conceber com o entendimento do seu intelecto, acreditando e amando acima de tudo o que pode entender.

Portanto, muito insensato seria quem, ao faltar-lhe a suavidade e a consolação espiritual, pensasse que Deus lhe faltaria por isso; ou, ao experimentar gozo e consolação, julgasse que possuía a Deus por isso. Mas mais insensato seria se andasse a procurar esta suavidade em Deus, detendo-se a gozar nela; isso já não seria procurar a Deus com a vontade fundada em desnudez de fé e caridade, mas procurar o gosto e a suavidade espiritual, que é criatura, seguindo o seu gosto e apetite. Desta maneira, já não estaria a amar puramente a Deus […], porque, apegando-se e apoiando-se naquela criatura com o apetite, a vontade não se eleva acima dela até Deus, que é inacessível. É impossível à vontade chegar à suavidade e consolação da divina união […] se não for pela desnudez e vazio do apetite em qualquer gosto particular […]. 

[…] Na verdade, quando se põe o apetite nalguma coisa, a essa mesma coisa se reduz, porque fora de Deus tudo é apertado. Por isso, para a alma acertar no caminho para Deus e se unir com Ele, há-de ter a boca da vontade aberta só para Deus, vazia e sem nenhum pedaço de apetite, a fim de que Deus a encha e farte do seu amor e doçura; há-de viver com fome e sede só de Deus, sem querer satisfazer-se com mais nada, pois aqui não pode saborear Deus como Ele é; o que se pode saborear também é impedimento se, como digo, aí entrar o apetite. […]
Portanto, muito convém e importa […], se quiser gozar de uma grande paz na sua alma e chegar à perfeição, entregar toda a sua vontade a Deus, para assim se unir a Ele, e não a encher com as coisas vis e baixas da terra.

Que Sua Majestade o faça tão espiritual e santo como eu desejo.

Segóvia, 14 de Abril [de 1589].
Frei João da Cruz