12 fevereiro, 2013

Isabel da Trindade




Isabel Catez nasceu, no campo militar de Avor, perto de Bourges, França. O seu pai era capitão do exército francês. Desde muito cedo que Isabel mostrou ser uma criança turbulenta, muito viva, faladora, precoce e de temperamento colérico. A sua mãe quando fala dela nalgumas cartas chama-a «autêntico diabinho». E a sua irmã não hesita em escrever que era «um verdadeiro diabo». Chega mesmo a dizer que era tão violenta que os familiares a ameaçaram enviar para uma casa de correcção. No entanto, a sua mãe, atenta, soube modelar a fúria de Isabel e fazer sobressair nela a ternura e docilidade. E de tal maneira a ternura ganhou terreno que o maior castigo de Isabel acontecia quando a sua mãe, à noite, se despedia dela sem lhe dar um beijo. Então, Isabel compreendia que não se tinha portado bem, e, meditando fazia exame de consciência e corrigia-se. Isabel era ainda uma criança quando a sua família se mudou para a cidade de Dijon. Aqui Isabel perdeu o pai tão querido que a morte lhe roubou. O dia da primeira comunhão, a 19 de Abril de 1891, foi «o grande dia» da vida de Isabel. Tinha então 10 anos, pois nascera no dia 18 de Julho de 1880. Estudou piano desde os 8 anos de idade no Conservatório, vindo a tornar-se uma «excelente pianista», segundo expressão do seu professor de música. Participou em concertos organizados, e, os jornais falaram do seu grande talento ainda mal a menina Catez chegava aos pedais do piano. Entre músicas e festivais, bailes, férias e diversões foram decorrendo os anos de Isabel. 


Aos catorze anos sentiu-se irresistivelmente atraída por Jesus. Aos 18 a sua mãe pretendeu casá-la com um esplêndido noivo, mas Isabel respondeu: «o meu coração já não está livre, dei-o ao Rei dos reis, já dele não posso dispor». O desgosto da mãe foi grande. Mas foi mais amargo quando soube que Isabel queria entrar no Carmelo, que tantas vezes tinham visitado, pois ficava ali a dois passos. A mãe apenas consentiu a entrada da filha no Carmelo quando alcançou a maioridade, aos 21 anos. No dia 2 de Agosto de 1901, Isabel entra definitivamente nessa bela montanha do Carmo que pela sua solidão e beleza a atraiu irresistivelmente. A partir de então o seu nome será Irmã Isabel da Santíssima Trindade. «Gosto tanto do mistério da Santíssima Trindade! É um abismo no qual me perco. Deus em mim, eu n’Ele. É o grande sonho da minha vida. Para uma carmelita viver é estar em comunhão com Deus desde a manhã até à noite, e desde a noite até de manhã. Se Deus não enchesse as nossas celas e os nossos claustros, oh!, como tudo seria vazio! Mas é Ele que enche toda a nossa vida fazendo dela um céu antecipado». 

A irmã Isabel tomou o hábito a 8 de Dezembro de 1901. Iniciada a vida de noviciado a paz e a felicidade mudou-se em noite escura; foi o momento da purificação interior. Com a profissão religiosa, que fez a 11 de Janeiro de 1903, recuperou a paz e a serenidade interior. Depressa a Irmã Isabel descobriu a sua vocação. Lendo S. Paulo descobriu que ela devia ser o «louvor da glória de Deus». Esta ideia e esta vocação serão o rumo e o norte de Isabel da Santíssima Trindade: «louvor de glória» é uma alma que mora em Deus e O ama com amor puro, amante do silêncio qual lira mantida sob o toque misterioso do Espírito Santo, fazendo sair de si harmonias divinas. 

«Louvor de glória» é uma alma que contempla a Deus em fé simples e permanece como um eco perene do eterno cântico celeste. O segredo da felicidade é não se preocupar consigo mesmo, é negar-se em todo o momento». 

