18 fevereiro, 2013

O choupo e a azinheira




Era uma vez um choupo esbelto que crescia junto a um rio.
Era o último do choupal.
Perto dele havia uma azinheira, frondosa e sapuda.
Era a primeira de um azinhal situado numa encosta.

- Disse o choupo à azinheira:
 «Como é que ficaste tão baixinha?
Eu pensava que irias crescer mais do que eu».

        - A azinheira respondeu:
«Não sou baixinha.
O que acontece é que eu cresci também para baixo.
Tenho raízes fortes. Elas dão-me segurança.
 Digo-te mais: até me metes dó quando o vento sopra fortemente e te vejo a balancear. Parece que vais partir de um momento para o outro. Porque é que crescestes assim?».

-   Respondeu-lhe o choupo: 
«Eu vou sempre à procura do que é novo: novo céu, novo ar, nova luz. Se ficar aí em baixo, abafo. Aborreço-me de estar sempre na mesma. Adoro a novidade. Se visses a paisagem que se vislumbra aqui de cima...!»

-   Disse-lhe a azinheira:
«Olha lá: e se fizéssemos um enxerto de choupo na azinheira? Teríamos a minha segurança e a tua novidade. Que filho tão bonito que nos sairia!».

-   «Excelente! – disse o choupo. Os agrónomos não pensaram nisso, mas nós vamos conseguir».

In Mensageiro do Menino Jesus de Praga

17 fevereiro, 2013

Professar a Fé


1. Só secundariamente a Quaresma «prepara» para a Ressur­reição. Na verdade, todos os «Tempos» e todos os Domingos do Ano Litúrgico – portanto, também a Quaresma e os seus Domingos – estão depois da Ressurreicão e por causa da Ressurreição. E é só sob a intensa luz do Senhor Ressusci­tado com o Espírito Santo (Baptismo consumado: Lucas 12,49‑50) que a Igreja – e cada um de nós – pode celebrar autenti­camente a sua fé, proceder à correcta «leitura» das Escri­turas e encetar a «caminhada» quaresmal. Neste sentido, todos os baptizados são chamados a refazer com Cristo bapti­zado o seu programa baptismal, cujo conteúdo e itinerário conhecemos: desde o Baptismo no Jordão, passando pela Trans­figuração/Confirmação no Tabor, até à Cruz e à Glória da Ressurreição (Baptismo consumado!), escutando e anunciando sempre e cada vez mais intensamente o Evangelho do Reino e fazendo sempre e cada vez mais intensamente as «obras» do Reino (Actos 10,37-38: texto emblemático). Os catecúmenos, acompanhados sempre pela Assembleia dos baptizados, «pre­param‑se» intensamente para a Noite Pascal Baptismal, início e meta da vida cristã.

2. Baptizado com o Espírito Santo, e declarado por Deus «o Filho meu», «o Amado» (Lucas 3,21-22), Jesus é conduzido pelo Espírito Santo através do deserto (Lucas 4,1), lugar teológico e não meramente geográfico – com muita água (João 3,23) cumprindo Isaías 35,6-7, 41,18 e 43,19-20, com árvores (canas) (Lucas 7,24) e relva verde (Marcos 6,39) cumprindo Isaías 35,1 e 7 e 41,19 –, lugar provisório e preliminar, preambular, longe do que é nosso, onde se está «a céu aberto» com Deus, onde troará a voz do seu mensageiro (Isaías 40,3), de João Baptista (Lucas 3,2-6), do próprio Messias segundo uma tradição judaica recolhida em Mateus 24,26. O deserto é o lugar onde se pode começar a ver a «obra» nova de Deus (Isaías 43,19). Sendo um lugar provisório, aponta para a Terra Prometida e definitiva do repouso. O deserto é lugar de passagem. Sem pontos de referência nem marcos de sinalização. Se o rumo não estiver bem definido, o viandante corre o risco de se perder no deserto da vida e de nunca chegar à Vida verdadeira.

