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29 janeiro, 2014

Oh formosura que excedeis!



Formosura que excedeis
mesmo as grandes formosuras!
Sem ferir, sofrer fazeis,
e sem sofrer desfazeis
o amor das criaturas.


Oh, laço que assim juntais
duas coisas díspares!,
não sei porquê vos soltais,
pois atando força dais
pra ter por bem os pesares.



Quem não tem ser vós juntais
com o Ser que não se acaba;
sem acabar, acabais,
e sem ter que amar amais,
engradeceis o nosso nada.


Santa Teresa de Jesus


21 janeiro, 2014

Vossa sou, para vós nasci!



Vossa sou, para Vós nasci,
Que quereis fazer de mim?

Soberana Majestade,
Eterna Sabedoria,
Bondade tão boa para a minha alma,
Vós, Deus, Alteza, Ser Único, Bondade,
Olhai para a minha baixeza,
Para mim que hoje Vos canto o meu amor.
Que quereis fazer de mim?

Vossa sou, pois me criastes,
Vossa, pois me resgatastes,
Vossa, pois me suportais,
Vossa, pois me chamastes,
Vossa, pois me esperais,
Vossa pois não estou perdida,
Que quereis fazer de mim?

Que quereis então, Senhor tão bom,
que faça tão vil servidor?
Que missão destes a este escravo pecador?

Eis-me aqui, meu doce amor,
Meu doce amor, eis-me aqui.
Que quereis fazer de mim?

Eis o meu coração,
que coloco em Vossas mãos,
com o meu corpo, minha vida, minha alma,
minhas entranhas e todo o meu amor.
Doce Esposo, meu Redentor,
para ser Vossa, me ofereci,
que quereis fazer de mim?

Dai-me a morte, dai-me a vida,
a saúde ou a doença
dai-me honra ou desonra
a guerra, ou a maior paz,
a fraqueza ou a paz plena,
a tudo isso, digo sim:
Que quereis fazer de mim?

Vossa sou, para Vós nasci,
Que quereis fazer de mim?

Santa Teresa de Jesus

09 dezembro, 2013

Morro porque não morro!



Vivo sem viver em mim
E de tal maneira espero
Que morro porque não morro

1. Em mim eu não vivo já,
E sem Deus viver não posso;
Pois sem Ele e sem mim quedo,
Este viver que será?
Mil mortes se me fará,
Pois minha mesma vida espero,
Morrendo porque não morro.

2. Esta vida que aqui vivo
É privação de viver;
E assim, é contínuo morrer
Até que viva contigo.
Ouve, meu Deus, o que digo,
Que esta vida não a quero
Pois morro porque não morro.

3. Ausente estando eu de ti,
Que vida poderei ter
Senão morte padecer,
A maior que jamais vi?
Pena e dó tenho de mim,
Pois se assim eu persevero,
Morrerei porque não morro.

4. O peixe que da água sai
Nenhum alívio carece
Que na morte que padece,
Afinal a morte lhe vale.
Que morte haverá que se iguale
Ao meu viver lastimoso,
Pois se mais vivo, mais morro?

5. Quando penso aliviar-me
Vendo-te no Sacramento,
Faz-me em mim mais sentimento
De não poder-te gozar;
Tudo é para mais penar,
Por não ver-te como quero,
E morro porque não morro.

6. Se me deleito, Senhor,
Com a esperança de ver-te,
Vendo que posso perder-te
Redobra-se em mim a dor;
Vivendo em tanto temor
E esperando como espero,
Morro sim, porque não morro.

7. Livra-me já desta morte,
Meu Deus, entrega-me a vida;
Não ma tenhas impedida
Por este laço tão forte;
Olha que peno por ver-te,
O meu mal é tão inteiro,
Que morro porque não morro.

8. Chorarei já minha morte
Lamentarei minha vida,
Enquanto presa e retida
Por meus pecados está.
Oh! Meu Deus! Quando será
Que eu possa dizer deveras:
Vivo já porque não morro?

