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31 março, 2014

Experiência em Granada


Da janela do meu quarto contemplava a Serra Nevada. Nevada porque estava a serra cheia de neve no seu cume. Neste momento deixei-me maravilhar como à muito não acontecia. Parecia uma criança a contemplar a novidade que não é nova, mas que nos faz perceber que só com tempo e olhos de ver conseguimos ver aquilo que nas nossas rotinas não vemos. Deparei-me com a obra de um Deus que não se cansa de nos mimar.

E a minha experiência por Granada poderia ficar assim resumida, não fosse ela mais uma etapa no meu caminho de discernimento vocacional. Um caminho no qual me deparo com um amor incondicional deste Deus que me ama e quer para Si. A esta interpelação jamais poderei ficar indiferente e quieto, sem fazer nada.

Sim, sinto-me profundamente amado. Estes foram dias em que reconheço o quão Deus tem sido fiel na minha vida e para comigo. Perante este facto, como ficar indiferente e não querer responder ao Seu apelo?
No Carmelo de Granada continuei a perceber que Deus se continua a manifestar de forma tão simples e profunda, que quer manter uma relação de intimidade e despojamento, de uma maneira tão bonita que só a fraternidade carmelita poderia transmitir. Senti-me verdadeiramente filho de Santa Teresa e de São João da Cruz. Uma fé tão humana e tão divina que nos eleva ao mais profundo de nós mesmos. Aí onde Deus habita e quer efectivamente morar e encontramos a paz e a sabedoria para Lhe darmos o nosso "sim".



Esta minha visita ao Carmelo de Granda, casa de Postulantado Ibérico Carmelita, tinha como objectivo um reencontro com as raízes desta Ordem, tornou-se num passo mais, no sentido de me abrir à Sua vontade, a confiar a vida àqueles que Deus coloca na minha existência e, particularmente, nesta caminhada, para, deste modo, saber ler e discernir o que o Senhor quer de mim. Foi uma experiência que ocorreu entre os dias 17 e 22 de Fevereiro. Agradeço muito a Deus o acolhimento e o carinho com que fui recebido pela comunidade (9 Frades e 2 Postulantes); perceber que em Deus tudo é possível e que o difícil se torna fácil, especialmente quando temos pessoas tão boas para nos acolher e integrar na vida da comunidade.

Uma coisa peço: reze por mim ao Senhor, porque por mim mesmo não serei capaz de percorrer este caminho. Se é verdade que a resposta só eu a posso dar, não é menos verdade que esta vocação seja só minha, mas de todos os que comigo caminham, comigo se cruzam e partilham a vida comigo. Se peço, também agradeço a vida que me foi dada, todos os que fazem parte da minha vida e a possibilidade de poder partilhar de forma tão bonita a minha fé. Amém!

Filipe


15 janeiro, 2013

Vigília de Natal e comemoração de São João da Cruz




Para a vigília de oração com São João da Cruz pediu-se aos meninos da catequese que cada um viesse à festa com a almofada com que dorme. Este pedido despertou muita curiosidade não só nos meninos como em todas as outras pessoas que souberam. Foi uma semana de curiosidade e até mesmo de ansiedade.

Quando chegou o dia, as crianças apareceram em grande número, se calhar mais do que era esperado. A almofada foi o bilhete de entrada; ensaiou-se uma música com as almofadas, distribui-se uma vela por cada menino e, depois dos familiares e convidados terem entrado no santuário, entramos nós catequistas e os meninos. Lá dentro, tinha-se criado um cenário: bancos recuados nas laterais, luzes, música, velas em arranjos junto à passadeira e, no lugar dos bancos, espaços vazios que foram preenchidos pelos meninos sentados nas suas almofadas.

Deu-se início à vigília com dois jovens a discutir, um deles é afastado e a outra fica a lamentar o facto de ter tudo (um telemóvel, viagens, entre outras coisas ….) o que é bem material mas continuar a sentir-se só, abandonada. Então aparece Jesus na cruz e lhe mostra que não está sozinha. Depois, aparecem os Reis Magos que seguem a estrela que os levam ao menino Jesus. A jovem continua a questionar a sua fé e a presença de Jesus e é então que lhe fala São João da Cruz, que sempre dedicou a sua vida de sofrimento aos outros. Por fim, aparece-lhe um anjo. 

Pelo meio, foram-se cantando algumas músicas que envolveram todos os presentes. A vigília finalizou-se com o reconhecimento de que nunca se está só e que se pode dar muito de nós aos outros; basta acreditar. Por fim, os meninos acenderem as suas velas como símbolo da sua própria fé, cantaram e dançaram a música que anteriormente ensaiaram com as almofadas.

Para acabar a festa, realizamos um lanche com chocolate quente, chá, cafés, bolos, biscoitos, entre outras coisas que deram continuidade ao convívio entre as pessoas da paróquia, o que também superou as expectativas, pois foram bastantes as pessoas presentes.

Foi uma festa de Natal diferente de todas as outras, mas foi divertida, alegre e muito envolvente. 
Parabéns a todos quantos fizeram parte dela.



Catequista 
 Teresa Moura  

05 janeiro, 2013

Testemunho vocacional



A razão deste texto deve-se à amizade. Ela é um campo sem fronteiras. Alguns amigos têm perguntado por mim. 

No dia 3 de Agosto de 2009, na “Domus Carmeli”, casa dos Carmelitas Descalços, em Fátima, fiz a minha profissão solene nas mãos do superior da Ordem, Frei Pedro Lorenço Ferreira. 

Para trás ficam passos dados e opções feitas: Seminário da diocese de Viana do Castelo (1992 a 2001); Escola Secundária de Monserrate (Viana do Castelo). 

