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06 dezembro, 2013

Orar com os místicos



«A Igreja…
nasceu da graça de Deus
e com o Filho de Deus
desceu do céu,
de modo que está unida a Ele
indissoluvelmente.
Foi construída com pedras vivas;
a sua pedra angular foi colocada
quando a Palavra de Deus
assumiu a natureza humana
no seio da Virgem.»

Santa Teresa Bendita da Cruz | † 1942
Obras 227
Meu Deus,
a Igreja é fruto do Teu amor por mim!
Esse amor que tem a sua fonte
na tua própria Vida,
que é comunhão de amor no seio da Trindade.
A Igreja é fruto da Tua missão quando vieste à terra.
Vieste chamar-me à santidade,
ou seja, a participar da Tua Vida
pois queres ser um comigo.
Este desejo que Tu tens de ser um comigo,
connosco,
é tão grande
que daí nasceu a Igreja!
Senhor, ajuda-me a ser um conTigo,
como desejas tão ardentemente!
Só assim serei pedra viva

do Teu templo, Senhor!

23 julho, 2013

As Bodas do Cordeiro



14 de Setembro de 1940

“Venerunt nuptiae Agni et uxor eius praeparavit se”[1] (Ap 19, 7). “Chegaram as núpcias do Cordeiro e a sua esposa está preparada”. Estas palavras soaram de modo tão belo no nosso coração na véspera da nossa profissão, e assim devem ressoar novamente quando renovemos solenemente os nossos santos votos. Palavras cheias de mistério que escondem o sentido, profundo e misterioso, da nossa sagrada vocação. Quem é o Cordeiro? Quem é a esposa? De que banquete de bodas se fala aqui?
“Olhei e vi no meio do trono, dos quatro viventes e dos anciãos, um Cordeiro de pé, como que imolado” (Ap 5, 6). Quando o vidente de Patmos contemplou esse rosto, ainda estava viva nele a recordação daquele inesquecível dia junto do Jordão, quando João Baptista lhe mostrou o “Cordeiro de Deus” que “tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29). Naquele momento tinha compreendido a palavra e agora compreendia a imagem. Aquele que antes caminhava junto do Jordão, e tinha-se manifestado agora com vestes brancas, com olhos de chamas de fogo e com a espada do Juiz, o “Primeiro e o Último” (Ap 1, 18). Ele cumpriu perfeitamente o que os ritos da Antiga Aliança manifestaram simbolicamente.
Quando no dia mais solene e santo do ano, o Sumo-sacerdote entrava no Santo dos Santos, no sacratíssimo lugar da presença de Deus, tomava dois cabritos: um, para carregar com os pecados do povo e levá-los para o deserto; o outro, para aspergir com o seu sangue o Tabernáculo e a Arca da Aliança (Lv 16). Esse era o sacrifício de expiação pelo povo. Além disso, o Sumo-Sacerdote tinha que sacrificar um novilho por ele próprio e pela sua casa e oferecer um carneiro em holocausto. Com o sangue do novilho tinha que aspergir também o Trono da Graça. Quando o sacerdote, escondido aos olhos dos homens, tinha orado por si próprio, pela sua casa e por todo o povo de Israel, saia fora, onde estava o povo à espera, e aspergia o altar para expiar os seus pecados e os do povo. Enviava depois o cabrito vivo para o deserto, oferecia o seu próprio holocausto e o do povo, e queimava os restos do sacrifício expiatório diante do acampamento (mais tarde, diante das portas da cidade).
O dia da Reconciliação era também um dia solene e sagrado. O povo permanecia em oração e jejuava no Santuário. Quando ao entardecer tudo se tinha cumprido, havia paz e alegria no coração, porque Deus tinha tirado o peso do pecado e havia dado a sua graça. Mas, o que tornou possível essa reconciliação? Certamente que não foi nem o sangue dos animais degolados, nem o Sumo Sacerdote da descendência de Aarão, – isto esclareceu-o bem S. Paulo na carta aos Hebreus –, mas a verdadeira vítima de reconciliação, prefigurada em todas as anteriores vítimas prescritas pela lei, e o Sumo Sacerdote, segundo a ordem de Melquisedec, em cujo lugar estavam os sacerdotes da casa de Aarão. Ele era também o verdadeiro Cordeiro Pascal, em nome do qual passou ao lado o anjo exterminador diante das casas dos hebreus, quando castigou os egípcios. O próprio Senhor explicou isto aos seus discípulos quando comeu com eles o Cordeiro Pascal pela última vez, e se entregou a si mesmo como alimento.
Mas, porque escolheu o Cordeiro como símbolo preferido? Porquê se mostrou ele ainda desse modo no trono da glória eterna? Porque estava livre de pecado e era humilde como um cordeiro; e porque tinha vindo para se deixar levar como cordeiro ao matadouro (Is 53, 7). João presenciou também tudo isto quando o Senhor se deixou prender no Monte das Oliveiras e depois se deixou cravar no Gólgota. Ali, no Gólgota, se cumpriu o verdadeiro sacrifício de reconciliação. A partir de então os antigos sacrifícios perderam a sua eficácia; e em breve desapareceram totalmente, assim como o antigo sacerdócio, quando o Templo foi destruído. João presenciou tudo isto de perto. Por isso, não lhe assombrava ver o Cordeiro no Trono. E porque foi uma testemunha fiel dele, foi-lhe mostrada também a Esposa do Cordeiro.
