05 janeiro, 2013

Testemunho vocacional



A razão deste texto deve-se à amizade. Ela é um campo sem fronteiras. Alguns amigos têm perguntado por mim. 

No dia 3 de Agosto de 2009, na “Domus Carmeli”, casa dos Carmelitas Descalços, em Fátima, fiz a minha profissão solene nas mãos do superior da Ordem, Frei Pedro Lorenço Ferreira. 

Para trás ficam passos dados e opções feitas: Seminário da diocese de Viana do Castelo (1992 a 2001); Escola Secundária de Monserrate (Viana do Castelo). 

Após um intenso discernimento vocacional, ingressei na Ordem dos Carmelitas Descalços. Vivendo sempre inserido na vida comunitária passei por Viana do Castelo, Moçambique e Marco de Canaveses (postulantado). Neste tempo, fiz uma experiência importante de voluntariado (Gabinete de Atendimento à Família – GAF e missão de São Roque, em Moçambique. 

Com o noviciado (Desierto de Las Palmas - Espanha, 2002) pude entrar mais adentro na vida consagrada carmelita através da oração, da vida fraterna e do trabalho intelectual e manual.

A filosofia (2003 a 2005 - Granada e Salamanca) e a teologia (2005 a 2008, Porto) introduziram-me na arte de pensar o homem e Deus. Deste modo fui-me conhecendo melhor como homem de Deus. Em Julho de 2008, fiz o Mestrado integrado em Teologia na Universidade Católica do Porto e, em Fátima (2009), sob o olhar de Nossa Senhora, tomei a decisão de consagrar toda a minha vida ao serviço de Deus e da Igreja na Ordem dos Carmelitas Descalços.

«Caminante, no hay camino; se hace camino al andar» (A. Machado). E agora continuo a andar... para continuar a fazer caminho.

Frei Marco de S. Teresa do Menino Jesus

04 janeiro, 2013

Vigília com Santa Teresa de Jesus




Foi um momento simples, harmonioso, forte e profundo de oração.
Durante a vigília, e sobre o vasto manto da escuridão da mata do Convento dos Padres Carmelitas em Avessadas, vimos e sentimos crianças, jovens, adultos, casais e famílias em comunhão, em reflexão, em silêncio como a verdadeira comunidade cristã que é quando se junta para rezar.

O empenho e emoção dedicadas, neste momento revigorante, pelas crianças, jovens e comunidade carmelita, demonstrou-nos que com gestos simples, sem grandes luzes, sem personagens importantes, sem grandes orquestras, simplesmente ao som de uma viola, vozes suaves, sons da natureza, da luz trémula das velas e com a presença de pessoas crentes se consegue proporcionar uma noite rica em emoções, de paz interior, de proximidade e de cumplicidade com Deus como Santa Teresa de Jesus fazia.

São momentos como estes que nos mostram a força da comunidade cristã, sem ter que recorrer às luzes da rivalta e aos movimentos de massas que tanto nos cegam e desviam da simplicidade de estarmos juntos em comunidade rezando.
Bem haja o manter da luz acesa.
A família
              Augusto, Marta, Pedro e Maria

03 janeiro, 2013

Vigília de oração com Santa Teresa



No passado dia 20 de Outubro, nós, os noviços, em colaboração com o grupo de jovens GPS da paróquia de Avessadas, dirigimos uma vigília de oração, com o intuito de assinalar a solenidade de Santa Teresa de Jesus, a 15 de Outubro. Esta vigília aconteceu alguns dias após a solenidade, para que se pudesse reunir os jovens do grupo.

Uma vez que esta vigília era destinada a orar com Teresa de Jesus, fundadora desta grande família, que é o Carmelo Descalço, a oração não poderia deixar de a ter por tema. Assim, todos procuramos fazer um percurso com Santa Teresa, que nos explicou toda a dinâmica da oração como história de amizade com Deus. Na preparação da vigília, tivemos em conta, essencialmente, a sua definição de oração (“oração […] não é mais do que uma relação de amizade, estando muitas vezes a sós, com Quem sabemos que nos ama” V 8, 5) e os quatro graus de oração, que marcam as principais etapas no aprofundamento da intimidade com Deus.

Neste sentido, procuramos aproveitar os espaços da mata que retratam, precisamente, estes quatro graus de oração, que são também uma comparação com os quatro modos de regar. O primeiro grau da oração é o poço: o orante que inicia o caminho de oração ainda se sente muito longe de Deus e para conseguir orar precisa de pôr muito trabalho da sua parte, o qual consiste, essencialmente, em se determinar a responder de todo o coração ao amor infinito que Deus lhe tem, tal como o jardineiro que tem que, determinadamente, atirar o balde ao poço para tirar água, puxá-lo e levar a água até às plantas que precisam de ser regadas. 

Segue-se a nora de alcatruzes: tal como o jardineiro tira mais água e com menos trabalho, assim também o orante começa a sentir Deus cada vez mais perto de si e torna-se também mais consciente do grande amor de Deus por ele. A tensão amorosa entre Deus e o orante começa a tornar-se cada vez mais intensa.

