09 fevereiro, 2013

Orar à maneira de Jesus e daqueles que se encontraram com Ele... (I)




Objectivos:

- Conhecer os conteúdos salvíficos presentes nestas orações
            - Acolher esses conteúdos nas nossas próprias orações, a fim de as tornarmos mais humanas e evangélicas (isto é, orações que levam o nosso ser, a nossa vida, a nossa história e o autêntico rosto de Deus)
- Fazer notar como ainda hoje, e em sentido lato, podemos rezar com algumas dessas expressões orantes.

Meios/recursos: Para desenvolver este tema, não obstante comecemos por mencionar alguns dados dos evangelistas Mateus, Marcos e Lucas, deitamos mãos à visão Joanina sobre a oração.

I. A oração de Jesus:

       - Em lugares e momentos importantes da sua vida

       Nos evangelhos sinópticos, aparece muitas vezes Jesus em atitude de oração. Os evangelistas fazem-nos compreender que Ele ora, de preferência, em lugares solitários (Mc 1,35) e em ocasiões importantes da sua vida pública.
         Assim, Ele ora pela ocasião do Baptismo (Lc 3,21-22), quando realiza os milagres (Lc 5,16), na escolha dos doze (Lc 6,12), antes de ensinar o «Pai nosso» (Lc 11,1), no contexto da profecia sobre a renegação de Pedro e a sua conversão (Lc 22,32), no horto das Oliveiras (Lc 22,41-45) e pouco antes de morrer (Lc 23,34.46).
        
         - Não só a Deus, mas a um Deus que é Pai (Jo 17,1)

       É de uma grande importância este facto. Pois, significa que a sua oração ou relação com Deus é vivida, fundamentalmente, não num clima de medo, angústia, receio ou desconfiança, mas de amor, diálogo, abertura, adesão, segurança, confidência e de grande intimidade.
         Que este seja, de facto, o seu modo de orar a Deus, o comprovam muitos outros textos, por exemplo, o prólogo de S. João ao afirmar que é próprio de Jesus tender, desde sempre, para o pai, desejar a plena comunhão e abrir-se, no amor, a uma total e incondicionada dependência dele: «No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. No princípio, Ele estava com Deus; (...) Ninguém jamais viu a Deus: o Filho único, que está voltado para o seio do Pai, este o deu a conhecer (1,1-2.18)».

         - Mais que uma invocação/imploração ou súplica de ajuda, uma disposição total para cumprir a vontade do Pai

       O evangelista João, embora conheça, no seu conjunto, as narrações dos outros evangelistas, mostra uma grande originalidade na escolha e no tratamento dos textos referentes à oração de Jesus. Tal originalidade deve-se à sua experiência/conhecimento/visão pessoal de Jesus. Por exemplo, no seu evangelho, Jesus nunca ora como pessoa necessitada, indigente, débil ou angustiada. Por isso, no quarto evangelho não encontramos alguma alusão ao trecho de Mc 14,33-36 e paralelos: «E, levando consigo Pedro, Tiago e João, começou a apavorar-se e angustiar-se. E disse-lhes: “A minha alma está triste até a morte. Permanecei aqui e vigiai”. E, indo um pouco adiante, caiu por terra, e orava para que, se possível, passasse dele a hora. E dizia: “Abba! Ó Pai! Tudo é possível para ti: afasta de mim este cálice; porém, não o que eu quero, mas o que tu queres”».
         O Jesus de João jamais implora ou suplica ao Pai para que venha em sua ajuda. Mais que invocação de ajuda, a sua oração de súplica vem a ser uma entrega total à vontade do Pai e um declarar-lhe abertamente que está disposto a colaborar em todo o seu desígnio salvífico para que venha a concretizar-se a ordem eternamente estabelecida.
         Daí, em lugar do trecho acima citado, aparecer antes: «Minha alma está agora conturbada. Que direi? Pai, salva-me desta hora? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim» (12,27).


Pe. Vasco

07 fevereiro, 2013

Um pensamento!





"Um só pensamento do homem
vale mais do que todo o mundo;
portanto, SÓ DEUS É DIGNO DELE"

São João da Cruz,  Ditos de luz e amor ,   39


Quanto pensamos em algo, a nossa atenção e, no fundo, todo o nosso ser, se volta para aquilo que pensamos.

Ao longo do nosso dia, tantas preocupações, ocupações, coisas ou pessoa são objecto do nosso pensamento. Mas, poucas vezes, e tantos dias bem poucas vezes, é Deus o objecto do nosso pensamento.

 Quantas vezes nos voltamos para Deus ao longo do nosso dia? Será Ele menos do que todas as outras coisas que ocupam o nosso pensamento? Merecerá Ele menos do que todas as outras coisas que nos ocupam para que não lhe dêmos algo tão valioso? Dêmos, generosamente, a Deus o nosso melhor.

Fr. Renato Pereira

05 fevereiro, 2013

“Testemunha da verdade: A verdade e o amor têm necessidade um do outro” (Edith Stein)


            "Depois da sua conversão e de ter deixado a sua actividade como assistente de Hursserl, Edith iniciou um percurso de intensa actividade como professora, escritora, tradutora, conferencista, filósofa, e pedagoga. Mas toda esta actividade não fazia afastar de uma intensa vida espiritual.

As múltiplas actividades, o estudo e o ensino eram conciliados com uma profunda vida de oração. Na oração e «solidão» do diálogo amoroso com Deus, Edith encontrava a força interior que a fortalecia em todas as acções e no trabalho intelectual.