“Viu a cidade santa, a nova Jerusalém que descia do Céu, de junto de Deus, bela como uma noiva que se adornou para o seu esposo” (Ap 21, 2 e 9 ss). Assim como Cristo desceu do céu à terra, assim a sua esposa, a Santa Igreja, tem também a sua origem no céu: nasceu da graça de Deus e com o Filho de Deus desceu do céu, de modo que está unida a Ele indissoluvelmente. Foi construída com pedras vivas; a sua pedra angular foi colocada quando a Palavra de Deus assumiu a natureza humana no seio da Virgem. Nesse momento, a alma do Divino Menino e da Virgem Mãe estavam enlaçadas com o vínculo da mais íntima união, que hoje chamamos desposório.
A Jerusalém celeste, escondida aos olhos do mundo, veio à terra. Dessa primeira união esponsal nasceram todas as pedras vivas que edificaram a poderosa construção, quer dizer, cada alma chamada à vida pela graça. A Mãe-Esposa chegaria a ser a Mãe de todos os redimidos, e, como a célula fecunda, da qual surgem sempre novas células, construiria ela a cidade viva de Deus. Este mistério escondido foi revelado a S. João quando estava com a Virgem Mãe ao pé da Cruz e foi entregue a ela como filho. Ali começou a Igreja a existir visivelmente: tinha chegado a sua hora, mas não ainda a sua perfeição. Ela vive, está desposada com o Cordeiro, mas a hora do banquete nupcial festivo chegará somente quando o dragão for definitivamente vencido e os últimos dos redimidos tenham travado o seu combate até ao fim.
Assim como o Cordeiro teve que ser imolado para ser elevado sobre o trono da glória, assim o caminho da glória conduz, por meio do sofrimento e da Cruz, a todos os eleitos para o banquete das bodas. Quem quiser desposar o Cordeiro tem que se deixar cravar com ele na Cruz. Para isto são chamados todos os que foram marcados com o sangue do Cordeiro, e estes são todos os baptizados. No entanto, nem todos compreendem esse chamamento e o seguem. Existe um chamamento a um seguimento mais estreito, que ecoa mais penetrante no interior da alma e que exige uma resposta clara. É o chamamento à vida religiosa, e a resposta são os santos votos.
 Naquele a quem o Senhor chama a deixar os vínculos naturais (família, povo, ambiente), para se entregar somente a Ele, destaca-se o vínculo nupcial com o Senhor com mais força do que na multidão dos redimidos. Têm de pertencer, de modo preferencial, por toda a eternidade ao Cordeiro, segui-lo por onde quer que vá e cantar o hino das virgens que mais ninguém pode cantar (Ap 14, 1-5).
Quando desperta na alma o desejo da vida religiosa é como se o Senhor pedisse a sua mão em desposório. E  se ela se consagra a Ele através dos santos votos e acolhe o “Veni, sponsa Christi”[2], antecipa-se o banquete das bodas celestes. No entanto, trata-se aqui só da espera do alegre banquete eterno. O gozo nupcial da alma consagrada a Deus e a sua felicidade têm que acreditar-se nos combates, abertos ou escondidos, e no quotidiano da vida religiosa. O esposo escolhido por ela é o Cordeiro que foi imolado. Se quiser entrar com Ele na glória celeste tem que se deixar cravar ela própria na sua Cruz. Os três votos são os cravos. Quanto com maior disposição se estenda sobre a Cruz e suporte pacientemente os golpes de martelo, tanto mais profundamente experimentará a realidade de estar unida com o Crucificado. Assim, o facto mesmo de estar crucificada, será para ela a festa das bodas.
O voto de pobreza abre as mãos para que deixem cair tudo o que as mantém atadas. Sujeita-as de tal maneira que já não podem tender para as coisas deste mundo. Além disso, ordena as mãos do espírito e da alma: os apetites que se inclinam sempre para os prazeres e os bens materiais; as preocupações que pretendem assegurar a vida terrena em todas as suas dimensões; o activismo que se ocupa em muitas coisas, pondo assim em perigo a dedicação ao único necessário. Uma vida na abundância e a comodidade burguesa contradiz o espírito da santa pobreza e afasta-nos do pobre crucificado. As nossas irmãs, nos primeiros tempos da Reforma[3], sentiam-se felizes quando lhes faltava o necessário; quando as dificuldades tinham sido superadas, e tinham de tudo em abundância, temiam que o Senhor se apartasse delas. Algo não funciona bem numa comunidade conventual se as preocupações exteriores toma tanto tempo e forças para si que se ressente a vida interior. E algo não está de todo em ordem na alma de cada religiosa, em particular, se começa a ocupar-se de si mesma e a preocupar-se em satisfazer os seus desejos e inclinações, em vez de se abandonar à Divina Providência e aceitar agradecida o que ela envia através das irmãs responsáveis. Naturalmente, com isso não se exclui que se dê a conhecer aos superiores sobre o que exige a obrigatória consideração da saúde. Porém, uma vez feito isto, devemos libertar-nos de toda outra preocupação. O voto de pobreza pretende dar-nos a despreocupação das aves e dos lírios, para que o espírito e o coração fiquem livres para Deus.