 3. A liturgia deste Domingo I da Quaresma, neste Ano C, oferece-nos três textos sublimes atravessados em filigana pela profissão de fé. Comecemos pelo Evangelho com o texto majestoso das chamadas tentações de Jesus (Lucas 4,1-13). Durante quarenta dias (40 é o tempo de uma vida, a vida toda) Jesus jejuou (Lucas 4,2), isto é, perscrutou a «obra» nova de Deus na história do seu povo, que o mesmo é dizer, saboreou as Escrituras, o outro alimento (Deuteronómio 8,3; Mateus 4,4; cf. João 4,32 e 34-35: notável releitura em que aos olhos atónitos dos discípulos saltam as estações do ano!), e meditou, sempre a partir das Escrituras, na sua missão filial baptismal. E é na sua condição de baptizado, isto é, de Filho de Deus, que ele é tentado. De facto, toda a tentação – a de Cristo como a nossa – começa sempre da mesma maneira: «se és o Filho de Deus…». Atente-se em como se repete nos mesmos termos sob a Cruz (Lucas 23,35-39). Portanto, sempre. Do Baptismo até à Morte, a tentação visa afastar-nos de Deus e da sua «obra», e pôr-nos ao serviço do «deus deste mundo» (2 Coríntios 4,4; cf. João 12,31).

4. Mas detenhamo-nos brevemente nas ofertas do tentador de hoje. Em primeiro lugar, fabricar o próprio pão, o pão que o diabo amassou, em vez de receber pão da Palavra dado por Deus (Deuteronómio 8,3) aos seus amigos até durante o sono (Salmo 127,2) (Lucas 4,3-4). Em segundo lugar, a oferta de todos os reinos deste mundo e da sua glória em troca do afastamento de Deus (Lucas 4,5-7). E a resposta decidida de Jesus, remetendo para a Escritura Santa e para Deus: «Está escrito: “Adorarás ao Senhor, teu Deus, e só a Ele prestarás culto”» (Lucas 4,8). Em terceiro lugar, a tentação do sucesso fácil em Jerusalém, taxativamente recusada por Jesus (Lucas 4,9-13). Para quem tem diante de si o texto de Mateus, aperceber-se-á de imediato da troca de lugar da segunda e da terceira tentação. Fácil de compreender: em Lucas, Jerusalém é o centro do mundo, é lá que Jesus aparece logo aos 40 dias (Lucas 2,22), aos 12 anos (Lucas 2,41), é para lá que Jesus caminha na secção central deste Evangelho (Lucas 9,51-19,28), é lá que se sucedem os últimos episódios da sua vida, é lá que se os discípulos são mandados esperar (Lucas 24,49-53), em vez de se dirigirem para a Galileia. Convém, portanto, que a terceira tentação decorra em Jerusalém.

5. Baptizado, tentado na sua condição de Baptizado, e Vitorioso na tentação, Jesus passa de imediato à execução do seu programa filial baptismal: anunciar o Evangelho de Deus e fazer a sua «obra» (Lucas 4,14s.). Como ele também nós.

 6. Extraordinária a lição do Livro do Deuteronómio 26,4-10: aqui estou, meu Deus, orientando a minha vida toda para Ti, oferecendo-Te os primeiros frutos desta Terra boa e bela que nos destes, depois de nos teres chamado do meio da confusão e dado a liberdade! Eu canto para Ti, meu Deus, pois é a Ti que devo a minha liberdade e a bondade e beleza da minha vida! Este belo texto é uma miniatura, um colar de pérolas do Teu amor por nós, que devemos levar sempre connosco, como se fosse uma fotografia Tua! O chamamento dos pais, a libertação do Egipto, a dádiva da Terra Prometida.

 7. E a lição da Carta aos Romanos 10,8-13: na minha vida toda, no meu coração e na minha boca – no coração a fé, na boca o testemunho – escorre o sabor da Tua Palavra, doce como o puro mel dos favos!