Santa Teresa de Jesus

04 dezembro, 2013

Exclamações da alma a Deus



1        Ó Deus e minha Sabedoria infinita, sem taxa nem medida e sobre todos os entendimentos angélicos e humanos! Ó amor, que me amas mais do que eu me posso amar, nem entendo! Para que quero eu, Senhor, desejar mais do que o que Vós me quiserdes dar? Para que me quero cansar a pedir-Vos coisa ordenada por meu desejo, pois tudo quanto o meu entendi­mento pode concertar e meu desejo desejar, tendes Vós já entendido seus fins, e eu não entendo como disso me aproveitar? Naquilo em que minha alma pensa sair com lucro, estará porventura a minha perdição. Porque, se Vos peço para me livrardes dum trabalho, e o fim dele é a minha morti­ficação, que é que Vos peço, Deus meu? Se Vos suplico que mo envieis, não convirá porventura à minha paciência, que ainda é fraca e não pode sofrer tão grande golpe. E se o passo com paciência, e não estou forte na humildade, poderá ser que pense que fiz alguma coisa, e Vós é que fizestes tudo, meu Deus. Se quero padecer mais, não o quereria, no entanto, em coisas em que parece não convir para Vosso serviço perder o crédito, visto que por mim, não me veja com sentimentos de apego à honra; e poderá ser que, pela mesma causa em que penso se há-de perder, se ganhe mais para aquilo que pretendo que é servir-Vos.
2             Muitas mais coisas pudera eu dizer disto, Senhor, para dar a entender a mim mesma que não me entendo. Mas como sei que as entendeis, para que falo? Para que quando veja despertar a minha miséria, Deus meu, e cega a minha razão, possa ver se a encontro aqui, neste escrito de minha mão. Que muitas vezes me vejo, Deus meu, tão miserável e fraca e pusilâ­nime, que ando à procura do que se fez da Vossa serva, daquela a quem já lhe parecia ter recebido bastantes mercês Vossas, para poder pelejar contra as tempestades deste mundo. Não, meu Deus, não; não mais confiança em coisa que eu possa querer para mim! Querei de mim, Senhor, o que bem quiserdes: isso quero eu, pois todo o meu bem está em contentar-Vos. E se vós, Deus meu, me quisésseis contentar a mim, cumprindo tudo o que pede o meu desejo, vejo que iria perdida.
3.        Que miserável é a sabedoria dos mortais e incerta a sua providência! Provede Vós pela Vossa os meios necessários para que a minha alma Vos sirva mais a Vosso gosto do que ao seu. Não me castigueis com dar-me o que eu quero ou desejo, se o Vosso Amor – que em mim ele viva sempre! – não o desejar! Morra já este eu, e viva em mim Outro que é mais do que eu, e para mim melhor do que eu mesma, para que eu O possa servir! Que Ele viva e me dê vida! Que Ele reine e seja eu Sua escrava! Minha alma não quer outra liberdade. Como está livre aquele que estiver alheio do Sumo Bem? Que maior e mais miserável cativeiro do que a alma estar solta da mão do Seu Criador? Ditosos aqueles que, com os fortes grilhões e cadeias dos benefícios da misericórdia de Deus, se virem presos e inabilitados para se poderem libertar. Forte como a morte é o amor e duro como o inferno.
Oh! Quem se visse já morto às suas mãos e arrojado neste divino inferno, de onde já não esperasse poder sair, ou, para melhor dizer, não temesse de se ver fora! Mas, ai de mim, Senhor, pois enquanto dura esta vida mortal, sempre corre perigo a eterna!
   4.    Ó vida inimiga de meu bem; quem tivesse licença para acabar con­tigo! Sofro-te, porque Deus te sofre, e mantenho-te porque és d’Ele! Mas não me sejas traidora nem desagradecida.
                Com tudo isto, ai de mim, Senhor, que é longo o meu desterro! Breve todo o tempo para o dar pela vossa eternidade; muito longo é um só dia e uma hora para quem não sabe e teme se Vos virá a ofender! Ó livre alvedrio, tão escravo de tua liberdade se não vives cravado com o temor e o amor de Quem te criou! Oh! Quando será aquele ditoso dia em que te hás-de ver afogado naquele mar infinito de suma Verdade, onde já não serás livre para pecar, nem o quererás ser, porque estarás seguro de toda a miséria, natura­lizado com a vida de teu Deus!
 5.      Ele é bem-aventurado porque Se conhece e ama e goza de Si mesmo, sem ser possível outra coisa; não tem, nem pode ter, nem fora perfeição em Deus poder ter liberdade para olvidar-se de Si mesmo e deixar de Se amar. Então, alma minha, entrarás em teu descanso, quando te entranhares neste Sumo Bem, entenderes o que ele entende, amares o que Ele ama e gozares o que ele goza. Assim que vires perdida a tua mutável vontade, então não mais, não mais mudança! A graça de Deus pôde tanto, que te fez partici­pante de Sua divina natureza; e com tanta perfeição, que já não possas nem desejes poder-te esquecer do Sumo Bem, nem deixar de O gozar, juntamente com o Seu amor. 
6. Bem-aventurados os que estão inscritos no livro desta Vida!  Mas tu, alma minha, se o estás, porque estás triste e me conturbas? Espera em Deus que ainda agora confessarei a Ele os meus pecados e as Suas mise­ricórdias, e, de tudo junto, farei um cântico de louvor com suspiros perpétuos ao meu Salvador e meu Deus. Poderá ser que venha algum dia em que Lhe cante a minha glória e não seja compungida minha consciência, onde já cessaram todos os suspiros e medos. Mas, entretanto, na esperança e no silêncio estará a minha fortaleza. Mais quero viver e morrer a pretender e esperar a vida eterna, que possuir todas as criaturas e todos os seus bens que hão-de acabar. Não me desampares, Senhor, porque em Ti espero; não seja confundida a minha esperança. Sirva-Te eu sempre e faz de mim o que quiseres.