Seguindo o Caminho que é Cristo, a Irmã Isabel entrou no mistério de Deus através de Maria a quem gosta de chamar a Porta do céu. Seguindo os nossos pais e mestres~, Teresa de Jesus e, sobretudo, João da Cruz, de quem constantemente fala nos seus escritos, Isabel mergulha no mistério das Três Pessoas Divinas, nesse Oceano sem fundo que é a Santíssima Trindade e que ela se sente envolvida por dentro e por fora. Tal como S. João da Cruz se sentiu fascinado pela formosura de Deus, também Isabel da Trindade se sente atraída pela beleza de Deus. Isabel gostava de ver o sol penetrar nos claustros e recordar aquela comparação de Santa Teresa que dizia que a alma é como um cristal que reflecte a Deus. A nossa irmã deixou-nos este testemunho: «cada dia na minha vida de esposa me parece mais belo, mais luminoso, mais envolto em paz e amor». 

Mas foi a vivência total daquela frase de S. João da Cruz: «a alma perfeita e unida a Deus em tudo encontra alegria e motivo de deleite até naquilo que entristece os outros, e sobretudo alegra-se na cruz» que levou a Irmã Isabel a perder-se em Deus como uma gota de água no Oceano, segundo a sua própria expressão. Foi o perfeito louvor da glória de Deus, por isso, apenas com 26 anos se encontrava preparada para voar para a paz: «tudo é calma, tudo fica tranquilo e é tão bom, a paz do Senhor». 

Nos finais de Março de 1906, a Irmã Isabel foi colocada na enfermaria. Sentia-se feliz por morrer carmelita e escreve esta frase que é uma cópia do verso de S. João da Cruz: «sem outro ofício senão o de amar, estou na enfermaria». As Irmãs rezavam pela sua cura e Isabel juntou o seu pedido às orações da comunidade, mas sentiu que Jesus lhe dizia que os ofícios da terra já não eram para ela. No dia 1 de Novembro comungou pela última vez e dois dias antes da sua morte disse ao seu médico: «é provável que dentro de dois dias esteja no seio da Santíssima Trindade. É a Virgem Maria, aquele ser tão luminoso, tão puro, com a pureza do mesmo Deus, quem me levará pela mão e me introduzirá no céu tão deslumbrante». Pouco antes da sua morte, Isabel disse às suas Irmãs esta frase tão bela e que ficou célebre: «Tudo passa! No entardecer da vida só o amor permanece». Frase que se parece com aquela outra de S. João da Cruz, também muito bela e conhecida: «à tarde serás examinado no amor». A sua última noite foi terrivelmente penosa, pois às suas horríveis dores juntou-se-lhe também a falta de ar, mas ao amanhecer Isabel sossegou, e inclinando a cabeça abriu os olhos, e exclamou: «vou para a Luz, para o Amor, para a Vida», e adormeceu para sempre. Era a madrugada do dia 9 de Novembro de 1906.
Recolha de Fr. Carlos

11 fevereiro, 2013

"NUNCA É TARDE”



Andamos sempre atrás de bons propósitos e grandes projectos. Procurando um horizonte de sentido e realização pessoal. Dando o melhor para fazer desta vida um sonho realizado de felicidade e santidade (dizemos os cristãos). Com optimismo, com verdade, com alegria. Sendo felizes, tornando os outros felizes. Mas o tempo para tudo isto escasseia. Passa demasiado veloz para sermos felizes. E santos. E não tem volta atrás. Não sabemos o dia nem a hora. Porque tudo pode ser novo de um momento para o outro, não esqueçamos: “nunca é demasiado tarde”!
Argumento/Sinopse