Após um intenso discernimento vocacional, ingressei na Ordem dos Carmelitas Descalços. Vivendo sempre inserido na vida comunitária passei por Viana do Castelo, Moçambique e Marco de Canaveses (postulantado). Neste tempo, fiz uma experiência importante de voluntariado (Gabinete de Atendimento à Família – GAF e missão de São Roque, em Moçambique. 

Com o noviciado (Desierto de Las Palmas - Espanha, 2002) pude entrar mais adentro na vida consagrada carmelita através da oração, da vida fraterna e do trabalho intelectual e manual.

A filosofia (2003 a 2005 - Granada e Salamanca) e a teologia (2005 a 2008, Porto) introduziram-me na arte de pensar o homem e Deus. Deste modo fui-me conhecendo melhor como homem de Deus. Em Julho de 2008, fiz o Mestrado integrado em Teologia na Universidade Católica do Porto e, em Fátima (2009), sob o olhar de Nossa Senhora, tomei a decisão de consagrar toda a minha vida ao serviço de Deus e da Igreja na Ordem dos Carmelitas Descalços.

«Caminante, no hay camino; se hace camino al andar» (A. Machado). E agora continuo a andar... para continuar a fazer caminho.

Frei Marco de S. Teresa do Menino Jesus

04 janeiro, 2013

Vigília com Santa Teresa de Jesus




Foi um momento simples, harmonioso, forte e profundo de oração.
Durante a vigília, e sobre o vasto manto da escuridão da mata do Convento dos Padres Carmelitas em Avessadas, vimos e sentimos crianças, jovens, adultos, casais e famílias em comunhão, em reflexão, em silêncio como a verdadeira comunidade cristã que é quando se junta para rezar.

O empenho e emoção dedicadas, neste momento revigorante, pelas crianças, jovens e comunidade carmelita, demonstrou-nos que com gestos simples, sem grandes luzes, sem personagens importantes, sem grandes orquestras, simplesmente ao som de uma viola, vozes suaves, sons da natureza, da luz trémula das velas e com a presença de pessoas crentes se consegue proporcionar uma noite rica em emoções, de paz interior, de proximidade e de cumplicidade com Deus como Santa Teresa de Jesus fazia.

São momentos como estes que nos mostram a força da comunidade cristã, sem ter que recorrer às luzes da rivalta e aos movimentos de massas que tanto nos cegam e desviam da simplicidade de estarmos juntos em comunidade rezando.
Bem haja o manter da luz acesa.
A família
              Augusto, Marta, Pedro e Maria

31 dezembro, 2012

Ser família com Deus


Os filhos nem sempre compreendem os pais. Por vezes, pensamos que os pais nem sempre têm razão, ou então, no momento, não compreendemos o que pretendem com as suas decisões. Somos “jovens”, com muita energia, curiosos e julgamos que já sabemos como é a vida! Contudo, ser filho não é uma “tarefa” fácil e só a vamos compreender quando somos pais.

Sempre quisemos criar uma família, ter filhos e educá-los com os valores cristãos. Acreditamos que o principal alicerce da família é o amor entre pais e filhos. Os valores essenciais que norteiam a nossa vida foram transmitidos pelos nossos pais com base numa educação cristã. No aconchego da família encontramos paz, tranquilidade e a resposta para algumas das nossas inquietações. A experiência de vida dos nossos pais constitui um exemplo, um caminho a seguir na relação familiar que estamos a construir. O amor, o perdão, a humildade, a paciência e a caridade são alguns dos valores que trazemos da nossa família e que são necessários para ultrapassar os problemas/conflitos que naturalmente surgem. Nestas situações menos boas, mas necessárias para o amadurecimento das relações, a oração deve estar sempre presente para nos ajudar a reflectir e a decidir o melhor caminho. Os nossos pais transmitiram sempre que na oração encontramos a resposta para as nossas inquietações. 

Estamos casados à 11 anos, temos um filho e aproxima-se o nascimento do segundo. Tentamos construir a nossa família com os valores que trazemos dos nossos pais e com a presença central de Deus. O carisma da “família carmelita” tem sido fundamental na relação de casal e na educação do nosso filho. Nos dias de hoje, educar não é uma missão fácil. Rezamos diariamente juntos e tentamos que o nosso filho participe nas actividades que desenvolvemos na família carmelita.


Luís Correia
Célia Leitão
João M Mendes Leitão Correia


29 dezembro, 2012

II Encontro Ibérico do Carmo Jovem




Do doze ao catorze de Outubro, os jovens carmelitas ibéricos reuniram-se em Avessadas, no convento do Menino Jesus de Praga, para o II Encontro Ibérico do Carmo Jovem.

Por lá estiveram mais de 250 jovens, de vários pontos de Espanha e Portugal, de faixas etárias diferentes, modos de vida diferentes, diferentes idiomas, mas todos com uma mesma missão e um mesmo objectivo, o de conhecer mais profundamente a Jesus Cristo, conhecer outras pessoas que têm um vínculo com Ele e conhecer a experiência de centenas de jovens e grupos repartidos por toda a península.

O dia 12, festividade de Nossa Senhora do Pilar – em Espanha –, foi o dia escolhido para a chegada e para a apresentação da maior parte dos grupos, onde se realizaram várias dinâmicas e jogos com o fim de criar um bom ambiente e de fomentar o mútuo conhecimento entre os vários grupos. Mais tarde fez-se a apresentação formal de todos os grupos dentro da igreja do convento.

Nessa mesma noite, celebrou-se a vigília sobre o tema do encontro: “a fonte que mana e corre”; com luzes, com sombras, esta fonte de vida, de alegria, de gozo… não descansa, e continua viva e repartindo água para saciar a nossa sede.

O Sábado foi o dia mais completo. Começou com a Eucaristia às 8:00 e depois do pequeno-almoço e de jogos com os grupos começou a apresentação do Padre Provincial de Portugal, o Padre Joaquim, sobre a oração em S. João da Cruz e Santa Teresa de Jesus.