A santa obediência sujeita os nossos pés para que já não andem mais pelos seus próprios caminhos, mas pelos caminhos de Deus. Os filhos deste mundo chamam liberdade ao não estar submetidos a nenhuma vontade alheia e a que ninguém os impeça de satisfazer os seus desejos e inclinações. Por essa liberdade lançam-se a sangrentos combates e sacrificam todos bens e a vida. Os filhos de Deus entendem diferentemente a liberdade: querem seguir sem estorvos o Espírito de Deus; e sabem que os maiores obstáculos não vêm de fora, mas estão alojados em nós mesmos. A razão e a vontade do homem, que gostosamente querem ser seu próprio senhor, não se apercebem de quão facilmente se deixam seduzir pelos apetites naturais e convertem-se em seus escravos. Não há melhor caminho para libertar-nos dessa escravidão e tornar-nos dóceis à direcção do Espírito Santo do que o caminho da santa obediência.
“Na obediência é onde a alma se sente realmente livre”, assim faz dizer Goethe à heroína de um dos seus poemas, que estão fortemente impregnados do espírito cristão. A autêntica obediência não consiste somente na não transgressão externa das prescrições da Santa Regra e das Constituições, ou das ordens dos superiores. Tem que converter-se numa renúncia à própria vontade. Por isso, o que obedece não estuda a Regra e as Constituições para descobrir subtilmente quantas das assim chamadas “liberdades” se lhe permitem ainda, mas para descobrir cada vez melhor quantos pequenos sacrifícios e oportunidades se lhe oferecem cada dia e cada hora para progredir na renúncia de si mesmo. Toma tudo isto sobre si como um jugo suave e uma carga leve, pois sente-se, através deles, mais estreita e profundamente unido ao Senhor, que foi obediente até à morte de Cruz. Os filhos deste mundo consideram esta maneira de agir inútil, irracional e mesquinha. O Salvador, que realizou durante trinta anos o seu trabalho quotidiano na base de tais pequenos sacrifícios, julgará de outro modo.
O voto de castidade procura libertar o homem de todos os vínculos naturais, para o sujeitar à cruz por cima de toda a agitação e libertar o seu coração para a união com o Crucificado. Um tal sacrifício não se leva a cabo de uma só vez. Pode-se estar muito bem apartado exteriormente das ocasiões que conduzem à tentação, e, no entanto, na memória e na fantasia permanecem ainda muitas coisas que podem perturbar o espírito e tirar a liberdade ao coração. Existe, além disso, o perigo de que no interior dos muros protegidos do convento surjam novas ataduras que impeçam a total união com o divino coração.
Com a nossa entrada na Ordem convertemo-nos novamente em membros de uma família. Devemos ver e honrar em nossas superioras e irmãs como cabeça e membros do corpo místico de Cristo. Contudo, somos humanos e pode acontecer que se misture com o amor santo, infantil e fraterno, algo demasiado humano. Cremos ver nos humanos a Cristo e não nos damos conta que nos apegamos humanamente a eles e corremos o perigo de perder de vista a Cristo. Pois bem, a inclinação humana não turba apenas a pureza do coração. Pior ainda que um demasiado amor humano é um demasiado pouco amor ao divino coração. Cada aversão, cada enfado, cada rancor que toleramos ao nosso coração fecha as portas ao Salvador. As emoções involuntárias apresentam-se, naturalmente, sem culpa nossa; mas logo que as consentimos temos que tomar inexoravelmente partido contra elas; caso contrário pomo-nos contra Deus, que é Amor, e trabalhamos em proveito do adversário. O hino que as virgens cantam no séquito do Cordeiro é seguramente o canto do mais puro amor.
A Cruz eleva-se novamente diante de nós. Ela é o sinal de contradição. O Crucificado contempla-nos desde ela: “Quereis vós também abandonar-me?” O dia da renovação dos votos tem que ser sempre um dia de um sério exame pessoal. Fomos consequentes com o que fervorosamente professamos? Vivemos como convém a esposas do Crucificado, do Cordeiro que foi imolado? Nos últimos meses ouvimos a miúdo queixas de que as muitas orações pela paz não surtiram ainda nenhum efeito. Que direito temos nós a ser atendidas? O nosso desejo de paz é, sem dúvida, autêntico e sincero. Mas, nasce de um coração totalmente purificado? Rezamos verdadeiramente “no nome de Jesus”, quer dizer, não só com o nome de Jesus na boca, mas no espírito e no sentir de Jesus, buscando a glória do Pai e não a nossa? No dia em que Deus tenha poder ilimitado sobre o nosso coração, teremos também nós poder ilimitado sobre o seu. Se tivermos isto presente, nunca teremos o valor de condenar a nenhum homem. Contudo, também não devemos desanimar se depois de muito tempo de vida religiosa tivermos que nos dizer a nós mesmas que ainda somos aprendizes e inexperientes. A fonte do coração do Cordeiro não se esgotou. Ainda hoje podemos lavar ali as nossas vestes como um dia o fez o bom ladrão no Gólgota. Confiando na força reparadora dessa sagrada fonte prostramo-nos diante do Trono do Cordeiro e respondemos à sua pergunta: “Senhor, a quem iremos? Só tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6, 68). Deixa-nos tirar àgua das fontes da salvação para nós e para todo este mundo sedento. Concede-nos a graça de poder pronunciar com um coração puro as palavras da esposa: Vem, vem, Senhor Jesus! Vem depressa!

Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein)


[1] N. d. t.: Edite Stein como grande amante da língua latina cita continuamente textos nesta língua. Respeitamos tal uso. Sempre que ela própria não ofereça a tradução, dá-la-emos em nota.
[2] N. d. t.: “Vem, esposa de Cristo”.
[3] N. d. t.: refere-se aqui à Reforma da Ordem do Carmo levada a cabo por Santa Teresa de Jesus: o Carmelo Teresiano.

03 abril, 2013

A missão específica de mulher




A vocação de todo o ser humano é chegar a ser o que Deus quer que cada um seja: pessoa plena, isto é, verdadeiramente realizada, agindo e cuidando da criação para que em tudo e através de tudo se possa ver e experimentar a bondade, a beleza e o amor de Criador. 
  
Homem e Mulher são iguais em direitos, dignidades e obrigações. Um não é superior ao outro. São duas expressões do mesmo ser humano com origem em Deus e que para Ele tendem.

«ser feminino é um modo singular de ser pessoa» que é resultado não só da sua constituição física e biológica mas também da sua constituição anímica e interior.
A vocação geral do ser humano é ser imagem de Deus. Para chegar a realização dessa vocação, cada um, através da sua vocação pessoal, que reside na sua individualidade, expressa-se de modo distinto conforme a sua masculinidade ou feminilidade. É neste sentido que se entende a vocação e a missão específica da mulher.   
   
«Junto com a vocação geral que a mulher possui em comum com todos os homens e a individual própria de cada pessoa, temos a vocação de mulher enquanto tal. Deus criou o homem como varão e mulher dando a cada um modo e determinação próprios: “Não é bom que o homem esteja só”, assim disse depois da criação do primeiro homem dando-lhe a mulher como companheira. Esta primeira determinação acomoda-se ao seu modo de ser: caminhar ao lado do homem, tomar parte com amor na sua vida, com fidelidade e disposta a servir é o característico da feminilidade. Isto implica ter capacidade de empatia para com o outro e as suas necessidade, capacidade e docilidade de adaptação».

 MACHADO, António José Gomes - Edith Stein: Pedagoga e Mística
Braga: Editorial A. O., 2008, p. 70.  Santos para hoje.

Recolha de Fr. Eugénio.


21 março, 2013

Edith Stein: o seu crescimento espiritual


VIVER O ESSENCIAL
Vamos tentar agora aproximar-nos dos elementos essenciais da vida quotidiana do Carmelo e que Edith faz seus. Fazem parte da sua vida diária. E embora não possamos penetrar na sua historicidade, podemos perceber o significado que tem para ela. Ao fim de contas, é nela que se fundamenta a sua vida e vocação no Carmelo.

A oração é elemento essencial do Carmelo, e  da vida de Edith. É razão da sua existência e a sua maneira de servir a Deus: “O nosso horário garante-nos de diálogo a sós com o Senhor, e nelas se fundamenta a nossa vida” (OC V, 564).  Já numa carta escrita nos primeiros meses no Carmelo (11 de Janeiro de 1634), escrevia: “A maioria das Irmãs, quando são chamadas ao locutório, consideram-no uma penitência. É a sempre um passo para um mundo estranho, e fica-se feliz quando se regressa novamente à paz do coro, e assimilar diante do sacrário o que foi encomendado a cada uma. Todos os dias, eu sinto esta paz como um magnífico dom da graça, que não é dado só a mim; e se alguém se aproximar de nós, abatido e cansado podendo levar daqui, alguma paz e consolação, então sinto-me muito feliz” (Ct 1069).
           
Embora a oração mental e contemplativa seja o elemento carismático centrar isso não exclui a participação na liturgia oficial da igreja, que parte integrante da vida carmelita: “O resto gira a volta desta realidade (O diálogo solitário com Deus): Rezamos a liturgia das horas com os sacerdotes e as outras ordens antigas da igreja; e este “ofício Divino ” é para nós como para eles, a nossa primeira e mais sagrada obrigação. Mas para nós esta não é base fundamental. O que Deus opera nas nossas almas durante as horas da oração interior está escondido aos olhos dos homens” (OC v, 564).              

Eucaristia  e o ano litúrgico recebem no ambiente contemplativo e comunitário do Carmelo um sabor especial, que Edith sabe captar e transmitir: “Assim o ano litúrgico é no Carmelo um rosário de lindas festas, celebradas não só no sentido litúrgico, mas também como festas familiares que se vivem numa alegria cordial e estreitam o laço do amor fraterno” (OC V, 71) as grandes celebrações dos mistérios de Cristo, como o Natal e a Páscoa, adquirem um sentido especial. A liturgia não se reduz aos momentos celebrativos, mas impregna o dia interior (cf. Modelo 189 SS.)  

As festas Marianas e Josefinas são celebradas também com grande solenidade no Carmelo. A elas junta – se a outras muito típicas da ordem, que são vividas num ambiente ainda mais familiar: Santo Elias, Santa Teresa de Jesus, São João da Cruz, Santa Teresinha Teresa Margarida Redi…
           
Outras duas festas adquirem um valor particular: a Exaltação da santa Cruz, no dia 14 de Setembro, o dia em que começa o tempo de jejum, e a Epifania  no dia 6 de Janeiro. Em ambas destas fazia-se a renovação comunitária dos votos. Com o passar dos anos, esta festa vai adquirir cada vez maior sentido na vida de Edith pois, em concreto, tem uma relação directa com a sua vocação pessoal.

Em suma, todos estes aspectos são como que o caminho e os meios que vão ajudá-la a viver em plenitude a entrega diária que a sua vocação implica.
           