“Nunca é tarde”, 2007, realizador Rob Reiner, com Jack Nicholson e Morgan Freeman, gen. Drama/aventura/comédia, 137 minutos.
A história é simples. Dois personagens totalmente díspares têm um elemento comum – a certeza, devido a um cancro terminal, da morte a curto prazo. Um mesmo quarto do hospital. Um mesmo tempo: seis meses a um ano de vida. De um lado, Jack Nicholson (Edwardo Cole) interpreta o papel de um bilionário mal-humorado, impaciente, só e pouco amigável. Quatro vezes divorciado, diz-se casado com o seu próprio dinheiro. Morgan Freeman (Cárter Chambers) é o oposto. Mecânico de automóveis para sobreviver, simpático, amigo, conhecedor de praticamente tudo, feliz com a família que ama e onde é amado. A ambos é diagnosticado um cancro. Que fazer? Porque nunca é tarde demais, é preciso aproveitar o tempo para ser feliz. Diria, egoísticamente feliz. Numa lista longa, estabelecem-se as possíveis realizações: sky-jumping, conduzir um Shleby 350, fazer uma tatuagem, visitar os Himalaias, as pirâmides do Egipto, o Taj Majal, fazer um safari em África, beijar a rapariga mais bonita do mundo, rir até chorar ou ajudar um estranho por bem: eis alguma das possíveis acções. E no fim? A quase certeza do dever cumprido. Será?

Crítica

Nesta comédia simples, por vezes negra, a interpretação histriónica de dois grandes nomes de Hollywood relança a pergunta pelo sentido da vida. Apesar do tema (a doença e a morte), é uma história cheia de bom humor. Poderia ser, no entanto, muito mais emotiva e mais humana, atendendo aos temas em questão. Duas personalidades opostas levam por diante o sonho hedonista de não deixar de fazer o que sempre se sonhou fazer. No fundo, parece que nenhum dos dois enfrenta realmente a morte: quem abandonaria a família – objecto de atenção, prioridade e privação durante 45 anos – num momento tão delicado como a doença terminal de um cancro, como faz Chambers? Ou viajar à volta do mundo, sabendo que tudo isto está para terminar? E no meio de tudo isto, a procura da felicidade (passageira) neste aquém de existir. Onde ficam os grandes princípios e a razão última por que vivemos? A história torna-se, então, previsível, passando demasiado tempo “em viagem”. Ainda por cima, a realização deixa a desejar, já que com facilidade percebemos, pela fragilidade dos efeitos especiais, que nem Nicholson, nem Freeman estiveram no Egipto, em África ou na Índia. O que poderia ser um excelente contributo narrativo sobre o sentido da vida fica-se pelo “Nunca é tarde demais” de dois velhos, por vezes a querer coisas de jovens na ilusão da eterna juventude…

Aplicações

Apesar da temática geral do filme (morte e cancro), há um conjunto de pequenas cenas que se poderão utilizar em diferentes contextos e temáticas, sobretudo na catequese com jovens (recordo que o filme é para maiores de 13 anos). A pergunta pelo sentido da vida, a procura da felicidade, da missão que temos a desempenhar neste mundo. Mas também se pode abordar o tema da solidão, da família e da relação entre fé e razão, fé e agnosticismo.

Actividade

Com este filme, podem-se desenvolver diferentes tipos de actividade consoante o tema a ser tratado. É de notar que um certo tom no filme de pendor negativo no que toca ao presentismo excessivo deverá ser tido em conta para uma abordagem de fé à temática da morte.

Sequência

Nesta sequência inicial, o personagem de Freeman pergunta pelo sentido da existência que é difícil avaliar a vida de uma pessoa: será pela fé? Será pelo amor? Importante é descobrirmos a forma de abrir o nosso coração. Esta cena completa-se com a cena final do filme. Que nos move nesta vida? Que é que nos serve para avaliarmos, nós cristãos, a vida que vivemos?

Nesta sequência, é explicado o sentido da “lista” que estão prestes a desenvolver antes de “bater a bota” (“the Bucket list” é o titulo original do filme).

