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29 março, 2014

Nos 499 anos do nascimento de Santa Teresa: os primeiros acordes de festa

E já se começam a ouvir os primeiros acordes de festa!

Ontem, em "La Santa" (casa onde nasceu Santa Teresa, convertida em Convento dos Carmelitas, inaugurado em 1636), foi apresentado o Hino Oficial do V Centenário do Nascimento de Santa Teresa e o Presidente da Conferência Episcopal Espanhola, Mons. Ricardo Blázquez, celebrou, em acção de graças, a Santa Missa no mesmo convento.

O presidente do episcopado espanhol convidou-nos a penetrar no imenso magistério de Santa Teresa, olhando-a como exemplo para a nova evangelização e lendo os seus escritos "Livro da Vida" e "Fundações" em paralelo com a Exortação do Papa Francisco "A Alegria do Evangelho".


Por sua vez, o Hino é uma suma bem conseguida de quem foi e é Santa Teresa para os Carmelitas e para a Igreja. Com letra de Carlos Aganzo e música de Francisco Palazón, o hino aborda a figura de Santa Teresa desde 4 perspectivas diferentes: na primeira estrofe, a sua ligação a Ávila e o seu magistério oracional na imagem do Castelo Interior; depois, é apresentada a sua actividade fundadora; em terceiro lugar, a sua vida e qualidades como escritora; por fim, uma belíssima invocação de Teresa como Doutora da Igreja, Doutora Mística.

Saibamos nós juntar-nos a esta corrente de festa e acção de graças, proclamando as maravilhas de Deus em cada ser humano e, especialmente, em Teresa de Jesus, de Ávila, da Igreja, do Mundo e para o Mundo. A ela, na comunhão dos santos, pedimos:

Teresa de Jesús, doctora de la Iglesia,
maestra de la luz, centella del amor,
enséñanos la senda por la que caminaste
con alma enamorada, buscando en ti al Señor.

Teresa de Jesus, doutora da Igreja,
mestra da luz, centelha do amor,
ensina-nos a senda pela qual caminhaste
com alma enamorada, buscando em ti o Senhor.



Links:

-Gravação do Hino pelo Coro Gregoriano de "La Santa", ontem na Missa de celebração dos 499 anos de Santa Teresa:



-Gravação do Hino pelo Coro Gregoriano de "La Santa" (uma outra  gravação da mesma música, mas com mais qualidade auditiva):



- Letra do Hino.

- Download da música

29 janeiro, 2014

Oh formosura que excedeis!



Formosura que excedeis
mesmo as grandes formosuras!
Sem ferir, sofrer fazeis,
e sem sofrer desfazeis
o amor das criaturas.


Oh, laço que assim juntais
duas coisas díspares!,
não sei porquê vos soltais,
pois atando força dais
pra ter por bem os pesares.



Quem não tem ser vós juntais
com o Ser que não se acaba;
sem acabar, acabais,
e sem ter que amar amais,
engradeceis o nosso nada.


Santa Teresa de Jesus


09 dezembro, 2013

Morro porque não morro!



Vivo sem viver em mim
E de tal maneira espero
Que morro porque não morro

1. Em mim eu não vivo já,
E sem Deus viver não posso;
Pois sem Ele e sem mim quedo,
Este viver que será?
Mil mortes se me fará,
Pois minha mesma vida espero,
Morrendo porque não morro.

2. Esta vida que aqui vivo
É privação de viver;
E assim, é contínuo morrer
Até que viva contigo.
Ouve, meu Deus, o que digo,
Que esta vida não a quero
Pois morro porque não morro.

3. Ausente estando eu de ti,
Que vida poderei ter
Senão morte padecer,
A maior que jamais vi?
Pena e dó tenho de mim,
Pois se assim eu persevero,
Morrerei porque não morro.

4. O peixe que da água sai
Nenhum alívio carece
Que na morte que padece,
Afinal a morte lhe vale.
Que morte haverá que se iguale
Ao meu viver lastimoso,
Pois se mais vivo, mais morro?

5. Quando penso aliviar-me
Vendo-te no Sacramento,
Faz-me em mim mais sentimento
De não poder-te gozar;
Tudo é para mais penar,
Por não ver-te como quero,
E morro porque não morro.

6. Se me deleito, Senhor,
Com a esperança de ver-te,
Vendo que posso perder-te
Redobra-se em mim a dor;
Vivendo em tanto temor
E esperando como espero,
Morro sim, porque não morro.

7. Livra-me já desta morte,
Meu Deus, entrega-me a vida;
Não ma tenhas impedida
Por este laço tão forte;
Olha que peno por ver-te,
O meu mal é tão inteiro,
Que morro porque não morro.

8. Chorarei já minha morte
Lamentarei minha vida,
Enquanto presa e retida
Por meus pecados está.
Oh! Meu Deus! Quando será
Que eu possa dizer deveras:
Vivo já porque não morro?