“Ao que se entrega incondicionalmente ao Senhor, 
o Senhor escolhe como instrumento 
para instaurar o seu Reino ” 
(Edith Stein)


SANCHO FERMÍN,  F. Javier -  100 Fichas sobre "Edit Stein".  Avessadas: Edições Carmelo, 2008, p.  68 

Recolha  de Fr. Eugénio

05 março, 2013

IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS: A vocação do homem a ser imagem de Deus


Edith Stein acentua várias vezes a ideia do homem como imagem e semelhança de Deus. Juntamente com a origem do homem, que define o seu ser de criatura, descobre, além disso, os elementos que constituem a vocação de todo o ser humano: ser imagem de Deus procriar uma posteridade e dominar a terra. A primeira, ser imagem, é a central. As outras duas vêm a ser uma explicitação da primeira. Procuremos ver o sentido de cada um destes elementos:

«Ser imagem de Deus». Este princípio é para Edith o fundamento de uma correcta compreensão do homem. Um dos elementos resultantes desta afirmação é a bondade do homem, cuja única razão de ser radica na sua origem. E embora essa bondade apareça depois corrompida pelo pecado, não desaparece radicalmente. Continua a estar presente, tal como a imagem (cf. OC IV, 568ss.).

Ser imagem significa, além disso, ter em Deus o protótipo do próprio ser. O homem traz em si a imagem do Deus uno e trino (cf. SF 440 SS.). Edith descobre na forma plural do façamos um elemento para poder falar de trindade (ib.366).

Em relação ao versículo será os dois uma só carne (Gn2,24), Edith, para acentuar unidade presente na estrutura do homem enquanto correspondente á imagem do Deus uno, fará o seguinte comentário: «isto quer dizer que a vida dos dois primeiros seres humanos deve ser considerada como a mais íntima comunidade de amor. Ambos colaboram em perfeita harmonia de forças num único ser. Uma perfeita harmonia das potências era o que sucedia no indivíduo antes do pecado; o espírito e o sentido estavam numa relação perfeita sem possibilidade de contraste» (ib.).

Ao longo da vida o homem é chamado a reproduzir em si a imagem de Deus. Este carácter dinâmico, que implicará no homem no esforço especial acompanhado da graça divina, aparece depôs do pecado. Para compreender esta realidade será necessário precisar ainda mais; o sentido da imagem de Deus no homem.                    
      
Um aspecto que aparece tratado de um modo original na interpretação que Edith faz da imagem de Deus no homem, é o princípio segundo o qual o homem tem que «amar-se a si mesmo». Longe de parecer um princípio egocêntrico, manifesta em si mesmo o que é a vida intratrinitária. Por outro lado, ajuda compreender o mandamento do amor numa autêntica chave antropológica: amar o próximo como si mesmo. Justifica, igualmente, o princípio que os místicos evidenciam como central na vida de oração: o conhecimento próprio. Edith exprime-se com estas palavras: «assim o espírito criado que se ama a si mesmo torna-se imagem de Deus. No entanto, para se amar a si mesmo deve conhecer-se a si mesmo. Assim, o conhecimento é gerado pelo amor, enquanto que amor mesmo não é gerado. O verbo que é gerado pelo espírito pelo amor é o conhecimento amado. Quando o espírito se ama e se conhece, o verbo agrega-se a ele pelo amor. O Amor está no verbo, o verbo está no amor e os dois estão naquele que ama e fala. Assim, o espírito, com o conhecimento e o amor de si mesmo é uma imagem de trindade»
(SF 462).

SANCHO FERMÍN,  F. Javier -  100 Fichas sobre "Edit Stein".  Avessadas: Edições Carmelo, 2003, p.  118 

Recolha  de Fr. Eugénio

19 fevereiro, 2013

“Testemunha da verdade”




"Afastada, de momento, a ideia de ser religiosa, Edith pensa em empregar o seu tempo e as suas qualidades em alguma tarefa útil, não apenas científica mas também apostólica. Espira será o seu campo de trabalho. O sacerdote que baptizou apresenta-a ao vigário geral da diocese, Mons. Josef Shwind que desde então o seu conselheiro espiritual e amigo cordial. E a primeira coisa que este sacerdote faz é rejeita-lhe todos os planos prematuros de vida claustral e impor-lhe um longo período de espera no mundo. Ao longo dez anos Edith vai uma e outra vez colocando a questão da sua entrada no convento e ouve sempre a mesma resposta do seu director espiritual: não. E ela aceita com obediência humilde e absoluta. Atendendo ao seu desejo de silêncio e recolhimento, Mons. Schwind encarrega-se de lhe arranjar um trabalho adequado e recomenda-a para a professora de alemão no colégio de santa Maria Madalena, das Irmãs dominicanas.

Habitual a trabalhar com alunos universitário em Friburgo, aqui, de modo, com este discipulado, desce de nível. Mas ela depressa adapta ás novas circunstâncias e sente-se feliz em espira por poder viver dentro de uma atmosfera conventual. Ao longo destes anos, a sua personalidade cristã e católica vai amadurecendo.   Prepara conscienciosamente as suas aulas. Não se limita a instruir, procura educar as aulas, menos com palavras que com o seu testemunho de vida. Em toda a sua maneira de ser -  e não apenas na sala de aulas – revela-se como excelente pedagoga. 

Edith procura esconder-se, para aprofundar a sua vida de fé e viver em felicidade a imitação de Cristo. Mas, quanto mais se esconde, tanto mais radiante aparece aos que com ela tratam a luz interior da sua união com Deus.