Durante a viagem, os dois personagens estabelecem um interessante diálogo sobre a fé. Afinal, o que é a fé? O que é acreditar? Qual a relação entre razão e fé? O diálogo é curto e pode servir de introdução a uma apresentação sobre a fé e razão (por exemplo, com o texto de João Paulo II, fides et Ratio)

No cimo das pirâmides do Egipto, Cárter conta uma história sobre a felicidade. Quando se chegar ao outro lado da vida, os deuses egípcios antes de deixar entrar no céu perguntarão: encontraste felicidade em vida? E a tua vida, deu felicidade a outro? Estas são também questões importantes a serem respondidas na nossa vida.

Querendo tratar o tema da família, da qualidade das relações interpessoais entre os membros da família versus a tristeza de se viver só, aqui encontra uma sequência, que apesar de curta, é demonstrativa das diferenças.

Sequência final do filme em que se cumprem os elementos que faltam à lista e se compreende a sequencia inicial que aqui fica completa. 

10 fevereiro, 2013

Vai e lança as redes.



No nosso itinerário de conhecimento e de seguimento de Jesus, este ano litúrgico orientados pelo Evangelho de Lucas, a Palavra de Deus dos últimos domingos apresenta-nos Jesus como Aquele em quem se cumpre as escrituras, anunciando boas notícias de salvação da parte do Pai a toda a humanidade, admirado pela sua sabedoria e inteligência por parte dos seus conterrâneos, mas simultaneamente e paradoxalmente incompreendido e alvo de inveja, por causa da sua linhagem familiar humilde: “não é Ele filho do carpinteiro?”. À mesquinhez dos seus, Jesus reage com a denúncia profética: “nenhum profeta é reconhecido na sua terra”! E sem medo, avança no meio deles para realizar o projeto que o Pai lhe confiou: anunciar o Reino. Hoje, vemos o mesmo Jesus, junto ao lago de Tiberíade, a convidar outros, a participar com Ele nesta missão de salvação que se iniciou na sinagoga de Nazaré.

O tema dominante que percorre os 3 textos da Palavra de Deus, é o da chamada: ––“A quem hei-de enviar?” ––. Deus continua a chamar ontem, hoje e sempre: Isaías, Pedro e Paulo… e cada um de nós. Nesta chamada há algo de comum a todos os humanos, um mesmo reconhecimento: a confissão da nossa humanidade frágil, perante a majestade e grandeza de Deus. A resposta de Deus ao reconhecimento da fragilidade, apesar de tudo é o chamamento e o envio, porque Ele quer servir-se da condição humana frágil para continuar a fazer ouvir a sua mensagem de libertação e realizar na história as suas maravilhas a favor da transformação do nosso mundo como espaço de encontro, reconciliação e solidariedade efetivas.

         A primeira leitura mostra-nos como Isaías –– que haveria de revelar-se como o profeta por excelência –– toma consciência do abismo que separa Deus da sua condição de criatura: “Ai de mim que estou perdido, pois sou um homem de lábios impuros”. No mais profundo do seu ser, Isaías percebeu até que ponto se encontrava dividido pelo medo, pela consciência dos seus limites e pela insegurança das suas competências para ser portador da palavra de Deus aos seus contemporâneos. Mas o reconhecimento dos seus limites não o levou a desistir a responder ao apelo de Deus –– “Quem enviarei, quem irá por mim?”–– , confiando na graça de Deus que pode contornar os nossos medos e inseguranças, dispôs-se a dar uma resposta generosa e desinteressada: “Aqui estou, podes enviar-me”.

         Na Segunda leitura confrontamo-nos com outro chamado e enviado, Paulo; embora reconheça “ser o menor de todos os apóstolos, nem sou digno de ser chamado apóstolo”, pela graça de Deus e não pelos seus méritos, é o que é, o grande pregador do anúncio do Evangelho aos pagãos.

         Finalmente, o evangelho apresenta-nos a cena tão bela, e sugestiva do chamamento dos primeiros discípulos, num contexto de desempenho da sua atividade profissional: a pesca, tendo como protagonista, Pedro, representando os seus colegas de profissão.