Mais tarde, depois de escutar e de aprender como consideram, estes Santos, que se deve manter a oração, partilhamos em grupos as perguntas que nos foram colocada sobre a nossa própria oração, o amor aos demais, a nossa amizade com Jesus e os momentos altos e baixos na nossa história, de forma que se criaram laços muito fortes com pessoas que mal conhecíamos e que tiveram o valor de se expressarem sem medo e com a segurança de sentirem-se escutados, sabendo que todos estávamos ali pela mesma causa, pelo zelo ao amor de Deus.



Pela tarde, já depois de comer e de descansar um pouco, tivemos o momento mais contemplativo do encontro, o passeio orante, onde maiores e mais pequenos aprendemos a saber escutar na solidão, a não perder a esperança nas dificuldades da vida e a saber perseverar em corpo e alma a perfeição de que nos falam os Santos.

Os mais velhos, conhecemos cada um dos passos na evolução da oração de que fala Santa Teresa: o poço, a nora, a fonte e a chuva. E pudemos contemplá-los no pequeno bosque, de que disfruta a parte superior do convento de Avessadas.

Os mais jovens aprenderam através do jogo o valor de saber transmitir e aumentar a sua fé, com o objectivo de não cair perante os problemas, de não render-se perante as dificuldades e, sobretudo, confiar em Quem nunca nos abandona e que tanto nos amou que entregou a Seu Filho para o nosso perdão.

A última noite foi muito animada com o concerto de vários grupos de Portugal e Espanha como o Coro de Braga, João Rego, Osvaldo, Abelardo, Manuel e o grupo Vozes de Aveiro, que deleitaram a todos os jovens num ambiente muito festivo e são, onde se primou pelo carinho, a alegria, a fé, o amor, os quais foram inspirados pela luz nos foi fornecida pelas canções que falam de sentimentos, de Santa Teresa, de Santa Teresinha, de São João da Cruz.

A Deus agradam-Lhe as pessoas pequenas, e a eles encomenda grandes missões. Aos pequenos dá a Sua eficiência, o Seu verdadeiro a todo que O queira acolher.

É uma verdade, que vem de uma mesma pessoa, de Jesus Cristo, uma verdade que deve ser procurada no nosso interior, pois reside em nosso coração, e que, sendo livres, podemos negar-nos, mas não podemos negar aquele que deu a sua vida, para salvar a nossa.


Hilario José Diaz Petrel, in El Carmelo, nº 86

22 dezembro, 2012

Das pedras para os filhos de Abraão: o encontro com o Crucificado por Amor.




Como surgiu o Carmelo na minha vida, na minha história pessoal? 
Creio que a primeira graça, foi quando um dia estando na Eucaristia  percebi dentro de mim que a minha relação com Deus tinha de mudar, estamos entre 2001 e 2002 (não me recordo a data exacta). Percebi que tinha de ser eu que tinha de fazer a vontade de Deus, e não querer que fosse Deus a fazer a minha. Isto levou-me a repetir muitas vezes as orações de Nossa Senhora na anunciação – “Eis a serva do Senhor faça-se a Tua vontade”, e de Jesus no horto: “Pai faça-se como Tu queres.” Isto foi fundamental, porque permitiu uma abertura à graça, porém muito incipiente.

Posso descrever a minha vida como uma série de lutas, de encontros, de descobertas, de períodos de fidelidade e entusiasmo, e de períodos difíceis, de rebeldia, de negação. Mas onde sempre o Senhor actuou, onde sempre me esperou… e podia dizer como a nossa Santa Madre “mais me cansei eu de O ofender do que Ele de me perdoar”.

Depois desta graça procurei de verdade fazer a vontade de Deus… mas essa vontade muitas vezes assustava-me… e pouco a pouco fui tentando silenciar a “Voz” que me gritava dentro… fiz-me surda e andei errante uns tempos.

Depois eis novas “luzes”, a minha vida mudou exteriormente. Mudei de escola e também de paróquia. A minha paróquia de origem estava (está) muito envelhecida, na nova paróquia encontrei vitalidade, uma Igreja aberta, com um testemunho de alegria, de “paixão”, de entusiasmo, uma Igreja atenta aos mais pequenos. Tratei mais de perto com várias irmãs, fiz a experiência de pertencer a um Corpo. 

Tudo isto levou-me a tentar ser mais generosa e empenhada… depois “encontrei-me” com o movimento dos convívios fraternos… descobri a oração. Fiz uma experiência muito linda: comecei a rezar pelo meu mano, que vivia uma fase difícil, e tudo começou a melhorar.

Neste tempo houve também uma “descoberta” fundamental… percebi no íntimo do meu ser, que o caminho para a felicidade era o AMOR, era a doação de si, era viver em comunhão.  

Estamos em 2005. Descobrir o amor e a alegria fez-me ver tudo com outros olhos… podia perguntar novamente ao Senhor qual era a Sua vontade… mas ainda me assustava… chega Agosto, vou às JMJ de Colónia… aí dá-se o primeiro encontro com Edith Stein: “Deus é a verdade, quem procura a verdade, procura a Deus…” sim dentro de mim havia sede de verdade… havia sede de Deus.

Mas eis que tudo muda novamente… em Setembro começo a faculdade, todo um mundo novo. O 2º ano foi o ano das mudanças… um ano de rebeldia e um ano em que fui “apanhada”. Queria ser independente, morar sozinha, sair do controle de todos… mas… o Senhor foi à minha procura quando andava mais longe… e dessa rebeldia começou a fazer algo lindo… e (imagine-se lá…) passei a ir à missa todos os dias. Precisava de estar com Ele… escutá-l’O… sentia a necessidade de estar em silêncio, de estar na solidão habitada.