Dom António Couto, in Mesa de Palavras

16 fevereiro, 2013

Orar à maneira de Jesus e daqueles que se encontraram com Ele... (II)





- Segundo o desígnio de Deus e, como tal, eficaz

A oração de Jesus não se fundamenta em interesses pessoais ou na força das palavras e dos gestos. Aliás, se isto viesse acontecer, não passaria de uma oração ao jeito dos pagãos (Mt 6,7-8), tantas vezes criticada por ele. Os pagãos, à base de tanto insistirem, de tanto pedirem, de tanto informarem, de tanto persuadirem com as suas palavras e gestos, é que pensavam ser escutados pela divindade.    

Fundamenta-se, sim, na vontade do Pai, aliás como toda a sua vida: «Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou (4,34); (...) Eu não procuro a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou (5,30); (...) E quem me enviou está comigo. Não me deixou sozinho, porque faço sempre o que lhe agrada» (8,29).

Daí, precisamente, a sua eficácia: «(Marta diz a Jesus): Mas ainda agora sei que tudo o que pedires a Deus, Ele te concederá» (11,22); «Jesus ergueu os olhos para o alto e disse: “Pai, dou-te graças porque me ouviste. Eu sabia que sempre me ouves...”.

- Pelos seus discípulos (por cada um de nós) (17,9-19)

No capítulo 17, conhecido pela grande oração de Jesus ao Pai, é possível observar como os discípulos também fazem parte da sua oração. E os motivos pelos quais os inclui são variados: para que, no meio do mundo hostil e já na sua ausência, não abandonem a fé (vv. 11-15); para que sejam guardados no nome do Pai e preservados do poder do mal (vv. 11.15); para que, mesmo habitando num mundo incrédulo, cheguem a formar uma coisa só com Ele e com o Pai (v.11); para que o ódio do mundo não os impeça de gozar a sua plena alegria (v. 13); para que, como Ele, também eles sejam “santificados na verdade” (vv. 17.19) e se tornem verdadeiras testemunhas diante dos homens (v. 18);

À parte deste elenco de motivos, podemos destacar ainda a própria identidade do discipulado. Jesus ora de modo a que os seus discípulos venham a ser propriedade exclusiva de Deus (v.9), a viver numa situação diversa daquela em que vive o mundo (vv. 9.14-16), a encontrar-se no mundo, sendo para o mundo mas sem ser do mundo (vv.9.11.14.16), a acolher e a observar a palavra de Jesus como enviado do Pai (vv.8.17.19), a aspirar sempre uma comunhão mais profunda (v. 11).

- Por todos os que virão a acreditar nele (17,20-26)

Agora não se trata mais dos discípulos estritamente ditos, mas de todos aqueles que acreditarão nele mediante o anúncio deles (de cada um de nós). O v. 20 é claro, vejamos: «Não rogo somente por eles, mas pelos que, por meio da sua palavra, crerão em mim».


Esta súplica, de acordo com a temática da unidade e do amor que caracterizam esta secção, destina-se a faze-los participar da sua comunhão de vida e amor com o Pai: «a fim de que todos sejam um (como nós...); (...) Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós» (v. 21); «... para que sejam um, como nós somos um» (v. 22); «Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo saiba.. que os amaste como amaste a mim» (v.23); «Pai, ... quero que, onde eu estou, também eles estejam comigo» (v.24); «a fim de que o amor com que me amaste esteja neles e eu neles» (v.26).


- Que alcança alguns dons

Entre os muitos dons que Jesus pede e obtém do Pai para os seus discípulos, está o do Espírito Santo. A indicá-lo vemos o trecho de Jo 14,16-17: «E rogarei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito, para que convosco permaneça para sempre, o Espírito da Verdade, que o mundo não pode acolher, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque permanece convosco».

Tratando-se do Espírito, talvez fosse melhor falar do dom por excelência ou do dom-fonte, enquanto nascente de todos os dons divinos ou responsável por toda a riqueza espiritual dos crentes.