Santa Teresa de Jesus (Exclamações XVII)

03 dezembro, 2013

Exclamações da alma a Deus



1. Parece, Senhor meu, que descansa a minha alma considerando o gozo que terá, se, por Vossa misericórdia, lhe for concedido gozar de Vós. Mas quereria primeiro servir-Vos, pois há-de gozar do que Vós, servindo-a a ela, lhe ganhastes. Que farei, Senhor meu? Que farei, meu Deus? Oh! Que tarde se incendiaram meus desejos, e que cedo andáveis Vós, Senhor,1 granjeando e chamando para que toda eu me empregasse em Vós! Por­ventura, Senhor, desamparais ao miserável ou apartais o pobre mendigo quando ele se quer chegar a Vós? Porventura, Senhor, têm termo as Vossas grandezas ou vossas magníficas obras? Ó Deus meu e misericórdia minha! E como as podereis agora mostrar em vossa serva! Poderoso sois, grande Deus; agora poder-se-á entender se minha alma se entende a si mesma vendo o tempo que perdeu, e como num instante Vós podeis, Senhor, fazer com que o torne a ganhar. Parece-me que desatino; é que o tempo perdido
– como costumam dizer – não se pode tornar a recuperar. Bendito seja o meu Deus!
2. Ó Senhor! Confesso Vosso grande poder. Se sois poderoso, como sois, que há de impossível ao que tudo pode? Querei Vós, Senhor meu, querei! Ainda que seja miserável, creio firmemente que podeis o que quereis, e quanto maiores maravilhas ouço de Vós e considero que podeis fazer ainda mais, mais se fortalece a minha fé e com maior determinação creio que Vós fareis o que Vos peço. E que há para se admirar do que faz o Todo­-Poderoso? Vós bem sabeis, meu Deus, que no meio de todas as minhas misérias nunca deixei de conhecer Vosso grande poder e misericórdia. Valha-me, Senhor, isto em que Vos não ofendi.
Recuperai, Deus meu, o tempo perdido dando-me graça no presente e no porvir, para que apareça diante de Vós com vestes de bodas, pois, se quiserdes, podeis.