A 6ª-feira santa de 2007 foi um dia importantíssimo. Houve um “encontro” com O Cristo Crucificado, mas não pela dor… pelo ódio… foi o Crucificado por Amor… aquele Deus que me amou tanto que morreu por mim (e este por mim faz a diferença), que me ama pessoalmente. Um Deus que se fez obediente, pequenino, aniquilado. Percebia interiormente que Ele me pedia para Lhe fazer companhia… estava tão só na Cruz… comecei a desejar estar sempre com Ele. A desejar Consolá-lO. 

O Carmelo: houve novamente um encontro com Edith Stein. Por ela descobri o carisma carmelita. O carisma da União com Deus, da intimidade, da oferta consciente da nossa vida, da fecundidade apostólica da vida escondida… eu queria muito ajudar os sacerdotes (primeiro pensei numa ajuda imediata… mas isso era pouco) … eu queria chegar a todos os sacerdotes… queria chegar a todas as pessoas… no Carmelo, na oração, não há limites de espaço e de tempo… há gratuidade e amor… não sabemos quem ajudamos… mas amamos e queremos ajudar todos. Por isso o coração da carmelita é o coração mais povoado do mundo, todos lá têm um lugar.

Dizia que a minha vida foi de lutas, agora no Carmelo travo também uma enorme luta… a luta pelo amor. Para que todos conheçam o amor de Deus. Deste Deus que é o Amigo que nos chama. Mas esta luta só se ganha perdendo. Sim, perdendo o nosso eu, para que seja Ele a ganhar. Deixar que seja Deus a fazer tudo em mim, a amar em mim, a trabalhar em mim. Só deixando que o Espírito de Deus aja em mim é que a minha vida de carmelita será fecunda para a Igreja.

O Carmelo apareceu como a resposta de amor. A resposta ao convite de Jesus a estar com Ele, a dar-me como Ele se deu. Não há outros caminhos??? sim há… mas para alguns este é o caminho. O escondimento, a simplicidade, o Amor.
Ir. Cláudia
 

21 dezembro, 2012

DEUS CHAMOU-ME DE MUITAS MANEIRAS E COM VÁRIAS VOZES




Considero que Deus me chamou de muitas maneiras e com várias vozes durante a minha história de vida de 25 anos. Serviu-se de situações, acontecimentos, encontros, pessoas, livros, filmes, experiências, sentimentos, pensamentos, na alegria e na tristeza. Este chamamento misterioso, sussurrante e inefável, foi «escutado» de forma mais intensa nos princípios de 2006.

Vivendo uma conversão gradual na minha vida espiritual e na oração, e ao reflectir sobre a minha vida passada e o meu modo de ser, comecei a perceber que o Senhor me estava a indicar um caminho para a minha vida que me levaria até Ele de uma forma mais intensa e radical.

Recordo que, quando vi os filmes, “Irmão Sol/Irmã Lua” e “A Vida de São Patrício da Irlanda”, fiquei cativado pela Vida Religiosa. Lembro-me que depois de ver cada um destes filmes, me ajoelhei diante dum crucifixo que tinha no meu quarto e ofereci-me a Jesus Crucificado, emocionado e com grande abandono de alma, dando um Sim ao convite especial que vinha a sentir. Fazia sentido que eu entrasse na Vida Religiosa. Sentia um grande alívio e paz ao pensar ser religioso. Não tinha uma carreira ou uma profissão em mente. Nunca tive ambições materiais ou de poder. Procurava algo na vida que fosse mais além e diferente do mundanismo. Ou seja, não procurava algo mas sim Alguém que estivesse mais além. E este Alguém procurava-me também. Queria que fosse mais além, que não tivesse medo à diferença por Ele e com Ele. Foi Ele que criou o vazio que só mesmo Ele poderia preencher. Só Deus poderia satisfazer os desejos mais profundos do meu coração. Uma inquietude que só Ele poderia serenar, como diz Santo Agostinho nas suas Confissões: “Fizeste-nos, Senhor, para Vós e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Vós... Brilhastes, cintilastes, e logo afugentastes a minha cegueira! Exalastes perfume: respirei-o..., suspirando por Vós. Saboreei-Vos e, agora, tenho fome e sede de Vós...”

Tinha passado por muitas desilusões e escuridão de espírito, mas, como diz o nosso Santo Padre, São João da Cruz: “...o passar pelas trevas acaba em grande luz.” Quando vi a Luz de Deus ao fim do túnel da minha vida sem sentido, o que podia fazer senão seguir a Luz para sair das trevas e ajudar outros a encontrar e seguir a mesma Luz. O desejo de partilhar a minha experiência de Deus foi forte desde o início e impeliu-me a anunciar a Boa Nova, principalmente aos jovens que andavam e andam perdidos e enganados por luzes falsas e ruídos hipnotizantes deste mundo, distantes da verdade e do Espírito de Deus.

O Carmelo apareceu na minha vida como um mistério. Um mistério que me seduziu e me levou a entrar neste jardim de Deus. Só sei que a página web vocacional da Província de Portugal teve uma grande influência na minha decisão de escolher a Ordem Religiosa do Carmelo Teresiano. 

Senti-me bem-vindo e chamado às suas portas com estas simples palavras que me sensibilizaram: Serás bem recebido... Estás convidado a aparecer, palavras acolhedoras que nunca tinha visto noutras páginas web vocacionais de outras Ordens Religiosas.

Porquê os Carmelitas? O que mais me despertou desde sempre na Vida Religiosa foi a dimensão contemplativa. Mas, como disse, também queria anunciar a Boa Nova, partilhando os frutos da minha oração e intimidade com Deus. O Carmelo tem os dois lados da moeda. O atendimento espiritual e pastoral do sacramento da reconciliaçâo chamavam-me a atenção também. A literatura espiritual e a criatividade dos santos carmelitas atraíam-me a esta família de místicos. 