Santa Teresa de Jesus

04 dezembro, 2013

Exclamações da alma a Deus



1        Ó Deus e minha Sabedoria infinita, sem taxa nem medida e sobre todos os entendimentos angélicos e humanos! Ó amor, que me amas mais do que eu me posso amar, nem entendo! Para que quero eu, Senhor, desejar mais do que o que Vós me quiserdes dar? Para que me quero cansar a pedir-Vos coisa ordenada por meu desejo, pois tudo quanto o meu entendi­mento pode concertar e meu desejo desejar, tendes Vós já entendido seus fins, e eu não entendo como disso me aproveitar? Naquilo em que minha alma pensa sair com lucro, estará porventura a minha perdição. Porque, se Vos peço para me livrardes dum trabalho, e o fim dele é a minha morti­ficação, que é que Vos peço, Deus meu? Se Vos suplico que mo envieis, não convirá porventura à minha paciência, que ainda é fraca e não pode sofrer tão grande golpe. E se o passo com paciência, e não estou forte na humildade, poderá ser que pense que fiz alguma coisa, e Vós é que fizestes tudo, meu Deus. Se quero padecer mais, não o quereria, no entanto, em coisas em que parece não convir para Vosso serviço perder o crédito, visto que por mim, não me veja com sentimentos de apego à honra; e poderá ser que, pela mesma causa em que penso se há-de perder, se ganhe mais para aquilo que pretendo que é servir-Vos.
2             Muitas mais coisas pudera eu dizer disto, Senhor, para dar a entender a mim mesma que não me entendo. Mas como sei que as entendeis, para que falo? Para que quando veja despertar a minha miséria, Deus meu, e cega a minha razão, possa ver se a encontro aqui, neste escrito de minha mão. Que muitas vezes me vejo, Deus meu, tão miserável e fraca e pusilâ­nime, que ando à procura do que se fez da Vossa serva, daquela a quem já lhe parecia ter recebido bastantes mercês Vossas, para poder pelejar contra as tempestades deste mundo. Não, meu Deus, não; não mais confiança em coisa que eu possa querer para mim! Querei de mim, Senhor, o que bem quiserdes: isso quero eu, pois todo o meu bem está em contentar-Vos. E se vós, Deus meu, me quisésseis contentar a mim, cumprindo tudo o que pede o meu desejo, vejo que iria perdida.
3.        Que miserável é a sabedoria dos mortais e incerta a sua providência! Provede Vós pela Vossa os meios necessários para que a minha alma Vos sirva mais a Vosso gosto do que ao seu. Não me castigueis com dar-me o que eu quero ou desejo, se o Vosso Amor – que em mim ele viva sempre! – não o desejar! Morra já este eu, e viva em mim Outro que é mais do que eu, e para mim melhor do que eu mesma, para que eu O possa servir! Que Ele viva e me dê vida! Que Ele reine e seja eu Sua escrava! Minha alma não quer outra liberdade. Como está livre aquele que estiver alheio do Sumo Bem? Que maior e mais miserável cativeiro do que a alma estar solta da mão do Seu Criador? Ditosos aqueles que, com os fortes grilhões e cadeias dos benefícios da misericórdia de Deus, se virem presos e inabilitados para se poderem libertar. Forte como a morte é o amor e duro como o inferno.
Oh! Quem se visse já morto às suas mãos e arrojado neste divino inferno, de onde já não esperasse poder sair, ou, para melhor dizer, não temesse de se ver fora! Mas, ai de mim, Senhor, pois enquanto dura esta vida mortal, sempre corre perigo a eterna!
   4.    Ó vida inimiga de meu bem; quem tivesse licença para acabar con­tigo! Sofro-te, porque Deus te sofre, e mantenho-te porque és d’Ele! Mas não me sejas traidora nem desagradecida.
                Com tudo isto, ai de mim, Senhor, que é longo o meu desterro! Breve todo o tempo para o dar pela vossa eternidade; muito longo é um só dia e uma hora para quem não sabe e teme se Vos virá a ofender! Ó livre alvedrio, tão escravo de tua liberdade se não vives cravado com o temor e o amor de Quem te criou! Oh! Quando será aquele ditoso dia em que te hás-de ver afogado naquele mar infinito de suma Verdade, onde já não serás livre para pecar, nem o quererás ser, porque estarás seguro de toda a miséria, natura­lizado com a vida de teu Deus!
 5.      Ele é bem-aventurado porque Se conhece e ama e goza de Si mesmo, sem ser possível outra coisa; não tem, nem pode ter, nem fora perfeição em Deus poder ter liberdade para olvidar-se de Si mesmo e deixar de Se amar. Então, alma minha, entrarás em teu descanso, quando te entranhares neste Sumo Bem, entenderes o que ele entende, amares o que Ele ama e gozares o que ele goza. Assim que vires perdida a tua mutável vontade, então não mais, não mais mudança! A graça de Deus pôde tanto, que te fez partici­pante de Sua divina natureza; e com tanta perfeição, que já não possas nem desejes poder-te esquecer do Sumo Bem, nem deixar de O gozar, juntamente com o Seu amor. 
6. Bem-aventurados os que estão inscritos no livro desta Vida!  Mas tu, alma minha, se o estás, porque estás triste e me conturbas? Espera em Deus que ainda agora confessarei a Ele os meus pecados e as Suas mise­ricórdias, e, de tudo junto, farei um cântico de louvor com suspiros perpétuos ao meu Salvador e meu Deus. Poderá ser que venha algum dia em que Lhe cante a minha glória e não seja compungida minha consciência, onde já cessaram todos os suspiros e medos. Mas, entretanto, na esperança e no silêncio estará a minha fortaleza. Mais quero viver e morrer a pretender e esperar a vida eterna, que possuir todas as criaturas e todos os seus bens que hão-de acabar. Não me desampares, Senhor, porque em Ti espero; não seja confundida a minha esperança. Sirva-Te eu sempre e faz de mim o que quiseres.