«O importante é que cada pessoa tenha um cantinho tranquilo, no qual possa relacionar-se com Deus, como se nada existisse, e isto diariamente: o tempo mais oportuno parece-me ser as primeiras horas da manhã, antes de começar o trabalho; é então quando se recebe a missão especial para cada dia, sem escolher nada por si mesma; nesse momento, finalmente, contempla-se a si mesma como um mero instrumento, e as forças com que deve trabalhar […] A minha vida começa de novo cada manhã e termina cada noite; para além disto, não tenho nenhum plano ou propósito […]»

A sua vida espiritual, longe de a fechar num casulo e de a fazer centrar-se sobre si mesma, abria-a para a realidade do Outro e dos outros, numa dimensão comunitária e de solidariedade humana. O intuito era um só: levar o homem a Deus e Deus ao homem. Inicialmente Edith pensava que só na vida religiosa conseguiria este equilíbrio e esta vocação, mas descobriu que no mundo, na sua vida quotidiana, desempenhando a sua profissão, ela podia igualmente viver uma relação intensa com Deus. Bastava ser fiel à oração diária. E é neste equilíbrio das obrigações pessoais e profissionais com a vida espiritual que Edith se revela uma mística, um exemplo de perfeita harmonia entre fé e vida, oração e acção.

«Durante o tempo imediatamente anterior a minha conversão e ainda um bom tempo depois, cheguei a pensar que levar uma vida religiosa significava o abandono de tudo o que era terreno e viver somente no pensamento das coisas divinas. Pouco a pouco compreendi que neste mundo nos é exigida outra coisa e que inclusive na vida mais contemplativa, a ligação com o mundo não se deve romper; creio, inclusivamente, que quanto mais profundamente alguém está mergulhado em Deus, tanto mais deve, neste sentido, “ sair de si mesmo” ou melhor dizendo, entrar no mundo para comunicar – lhe a vida divina».  

Neste espírito, Edith Stein adiou o seu projecto de entrar no Carmelo para desenvolver um trabalho/ apostolado como educadora cristã. Ela estava consciente da importância e da necessidade da sua missão como leiga católica na Igreja e na escola. Neste sentido, ela antecipou-se uma vez mais ao concílio Vaticano II, que veio valorizar a importância a missão do leigo na Igreja no mundo.

A rectidão e simplicidade de vida, a serenidade, bondade e disponibilidade, a amizade e o trato com os outros fazem dela um estandarte duma católica convicta com uma fé forte. Nela não há dicotomia entra a fé e a vida. Fé e a vida interligam – se de tal forma que são uma só. Ela dá testemunho da sua vocação como cristã baptizada. Para isso não precisava de fazer discursos ou dar conferências, bastava o seu testemunho da vida."                              
  


                               “A verdade e o amor têm necessidade um do outro” (Edith Stein)

 MACHADO, António José Gomes - Edith Stein: Pedagoga e Mística
Braga: Editorial A. O., 2008, pp. 147-149.  Santos para hoje.

Recolha de Fr. Eugénio.

04 fevereiro, 2013

A canoa




Num rio largo e profundo trabalhava um barqueiro simpático e experiente, que atravessava na sua pequena canoa as pessoas de uma margem para a outra.

Certo dia, entraram na sua canoa duas pessoas cultas. Um advogado e uma professora. No meio da viagem, o advogado quebrou o silêncio, perguntando ao barqueiro:
- Você sabe alguma coisa de leis?
- Não, respondeu sorrindo o barqueiro.
- Que pena! Perdeu metade da vida
- Disse compadecido o advogado.
A professora também quis fazer graça e perguntou: você sabe ler e escrever?
- Não sei.
- Que pena perdeu metade da vida.
A canoa continuou a deslizar, mas uma corrente forte virou-a e os passageiros caíram à água.
- Vocês sabem nadar?
- Não! Gritam eles.
- Que pena! Perderam a vida.

Nas travessias da vida, contactamos com gente – numerosa gente – de vários saberes. E nem sempre valorizamos o valor, o saber das pessoas simples com quem contactamos: é o lavrador de mãos calejadas e rosto queimado pelo sol, é o pescador que arriscava a vida todos os dias para brindar com peixes pessoas que nem sequer conhece, são todos trabalhadores que sabem resolver os nossos problemas, os quais não sabemos solucionar.

Quantas vezes descobrimos debaixo de roupas rotas e em mãos calejadas alguém com um saber importante – talvez sem saber ler ou escrever – mas com a sabedoria da vida: servindo e amando os outros.
Nestes tempos de valorização dos valores materiais: do carro que possuem, da vivenda em que habitam, da roupa luxuosa que ostentam, etc… quantas vezes se olha com sobranceirismo orgulhoso para gente que trabalha connosco, que serve com o seu saber elevado e precioso. Cada pessoa, embora não pareça, tem algo de bom, de interessante, de valioso para nos ensinar.
Há muita gente que pela riqueza da experiência, se moldou e aprendeu a “nadar” na vida, com a prática da honestidade, de serviço aos outros.

Certo professor de psicologia fez um teste aos seus alunos, mas nenhum deles soube responder a esta pergunta: Qual o nome da mulher da limpeza da sala de aula?
Nenhum soube responder, embora passassem todos os dias por ela, indiferentemente, como se ela fosse uma pessoa sem valor.
Olhemos para os humildes que a vida de muitos deles contém uma lição surpreendente e bela, merecedora de respeito e digna de imitação.  

In Mensageiro do Menino Jesus de Praga