A etapa vocacional em que me encontro é uma fase de discernimento diário da vontade de Deus para a minha vida e uma introdução à experiência vital da Vida Religiosa carmelitana, dando corpo ao espírito do chamamento. 

Preciso de tempo e paciência. Tempo para experimentar, tomar decisões e clarificar ideias; paciência com este tempo da experiência e com o meu ritmo próprio. Acredito que com o tempo, a experiência, o discernimento, a paciência, a determinação e a oração, vou assimilando o rico carisma teresiano – o espírito e vida que estou a chamado a viver. Esta sendo para mim um tempo de enamoramento da família teresiana. 
O que mais me apaixona na família dos carmelitas é o facto me tornar discípulo de Cristo segundo o estilo de Santa Teresa de Jesus e de São João da Cruz; é o facto de ser como eles um descendente “daqueles nossos santos padres do Monte Carmelo inspirados pelo espírito inflamado do profeta Elias”; e como Elias ser profeta da presença do Deus Vivo que é Amor, no meio deste mundo que não O conhece ou não O quer conhecer. 

Vivo entusiasmado ao pensar que posso ser um irmão próximo dos que mais necessitam saber que há um Pai que os ama, ajudando-os a conhecer este Pai Celeste que os criaram para as grandezas da vida espiritual e teologal na intimidade com Ele. A vida interior e a intimidade com Deus despertam-me muito a atenção juntamente com os escritos e vidas exemplares dos santos do Carmelo. Dizia, por exemplo, a Ir. Isabel da Trindade: “Como se é feliz, quando se vive na intimidade com Deus!” – é esta verdade que vou descobrindo. 

Sinto que é no Carmelo Teresiano que vou encontrar esta felicidade e esta intimidade divina e assim sentir-me mais válido para o serviço da Igreja como bom filho de Teresa de Jesus, que morreu exclamando a alegria de ser Filha da Igreja. Como ela quero ser do grupo dos amigos fortes de Deus de que o mundo tanto necessita.

Frei Danny do Divino Espírito Santo

20 dezembro, 2012

"Procurando entrar nos átrios da casa do Senhor"


Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar”(Gn 12,1). 
Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei” (Mt 11,28).



O meu nome é Vitor Boavida Soares. Sou de Timor-Leste, Distrito de Aileu, Concelho de Aileu, Vila e Freguesia de Hoho-lao, e tenho 24 anos. Em casa, éramos 11 irmãos e vivíamos num ambiente religioso promovido pelos nossos pais. Nossa Senhora do Rosário tinha um lugar de destaque na nossa família, aliás como em toda a população da nossa terra, de quem é Padroeira. Alimentávamos a fé através da oração diária, da Eucaristia anual e da celebração da Palavra. Sim, Eucaristia anual, porque na minha terra só há uma vez por ano. Fora disso, o que há, são Celebrações Dominicais da Palavra.

Recordo-me que, quando eu era criança, mais ou menos com a idade de 8 ou 9 anos, a minha irmã começou-me a convidar para ir com ela ensaiar os cânticos da Eucaristia. Olhando para trás e pensando no que, então, ia sentindo, vejo, agora, como todos esses momentos foram fundamentais para eu chegar até este dia. Vejo, claramente, a mão de Deus por detrás de todos eles, uma mão que me ia conduzindo e apontando um caminho a seguir.

Parece que a Eucaristia era um sacramento importante para eu escutar e perceber melhor a voz de Deus… E, assim, ao terminar a escola primária e ao fazer a passagem para o pré-secundário, algo, neste sentido, veio a mudar nos meus dias. Depois de me ter atrevido durante algum tempo a levantar-me cedo para me deslocar para o Ciclo Preparatório, que ficava a duas horas de minha casa, fazendo o percurso a pé, lá me decidi a ficar em Aileu, por seis anos, em casa duma tia. Nesse tempo aí passado, não só tive a oportunidade de me abeirar mais assiduamente da mesa da Eucaristia, mas também de me tornar ministro do altar do Senhor, exercendo o serviço de acólito que outros meus colegas já exerciam. 

Digo-vos que o Senhor da Messe sabe muito bem como nos chamar, pois esse primeiro dia de serviço do altar, a 12 de Novembro de 2005, foi passado numa imensa alegria e com uma especial vontade de entrega a Deus e à Igreja.

Terminado o 12º ano em 2009, proporcionou-se um encontro com uma Irmã Carmelita de Clausura, que me falou desta Ordem, a respeito do seu Carisma e Espiritualidade, dando-me, inclusive, a conhecer os seus santos e a sua missão na Igreja. Tive mais algum encontro e diálogo com ela, e, a seu tempo e por seu intermédio, vim a estabelecer contacto com os carmelitas de Portugal, os quais me prestaram vários tipos de acompanhamento e discernimento da minha vocação e me fizeram vir até eles. Depois de ter feito cá as primeiras etapas de formação, Aspirantado e Postulantado, encontro-me a fazer o Noviciado na comunidade de Avessadas, Marco de Canaveses, etapa que me permite conhecer melhor o estilo de vida desta Ordem e compreender se é, de facto, por ela que o Senhor me chama a uma opção fundamental na Sua Igreja.

O Noviciado começou no dia 02 de Setembro de 2012. Nesse mesmo dia, recebi o Hábito Carmelita, juntamente com mais três jovens como eu. Desde então, sinto-me muito contente pelo que o Senhor vem realizando em mim e por Maria me ter dado o Seu manto para me cobrir. Tenho impressão que o meu contentamento não anda muito longe do estado de alma de Teresa de Jesus, quando ela diz: «Ao vestir o hábito: logo o Senhor me deu a entender como favorece aos que se esforçam para O servir. Isto ninguém percebeu em mim, mas sim uma grandíssima vontade. Na altura, deu-me um tão grande contentamento de ter aquele estado, que nunca jamais me faltou até hoje» (Vida 4,2).