«A Doutora Edith Stein dava aula de alemã nos cursos superiores da escola; era uma mulher muito inteligente, piedosa e modesta no seu porte. No convento, ocupava um quarto simples, com muitos livros nas estantes. Ali passávamos nós as mais velhas, algumas belas e interessante veladas literalmente sentadas as seus pés e escudando as suas palavras. Era pequena, mas de aspecto agradável, de rosto um pouco pálido e de risca ao no cabelo. Uma pequena cova no queixo tornava o seu rosto um tanto interessante. O seu porte era geralmente sério e os seus olhos reflectiam frequentemente uma certa tristeza. No entanto, ria – se connosco quando surgia algum motivo razoável. Tínhamos para com ela uma certa veneração, e o seu rosto irradiava algo que comovia e cativava interiormente…como cristã profundamente crente sentia – se muito á vontade e e segura em casas Das dominicanas. Era frequente participar na oração coral das Irmãs. Víamo-lo várias vezes ao dia recolhida em profunda e contemplativa oração, ajoelhada num reclinatório, num canto próximo do altar…»"


"Nenhuma obra espiritual vem ao mundo
sem grandes trabalhos."



VAZ,  Mário -  Edith Stein. Uma síntese dramática do séc. XX.  Paço de Arcos:  Edições Carmelo, 1998, pp. 55-57.

Recolha de Fr. Eugénio

05 fevereiro, 2013

“Testemunha da verdade: A verdade e o amor têm necessidade um do outro” (Edith Stein)


            "Depois da sua conversão e de ter deixado a sua actividade como assistente de Hursserl, Edith iniciou um percurso de intensa actividade como professora, escritora, tradutora, conferencista, filósofa, e pedagoga. Mas toda esta actividade não fazia afastar de uma intensa vida espiritual.

As múltiplas actividades, o estudo e o ensino eram conciliados com uma profunda vida de oração. Na oração e «solidão» do diálogo amoroso com Deus, Edith encontrava a força interior que a fortalecia em todas as acções e no trabalho intelectual.

«O importante é que cada pessoa tenha um cantinho tranquilo, no qual possa relacionar-se com Deus, como se nada existisse, e isto diariamente: o tempo mais oportuno parece-me ser as primeiras horas da manhã, antes de começar o trabalho; é então quando se recebe a missão especial para cada dia, sem escolher nada por si mesma; nesse momento, finalmente, contempla-se a si mesma como um mero instrumento, e as forças com que deve trabalhar […] A minha vida começa de novo cada manhã e termina cada noite; para além disto, não tenho nenhum plano ou propósito […]»

A sua vida espiritual, longe de a fechar num casulo e de a fazer centrar-se sobre si mesma, abria-a para a realidade do Outro e dos outros, numa dimensão comunitária e de solidariedade humana. O intuito era um só: levar o homem a Deus e Deus ao homem. Inicialmente Edith pensava que só na vida religiosa conseguiria este equilíbrio e esta vocação, mas descobriu que no mundo, na sua vida quotidiana, desempenhando a sua profissão, ela podia igualmente viver uma relação intensa com Deus. Bastava ser fiel à oração diária. E é neste equilíbrio das obrigações pessoais e profissionais com a vida espiritual que Edith se revela uma mística, um exemplo de perfeita harmonia entre fé e vida, oração e acção.

«Durante o tempo imediatamente anterior a minha conversão e ainda um bom tempo depois, cheguei a pensar que levar uma vida religiosa significava o abandono de tudo o que era terreno e viver somente no pensamento das coisas divinas. Pouco a pouco compreendi que neste mundo nos é exigida outra coisa e que inclusive na vida mais contemplativa, a ligação com o mundo não se deve romper; creio, inclusivamente, que quanto mais profundamente alguém está mergulhado em Deus, tanto mais deve, neste sentido, “ sair de si mesmo” ou melhor dizendo, entrar no mundo para comunicar – lhe a vida divina».  

Neste espírito, Edith Stein adiou o seu projecto de entrar no Carmelo para desenvolver um trabalho/ apostolado como educadora cristã. Ela estava consciente da importância e da necessidade da sua missão como leiga católica na Igreja e na escola. Neste sentido, ela antecipou-se uma vez mais ao concílio Vaticano II, que veio valorizar a importância a missão do leigo na Igreja no mundo.

A rectidão e simplicidade de vida, a serenidade, bondade e disponibilidade, a amizade e o trato com os outros fazem dela um estandarte duma católica convicta com uma fé forte. Nela não há dicotomia entra a fé e a vida. Fé e a vida interligam – se de tal forma que são uma só. Ela dá testemunho da sua vocação como cristã baptizada. Para isso não precisava de fazer discursos ou dar conferências, bastava o seu testemunho da vida."                              
  


                               “A verdade e o amor têm necessidade um do outro” (Edith Stein)

 MACHADO, António José Gomes - Edith Stein: Pedagoga e Mística
Braga: Editorial A. O., 2008, pp. 147-149.  Santos para hoje.

Recolha de Fr. Eugénio.

