23 fevereiro, 2013

Orar à maneira de Jesus e daqueles que se encontraram com Ele... (III)




2. A oração das pessoas que se encontraram com Jesus

       Tudo o que foi dito até agora sobre o tema da oração, referiu-se directamente à pessoa de Jesus. Folheando, porém, o evangelho de João, é possível detectar-se outros protagonistas e expressões orantes. Estamos a falar, concretamente, de todas aquelas pessoas que um dia vieram a encontrar-se com Jesus e que, sob o impulso desta excepcional experiência, se dirigiram a Ele com a petição de qualquer graça ou exprimindo-lhe sentimentos de adoração e louvor.
         Debruçando-nos sobre cada uma das suas orações, surge no nosso interior a seguinte interrogação: será que ainda hoje podemos orar com todas elas? Será que podemos continuar a evocar, a ter presente os seus conteúdos? A resposta é positiva. Não só podemos rezar com as mesmas expressões orantes, mas também assumir redondamente os seus conteúdos. No entretanto, há que primeiro compreendê-los ao nível da mente e do coração...
         Elenquemos algumas dessas principais orações e notemos os seus conteúdos.

         1) Orações de súplica

         «Ora, não havia mais vinho, pois o vinho do casamento tinha-se acabado. Então a mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm mais vinho» (2,3)

Primeira oração de súplica: “Eles não têm mais vinho”

         (Explicitamente vemos a apresentação de uma necessidade. Implicitamente reconhecemos a atenção, preocupação, solicitude, compaixão, amor pelos mais necessitados. O Diálogo de Deus com os homens - “a sua oração” - também se reveste destes mesmos sentimentos, atitudes, valores, qualidades, características...)  
        
         Maria ora deste jeito pela ocasião das núpcias de Caná. Mais concretamente, depois de se ter dado conta que a eventual falta de vinho poderá causar um grave embaraço aos esposos. À parte de ser a apresentação de uma necessidade a Jesus, é uma oração carregada de atenção, preocupação, solicitude, compaixão, ternura, despojamento, oblação e amor pelos mais necessitados.
         Demonstra, pois, qual seja a sensibilidade da mãe de Jesus diante das pessoas em apuros. Maria faz-se aqui dom e esperança para os mais desprotegidos.
         Da nossa parte, ao assumirmos a súplica de Maria - “olha que eles não têm vinho” - estamos também a apresentar a Deus as necessidades do nosso próximo e a manifestar-lhe os nossos sentimentos/atitudes por cada um deles. Se quisermos, estamos ainda a dizer-lhe que já nos desinteressamos de nós mesmos para fazermo-nos dom e ocasião de esperança para o irmão.

«Jesus lhe respondeu: “Aquele que bebe desta água terá sede novamente; mas quem beber da água que eu lhe darei, nunca mais terá sede. Pois a água que eu lhe der tornar-se-á nele uma fonte de água jorrando para a vida eterna”. Disse-lhe a mulher: “Senhor, dá-me dessa água...”» (4,13-15)

         Segunda oração de súplica: “Senhor, dá-me dessa água”

         Poderemos rezar hoje com a mesma súplica? Quando a Samaritana dirigia estas palavras a Jesus, ela pensava na água do seu poço e na possibilidade de se dessedentar de uma vez para sempre.
Nós sabemos, porém, que a água de que fala Jesus é a água da sua palavra colocada pelo Espírito nos nossos corações para que nos tornemos fonte de vida e de obras boas.
Estamos, pois, em condições, até mais que a Samaritana, de pedir a Jesus este tipo de água e de repetir com o salmista: «Como a corça bramindo por águas correntes, assim minha alma está bramindo por ti, Ó meu Deus!» (Sl 42,2-3); «Ó Deus, tu és o meu Deus, eu te procuro. Minha alma tem sede de ti, minha carne te deseja com ardor, como terra seca, esgotada, sem água» (Sl 63,2).

         «Ouvindo dizer (um funcionário régio) que Jesus viera da Judéia para a Galiléia, foi procurá-lo, e pedia-lhe que descesse e curasse seu filho, que estava à morte» (4,47).

         Terceira oração de súplica: “Pediu-lhe que descesse e curasse seu Filho”

         Ao crente não é proibido pedir ao Senhor o que lhe é útil e necessário desde o ponto de vista estritamente humano. A intervenção de Jesus, aliás, mostra como o seu Deus é alguém de rosto humano e sempre disposto a ajudar quem se encontra enfermo. Não é por acaso que o salmista se mete a confessar publicamente: «Bendiz a Iahweh, ó minha alma, e não esqueças nenhum dos seus benefícios. É ele quem perdoa tua culpa toda e cura todos os teus males. É ele quem redime tua vida da cova e te coroa de amor e compaixão. É ele quem sacia teus anos de bens e, como a da águia, tua juventude se renova» (Sl 103,2-5).
No entretanto, aquilo que conta, no acto de suplicar, é ter, como o oficial régio, uma fé ilimitada no Senhor (4,50.53) e servir-se das graças recebidas para robustecê-la ainda mais (4,53).