Haverá menos trabalho da parte do jardineiro e do orante, se a água provém de uma fonte ou de um rio, porque basta encaminhar a água até ao sítio devido. Neste terceiro grau da oração, o próprio Deus começa a fazer-se presente ao orante, tendo este menos trabalho em procurar Deus, que não pode ver nem sentir com os seus sentidos exteriores. Este grau de oração é também significado de uma grande intimidade entre Deus e o orante, resultado de um esforço do orante por corresponder ao amor que lhe vem de Deus, esforço que é cada vez mais determinado, porque o orante começa a receber o fruto que deseja, a proximidade com o seu Criador.

Contudo, há mais uma forma de regar o jardim: a chuva. Então não há trabalho nenhum do jardineiro, nem do orante, que, simplesmente, vê o seu Senhor a fazer brotar as flores do seu jardim, no qual Ele se vem deleitar com os preciosos perfumes das flores.

Esta comparação expõe o orante como jardineiro que tem por função cuidar do jardim, que é a sua própria alma. Neste jardim, estão as sementes que darão origem às plantas e, posteriormente, às flores. Estas últimas são as virtudes. Destas flores, exala o perfume que deleita o Senhor do jardim, Deus. O jardineiro tem que regar as sementes e as plantas para que elas cresçam até que floresçam as flores, as quais têm que continuar a ser regadas, para não secarem. A água que alimenta as virtudes é o amor que procede da relação amorosa entre a Pessoa de Deus e a pessoa do orante. Este amor é uma “dupla corrente” entre Deus e o orante, pois o amor é dado por Deus a todo o ser humano, mas para que este amor se complete, perfeitamente, necessita de uma resposta afirmativa do orante. Deste modo, estabelece-se entre o orante e Deus uma tensão amorosa que os aproxima cada vez mais. Quanto mais intensa é a resposta do orante, mais intensa é a intimidade entre Deus e o orante; e quanto mais intensa é a intimidade, mais intensa é a resposta do orante a Deus. Desta tensão amorosa crescente resulta a simplificação da pessoa do orante e, como consequência, desenvolvem-se no orante as virtudes.

Teresa não nos escondeu que orar é difícil, porque é difícil ser simples a quem leva tanta experiência em ser complicado. O homem à medida que se torna mais complexo, com o processo normal de crescimento, também se torna mais complicado e isso dificulta-lhe o contacto com o Transcendente, com o absolutamente Outro que o interpela. Assim, todo o trabalho do orante para chegar à intimidade de Deus resume-se a um processo de simplificação que se torna sofrido pela resistência, consciente ou inconsciente, do orante à simplificação. O agente principal desta simplificação é Deus, o orante só tem que se abrir e dar o seu consentimento à acção de Deus em si. Mas Teresa também garante que a todo aquele que se determina a empreender esta relação de amizade com Deus, Deus não o abandona, nem o deixa morrer à sede, ou seja, não o deixará morrer sem o Seu amor.
Os Noviços


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02 janeiro, 2013

A bênção de Deus! (Homilia no primeiro dia do ano )



Estimados irmãos: nós, cristãos, entramos no novo ano, não com o rosto carregado de amargura, de dor, de sofrimento ou incertezas, mas de confiança e de esperança num novo amanhã. Embora façamos parte duma sociedade e dum mundo que se dizem em crise, entramos no novo ano debaixo da bênção. 

A primeira bênção de Deus dada à humanidade na plenitude dos tempos foi o “sim” de Maria. Depois outras se seguiram: Jesus, o Messias que estava para vir ao mundo, o Evangelho ou a Boa Nova que nos haveria de ensinar a ser e a viver, a formação da Igreja, povo de Deus, a instituição dos sacramentos, com especial destaque para o Baptismo, Eucaristia e Confirmação, a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, o testemunho dos cristãos nos primeiros séculos e a fé recebida dos nossos pais e familiares. 

A primeira leitura deste dia colocava-nos a todos debaixo da bênção de Deus, à semelhança do que Ele fez, outrora, com o seu povo, Israel. As mesmas palavras que o Senhor pediu a Moisés que dissesse a Aarão e aos seus filhos, para que eles, por sua vez, as dirigissem a todo o povo, assim pede, hoje, aos seus apóstolos, como eu, para que as pronunciem sobre vós: “O Senhor vos abençoe e vos proteja. O Senhor faça brilhar sobre vós a sua face e vos seja favorável. O Senhor volte para vós os seus olhos e vos conceda a paz”. 

Porém, a bênção do Senhor requer a nossa participação, a nossa colaboração em cada dia. Mas em que sentido ou de que forma? Podemos ficar todos a sabê-lo através duma oração composta, outrora, pelo Papa João XXIII ao “hoje”, ao nosso “santo hoje”, ao modo como podemos viver a oportunidade do “agora” e de cada momento como se fosse único:

Hoje, apenas hoje!