Pedro é um profissional na arte de pescar. Hábil no lançamento das redes e bom conhecedor dos mares; por isso, poderia ter achado absurda a ordem de Jesus de fazer-se ao largo e lançar as redes, após uma noite de trabalho sem sucesso. Mas Pedro é já um homem de fé, por isso obedece à ordem do Mestre, Jesus. E isto é o que melhor define a fé: confiança total numa pessoa. Face ao sucedido imprevisível, ao mistério, Pedro sente os seus limites e exclama: “afasta-te, Senhor, porque sou um homem pecador”. Mas Jesus anima, entusiasma, apoia e valoriza as qualidades e a auto-estima daqueles homens simples e lutadores: “Não temas, a partir de hoje serás pescador de homens.”... Quem se deixa tocar por Jesus, sente-se transformado, confiante, liberto, salvo e experimenta que se iniciou um novo processo de mudança na sua vida frágil. Esta experiência é tão gozosa que não se pode resistir, levando a atitudes de radicalidade: “e eles reconduzindo os barcos para terra, deixaram tudo e seguiram Jesus”.

Esta é a história destes vocacionados e qual é a nossa história como vocacionados para o anúncio do evangelho? Damos espaço na nossa vida a Deus para ouvir as suas interpelações desafiantes e sentir-nos enviados à missão? A vocação cristã não é apenas chamamento de vocações de especiais como o sacerdócio e a vida religiosa. Deus não interpela apenas a colaboração de alguns, mas chama a todos, desde a nossa situação concreta de vida: estado de vida, profissão mais ou menos qualificada. A nossa resposta está na medida dos recursos que Deus nos concedeu e da nossa generosidade. A colaboração com Deus é sempre necessária onde quer que haja vida e existam problemas humanos urgentes a resolver.

         Cada um de nós está convidado a ser pescador de homens e somos enviados a uma parcela do reino onde nos encontramos como cristãos, onde somos insubstituíveis. Não há ninguém sem vocação para algo de bom e belo a realizar nos seus contextos de vida. A única condição é que cada um se sinta interpelado e seja capaz de responder com generosidade, com confiança, sem medos, disposto a deixar e a mudar o que for necessário para seguir Jesus. A proposta e o convite é desafiante, exigente e realizador. Como respondo, a este desafio atual: “quem enviarei...?”

         Cada um de nós é chamado a ser ou a realizar aquilo que nenhum outro é ou faz, e a cada um está reservado um lugar no mundo que ninguém mais ocupa. Para cumprir essa missão ou vocação requer-se o risco da fé confiante, a aventura da esperança e a força do amor que transforma e produz o milagre da surpresa e da abundância: ––“todos ficaram assombrados por causa da pesca realizada” ––, porque é Deus quem realiza, pela sua graça, o que nós não poderemos realizar através dos nossos recursos, porque cada um é o que é pela graça de Deus, que não é inútil mas operante e transformadora.
Pe. Carlos Gonçalves

09 fevereiro, 2013

Orar à maneira de Jesus e daqueles que se encontraram com Ele... (I)




Objectivos:

- Conhecer os conteúdos salvíficos presentes nestas orações
            - Acolher esses conteúdos nas nossas próprias orações, a fim de as tornarmos mais humanas e evangélicas (isto é, orações que levam o nosso ser, a nossa vida, a nossa história e o autêntico rosto de Deus)
- Fazer notar como ainda hoje, e em sentido lato, podemos rezar com algumas dessas expressões orantes.

Meios/recursos: Para desenvolver este tema, não obstante comecemos por mencionar alguns dados dos evangelistas Mateus, Marcos e Lucas, deitamos mãos à visão Joanina sobre a oração.