Santa Teresa de Jesus (Exclamações IV)

02 dezembro, 2013

Relações


1             Oh! Quem pudesse dar bem a entender a V. Senhoria a quietude e sossego em que se encontra a alma! É já tanta a certeza de que há-de gozar de Deus, que parece já goza a alma da posse que se lhe há dado, embora não tenha o gozo. É como se alguém houvesse dado a outro uma grande renda. E, por meio de escrituras muito firmes, para a gozar daí a certo tempo e colher frutos; mas até então não goza senão da certeza que já lhe deram, de que gozará esta renda. E, com o reconhecimento que lhe fica, nem a quereria gozar, porque lhe parece que não a mereceu, senão somente servir, ainda que esteja padecendo muito; e até, algumas vezes, parece que daqui até ao fim do mundo seria pouco para servir a Quem lhe deu esta posse. É que, na verdade, já em parte não está sujeita às misérias do mundo como costumava; porque, embora sofra mais, dir-se-ia tão somente to­carem-lhe na roupa. A alma está como num castelo, com senhorio, e assim não perde a paz, ainda que esta segurança não lhe tire um grande temor de ofender a Deus e não a faça deixar tudo o que possa impedi-la de O servir, e assim anda com mais cuidado ainda. Mas vive tão olvidada de seu próprio proveito, que lhe parece ter em parte perdido o ser, tão esquecida anda de si mesma. Em tudo tem em vista o que é de honra de Deus, o cumprir melhor a Sua vontade e que Ele seja glorificado.