«Procurarei viver pensando apenas no dia de hoje, sem querer resolver de uma só vez todos os problemas da minha vida.

Hoje, apenas hoje, terei o máximo cuidado com a minha convivência: afável nas minhas maneiras, a ninguém criticarei, nem pretenderei melhorar ou corrigir ninguém à força, senão a mim mesmo. 

Hoje, apenas hoje, serei feliz na certeza de que fui criado para a felicidade, não só no outro mundo, mas também já neste.

Hoje, apenas hoje, adaptar-me-ei às circunstâncias sem pretender que sejam todas as circunstâncias a adaptarem-se aos meus desejos.

Hoje, apenas hoje, dedicarei dez minutos a uma boa leitura. Assim como o alimento é necessário para a vida do corpo, assim a boa leitura é necessária à vida do espírito.

Hoje, apenas hoje, farei uma boa acção e não direi nada a ninguém.

Hoje, apenas hoje, farei ao menos uma coisa que me custe fazer; e se me sentir ofendido nos meus sentimentos, procurarei que ninguém o saiba.

Hoje, apenas hoje, executarei um programa pormenorizado. Talvez não o cumpra fielmente, mas ao menos escrevê-lo-ei. E fugirei de dois males: a pressa e a indecisão.

Hoje, apenas hoje, acreditarei firmemente – embora as circunstâncias mostrem o contrário – que Deus se ocupa de mim como se não existisse mais ninguém no mundo.

Hoje, apenas hoje, não terei qualquer medo. De modo especial, não terei medo de apreciar o que é belo e crer na bondade».

Amen.

(João XXIII)

Pe. Vasco

01 janeiro, 2013

MAIS UM ANO




O começo dum novo ano é, para todos, fonte de esperança. É o momento em que, às doze da noite do 31 de Dezembro, soam os campanários e desejamos deixar para trás todas as coisas más que aconteceram, tudo o que é velho, para receber as coisas boas que nos permitam renovar a vida. 

Para o cristão, esta esperança não constitui simplesmente um bom desejo; funda-se na segurança de que Deus, Senhor do Tempo e da história, nos acompanha e nos abençoa, e na certeza de que cada ano que passa é um ano que nos aproxima mais e mais d'Ele.

Assim, sem esquecer a festa e a alegria que traz o novo ano, o cristão deveria começar o novo ano oferecendo-o a Deus desde as suas primeiras horas. Um ano novo, na realidade, uma vez passado o entusiasmo das primeiras horas, apresenta-se como uma grande incógnita; trará, sem dúvida, coisas boas, mas sabemos que nem todas o serão. Como dizia Santa Teresinha aos seus tios desejando-lhes um bom ano novo de 1893: “Queria, se fosse possível, que o novo ano não lhes reservasse mais do que alegrias. Mas a Deus, que sabe a recompensa que tem reservada para os seus amigos, gosta, geralmente, de os fazer ganhar os seus tesouros através de sacrifícios”.

A Liturgia do primeiro dia do ano, solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, ajuda-nos a reflectir sobre estas realidades. Assim, a primeira leitura da missa (Nm 6, 22-27) traz-nos a bênção de Deus sobre o povo eleito, o que nos recorda que o Senhor guarda a nossa vida, resplandece perante nós como Pai de luz e derrama sobre nós a Sua paz. A bênção que recolhem estes versículos do livro dos Números é um convite a acolher a vida com confiança, a saber que, acima das dificuldades que se apresentarão no ano, a presença de Deus não nos faltará. Di-lo também Santa Teresinha na carta citada: “Contudo, mesmo no meio das provas que envia, Deus está cheio de delicadezas”.

Esta esperança, que nos permite olhar o futuro com paz, não se funda num sentimento subjectivo. Como nos recorda S. Paulo na segunda leitura do primeiro dia de Janeiro (Gal 4, 4-7): “ao chegar a plenitude dos tempos, enviou Deus a Seu Filho, nascido de uma mulher"; assim podemos fundamentar a nossa confiança no facto real e objectivo da presença de Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, no meio de nós.

O Deus que está acima do tempo, o Senhor da história, teve por bem, pela Sua infinita misericórdia, entrar na nossa história, assumir a nossa carne. Como Maria, acolhemos esta notícia e meditamo-la no nosso coração (cf. Lc 2, 16-21, evangelho do dia) e como os pastores glorificámos e louvámos a Deus pelas maravilhas que temos visto e ouvido.  

Maria, a qual celebramos hoje como Mãe de Deus, é recordada na Eucaristia como intercessora (oração colecta) e cantada na antífona de entrada como a Mãe Santa que deu à luz o Rei que governa o Céu e a terra pelos séculos dos séculos.

Fiados em tão poderosa intercessora e em seu Filho, podemos entrar com absoluta confiança no novo ano, seguros de que a nossa vida está, sempre, nas mãos de Deus, ao qual podemos chamar Abbá, Pai.

Pe. Emílio Martinez