30 janeiro, 2013

Santa Teresa Benedita da Cruz (III)


"6. Santa Teresa Benedita da Cruz conseguiu compreender que o amor de Cristo e a liberdade do homem se entretecem, porque o amor e a verdade têm uma relação intrínseca. A busca da verdade e a sua tradução no amor não lhe pareciam ser contrastantes entre si; pelo contrário, compreendeu que estas se interpelam reciprocamente. No nosso tempo, a verdade é com frequência interpretada como a opinião da maioria. Além disso, é difundida a convicção de que se deve usar a verdade também contra o amor, ou vice-versa. Todavia, a verdade e o amor têm necessidade uma do outro. A Irmã Teresa Benedita é testemunha disto. «Mártir por amor», ela deu a vida pelos seus amigos e no amor não se fez superar por ninguém. Ao mesmo tempo, procurou com todo o seu ser a verdade, da qual escrevia: «Nenhuma obra espiritual vem ao mundo sem grandes sofrimentos. Ela desafia sempre o homem inteiro». A Irmã Teresa Benedita da Cruz diz a todos nós: Não aceiteis como verdade nada que seja isento de amor. E não aceiteis como amor nada que seja isento de verdade!


7. Enfim, a nova Santa ensina-nos que o amor a Cristo passa através da dor. Quem ama verdadeiramente, não se detém diante da perspectiva do sofrimento: aceita a comunhão na dor com a pessoa amada. Consciente do que comportava a sua origem judaica, Edith Stein pronunciou palavras eloquentes a este respeito: «Debaixo da cruz, compreendi a sorte do povo de Deus... Efectivamente, hoje conheço muito melhor o que significa ser a esposa do Senhor no sinal da Cruz. Mas dado que se trata de um mistério, isto jamais poderá ser compreendido somente com a razão». Pouco a pouco, o mistério da Cruz impregnou toda a sua vida, até a impelir rumo à oferta suprema. Como esposa na Cruz, a Irmã Teresa Benedita não escreveu apenas páginas profundas sobre a «ciência da cruz», mas percorreu até ao fim o caminho da escola da Cruz. Muitos dos nossos contemporâneos quereriam fazer com que a Cruz se calasse. Mas nada é mais eloquente que a Cruz que se quer silenciar! A verdadeira mensagem da dor é uma lição de amor. O amor torna o sofrimento fecundo e este aprofunda aquele. Através da experiência da Cruz, Edith Stein pôde abrir um caminho rumo a um novo encontro com o Deus de Abraão, Isaac e Jacob, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. A fé e a cruz revelaram-se-lhe inseparáveis. Amadurecida na escola da Cruz, ela descobriu as raízes às quais estava ligada a árvore da própria vida. Compreendeu que lhe era muito importante «ser filha do povo eleito e pertencer a Cristo não só espiritualmente, mas inclusive mediante um vínculo sanguíneo».


8. «Deus é espírito e aqueles que O adoram devem adorá-Lo em espírito e verdade» (Jo 4, 24). Caríssimos Irmãos e Irmãs, com estas palavras o divino Mestre entretém-se com a Samaritana junto do poço de Jacob. Quanto Ele deu à sua ocasional mas atenta interlocutora, encontramo-lo presente também na vida de Edith Stein, na sua «subida ao Monte Carmelo ». A profundidade do mistério divino tornou-se-lhe perceptível no silêncio da contemplação. Ao longo da sua existência, enquanto amadurecia no conhecimento de Deus adorando-O em espírito e verdade, ela experimentava cada vez mais claramente a sua específica vocação de subir à cruz juntamente com Cristo, de abraçá-la com serenidade e confiança, de amá-la seguindo as pegadas do seu dilecto Esposo: hoje, Santa Teresa Benedita da Cruz é-nos indicada como modelo em que nos devemos inspirar e como protectora à qual havemos de recorrer. Dêmos graças a Deus por este dom. A nova Santa seja para nós um exemplo do nosso compromisso no serviço da liberdade e na nossa busca da verdade. O seu testemunho sirva para tornar cada vez mais sólida a ponte da recíproca compreensão entre judeus e cristãos. Santa Teresa Benedita da Cruz, ora por nós! Amém"

                                                                         João Paulo II,  In Homilia na canonização de Edith Stein

29 janeiro, 2013

Santa Teresa Benedita da Cruz (II)


"4. Dilectos Irmãos e Irmãs! Porque era judia, Edith Stein foi deportada juntamente com a irmã Rosa e muitos outros judeus dos Países Baixos para o campo de concentração de Auschwitz, onde com eles encontrou a morte nas câmaras de gás. Hoje recordamo-nos de todos com profundo respeito. Poucos dias antes da sua deportação, a quem lhe oferecia uma possibilidade de salvar a vida, a religiosa respondera: «Não o façais! Por que deveria eu ser excluída? A justiça não consiste acaso no facto de eu não obter vantagem do meu baptismo? Se não posso compartilhar a sorte dos meus irmãos e irmãs, num certo sentido a minha vida é destruída».


Doravante, ao celebrarmos a memória da nova Santa, não poderemos deixar de recordar todos os anos também o Shoah, aquele atroz plano de eliminação de um povo, que custou a vida a milhões de irmãos e irmãs judeus. O Senhor faça brilhar o seu rosto sobre eles, concedendo-lhes a paz (cf.Nm 6, 25s.).

Por amor de Deus e do homem, lanço de novo um premente brado: nunca mais se repita uma semelhante iniciativa criminosa para nenhum grupo étnico, povo e raça, em qualquer recanto da terra! É um brado que dirijo a todos os homens e mulheres de boa vontade; a todos aqueles que crêem no Deus eterno e justo; a todos aqueles que se sentem unidos em Cristo, Verbo de Deus encarnado. Aqui, todos nós devemos ser solidários: é a dignidade humana que está em jogo. Só existe uma única família humana. É isto que a nova Santa afirmou com grande insistência: «O nosso amor pelo próximo - escrevia - é a medida do nosso amor a Deus. Para os cristãos - e não só para eles - ninguém é "estrangeiro". O amor de Cristo não conhece fronteiras».