2             Conquanto isto seja assim, no que toca à sua saúde e corpo, pare­ce-me ter maior cuidado e menos mortificação no comer e, no fazer penitência, não são os desejos que tinha. Mas, ao que parece, tudo vai ordenado a fim de poder servir mais a Deus em outras coisas e muitas vezes Lhe oferece como um grande sacrifício o ter de cuidar do corpo, pois muito lhe custa. E algumas vezes põe-se à prova em alguma penitência, mas, e sem dúvida a seu parecer, não a pode fazer sem dano da sua saúde, e lem­bra-se do que seus prelados lhe mandam. Isto no desejo que tem de ter saúde, também se deve intrometer bastante amor próprio. Mas, a meu pa­recer, entendo que me daria muito mais gosto poder fazer penitência, como me dava quando fazia muita; porque ao menos parecia-me fazer alguma coisa e dar bom exemplo e vivia sem este tormento que causa o não servir a Deus em nada. Veja V. Senhoria o que será melhor fazer quanto a isto.
3             Isto das visões imaginárias cessou; mas parece que sempre se anda com esta visão intelectual destas três Pessoas e da Humanidade, que é, ao que penso, graça muito mais subida. E agora entendo, segundo julgo, que eram de Deus as que tenho tido, porque dispunham a alma para o estado em que agora está. Mas, como tão miserável e de tão pouca fortaleza, levava-a Deus como via que era preciso; a meu parecer, são muito de apreciar quando são de Deus.
4             As falas interiores não cessaram, pois, quando é mister, dá-me Nosso Senhor alguns avisos e, ainda agora em Palência, ter-se-ia feito um bom disparate, embora não de pecado, se não fora isto.27
5             Os actos e os desejos não parece que levam a força que costumavam, pois, ainda que sejam grandes, é maior a força que tem o desejo de que se faça a vontade de Deus e de quanto seja de Sua glória; ora, como a alma está bem convencida de que Sua Majestade sabe o que para isto convém e está apartada de todo o interesse próprio, acabam-se-lhe depressa esses outros desejos e actos; e, em meu parecer, não têm em si força. Daqui procede o medo que trago em mim, algumas vezes, embora não com a inquietude e pena que costumava, de que esteja a alma apalermada e eu sem fazer nada, porque penitência não posso fazer. Desejos de padecer e de martírio e de ver a Deus, não têm força e o mais ordinário é não poder. Parece que vivo só para comer e dormir e não ter pena de nada, e até isto de não ter pena, não ma dá, como digo, que temo seja engano. Mas não o posso crer porque, sem dúvida alguma, me parece não reina em mim, com força, apego a nenhuma criatura nem a toda a glória do Céu, mas só o amar a este Deus, que isto não sofre diminuição, antes, a meu parecer, cresce, bem como o desejo que todos O sirvam.
6             Mas com isto me espanta uma coisa: é que aqueles sentimentos tão excessivos e interiores que me costumavam atormentar ao ver as almas perderem-se e, ao pensar se faria alguma ofensa a Deus, tão pouco os posso sentir agora desse modo, ainda que, a meu parecer, não é menor o desejo de que não seja ofendido.
7             Há-de advertir V. Senhoria que em tudo isto, quer no que agora tenho, quer no passado, não hei podido mais, nem está em minha mão; servir mais, isto sim; poderia se não fosse tão ruim. Mas digo que, se eu agora, com grande cuidado, procurasse desejar morrer, não poderia nem fazer osactos como costumava, sem sentir as penas pelas ofensas de Deus, nem tão pouco os temores tão grandes que trouxe em mim tantos anos, pois me parecia andar enganada. E assim, agora já não preciso de andar a consultar letrados nem de dizer nada a ninguém: é só assegurar-me se vou bem e se posso fazer alguma coisa. E isto tenho tratado com alguns com quem havia tratado o demais, que é o Frei Domingo e o Mestre Medina e uns da Com­panhia. Com o que V. Senhoria agora me disser, acabarei de me assegurar pelo grande crédito em que o tenho. Olhe muito a isto, por amor de Deus.
Também não me foi tirado o entender que estão no Céu algumas almas dos que morrem, das que me tocam de perto; outras, não.
8             A soledade me faz pensar que não se pode dar aquele sentido a: «o que se amamenta aos peitos de minha mãe».29 A ida para o Egipto...
9             A paz interior e a pouca força que têm contentos e descontentos para tirarem de modo durável esta Presença, tão sem se poder duvidar das Três Pessoas, em que claramente nos parece que se experimenta o que diz São João: «que faria a sua morada na alma»,30 e isto, não só por graça, mas dando a sentir esta presença que traz consigo tantos bens que nem se po­dem declarar, é de tal maneira que não se precisa de andar a buscar consi­derações para se conhecer que está ali Deus.

E isto é quase ordinariamente, a não ser quando a muita enfermidade acabrunha; que, algumas vezes, parece querer Deus que se padeça sem consolação interior, mas nunca, nem por primeiro movimento, torce a vontade sequer um só ponto de que se faça nela a de Deus.
Tem tanta força este render-se à vontade divina que não se quer nem a morte nem a vida; a não ser, por pouco tempo, quando deseja ver a Deus. Mas logo se lhe representa com tanta força ter presentes estas três Pessoas, que com isto se remedeia a pena desta ausência e fica o desejo de viver, se Ele assim quer, para mais O servir e, se pudesse, contribuir para que, por seu intermédio, sequer ao menos uma alma O amasse mais e O louvasse. Pois ainda mesmo por pouco tempo, isto parece importar mais do que estar na glória.
Teresa de Jesus (R 6)