I. A oração de Jesus:

       - Em lugares e momentos importantes da sua vida

       Nos evangelhos sinópticos, aparece muitas vezes Jesus em atitude de oração. Os evangelistas fazem-nos compreender que Ele ora, de preferência, em lugares solitários (Mc 1,35) e em ocasiões importantes da sua vida pública.
         Assim, Ele ora pela ocasião do Baptismo (Lc 3,21-22), quando realiza os milagres (Lc 5,16), na escolha dos doze (Lc 6,12), antes de ensinar o «Pai nosso» (Lc 11,1), no contexto da profecia sobre a renegação de Pedro e a sua conversão (Lc 22,32), no horto das Oliveiras (Lc 22,41-45) e pouco antes de morrer (Lc 23,34.46).
        
         - Não só a Deus, mas a um Deus que é Pai (Jo 17,1)

       É de uma grande importância este facto. Pois, significa que a sua oração ou relação com Deus é vivida, fundamentalmente, não num clima de medo, angústia, receio ou desconfiança, mas de amor, diálogo, abertura, adesão, segurança, confidência e de grande intimidade.
         Que este seja, de facto, o seu modo de orar a Deus, o comprovam muitos outros textos, por exemplo, o prólogo de S. João ao afirmar que é próprio de Jesus tender, desde sempre, para o pai, desejar a plena comunhão e abrir-se, no amor, a uma total e incondicionada dependência dele: «No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. No princípio, Ele estava com Deus; (...) Ninguém jamais viu a Deus: o Filho único, que está voltado para o seio do Pai, este o deu a conhecer (1,1-2.18)».

         - Mais que uma invocação/imploração ou súplica de ajuda, uma disposição total para cumprir a vontade do Pai

       O evangelista João, embora conheça, no seu conjunto, as narrações dos outros evangelistas, mostra uma grande originalidade na escolha e no tratamento dos textos referentes à oração de Jesus. Tal originalidade deve-se à sua experiência/conhecimento/visão pessoal de Jesus. Por exemplo, no seu evangelho, Jesus nunca ora como pessoa necessitada, indigente, débil ou angustiada. Por isso, no quarto evangelho não encontramos alguma alusão ao trecho de Mc 14,33-36 e paralelos: «E, levando consigo Pedro, Tiago e João, começou a apavorar-se e angustiar-se. E disse-lhes: “A minha alma está triste até a morte. Permanecei aqui e vigiai”. E, indo um pouco adiante, caiu por terra, e orava para que, se possível, passasse dele a hora. E dizia: “Abba! Ó Pai! Tudo é possível para ti: afasta de mim este cálice; porém, não o que eu quero, mas o que tu queres”».
         O Jesus de João jamais implora ou suplica ao Pai para que venha em sua ajuda. Mais que invocação de ajuda, a sua oração de súplica vem a ser uma entrega total à vontade do Pai e um declarar-lhe abertamente que está disposto a colaborar em todo o seu desígnio salvífico para que venha a concretizar-se a ordem eternamente estabelecida.
         Daí, em lugar do trecho acima citado, aparecer antes: «Minha alma está agora conturbada. Que direi? Pai, salva-me desta hora? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim» (12,27).


Pe. Vasco

07 fevereiro, 2013

Um pensamento!





"Um só pensamento do homem
vale mais do que todo o mundo;
portanto, SÓ DEUS É DIGNO DELE"

São João da Cruz,  Ditos de luz e amor ,   39


Quanto pensamos em algo, a nossa atenção e, no fundo, todo o nosso ser, se volta para aquilo que pensamos.

Ao longo do nosso dia, tantas preocupações, ocupações, coisas ou pessoa são objecto do nosso pensamento. Mas, poucas vezes, e tantos dias bem poucas vezes, é Deus o objecto do nosso pensamento.

 Quantas vezes nos voltamos para Deus ao longo do nosso dia? Será Ele menos do que todas as outras coisas que ocupam o nosso pensamento? Merecerá Ele menos do que todas as outras coisas que nos ocupam para que não lhe dêmos algo tão valioso? Dêmos, generosamente, a Deus o nosso melhor.

Fr. Renato Pereira