Fr. Vitor

19 dezembro, 2012

"Servo do Amor"


“E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, pai, mãe, filhos ou campos por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá por herança a vida eterna” Mt19,29; “toma a tua cruz segue-me” “Vinde e vereis” (Jo 1,39).


Paz e Bem! Amados irmãos e irmãs em Cristo Jesus! Quero partilhar algo que está no meu coração sobre a minha caminhada vocacional. Somos convidados a reflectir sobre a nossa vocação, pois todos nós trazemos uma vocação específica. Claro que a nossa primeira vocação é o Amor, viver uma vida santa, pois somos filhos de Deus, o Santo dos Santos. 

Chamo-me Eugénio Romão Barreto, sou de Timor-Leste, tenho 28 anos, somos dez irmãos e eu sou o segundo filho entre os dez. Lembro-me de ter tido uma infância feliz. Brinquei muito com os meus irmãos e primos. Hoje, à medida que o tempo passa, compreendo melhor a graça que é a família que Deus me deu. Foi dela que recebi muito do que me tornei, sobretudo dos meus pais.

Foram eles que com paciência – muita! – me ajudaram a crescer, a pouco e pouco, nas virtudes humanas e cristãs. Fui baptizado no dia de São Miguel Arcanjo, na capela de Besilau, paróquia São Francisco Xavier, Dare, Díli, Timor-leste 

Os anos foram passando e sentia um chamamento que tocava o meu coração; mas não sabia quem me chamava…Certo dia, na Missa de são Miguel Arcanjo, fui escolhido para acolitar – se, realmente, eu acreditasse no que fazia durante a Missa! – a resposta foi rápida e afirmativa, e ainda hoje me lembro desta cena. Foi uma profissão de fé, consciente e voluntária, que deu origem a uma certa viragem na minha relação com Deus. A partir daquele dia, tudo passou a ser feito com mais vontade e convicção. 

Em minha casa, infelizmente, não tínhamos o hábito de rezar o Terço em família. Digo isto porque o Terço também foi como que um segundo empurrão na minha relação com Jesus e Maria, numa altura em que estava já a estudar na Universidade.
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Um belo dia, fui convidado para ser animador de Taizé na universidade. Foi uma experiência nova e muito marcante, pois convivi com muitos jovens que viviam a sua fé com muita alegria. Num dos dias da universidade, quando estávamos todos a partilhar as conclusões de um tema em que tínhamos reflectido em pequenos grupos, lembro-me de ter tomado a palavra e ter relembrado aquelas palavras de Jesus: “vinde e vede”. O padre que nos acompanhava perguntou-me, logo de seguida, se eu gostava de rezar à maneira de Taizé. Eu tive que admitir publicamente que não rezava à maneira de Taizé, mas rezava o terço com a minha família. Éramos para aí umas quarenta e sete pessoas. Foi humilhante, mas muito salutar. Esta ocasião levou-me a começar a rezar o terço diariamente, graças a Deus, até hoje.

Depois desta actividade, comecei a envolver-me em vários Movimentos Eclesiais que também me ajudaram muito a crescer na minha vocação. Primeiro foi o grupo de acólitos, depois o Grupo de Jovens de São Francisco Xavier e, além destes, o grupo vocacional organizado por uma religiosa. Foi tudo muito bom. No grupo vocacional, fui conhecendo melhor a Palavra de Deus que queimava cá dentro...

Um dia, um colega convidou-me a participar no aniversário dele e escolheu-me para dirigir a oração. Depois de terminar a oração, um dos presentes levantou a voz e disse: “tu pareces um padre a falar”. Confesso que eu ficava um bocado irritado com isso porque Deus tinha-me mostrado que nos chama a todos a sermos santos e que, portanto, todos deveríamos ter zelo e empenho pelas coisas do Senhor e pela salvação das almas e não apenas os padres e as freiras. Para além disso, tinha alguns sonhos que sabia serem compatíveis com a santidade. E o Senhor também me tinha feito perceber que, nos tempos que vivemos, eram necessários santos no meio do mundo, com uma vida normal e, ao mesmo tempo, heróis que brilhassem como estrelas no meio das trevas que nos rodeiam. Esta é a luz que o Senhor me deu acerca da vocação.

Nessa altura, tinha o bom hábito de, antes de me deitar, ler uma pequena passagem do Novo Testamento. Lia continuadamente, ou abria uma passagem ao acaso. Em certas alturas, quando me questionava acerca da Vontade de Deus para mim, fazia uma pequena oração ao Espírito Santo, pedindo-lhe que me iluminasse, e abria o Novo Testamento ao calhas. Parecia incrível – mas a Deus nada é impossível! -, mas saía-me com frequência a passagem “vinde e vereis” (Jo 1,39). E assim comecei a acreditar que a minha vocação seria a alegria da minha alma, a força da minha vida e a esperança para o meu futuro.

Continuei com os estudos. Fiz então uma espécie de contra-proposta a Jesus: não vou terminar o meu curso, porque quero seguir-te (faltavam-me dois anos). Por essa altura, creio que já ia Missa todos os dias, confessava-me de três em três meses e rezava o terço. Foram conselhos que tomei como vindos da Virgem Maria e que mudaram muito a minha vida. Com o passar do tempo a ideia de ser o religioso deixou de ser incómoda e passou a ser o caminho para seguir Jesus incondicionalmente e oferecer toda a minha vontade, todo o meu coração a Nossa Senhora do Carmo. 

“O amor é fonte de todas as coisas e só o amor vence a violência da vida.” (Edith Stein)

Fr. Eugênio

18 dezembro, 2012

História de amizade em história de amor transformada!