Para fazermos uma ideia de quanto seja importante esta petição de Jesus, bem como da importância de continuar a assumi-la nas nossas próprias orações, basta termos presente aquilo que o evangelho e as cartas de João atribuem à obra do Espírito. É próprio do Espírito tornar os homens filhos de Deus (3,3-8), ajudá-los a superar um modo de pensar puramente humano e sintonizá-los totalmente com o modo de pensar do Senhor (3,3-8), promover o culto espiritual (4,23-24), instruir (14,26), confirmar na fé (15,26-27), levar a um conhecimento sempre mais profundo e claro do mistério de Cristo (16,13-15; 1Jo 5,6), orientar para uma vida de comunhão e de caridade (1Jo 3,24; 4,13), transmitir fielmente a palavra de Jesus (1Jo 4,6) e fazê-la penetrar no íntimo dos corações (Jo 6,63).

Usando outros termos menos técnicos e mais próximos à nossa linguagem, podemos dizer que a actividade do Espírito é verdadeiramente excepcional enquanto tende a criar pessoas vivas, não mortas; impacientes de novidade, não resignadas; lutadoras, não rendidas; trasbordantes de amor, não tépidas (ñ indiferentes/mornas no amor); novas, não habituadas; autênticas, não hipócritas; abertas aos valores, não às aparências; encaminhadas para o futuro, não agarradas ao passado.

Numa palavra, pessoas animadas por aquele mesmo impulso interior que fazia escrever S. Teresinha do Menino Jesus: «(Quero) ser carmelita, Esposa e Mãe. No entanto, sinto em mim outras vocações, sinto a vocação de Guerreiro, de Sacerdote, de Apóstolo, de Doutor, de Mártir; (...) Quereria ser Missionário (....), mas quereria, sobretudo, Ó meu Bem-amado Salvador, quereria derramar o meu sangue (isto é, a minha vida) por ti, até à última gota...» (MsB 2vº, 3rº).

Pe. Vasco

14 fevereiro, 2013

Rosas de Santa Teresinha




Teresa e mais cinco irmãs encontraram-se à volta da cruz de granito do claustro. Apanham as pétalas junto de umas vinte roseiras e atiram-nas ao crucifixo. Do mesmo modo, a última fase da sua vida de amor será cantada em Uma Rosa Desfolhada (PN 51). O anúncio metafórico da sua missão póstuma, «Uma chuva de Rosas» (CA 9.6.3), descobre – ou melhor, não deveria encobrir – a única ambição de Teresa, no céu como na terra: amar a Jesus e fazê-Lo amar. Todos têm conhecimento do amor que Teresa dedicou às flores.

Uma pessoa desistiu de ler "História de uma Alma" quando se deparou com o subtítulo da autobiografia de Santa Teresa de Lisieux: "História primaveril de uma florzinha branca escrita por ela mesma e dedicada à Reverenda Madre Inês de Jesus". Porque achou a palavra "florzinha" decididamente repugnante. Vencida a imediata rejeição à autora que, já de início, se apresenta como uma "florzinha branca", aquele leitor decepcionado prestou um pouco mais de atenção ao desabrochar dos feitos heróicos dessa florzinha. E entristeceu-se ao terminar a leitura do livro. Pediu o segundo volume, que, infelizmente não existe.

Jesus meu único amor, aos pés do teu calvário, como gosto à tarde de atirar-Te flores!...Ao desfolhar para Ti a rosa primaveril, quisera enxugar o Teu pranto... Atirar flores, é oferecer-Te em primícias, os mais leves suspiros, as mais pesadas dores, penas e alegrias, os meus pequenos sacrifícios, Eis mas minhas flores!...

Todos têm conhecimento do amor que Teresa dedicou às flores. Ela perscrutava com avidez o livro da natureza, no qual se estampam flores das mais variadas espécies. Sempre atenta aos jardins, desde a infância, debruçava-se sobre os canteiros. Em sua autobiografia, por razões muito especiais, não se esquecerá daquilo que seus olhos e coração contemplaram: a diversidade das flores quanto à beleza. Teresa, apesar dessa diversidade, percebeu que as flores convivem harmoniosamente nos jardins do mundo inteiro.