Santa Teresa de Jesus (Exclamações XVII)

03 dezembro, 2013

Exclamações da alma a Deus



1. Parece, Senhor meu, que descansa a minha alma considerando o gozo que terá, se, por Vossa misericórdia, lhe for concedido gozar de Vós. Mas quereria primeiro servir-Vos, pois há-de gozar do que Vós, servindo-a a ela, lhe ganhastes. Que farei, Senhor meu? Que farei, meu Deus? Oh! Que tarde se incendiaram meus desejos, e que cedo andáveis Vós, Senhor,1 granjeando e chamando para que toda eu me empregasse em Vós! Por­ventura, Senhor, desamparais ao miserável ou apartais o pobre mendigo quando ele se quer chegar a Vós? Porventura, Senhor, têm termo as Vossas grandezas ou vossas magníficas obras? Ó Deus meu e misericórdia minha! E como as podereis agora mostrar em vossa serva! Poderoso sois, grande Deus; agora poder-se-á entender se minha alma se entende a si mesma vendo o tempo que perdeu, e como num instante Vós podeis, Senhor, fazer com que o torne a ganhar. Parece-me que desatino; é que o tempo perdido
– como costumam dizer – não se pode tornar a recuperar. Bendito seja o meu Deus!
2. Ó Senhor! Confesso Vosso grande poder. Se sois poderoso, como sois, que há de impossível ao que tudo pode? Querei Vós, Senhor meu, querei! Ainda que seja miserável, creio firmemente que podeis o que quereis, e quanto maiores maravilhas ouço de Vós e considero que podeis fazer ainda mais, mais se fortalece a minha fé e com maior determinação creio que Vós fareis o que Vos peço. E que há para se admirar do que faz o Todo­-Poderoso? Vós bem sabeis, meu Deus, que no meio de todas as minhas misérias nunca deixei de conhecer Vosso grande poder e misericórdia. Valha-me, Senhor, isto em que Vos não ofendi.
Recuperai, Deus meu, o tempo perdido dando-me graça no presente e no porvir, para que apareça diante de Vós com vestes de bodas, pois, se quiserdes, podeis.

Santa Teresa de Jesus (Exclamações IV)

02 dezembro, 2013

Relações


1             Oh! Quem pudesse dar bem a entender a V. Senhoria a quietude e sossego em que se encontra a alma! É já tanta a certeza de que há-de gozar de Deus, que parece já goza a alma da posse que se lhe há dado, embora não tenha o gozo. É como se alguém houvesse dado a outro uma grande renda. E, por meio de escrituras muito firmes, para a gozar daí a certo tempo e colher frutos; mas até então não goza senão da certeza que já lhe deram, de que gozará esta renda. E, com o reconhecimento que lhe fica, nem a quereria gozar, porque lhe parece que não a mereceu, senão somente servir, ainda que esteja padecendo muito; e até, algumas vezes, parece que daqui até ao fim do mundo seria pouco para servir a Quem lhe deu esta posse. É que, na verdade, já em parte não está sujeita às misérias do mundo como costumava; porque, embora sofra mais, dir-se-ia tão somente to­carem-lhe na roupa. A alma está como num castelo, com senhorio, e assim não perde a paz, ainda que esta segurança não lhe tire um grande temor de ofender a Deus e não a faça deixar tudo o que possa impedi-la de O servir, e assim anda com mais cuidado ainda. Mas vive tão olvidada de seu próprio proveito, que lhe parece ter em parte perdido o ser, tão esquecida anda de si mesma. Em tudo tem em vista o que é de honra de Deus, o cumprir melhor a Sua vontade e que Ele seja glorificado.

2             Conquanto isto seja assim, no que toca à sua saúde e corpo, pare­ce-me ter maior cuidado e menos mortificação no comer e, no fazer penitência, não são os desejos que tinha. Mas, ao que parece, tudo vai ordenado a fim de poder servir mais a Deus em outras coisas e muitas vezes Lhe oferece como um grande sacrifício o ter de cuidar do corpo, pois muito lhe custa. E algumas vezes põe-se à prova em alguma penitência, mas, e sem dúvida a seu parecer, não a pode fazer sem dano da sua saúde, e lem­bra-se do que seus prelados lhe mandam. Isto no desejo que tem de ter saúde, também se deve intrometer bastante amor próprio. Mas, a meu pa­recer, entendo que me daria muito mais gosto poder fazer penitência, como me dava quando fazia muita; porque ao menos parecia-me fazer alguma coisa e dar bom exemplo e vivia sem este tormento que causa o não servir a Deus em nada. Veja V. Senhoria o que será melhor fazer quanto a isto.
3             Isto das visões imaginárias cessou; mas parece que sempre se anda com esta visão intelectual destas três Pessoas e da Humanidade, que é, ao que penso, graça muito mais subida. E agora entendo, segundo julgo, que eram de Deus as que tenho tido, porque dispunham a alma para o estado em que agora está. Mas, como tão miserável e de tão pouca fortaleza, levava-a Deus como via que era preciso; a meu parecer, são muito de apreciar quando são de Deus.
4             As falas interiores não cessaram, pois, quando é mister, dá-me Nosso Senhor alguns avisos e, ainda agora em Palência, ter-se-ia feito um bom disparate, embora não de pecado, se não fora isto.27
5             Os actos e os desejos não parece que levam a força que costumavam, pois, ainda que sejam grandes, é maior a força que tem o desejo de que se faça a vontade de Deus e de quanto seja de Sua glória; ora, como a alma está bem convencida de que Sua Majestade sabe o que para isto convém e está apartada de todo o interesse próprio, acabam-se-lhe depressa esses outros desejos e actos; e, em meu parecer, não têm em si força. Daqui procede o medo que trago em mim, algumas vezes, embora não com a inquietude e pena que costumava, de que esteja a alma apalermada e eu sem fazer nada, porque penitência não posso fazer. Desejos de padecer e de martírio e de ver a Deus, não têm força e o mais ordinário é não poder. Parece que vivo só para comer e dormir e não ter pena de nada, e até isto de não ter pena, não ma dá, como digo, que temo seja engano. Mas não o posso crer porque, sem dúvida alguma, me parece não reina em mim, com força, apego a nenhuma criatura nem a toda a glória do Céu, mas só o amar a este Deus, que isto não sofre diminuição, antes, a meu parecer, cresce, bem como o desejo que todos O sirvam.
6             Mas com isto me espanta uma coisa: é que aqueles sentimentos tão excessivos e interiores que me costumavam atormentar ao ver as almas perderem-se e, ao pensar se faria alguma ofensa a Deus, tão pouco os posso sentir agora desse modo, ainda que, a meu parecer, não é menor o desejo de que não seja ofendido.
7             Há-de advertir V. Senhoria que em tudo isto, quer no que agora tenho, quer no passado, não hei podido mais, nem está em minha mão; servir mais, isto sim; poderia se não fosse tão ruim. Mas digo que, se eu agora, com grande cuidado, procurasse desejar morrer, não poderia nem fazer osactos como costumava, sem sentir as penas pelas ofensas de Deus, nem tão pouco os temores tão grandes que trouxe em mim tantos anos, pois me parecia andar enganada. E assim, agora já não preciso de andar a consultar letrados nem de dizer nada a ninguém: é só assegurar-me se vou bem e se posso fazer alguma coisa. E isto tenho tratado com alguns com quem havia tratado o demais, que é o Frei Domingo e o Mestre Medina e uns da Com­panhia. Com o que V. Senhoria agora me disser, acabarei de me assegurar pelo grande crédito em que o tenho. Olhe muito a isto, por amor de Deus.
Também não me foi tirado o entender que estão no Céu algumas almas dos que morrem, das que me tocam de perto; outras, não.
8             A soledade me faz pensar que não se pode dar aquele sentido a: «o que se amamenta aos peitos de minha mãe».29 A ida para o Egipto...
9             A paz interior e a pouca força que têm contentos e descontentos para tirarem de modo durável esta Presença, tão sem se poder duvidar das Três Pessoas, em que claramente nos parece que se experimenta o que diz São João: «que faria a sua morada na alma»,30 e isto, não só por graça, mas dando a sentir esta presença que traz consigo tantos bens que nem se po­dem declarar, é de tal maneira que não se precisa de andar a buscar consi­derações para se conhecer que está ali Deus.