5. Estimados Irmãos e Irmãs! O amor de Cristo foi o fogo que ardeu a vida de Teresa Benedita da Cruz. Antes ainda de se dar conta, ela foi completamente arrebatada por ele. No início, o seu ideal foi a liberdade. Durante muito tempo, Edith Stein viveu a experiência da busca. A sua mente não se cansou de investigar e o seu coração de esperar. Percorreu o árduo caminho da filosofia com ardor apaixonado e no fim foi premiada: conquistou a verdade; antes, foi por ela conquistada. De facto, descobriu que a verdade tinha um nome: Jesus Cristo, e a partir daquele momento o Verbo encarnado foi tudo para ela. Olhando como Carmelita para este período da sua vida, escreveu a uma Beneditina: «Quem procura a verdade, consciente ou inconscientemente, procura a Deus».

Embora sua mãe a tenha educado na religião hebraica, aos 14 anos de idade Edith Stein, «consciente e propositadamente desacostumou-se da oração». Só queria contar consigo mesma, preocupada em afirmar a própria liberdade nas opções de vida. No fim do longo caminho, foi-lhe dado chegar a uma surpreendente conclusão: só quem se une ao amor de Cristo se torna verdadeiramente livre.


A experiência desta mulher, que enfrentou os desafios de um século atormentado como o nosso, é para nós exemplar: o mundo moderno ostenta a porta atraente do permissivismo, ignorando a porta estreita do discernimento e da renúncia. Dirijo-me especialmente a vós, jovens cristãos, em particular aos numerosos ministrantes reunidos em Roma nestes dias: evitai conceber a vossa vida como uma porta aberta a todas as opções! Escutai a voz do vosso coração! Não permaneçais na superfície, mas ide até ao fundo das coisas! E quando chegar o momento, tende a coragem de vos decidirdes! O Senhor espera que coloqueis a vossa liberdade nas suas mãos misericordiosas."

                                                                         João Paulo II,  In Homilia na canonização de Edith Stein

28 janeiro, 2013

Santa Teresa Benedita da Cruz (I)


"1. Quanto a mim, que eu não me glorie, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo (cf.Gl 6, 14).

As palavras de São Paulo aos Gálatas, que acabámos de escutar, adaptam-se bem à experiência humana e espiritual de Teresa Benedita da Cruz, que hoje é solenemente inscrita no álbum dos santos. Também ela pode repetir com o Apóstolo: Quanto a mim, que eu não me glorie, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo.

A cruz de Cristo! No seu constante florescimento, a árvore da Cruz dá sempre renovados frutos de salvação. Por isso, os fiéis olham com confiança para a Cruz, haurindo do seu mistério de amor a coragem e o vigor para caminhar com fidelidade nas pegadas de Cristo crucificado e ressuscitado. Assim, a mensagem da Cruz entrou no coração de muitos homens e mulheres, transformando a sua existência.

Um exemplo eloquente desta extraordinária renovação interior é a vicissitude espiritual de Edith Stein. Uma jovem em busca da verdade, graças ao trabalho silencioso da graça divina, tornou-se santa e mártir: é Teresa Benedita da Cruz, que hoje repete do céu a todos nós as palavras que caracterizaram a sua existência: «Quanto a mim, que eu não me glorie, a não ser na cruz de Jesus Cristo».

2. No dia 1 de Maio de 1987, durante a minha visita pastoral na Alemanha, tive a alegria de proclamar Beata, na cidade de Colónia, esta generosa testemunha da fé. Hoje, a onze anos de distância aqui em Roma, na Praça de São Pedro, é-me dado apresentar solenemente esta eminente filha de Israel e filha fiel da Igreja como Santa perante o mundo inteiro.

Assim como nessa data, também hoje nos inclinamos diante da memória de Edith Stein, proclamando o testemunho invicto que ela deu durante a vida e sobretudo com a morte. Ao lado de Teresa de Ávila e de Teresa de Lisieux, esta outra Teresa vai colocar-se no meio da plêiade de santos e santas que honram a Ordem carmelitana.

Caríssimos Irmãos e Irmãs, que vos congregastes para esta solene celebração, dêmos glória a Deus pela obra que realizou em Edith Stein.

3. Saúdo os numerosos peregrinos vindos a Roma, com um particular pensamento para os membros da família Stein, que quiseram estar connosco nesta feliz circunstância. Uma cordial saudação dirige-se também à representação da Comunidade carmelitana, que se tornou a «segunda família» para Teresa Benedita de Cruz.

Depois, dou as minhas boas-vindas à delegação oficial da República Federal da Alemanha, chefiada pelo Chanceler Federal resignatário, Helmut Kohl, a quem saúdo com deferente cordialidade. Além disso, cumprimento os representantes das regiões de Nordrhein-Westfalen e Rheinland-Pfalz, bem como o Primeiro Presidente da Câmara Municipal de Colónia. Inclusivamente da minha Pátria veio uma delegação oficial, guiada pelo Primeiro-Ministro Jerzy Buzek.


Dirijo-lhe uma cordial saudação. Depois, quero reservar uma especial menção aos peregrinos das dioceses de Vratislávia, Colónia, Monastério, Espira, Cracóvia e Bielsko-Žywiec, presentes com os seus Bispos e sacerdotes. Eles unem-se ao numeroso grupo de fiéis vindos da Alemanha, dos Estados Unidos da América e da minha Pátria, a Polónia."