Da tua beleza a minha alma enamorou-se, quero oferecer-Te os meus aromas e flores, ao lançá-las para Ti nas asas do vento, quisera inflamar os corações!... Atirar flores, Jesus, eis a minha arma quando quero lutar para salvar os pecadores. A vitória é minha... eu sempre Te desarmo com as minhas flores!!!...

Teresinha nunca quis ser, nos jardins do Senhor, uma flor altaneira. Preferiu ser uma florzinha rebaixada, que até uma criança pode colher e passos desavisados podem pisar.
Que florzinha branca teria sido Teresa? Uma rosa branca ainda em botão? "História de uma Alma" apresenta-nos uma preciosa pista.

As pétalas das flores, afagando-Te o Rosto, dizem-Te que o meu coração é teu. O meu único prazer neste vale de lágrimas, é atirar flores, repetir os teus louvores... no céu irei em breve como os anjos pequeninos, atirar flores!..  
Fr. Vitor

12 fevereiro, 2013

Isabel da Trindade




Isabel Catez nasceu, no campo militar de Avor, perto de Bourges, França. O seu pai era capitão do exército francês. Desde muito cedo que Isabel mostrou ser uma criança turbulenta, muito viva, faladora, precoce e de temperamento colérico. A sua mãe quando fala dela nalgumas cartas chama-a «autêntico diabinho». E a sua irmã não hesita em escrever que era «um verdadeiro diabo». Chega mesmo a dizer que era tão violenta que os familiares a ameaçaram enviar para uma casa de correcção. No entanto, a sua mãe, atenta, soube modelar a fúria de Isabel e fazer sobressair nela a ternura e docilidade. E de tal maneira a ternura ganhou terreno que o maior castigo de Isabel acontecia quando a sua mãe, à noite, se despedia dela sem lhe dar um beijo. Então, Isabel compreendia que não se tinha portado bem, e, meditando fazia exame de consciência e corrigia-se. Isabel era ainda uma criança quando a sua família se mudou para a cidade de Dijon. Aqui Isabel perdeu o pai tão querido que a morte lhe roubou. O dia da primeira comunhão, a 19 de Abril de 1891, foi «o grande dia» da vida de Isabel. Tinha então 10 anos, pois nascera no dia 18 de Julho de 1880. Estudou piano desde os 8 anos de idade no Conservatório, vindo a tornar-se uma «excelente pianista», segundo expressão do seu professor de música. Participou em concertos organizados, e, os jornais falaram do seu grande talento ainda mal a menina Catez chegava aos pedais do piano. Entre músicas e festivais, bailes, férias e diversões foram decorrendo os anos de Isabel. 


Aos catorze anos sentiu-se irresistivelmente atraída por Jesus. Aos 18 a sua mãe pretendeu casá-la com um esplêndido noivo, mas Isabel respondeu: «o meu coração já não está livre, dei-o ao Rei dos reis, já dele não posso dispor». O desgosto da mãe foi grande. Mas foi mais amargo quando soube que Isabel queria entrar no Carmelo, que tantas vezes tinham visitado, pois ficava ali a dois passos. A mãe apenas consentiu a entrada da filha no Carmelo quando alcançou a maioridade, aos 21 anos. No dia 2 de Agosto de 1901, Isabel entra definitivamente nessa bela montanha do Carmo que pela sua solidão e beleza a atraiu irresistivelmente. A partir de então o seu nome será Irmã Isabel da Santíssima Trindade. «Gosto tanto do mistério da Santíssima Trindade! É um abismo no qual me perco. Deus em mim, eu n’Ele. É o grande sonho da minha vida. Para uma carmelita viver é estar em comunhão com Deus desde a manhã até à noite, e desde a noite até de manhã. Se Deus não enchesse as nossas celas e os nossos claustros, oh!, como tudo seria vazio! Mas é Ele que enche toda a nossa vida fazendo dela um céu antecipado». 