Grava-me como selo em teu coração, como selo no teu braço,
porque forte como a morte é o amor.
Nem as águas caudalosas conseguirão apagar o fogo do amor,
nem as torrentes o podem submergir.
(cf. Ct 8, 6)

Olá! Que Cristo esteja contigo! Gostaria de partilhar contigo uma história de amizade a caminho para ser uma história de amor: a minha história vocacional. Falar da vocação é trazer à luz do dia a pérola preciosa e de grande valor que foi colocada no coração, e isso é sempre um tanto ou quanto difícil; mesmo assim, não consigo resistir em contar-ta.

Chamo-me Renato, tenho 20 anos e sou natural da Vila Nova, um belo recanto da Ilha Terceira (Açores). É preciso recuar ao dia 23 de Junho de 1991 para começar a contar a minha história: quando o Paulo e a Natal disseram um sim que até hoje permanece! De facto, quando naquele Maio de 1992, abri os olhos para este mundo, fui recebido num lar onde o amor podia ser visto em cada gesto dos meus pais para comigo e, depois cinco anos mais tarde, para com a minha irmã. E fui crescendo! Cresci a gostar de participar na Eucaristia Dominical, a gostar de rezar, a gostar de obrigar os meus primos e vizinhos a brincar comigo às procissões, a gostar de ler coisas sobre Deus, e a dizer, lá de vez em quando, que queria ser padre. No entanto, enquanto ia crescendo, embora o gosto não desaparecesse, o dizer que queria ser padre foi algo que, com a vergonha, foi ficando cada vez mais só no íntimo do meu coração; até que o fui tentando esquecer.

Enquanto fui crescendo, fui-me integrando na minha comunidade: primeiro no grupo de crianças, depois no grupo de oração, a seguir no grupo de jovens, no curso bíblico, e ainda na catequese, e depois na organização de retiros e outras actividades… E como era feliz! Vivia em amizade com Jesus; uma amizade alimentada na oração, provocada pelo trabalho pastoral, aumentada pelas pequenas contrariedades que ia encontrando, clarificada pelas pessoas que viviam com as mesmas ânsias do que eu. Esperava a cada momento uma palavra de Jesus, em que me manifestasse qual era a sua vontade para mim.

Na altura de escolher a área de estudos para o Secundário, deparei-me de frente com a questão do futuro e da vocação: era necessário preparar caminho para aquilo que Jesus me pedisse; eu não poderia recusar! Não posso esquecer as longas conversas com o meu pároco, o Pe. Francisco, e com alguns amigos e familiares, principalmente a minha mãe, sobre este tema. E comecei a fazer um discernimento vocacional mais sério, a buscar calar a minha voz e deixar falar a voz de Deus. Sentia que Ele me chamava: “cuida do teu povo!”. Sim, a minha primeira vocação é a vocação ao serviço, em clave de amor, ao povo de Deus. Mas esse “teu povo” era, no meu curto horizonte, o povo da minha terra, ou no máximo, da minha diocese.

Até que um dia, Deus abriu-me os horizontes, através do meu director espiritual: porque não experimentar a vida religiosa? Entrei em contacto com os Carmelitas e descobri a beleza do carisma legado por Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz: oração, comunidade e apostolado. A 15 de Outubro de 2010, iniciei o meu postulantado (primeiro período de experiência), no Convento Stella Maris (Porto). Foram dois anos de forte experiência do carisma teresiano. No meio de algumas dúvidas e incertezas, caminhei até à entrada no noviciado (2 de Setembro de 2012).

O que se passou nestes dois anos de vida carmelitana? É quase impossível descrever! A primeira experiência foi a de “deixar”: a família, a comunidade, os amigos, a terra; e, a um nível mais profundo, aquilo que eu pensava ser a vontade de Deus. Afinal, aquele “teu povo” eram e são todos os homens e mulheres, de todos os pontos do globo! Abri os olhos e vi-me com os braços cheios de pessoas de quem tinha que cuidar! Mas ainda faltava algo… faltava a peça central do puzzle!

E é isto que, de uma maneira mais radical, estou a começar a descobrir: a vocação a entregar-me a Deus. Sim, Deus pede-me a vida para Ele, como o amante pede a vida da amada, pede-me todo para Ele, na expressão concreta dos votos de pobreza, castidade e obediência. Só depois de me unir ao Amado, de me centrar no essencial, poderei cuidar de tantos e tantas que precisam encontrar esse amor.

No fundo, foi o amor a chave que me fez compreender a minha vida. Para mim, amar é “dar tudo e dar-se a si mesmo” (Sta. Teresinha). Sim, dei a Deus/deixei (não os abandonando, claro!) a minha família, a minha comunidade, os meus amigos, a minha terra, não porque não os ame ou não me sinta amado, mas porque encontrei um Amor Maior, tal como os amantes deixam as suas casas porque encontram um amor maior do que todos os amores. E agora vivo na busca de dar-me a Deus, de entregar a totalidade da minha vida, do meu amor Àquele que me amou. Sim, vivo a abrir-me à beleza transformante da epifania do Amor, manifestada na Cruz. Ainda não me entreguei totalmente a Ele, nem Ele a mim, é certo! Mas, ainda no anoitecer da minha procura (sim, porque é de Noite que se procura o amado!), os que já o encontraram e vivem em união de amor com Ele – Sta. Teresa de Jesus, S. João da Cruz, Sta. Teresinha, Sta. Teresa Benedita da Cruz, B. Isabel da Trindade -, ao comunicar-me a sua experiência, fazem-me ter a certeza de que é Ele o que o meu coração procura.

Mas desengane-se quem pensa que sou um homem maduro e muito silencioso, do qual mal se nota a presença! Sou um jovem que, como tantos outros, gosta de rir, conversar, estar com os amigos e com outros jovens e fazer festa. Sou um jovem que vive feliz na nova família que Deus lhe deu: a multidão de irmãos carmelitas, na expressão concreta da comunidade onde estou, que faz cada dia ser mais alegre. Sou um jovem que, no meio das dúvidas e certezas, vai, por montes e ribeiras, à procura do Amor, vendo a sua história de amizade com Jesus ser transformada em história de amor.