30 novembro, 2013

Relações



Passei todo o dia de ontem numa grande soledade. Assim, a não ser quando comunguei, não fez em mim nenhum efeito ser dia da Ressurreição. Ontem, à noite, estando com todas, cantaram umas coplas, dizendo como o viver sem Deus era custoso de sofrer. Como estava já com mágoa, foi tanta a operação que em mim fizeram, que as mãos se me começaram a entorpecer, e não houve resistência possível.  Pois, assim como saio de mim pelos arroubamentos de gozo, da mesma maneira a alma suspende-se pela grandíssima pena, ficando alheada. Até hoje eu não tinha ainda compreendido isto. Até a alguns dias a esta parte, parecia-me não ter tão grandes ímpetos como costumava. Agora parece-me que a causa é isto que tenho dito, eu nem sei se pode ser, pois dantes a pena não chegava a fazer-me sair de mim e, como é tão intolerável e eu estava em meus sentidos, fazia-me dar grandes gritos sem eu o poder evitar. Agora, como tem crescido, chegou a termos deste trespassamento e entendo melhor o que Nossa Senhora teve, porque até hoje, como digo, não o tenho enten­dido. Ficou tão quebrantado o corpo que, ainda hoje, escrevo isto com bastante custo, pois ficam como desconjuntadas as mãos e com dor.

 Dir-me-á, V. Mercê, quando me vier ver, se pode haver este alhea­mento causado por pena e se o que sinto é tal como é, ou se me engano.

 Até esta manhã estive com esta pena e, estando em oração, tive um grande arroubamento: Parecia-me que Nosso Senhor me tinha levado o espírito até junto de Seu Pai e Lhe dizia: «Esta, que Me deste, Eu Te dou», e que me chegava a Si. Isto não é coisa imaginária, mas com uma grande certeza e uma delicadeza tão espiritual, que de todo não se sabe dizer. Disse-me algumas palavras que não me recordo; de mercê eram algumas. Durou algum tempo o ter-me junto de Si.

Como V. Mercê se foi ontem embora tão depressa, não ficando nem sequer o necessário para eu me poder consolar – pois bem vejo as muitas ocupações que tem e como são mais necessárias – fiquei, durante um bocado, com pena e tristeza. Como eu já sentia a soledade de que falei, ela ajudou a isso; e, como não me parece estar apegada a criatura alguma da terra, deu-me certo escrúpulo, temendo não começasse eu a perder esta liberdade. Isto foi ontem à noite. E, hoje, Nosso Senhor respondeu-me e disse-me que não me maravilhasse: que, assim como os mortais desejam companhia para comunicar seus contentamentos sensíveis, assim a alma deseja – quando há quem a entenda – comunicar os seus gozos e penas e se entristece por não ter com quem. Disse-me: «Ele, agora, vai bem e agradam-Me as suas obras».

Como Ele esteve algum tempo comigo, recordei-me de ter dito a V. Mercê que passavam depressa estas visões. Disse-me então o Senhor que havia diferença entre estas e as imaginárias e que não podia haver regra certa nas mercês que nos fazia, porque umas vezes convinha de uma maneira e outras de outra!

Depois de comungar, parece-me clarissimamente, assentou-se junto de mim Nosso Senhor e começou a regalar-me com grandes consolações. Disse-me entre outras coisas: «Aqui me vês, filha, pois sou Eu; mostra tuas mãos». Parecia-me que me pegava nelas e as chegava a Seu lado; disse: «Olha as Minhas chagas; não estás sem Mim. A brevidade da vida passa».
Por certas coisas que me disse, entendi que, depois que subiu ao Céu, nunca baixou à terra, a não ser no Santíssimo Sacramento, a comunicar com alguém.

Disse-me que, em ressuscitando, fora ver Nossa Senhora, que tinha já grande necessidade, pois a pena a tinha tão absorta e trespassada, que não tornou logo a si para gozar daquele gozo e tinha estado muito tempo com Ela, o que havia sido preciso, até a consolar.  Por isso entendi esse outro trespassamento que sofro, mas quão diferente. Qual não devia ser o da Virgem!

Santa Teresa R 15, Fevereiro de 1571, Salmanca