E isto é quase ordinariamente, a não ser quando a muita enfermidade acabrunha; que, algumas vezes, parece querer Deus que se padeça sem consolação interior, mas nunca, nem por primeiro movimento, torce a vontade sequer um só ponto de que se faça nela a de Deus.
Tem tanta força este render-se à vontade divina que não se quer nem a morte nem a vida; a não ser, por pouco tempo, quando deseja ver a Deus. Mas logo se lhe representa com tanta força ter presentes estas três Pessoas, que com isto se remedeia a pena desta ausência e fica o desejo de viver, se Ele assim quer, para mais O servir e, se pudesse, contribuir para que, por seu intermédio, sequer ao menos uma alma O amasse mais e O louvasse. Pois ainda mesmo por pouco tempo, isto parece importar mais do que estar na glória.
Teresa de Jesus (R 6)

01 dezembro, 2013

As graças de Deus



Não digo que estas vozes e chamamentos sejam como outros que direi depois, mas são com palavras que se ouvem a gente boa, ou sermões ou com o que se lê em bons livros e outras muitas coisas que tendes ouvido, com as quais Deus chama; ou enfermidades, trabalhos e também com uma ou outra verdade que Ele ensina naqueles instantes em que estamos em oração que, seja quão frouxamente quiserdes, os tem Deus em muito. E vós, irmãs, não tenhais em pouco esta primeira mercê, nem vos desconsoleis, ainda mesmo que não respondais logo ao Senhor. Bem sabe Sua Majestade aguardar muitos dias e anos, em especial quando vê perseverança e bons desejos. Esta perseverança é aqui o mais necessário, porque com ela jamais se deixa de ganhar muito.
Santa Teresa de Jesus (2M 3)

Oração

Deus vivo,
Tu sabes o quão pesado está o meu coração
E quão apertado está o meu peito.
Estou completamente à deriva.
Ajuda-me, meu Deus.
Acredito que as Tuas intenções para comigo são boas,
Que respondes a tudo o que eu preciso,
E que levarás para o bem tudo o que me diz respeito.
Não permitas
Que o medo me domine.
A Ti entrego este dia
E toda a minha vida.
Conduz-me como quiseres
E como for para mim melhor.
Viva eu ou morra eu,
Sou tua e tu comigo estás, meu Deus. Amen.
(Dorte Schromges)

30 novembro, 2013

Relações



Passei todo o dia de ontem numa grande soledade. Assim, a não ser quando comunguei, não fez em mim nenhum efeito ser dia da Ressurreição. Ontem, à noite, estando com todas, cantaram umas coplas, dizendo como o viver sem Deus era custoso de sofrer. Como estava já com mágoa, foi tanta a operação que em mim fizeram, que as mãos se me começaram a entorpecer, e não houve resistência possível.  Pois, assim como saio de mim pelos arroubamentos de gozo, da mesma maneira a alma suspende-se pela grandíssima pena, ficando alheada. Até hoje eu não tinha ainda compreendido isto. Até a alguns dias a esta parte, parecia-me não ter tão grandes ímpetos como costumava. Agora parece-me que a causa é isto que tenho dito, eu nem sei se pode ser, pois dantes a pena não chegava a fazer-me sair de mim e, como é tão intolerável e eu estava em meus sentidos, fazia-me dar grandes gritos sem eu o poder evitar. Agora, como tem crescido, chegou a termos deste trespassamento e entendo melhor o que Nossa Senhora teve, porque até hoje, como digo, não o tenho enten­dido. Ficou tão quebrantado o corpo que, ainda hoje, escrevo isto com bastante custo, pois ficam como desconjuntadas as mãos e com dor.

 Dir-me-á, V. Mercê, quando me vier ver, se pode haver este alhea­mento causado por pena e se o que sinto é tal como é, ou se me engano.

 Até esta manhã estive com esta pena e, estando em oração, tive um grande arroubamento: Parecia-me que Nosso Senhor me tinha levado o espírito até junto de Seu Pai e Lhe dizia: «Esta, que Me deste, Eu Te dou», e que me chegava a Si. Isto não é coisa imaginária, mas com uma grande certeza e uma delicadeza tão espiritual, que de todo não se sabe dizer. Disse-me algumas palavras que não me recordo; de mercê eram algumas. Durou algum tempo o ter-me junto de Si.