Fr. Renato

17 dezembro, 2012

Passos para uma entrega.




Olá, estimados irmãos, eu sou o Carlos e escrevo-vos desde o Convento do Menino Jesus de Praga, em Marco de Canaveses, onde actualmente estou a viver. Aqui no Marco estou a fazer o noviciado, que começou no passado dia 2 de Setembro. Eu sou natural daqui do Marco de Canaveses e tenho 24 anos.

Para vos falar um pouco do meu caminho de discernimento vocacional preciso de fazer convosco uma pequena digressão pela minha vida. A primeira paragem é no início de 2009, onde hoje, ao olhar para o passado e ao reler os acontecimentos, concluo que Deus agiu sobre a minha vida. Nesses primeiros dias do ano houve um Padre Carmelita na minha paróquia que falou aos fiéis de um jovem que tinham acabado de receber na sua comunidade. Esse jovem, depois de ter uma vida construída, achou que Deus lhe falava e que o chamava a procurar a sua realização pessoal no serviço ao próximo. Eu, quando ouvi aquele testemunho, logo me perguntei: E se fosse eu? E se fosse eu a sentir o chamamento de Deus na minha vida? Seria eu capaz de deixar a minha vida para procurar servir os outros, renunciando a mim próprio? Pensei alguns dias nestas questões, pondo-me na situação deste jovem, perguntando-me sobre quais seriam as suas razões. Porém, devido às situações pessoais que vivia no momento, fui pondo estas perguntas a um canto na minha consciência.

Apesar disso, durante esse mesmo ano fui-me comprometendo com a paróquia: como leitor, como responsável pelos acólitos, como catequista, etc... E com o passar do tempo ia-me sentindo mais feliz e entusiasmado com a ideia de me entregar aos outros através destes pequenos serviços. O que não acontecia antes de me questionar sobre o sentido da vida, antes não sentia a necessidade de me entregar aos outros, bem pelo contrário, pensava apenas em mim e em satisfazer aquilo a que hoje, com a devida propriedade do tempo, posso chamar egoísmo, no qual o “eu” tinha todas as prioridades.

Durante o período que antecedeu esta viragem não ia regularmente à Eucaristia dominical, porque não encontrava um sentido para isso, nem me preocupava em encontra-lo. Hoje, ao olhar para o passado, vejo que esse período foi particularmente difícil, sentia que me faltava alguma coisa, sentia que faltava um sentido para dar à vida. Regressei à Igreja sensivelmente no início de 2009, pouco antes de ouvir falar nesse jovem que queria ser carmelita. Este testemunho representou um novo passo na minha vida, uma era de mudança para a verdadeira felicidade.

O ano foi decorrendo, muitas coisas aconteceram no meu percurso e eu, como disse, fui pondo todo o questionamento de lado. Chegou o Outono e decidi começar a participar nas actividades do Carmo Jovem, das quais me tinham falado uns amigos. A primeira actividade em que participei foi uma caminhada em Vila Nova de Cerveira, na qual encontrei pessoas que, com a sua entrega, me fizeram lembrar todas as questões que tinha esquecido. Nesse dia, descobri e comecei a conhecer os Padres Carmelitas, os quais não conhecia, apesar de viver com eles ao meu lado desde que nasci. Este estilo de vida que me era apresentado questionou-me, pela vida de entrega ao outro. E assim, foi acrescentado um novo vigor à minha pergunta: Qual é o sentido da minha vida?

Nos dias seguintes fui reflectindo sobre todo o meu percurso, sobre o porquê de me sentir mais cheio ao dar-me aos outros, sobre qual seria o sentido para a minha vida. Concluí que tinha de dar um sentido mais profundo à vida e então procurei um Padre Carmelita, com quem tive longas conversas. Ele apresentou-me a espiritualidade carmelita e apresentou-me a possibilidade da vida religiosa, dando assim início a um caminho de discernimento vocacional. Nas conversas que tive com ele disse-lhe, entre outras coisas, que procurava esse sentido mais profundo, que procurava entregar-me aos outros, mas não uma simples entrega pontual, procurava antes entregar toda a minha vida para servir os outros. De acordo com esses diálogos convidou-me a experimentar o estilo de vida dos Carmelitas. O que eu aceitei de imediato, passando a frequentar regularmente e de forma mais familiar a comunidade dos Padres Carmelitas.

Daí em diante comecei a ser acompanhado pelo Padre responsável pela formação no meu discernimento vocacional e, ao fim de alguns meses, ele convidou-me a dar mais um passo no caminho. Desta forma, em Julho de 2010, pedi ao superior do convento para iniciar o postulantado, uma etapa de iniciação à vida religiosa. Desde então tenho feito uma experiência de vida que me realiza, pois encontro neste estilo de vida uma forma de dar um sentido profundo à minha juventude, dando-me aos outros, tal como Cristo fez, por isso pedi para ser admitido ao noviciado, para O procurar imitar o mais que a Graça de Deus me permitir.

Vim para o Marco para dar mais alguns passos e assim nesta casa de formação, que é o noviciado, continuo a aprofundar os meus conhecimentos sobre a Ordem do Carmo e estou a ser inserido mais profundamente na vida religiosa e no carisma teresiano que se fundamenta em três belos princípios: oração, comunidade e apostolado.

Neste momento, sinto-me realizado com a opção que tomei, apesar de nem todos os dias ser fácil dizer sim a esta entrega. Porque, sinto-me muito pequeno ao ver a entrega, totalmente por amor, de Jesus, mas caminho na esperança de também eu dar a minha vida pelos amigos.
Para terminar esta apresentação peço-vos que continueis a pedir ao Senhor da Messe pelas vocações e convido-vos a pensar na seguinte questão: Qual o sentido da minha vida?

Obrigado!

Fr. Carlos