A irmã Isabel tomou o hábito a 8 de Dezembro de 1901. Iniciada a vida de noviciado a paz e a felicidade mudou-se em noite escura; foi o momento da purificação interior. Com a profissão religiosa, que fez a 11 de Janeiro de 1903, recuperou a paz e a serenidade interior. Depressa a Irmã Isabel descobriu a sua vocação. Lendo S. Paulo descobriu que ela devia ser o «louvor da glória de Deus». Esta ideia e esta vocação serão o rumo e o norte de Isabel da Santíssima Trindade: «louvor de glória» é uma alma que mora em Deus e O ama com amor puro, amante do silêncio qual lira mantida sob o toque misterioso do Espírito Santo, fazendo sair de si harmonias divinas. 

«Louvor de glória» é uma alma que contempla a Deus em fé simples e permanece como um eco perene do eterno cântico celeste. O segredo da felicidade é não se preocupar consigo mesmo, é negar-se em todo o momento». 

Seguindo o Caminho que é Cristo, a Irmã Isabel entrou no mistério de Deus através de Maria a quem gosta de chamar a Porta do céu. Seguindo os nossos pais e mestres~, Teresa de Jesus e, sobretudo, João da Cruz, de quem constantemente fala nos seus escritos, Isabel mergulha no mistério das Três Pessoas Divinas, nesse Oceano sem fundo que é a Santíssima Trindade e que ela se sente envolvida por dentro e por fora. Tal como S. João da Cruz se sentiu fascinado pela formosura de Deus, também Isabel da Trindade se sente atraída pela beleza de Deus. Isabel gostava de ver o sol penetrar nos claustros e recordar aquela comparação de Santa Teresa que dizia que a alma é como um cristal que reflecte a Deus. A nossa irmã deixou-nos este testemunho: «cada dia na minha vida de esposa me parece mais belo, mais luminoso, mais envolto em paz e amor». 

Mas foi a vivência total daquela frase de S. João da Cruz: «a alma perfeita e unida a Deus em tudo encontra alegria e motivo de deleite até naquilo que entristece os outros, e sobretudo alegra-se na cruz» que levou a Irmã Isabel a perder-se em Deus como uma gota de água no Oceano, segundo a sua própria expressão. Foi o perfeito louvor da glória de Deus, por isso, apenas com 26 anos se encontrava preparada para voar para a paz: «tudo é calma, tudo fica tranquilo e é tão bom, a paz do Senhor». 

Nos finais de Março de 1906, a Irmã Isabel foi colocada na enfermaria. Sentia-se feliz por morrer carmelita e escreve esta frase que é uma cópia do verso de S. João da Cruz: «sem outro ofício senão o de amar, estou na enfermaria». As Irmãs rezavam pela sua cura e Isabel juntou o seu pedido às orações da comunidade, mas sentiu que Jesus lhe dizia que os ofícios da terra já não eram para ela. No dia 1 de Novembro comungou pela última vez e dois dias antes da sua morte disse ao seu médico: «é provável que dentro de dois dias esteja no seio da Santíssima Trindade. É a Virgem Maria, aquele ser tão luminoso, tão puro, com a pureza do mesmo Deus, quem me levará pela mão e me introduzirá no céu tão deslumbrante». Pouco antes da sua morte, Isabel disse às suas Irmãs esta frase tão bela e que ficou célebre: «Tudo passa! No entardecer da vida só o amor permanece». Frase que se parece com aquela outra de S. João da Cruz, também muito bela e conhecida: «à tarde serás examinado no amor». A sua última noite foi terrivelmente penosa, pois às suas horríveis dores juntou-se-lhe também a falta de ar, mas ao amanhecer Isabel sossegou, e inclinando a cabeça abriu os olhos, e exclamou: «vou para a Luz, para o Amor, para a Vida», e adormeceu para sempre. Era a madrugada do dia 9 de Novembro de 1906.
Recolha de Fr. Carlos