Como V. Mercê se foi ontem embora tão depressa, não ficando nem sequer o necessário para eu me poder consolar – pois bem vejo as muitas ocupações que tem e como são mais necessárias – fiquei, durante um bocado, com pena e tristeza. Como eu já sentia a soledade de que falei, ela ajudou a isso; e, como não me parece estar apegada a criatura alguma da terra, deu-me certo escrúpulo, temendo não começasse eu a perder esta liberdade. Isto foi ontem à noite. E, hoje, Nosso Senhor respondeu-me e disse-me que não me maravilhasse: que, assim como os mortais desejam companhia para comunicar seus contentamentos sensíveis, assim a alma deseja – quando há quem a entenda – comunicar os seus gozos e penas e se entristece por não ter com quem. Disse-me: «Ele, agora, vai bem e agradam-Me as suas obras».

Como Ele esteve algum tempo comigo, recordei-me de ter dito a V. Mercê que passavam depressa estas visões. Disse-me então o Senhor que havia diferença entre estas e as imaginárias e que não podia haver regra certa nas mercês que nos fazia, porque umas vezes convinha de uma maneira e outras de outra!

Depois de comungar, parece-me clarissimamente, assentou-se junto de mim Nosso Senhor e começou a regalar-me com grandes consolações. Disse-me entre outras coisas: «Aqui me vês, filha, pois sou Eu; mostra tuas mãos». Parecia-me que me pegava nelas e as chegava a Seu lado; disse: «Olha as Minhas chagas; não estás sem Mim. A brevidade da vida passa».
Por certas coisas que me disse, entendi que, depois que subiu ao Céu, nunca baixou à terra, a não ser no Santíssimo Sacramento, a comunicar com alguém.

Disse-me que, em ressuscitando, fora ver Nossa Senhora, que tinha já grande necessidade, pois a pena a tinha tão absorta e trespassada, que não tornou logo a si para gozar daquele gozo e tinha estado muito tempo com Ela, o que havia sido preciso, até a consolar.  Por isso entendi esse outro trespassamento que sofro, mas quão diferente. Qual não devia ser o da Virgem!

Santa Teresa R 15, Fevereiro de 1571, Salmanca

29 novembro, 2013

Como é a nossa alma?


  
Imagine-se o principiante a começar a plantar um horto em terra muito infrutífera e com muitas más ervas a fim de que nele o Senhor se possa deleitar. Sua Majestade arranca as ervas más e vai plantando as boas. Vamos supor que isso já está feito quando uma alma se determina a ter oração e começa a exercitar-se nela. Como bons hortelãos, e com a ajuda de Deus, devemos procurar que estas plantas cresçam, cuidando de as regar a fim de que não morram e venham a dar flores que exalem um forte odor, capaz de satisfazer a este nosso Senhor. Assim, Ele virá muitas vezes a este horto para se deleitar e recrear no meio destas virtudes.
         Vejamos, agora, a maneira de o regar, a fim de saber o que temos a fazer e o trabalho que nos vai custar, se o lucro dá para o trabalho, e por quanto tempo há-de durar.
A mim, parece-me que se pode regar de quatro maneiras: tirar a água de um poço à custa de muito esforço pessoal; tirá-la com uma nora de alcatruzes, puxada por um torno (assim a tirei algumas vezes): dá menos trabalho do que a primeira e tira-se mais água; trazê-la de um rio ou ribeiro: rega-se muito melhor, a terra fica mais empapada de água, não é preciso regar tantas vezes, o hortelão tem muito menos trabalho; a muita chuva com que o Senhor o rega sem trabalho algum da nossa parte e incomparavelmente muito melhor do que tudo quanto ficou dito.
(Santa Teresa V 11, 6-7)




19 março, 2013

São José






«Tomei por advogado e senhor 
ao glorioso São José 
e encomendei-me muito a ele. 
Vi claramente que, 
tanto desta necessidade 
como de outras maiores 
de honra e perda de alma, 
este Pai e Senhor meu me tirou 
com maior bem do que eu lhe sabia pedir. 
Não me recordo até agora 
de lhe ter suplicado coisa 
que tenha deixado de fazer.»

Santa Teresa de Jesus, Vida 6,3

23 janeiro, 2013

Catequese sobre Santa Teresa (III)




«Depois, a santa realça como a oração é essencial; orar, diz, «significa frequentar com amizade, porque frequentamos face a face Aquele que sabemos que nos ama» (Vida 8, 5). A ideia de santa Teresa coincide com a definição que s. Tomás de Aquino dá da caridade teologal, como «amicitia quaedam hominis ad Deum», um tipo de amizade do homem com Deus, que foi o primeiro a oferecer a sua amizade ao homem; a iniciativa vem de Deus (cf. Summa Theologiae II-II, 23, 1). A oração é vida e desenvolve-se gradualmente com o crescimento da vida cristã: começa com a prece vocal, passa pela interiorização mediante a meditação e o recolhimento, até chegar à união de amor com Cristo e a Santíssima Trindade. Obviamente, não se trata de um desenvolvimento em que subir os degraus mais altos quer dizer deixar o precedente tipo di oração, mas é antes um aprofundar-se gradual da relação com Deus que envolve toda a vida. Mais do que uma pedagogia da oração, a de Teresa é uma verdadeira «mistagogia»: ao leitor das suas obras ensina a rezar, orando ela mesma com ele; com efeito, frequentemente interrompe a narração ou a exposição para irromper em oração.