         «(Respondeu-lhes Jesus): porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá a vida ao mundo. Disseram-lhe: “Senhor, dá-nos sempre deste pão”» (6,33-34)

         Quarta oração de súplica: “Senhor, dá-nos sempre deste pão”

         Na boca da gente de Cafarnaum, esta súplica refere-se aos pães que Jesus tinha multiplicado. Para o evangelista, porém, refere-se ao pão da palavra de Deus e ao pão eucarístico que dá acesso à vida plena.
A nós cristãos, obviamente, interessa esta segunda leitura. E é perfeitamente natural que, diante de um pão trasbordante de vida, queiramo-lo pedir muitas vezes – “Senhor, dá-nos sempre deste pão” - e sintamos a necessidade de recordar: «Trabalhai, não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até à vida eterna» (6,27); «O pão de Deus é aquele que desce do céu e dá a vida ao mundo» (6,33); «Eu sou o pão da vida» (6,35); «Quem comer deste pão viverá eternamente» (6,51).
Seria, contudo, redutor e mesquinho limitar-nos a pedir. Como Jesus, também nós somos chamados a fazer-nos pão para os outros; quer dizer, dom, ajuda, conforto, esperança, salvação, liberação. Como Jesus, também nós devemos tornar-nos carne que se imola e sangue que se derrama para bem do mundo.

         «(Responde Jesus a Pedro): “Se eu não te lavar, não terás parte comigo”. Lhe disse Simão Pedro: “Senhor, não apenas meus pés, mas também as mãos e a cabeça”» (13,8-9)

         Quinta oração de súplica: “Senhor, lava-me...”

         O motivo que leva Pedro a pedir a Jesus para lhe lavar os pés, as mãos e a cabeça é o medo de ser separado dele. Não se dá conta, em nenhum momento, que Jesus não quer lavá-lo por fora, mas por dentro, no interior e que esta lavagem acontecerá com a sua morte na cruz.
         Nós, porém, ao contrário de Pedro, estamos já ao corrente deste simbolismo. Logo, estamos obrigados a suplicar a Jesus que nos lave realmente como nos tem pensado lavar, isto é interiormente de todas as imundícies, e nos dê a pureza espiritual que fala o salmista: «Tem piedade de mim, ó Deus, por teu amor! Apaga minhas transgressões, por tua grande compaixão! Lava-me inteiro da minha iniquidade e purifica-me do meu pecado... Purifica meu pecado com o hissope e ficarei puro, lava-me, e ficarei mais branco do que a neve... Cria em mim um coração puro, renova um espírito firme no meu peito» (Sl 51,3-4.9.12).

         «Se me conheceis, também conhecereis a meu Pai. Desde agora o conheceis e o vistes. Filipe lhe diz: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta!” (14,7-8).

         Sexta oração de súplica: “Mostra-nos o Pai”

         Ao fazer a Jesus este pedido, o apóstolo Filipe mostra não ter compreendido absolutamente nada do que Ele acaba de dizer. O apóstolo pensa poder ver o Pai em carne e osso, de tal maneira que recebe esta resposta: «Quem me vê, vê o Pai. Como podes dizer: ‘Mostra-nos o Pai!’? Não crês que estou no Pai e o Pai está em mim? (vv. 9-10)
         De acordo com as palavras de Jesus, vimos a saber que não devemos aspirar uma visão directa do Pai. Se desejamos vê-lo, não temos se não que pedir um conhecimento sempre mais claro e profundo da pessoa de Jesus. O pedido deste conhecimento não deve, contudo, restringir-se ao simples campo teórico. Para João, conhecer Jesus significa também fazer experiência dele e entrar numa relação de grande intimidade (10,3-4). Significa conhecer mas, ao mesmo tempo, amar, escutar, acolher, observar, viver.

Pe. Vasco

21 fevereiro, 2013

Benditos remendos do alcatrão!


Foi Domingo, pelas 20 horas, que tudo começou. Regressava a casa, no assento do co-piloto (reconheço que vinha a dormitar!), juntamente com os meus irmãos depois de uma actividade juvenil em Fátima. De repetente, o carro estremece todo e eu, também sacudido, acordo total e finalmente e digo: "É por isto que Portugal não vai para a frente: em vez de colocarem o piso todo de novo, já fizeram mais um remendo! Gastam mais dinheiro em remendos do que em estradas!"
Tenho que reconhecer que não é (e, se calhar, não é a última!) que, num acesso de ira, me vem esta enxurrada de palavras à boca. 