Outro tema amado pela santa é a centralidade da humanidade de Cristo. Com efeito, para Teresa a vida cristã é relação pessoal com Jesus, que culmina na união com Ele pela graça, amor e imitação. Daqui a importância que ela atribui à meditação da Paixão e à Eucaristia, como presença de Cristo na Igreja, pela vida de cada crente e como centro da liturgia. Santa Teresa vive um amor incondicional à Igreja: manifesta um «sensus Ecclesiae» vivo diante dos episódios de divisão e conflito na Igreja do seu tempo. Reforma a Ordem carmelita com a intenção de melhor servir e defender a «Santa Igreja Católica Romana», disposta a dar a vida por ela (cf. Vida 33, 5).

Um último aspecto essencial da doutrina teresiana, que gostaria de frisar, é a perfeição, como aspiração de toda a vida cristã e sua meta final. A santa tem uma ideia muito clara da «plenitude» de Cristo, revivida pelo cristão. No final do percurso do Castelo interior, no último «quarto», Teresa descreve tal plenitude realizada na morada da Trindade, na união a Cristo através do mistério da sua humanidade.

Caros irmãos e irmãs, santa Teresa de Jesus é verdadeira mestra de vida cristã para os fiéis de todos os tempos. Na nossa sociedade, muitas vezes carente de valores espirituais, santa Teresa ensina-nos a ser testemunhas indefessas de Deus, da sua presença e acção, ensina-nos a sentir realmente esta sede de Deus que existe na profundidade do nosso coração, este desejo de ver Deus, de O procurar, de dialogar com Ele e de ser seu amigo. Esta é a amizade necessária para todos nós e que devemos buscar de novo, dia após dia. O exemplo desta santa, profundamente contemplativa e eficaz nas suas obras, leve-nos também a nós a dedicar cada dia o justo tempo à oração, a esta abertura a Deus, a este caminho para procurar Deus, para O ver, para encontrar a sua amizade e assim a vida verdadeira; porque realmente muitos de nós deveriam dizer: «Não vivo, não vivo realmente, porque não vivo a essência da minha vida». Por isso, o tempo da oração não é perdido, é tempo em que se abre o caminho da vida, para aprender de Deus um amor ardente a Ele, à sua Igreja, e uma caridade concreta para com os nossos irmãos. Obrigado!

Saudação

Dou as boas vindas a todos os peregrinos de língua portuguesa, presentes nesta Audiência! Que o exemplo e a intercessão de Santa Teresa de Jesus vos ajudem a ser, através da oração e da caridade aos irmãos, testemunhas incansáveis de Deus em uma sociedade carente de valores espirituais. Com estes votos, de bom grado, a todos abençôo.»

22 janeiro, 2013

Catequese sobre Santa Teresa (II)




«Paralelamente ao amadurecimento da sua interioridade, a santa começa a desenvolver de modo concreto o ideal de reforma da Ordem carmelita: em 1562 funda em Ávila, com o apoio do Bispo da cidade, D. Alvaro de Mendoza, o primeiro Carmelo reformado, e pouco depois recebe também a aprovação do Superior-Geral da Ordem, Giovanni Battista Rossi. Nos anos seguintes continua as fundações de novos Carmelos, 17 no total. É fundamental o encontro com são João da Cruz com quem, em 1568, constitui em Duruelo, perto de Ávila, o primeiro convento de Carmelitas descalços. Em 1580 obtém de Roma a erecção a Província autónoma para os seus Carmelos reformados, ponto de partida da Ordem religiosa dos Carmelitas descalços. Teresa termina a sua vida terrena precisamente enquanto está empenhada na tarefa de fundação. Com efeito em 1582, depois de ter constituído o Carmelo de Burgos e enquanto voltava para Ávila, falece na noite de 15 de Outubro em Alba de Tormes, repetindo humildemente duas expressões: «No fim, morro como filha da Igreja» e «Meu Esposo, chegou a hora de nos vermos». Uma existência consumida na Espanha, mas despendida pela Igreja inteira. Beatificata pelo Papa Paulo V em 1614 e canonizada em 1622 por Gregório XV, é proclamada «Doutora da Igreja» pelo Servo de Deus Paulo VI em 1970.

Teresa de Jesus não tinha uma formação académica, mas sempre valorizou os ensinamentos de teólogos, letrados e mestres espirituais. Como escritora, sempre se ateve àquilo que pessoalmente vivera ou vira na experiência do próximo (cf. Prólogo ao Caminho de Perfeição), isto é, a partir da experiência. Teresa consegue manter relações de amizade espiritual com muitos santos, em especial com são João da Cruz. Ao mesmo tempo, alimenta-se com a leitura dos Padres da Igreja, são Jerónimo, são Gregório Magno e santo Agostinho. Entre as suas principais obras deve-se recordar sobretudo a autobiografia, intitulada Livro da vida, ao qual ela chama Livro das Misericórdias do Senhor. Composta no Carmelo de Ávila em 1565, discorre sobre o percurso biográfico e espiritual, escrito como afirma a própria Teresa, para submeter a sua alma ao discernimento do «Mestre dos espirituais», são João de Ávila. A finalidade é evidenciar a presença e a acção de Deus misericordioso na sua vida: por isso, a obra cita com frequência o diálogo de oração com o Senhor. É uma leitura que fascina, porque a santa não só narra, mas mostra que revive a profunda experiência da sua relação com Deus. Em 1566, Teresa escreve o Caminho de Perfeição, por ela chamado Admoestações e conselhos que Teresa dá de Jesus às suas monjas. Destinatárias são as doze noviças do Carmelo de são José em Ávila. Teresa propõe-lhes um intenso programa de vida contemplativa ao serviço da Igreja, em cuja base estão as virtudes evangélicas e a oração. Entre os trechos mais preciosos, o comentário ao Pai-Nosso, modelo de oração. A obra mística mais famosa de santa Teresa é o Castelo interior, escrito em 1577, em plena maturidade. Trata-se de uma releitura do próprio caminho de vida espiritual e, ao mesmo tempo, de uma codificação do possível desenvolvimento da vida cristã rumo à sua plenitude, a santidade, sob a acção do Espírito Santo. Teresa inspira-se na estrutura de um castelo com sete quartos, como imagem da interioridade do homem, introduzindo ao mesmo tempo o símbolo do bicho da seda que renasce como borboleta, para expressar a passagem do natural ao sobrenatural. A santa inspira-se na Sagrada Escritura, em particular no Cântico dos Cânticos, para o símbolo final dos «dois Esposos», que lhe permite descrever no sétimo quarto o ápice da vida cristã nos seus quatro aspectos: trinitário, cristológico, antropológico e eclesial. À sua obra de fundadora dos Carmelos reformados, Teresa dedica o Livro das fundações, escrito de 1573 a 1582, em que fala da vida do grupo religioso nascente. Como na autobiografia, a narração visa frisar sobretudo a acção de Deus na obra de fundação dos novos mosteiros.

Não é fácil resumir em poucas palavras a profunda e minuciosa espiritualidade teresiana. Gostaria de mencionar alguns pontos essenciais. Em primeiro lugar, santa Teresa propõe as virtudes evangélicas como base de toda a vida cristã e humana: em especial, o desapego dos bens, ou pobreza evangélica, e isto diz respeito a todos nós; o amor mútuo como elemento básico da vida comunitária e social; a humildade como amor à verdade; a determinação como fruto da audácia cristã; a esperança teologal, que descreve como sede de água viva. Sem esquecer as virtudes humanas: a afabilidade, veracidade, modéstia, cortesia, alegria e cultura. Em segundo lugar, santa Teresa propõe uma profunda sintonia com as grandes figuras bíblicas e a escuta viva da Palavra de Deus. Ela sente-se em sintonia sobretudo com a esposa do Cântico dos Cânticos e com o apóstolo Paulo, mas também com o Cristo da Paixão e com Jesus Eucarístico.»


21 janeiro, 2013

Catequese sobre Santa Teresa (I)



«Prezados irmãos e irmãs!

Durante as Catequeses que eu quis dedicar aos Padres da Igreja e a grandes figuras de teólogos e de mulheres da Idade Média tive a oportunidade de meditar também sobre alguns Santos e Santas que foram proclamados Doutores da Igreja pela sua doutrina eminente. Hoje gostaria de começar uma breve série de encontros para completar a apresentação dos Doutores da Igreja. E começo com uma santa que representa um dos vértices da espiritualidade cristã de todos os tempos: santa Teresa de Ávila [de Jesus].

Nasce em Ávila, na Espanha, em 1515, com o nome de Teresa de Ahumada. Na autobiografia ela menciona alguns pormenores da sua infância: o nascimento de «pais virtuosos e tementes a Deus», numa família numerosa, com nove irmãos e três irmãs. Ainda menina, com menos de 9 anos, tem a ocasião de ler as vidas de alguns mártires que lhe inspiram o desejo do martírio, a tal ponto que improvisa uma breve fuga de casa para morrer mártir e subir ao Céu (cf. Vida 1, 4); «Quero ver Deus», diz a pequena aos pais. Alguns anos depois, Teresa falará da suas leituras da infância e afirmará que nelas descobriu a verdade, que resume com dois princípios fundamentais: por um lado, «o facto de que tudo o que pertence ao mundo daqui, passa»; por outro, que só Deus é «para sempre», tema que retorna na celebérrima poesia «Nada te turbe / nada te espante; / tudo passa. Deus não muda; / a paciência obtém tudo; / quem possui Deus / nada lhe falta / só Deus basta!». Tendo ficado órfã de mãe com doze anos, pede à Virgem Santissima que lhe seja mãe (cf. Vida 1, 7).

Se na adolescência a leitura de livros profanos a tinha levado às distracções de uma vida mundana, a experiência como aluna das monjas agostinianas de Santa Maria das Graças de Ávila e a leitura de livros espirituais, sobretudo clássicos de espiritualidade franciscana, ensinam-lhe o recolhimento e a oração. Com vinte anos entra no mosteiro carmelita da Encarnação, ainda em Ávila; na vida religiosa assume o nome de Teresa de Jesus. Três anos depois adoece gravemente, a ponto de ficar 4 dias de coma, aparentemente morta (cf. Vida 5, 9). Até na luta contra as próprias doenças a santa vê o combate contra as fraquezas e as resistências à chamada de Deus: «Eu desejava viver — escreve — porque entendia bem que não estava a viver, mas sim a lutar com uma sombra de morte, e não tinha alguém que me desse vida, e nem eu a podia tomar, e Aquele que ma podia dar tinha razão de não me socorrer, dado que muitas vezes me dirigira para Ele, e eu O tinha abandonado» (Vida 8, 2). Em 1543 perde a proximidade dos familiares: o pai falece e todos os seus irmãos emigram, um após o outro, para a América. Na Quaresma de 1554, com 39 anos, Teresa chega ao ápice da luta contra as próprias debilidades. A descoberta da imagem de «um Cristo muito chagado» marca profundamente a sua vida (cf. Vida 9). A santa, que nesse período encontra profunda consonância com o santo Agostinho das Confissões, assim descreve o dia decisivo da sua experiência mística: «Acontece... que de repente tive a sensação da presença de Deus, que de nenhum modo eu podia duvidar que estava dentro de mim, e que eu estava totalmente absorvida nele» (Vida 10, 1).»

04 janeiro, 2013

Vigília com Santa Teresa de Jesus




Foi um momento simples, harmonioso, forte e profundo de oração.
Durante a vigília, e sobre o vasto manto da escuridão da mata do Convento dos Padres Carmelitas em Avessadas, vimos e sentimos crianças, jovens, adultos, casais e famílias em comunhão, em reflexão, em silêncio como a verdadeira comunidade cristã que é quando se junta para rezar.

O empenho e emoção dedicadas, neste momento revigorante, pelas crianças, jovens e comunidade carmelita, demonstrou-nos que com gestos simples, sem grandes luzes, sem personagens importantes, sem grandes orquestras, simplesmente ao som de uma viola, vozes suaves, sons da natureza, da luz trémula das velas e com a presença de pessoas crentes se consegue proporcionar uma noite rica em emoções, de paz interior, de proximidade e de cumplicidade com Deus como Santa Teresa de Jesus fazia.

São momentos como estes que nos mostram a força da comunidade cristã, sem ter que recorrer às luzes da rivalta e aos movimentos de massas que tanto nos cegam e desviam da simplicidade de estarmos juntos em comunidade rezando.
Bem haja o manter da luz acesa.
A família
              Augusto, Marta, Pedro e Maria

03 janeiro, 2013

Vigília de oração com Santa Teresa



No passado dia 20 de Outubro, nós, os noviços, em colaboração com o grupo de jovens GPS da paróquia de Avessadas, dirigimos uma vigília de oração, com o intuito de assinalar a solenidade de Santa Teresa de Jesus, a 15 de Outubro. Esta vigília aconteceu alguns dias após a solenidade, para que se pudesse reunir os jovens do grupo.

Uma vez que esta vigília era destinada a orar com Teresa de Jesus, fundadora desta grande família, que é o Carmelo Descalço, a oração não poderia deixar de a ter por tema. Assim, todos procuramos fazer um percurso com Santa Teresa, que nos explicou toda a dinâmica da oração como história de amizade com Deus. Na preparação da vigília, tivemos em conta, essencialmente, a sua definição de oração (“oração […] não é mais do que uma relação de amizade, estando muitas vezes a sós, com Quem sabemos que nos ama” V 8, 5) e os quatro graus de oração, que marcam as principais etapas no aprofundamento da intimidade com Deus.

Neste sentido, procuramos aproveitar os espaços da mata que retratam, precisamente, estes quatro graus de oração, que são também uma comparação com os quatro modos de regar. O primeiro grau da oração é o poço: o orante que inicia o caminho de oração ainda se sente muito longe de Deus e para conseguir orar precisa de pôr muito trabalho da sua parte, o qual consiste, essencialmente, em se determinar a responder de todo o coração ao amor infinito que Deus lhe tem, tal como o jardineiro que tem que, determinadamente, atirar o balde ao poço para tirar água, puxá-lo e levar a água até às plantas que precisam de ser regadas. 

Segue-se a nora de alcatruzes: tal como o jardineiro tira mais água e com menos trabalho, assim também o orante começa a sentir Deus cada vez mais perto de si e torna-se também mais consciente do grande amor de Deus por ele. A tensão amorosa entre Deus e o orante começa a tornar-se cada vez mais intensa.

Haverá menos trabalho da parte do jardineiro e do orante, se a água provém de uma fonte ou de um rio, porque basta encaminhar a água até ao sítio devido. Neste terceiro grau da oração, o próprio Deus começa a fazer-se presente ao orante, tendo este menos trabalho em procurar Deus, que não pode ver nem sentir com os seus sentidos exteriores. Este grau de oração é também significado de uma grande intimidade entre Deus e o orante, resultado de um esforço do orante por corresponder ao amor que lhe vem de Deus, esforço que é cada vez mais determinado, porque o orante começa a receber o fruto que deseja, a proximidade com o seu Criador.

Contudo, há mais uma forma de regar o jardim: a chuva. Então não há trabalho nenhum do jardineiro, nem do orante, que, simplesmente, vê o seu Senhor a fazer brotar as flores do seu jardim, no qual Ele se vem deleitar com os preciosos perfumes das flores.

Esta comparação expõe o orante como jardineiro que tem por função cuidar do jardim, que é a sua própria alma. Neste jardim, estão as sementes que darão origem às plantas e, posteriormente, às flores. Estas últimas são as virtudes. Destas flores, exala o perfume que deleita o Senhor do jardim, Deus. O jardineiro tem que regar as sementes e as plantas para que elas cresçam até que floresçam as flores, as quais têm que continuar a ser regadas, para não secarem. A água que alimenta as virtudes é o amor que procede da relação amorosa entre a Pessoa de Deus e a pessoa do orante. Este amor é uma “dupla corrente” entre Deus e o orante, pois o amor é dado por Deus a todo o ser humano, mas para que este amor se complete, perfeitamente, necessita de uma resposta afirmativa do orante. Deste modo, estabelece-se entre o orante e Deus uma tensão amorosa que os aproxima cada vez mais. Quanto mais intensa é a resposta do orante, mais intensa é a intimidade entre Deus e o orante; e quanto mais intensa é a intimidade, mais intensa é a resposta do orante a Deus. Desta tensão amorosa crescente resulta a simplificação da pessoa do orante e, como consequência, desenvolvem-se no orante as virtudes.

Teresa não nos escondeu que orar é difícil, porque é difícil ser simples a quem leva tanta experiência em ser complicado. O homem à medida que se torna mais complexo, com o processo normal de crescimento, também se torna mais complicado e isso dificulta-lhe o contacto com o Transcendente, com o absolutamente Outro que o interpela. Assim, todo o trabalho do orante para chegar à intimidade de Deus resume-se a um processo de simplificação que se torna sofrido pela resistência, consciente ou inconsciente, do orante à simplificação. O agente principal desta simplificação é Deus, o orante só tem que se abrir e dar o seu consentimento à acção de Deus em si. Mas Teresa também garante que a todo aquele que se determina a empreender esta relação de amizade com Deus, Deus não o abandona, nem o deixa morrer à sede, ou seja, não o deixará morrer sem o Seu amor.
Os Noviços


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