Hoje, numa aula de Teologia da Vida religiosa, ao falarmos sobre o radicalismo evangélico, lêmos uma passagem bíblica que me fez voltar a Domingo:

" [Jesus] Disse-lhes [os fariseus e os doutores da Lei murmuravam por Jesus comer com os cobradores de impostos e com os pecadores em casa do neo-convertido Levi] também esta parábola: «Ninguém recorta um bocado de roupa nova para o deitar em roupa velha; aliás, irá estragar-se a roupa nova, e também à roupa velha não se ajustará bem o remendo que vem da nova. E ninguém deita vinho novo em odres velhos; se o fizer, o vinho novo rompe os odres e derrama-se, e os odres ficarão perdidos. Mas deve deitar-se vinho novo em odres novos. E ninguém, depois de ter bebido o velho, quer do novo, pois diz: 'O velho é que é bom!'»
(Lc 5, 36-39)

Bem, Jesus não falou de asfalto e remendos, mas a ideia é a mesma! Reconheço que foi a parte dos remendos que me sacudiu! E pôs-me a pensar:  nesta estrada que é a minha vida, o que é que ando a fazer: a remendar ou a alcatroar de novo? Não será que, em vez de  asfaltar de novo, ando pôr remendos na minha estrada, que me gastam mais recursos do que refazê-la de novo e, além disso, me fazem perder a estabilidade e a tranquilidade? Sim, pôr remendos é mais fácil, mas não é o melhor: e os nossos carros podem ser a prova disso mesmo! E são muitas as vezes que ponho remendos: um remendo aqui na caridade para com este, um remendo ali nos meus maus pensamentos, um remendo acolá na minha inveja! E não nos decidimos a refazer a estrada! E, chegando a um certo ponto, a nossa vida é apenas e só um conjunto de remendos, que estragam os carros e nos deixam com os cabelos em pé! Resolvamos definitivamente o problema, asfaltando de novo a nossa vida, criando um novo modo de ser, agindo não na superfície, mas na raiz do nosso ser! É verdade que dá mais trabalho, mas será a única maneira de chegarmos mais calma e tranquilamente ao destino.


Reconheço que a reflexão saiu um pouco desajeitada, como tudo o que é a experiência humana. E para que isto não seja uma "desajeitação total", dou a palavra ao Mestre João da Cruz, porque ele sabe dizer o que eu quero dizer melhor do que eu:


"A alma que há-de chegar à divina união há-de carecer
de todos os apetites voluntários;
quer sejam de pecado mortais, que são os mais graves; 
quer de pecado venial, que são os menos graves;
quer somente de imperfeições, que são as menores;
de todos se há-de esvaziar e de todos há-de a alma carecer 
para chegar a esta total união, por mínimos que sejam.

E a razão é porque o estado desta divina união 
consiste em ter a alma, quanto à vontade, 
com tal transformação na vontade de Deus, 
de forma a não haver nela coisa contrária à vontade de Deus,
mas que, em tudo e por tudo, 
o seu movimento seja somente vontade de Deus."

(1 S 11,2)

Na verdade, benditos buracos do alcatrão! Bem, a partir de agora, cada vez que for sacudido por um buraco do asfalto vou tentar não irromper numa enxurrada de palavras nem, muito menos, ir interromper a vida dos outros com a "Grândola Vila Morena", mas perguntar-me: 

ando a remendar ou a alcatroar? 


Fr. Renato.








Ah... e bom alcatroamento neste tempo da Quaresma!? :)


19 fevereiro, 2013

“Testemunha da verdade”




"Afastada, de momento, a ideia de ser religiosa, Edith pensa em empregar o seu tempo e as suas qualidades em alguma tarefa útil, não apenas científica mas também apostólica. Espira será o seu campo de trabalho. O sacerdote que baptizou apresenta-a ao vigário geral da diocese, Mons. Josef Shwind que desde então o seu conselheiro espiritual e amigo cordial. E a primeira coisa que este sacerdote faz é rejeita-lhe todos os planos prematuros de vida claustral e impor-lhe um longo período de espera no mundo. Ao longo dez anos Edith vai uma e outra vez colocando a questão da sua entrada no convento e ouve sempre a mesma resposta do seu director espiritual: não. E ela aceita com obediência humilde e absoluta. Atendendo ao seu desejo de silêncio e recolhimento, Mons. Schwind encarrega-se de lhe arranjar um trabalho adequado e recomenda-a para a professora de alemão no colégio de santa Maria Madalena, das Irmãs dominicanas.

Habitual a trabalhar com alunos universitário em Friburgo, aqui, de modo, com este discipulado, desce de nível. Mas ela depressa adapta ás novas circunstâncias e sente-se feliz em espira por poder viver dentro de uma atmosfera conventual. Ao longo destes anos, a sua personalidade cristã e católica vai amadurecendo.   Prepara conscienciosamente as suas aulas. Não se limita a instruir, procura educar as aulas, menos com palavras que com o seu testemunho de vida. Em toda a sua maneira de ser -  e não apenas na sala de aulas – revela-se como excelente pedagoga. 

Edith procura esconder-se, para aprofundar a sua vida de fé e viver em felicidade a imitação de Cristo. Mas, quanto mais se esconde, tanto mais radiante aparece aos que com ela tratam a luz interior da sua união com Deus.

«A Doutora Edith Stein dava aula de alemã nos cursos superiores da escola; era uma mulher muito inteligente, piedosa e modesta no seu porte. No convento, ocupava um quarto simples, com muitos livros nas estantes. Ali passávamos nós as mais velhas, algumas belas e interessante veladas literalmente sentadas as seus pés e escudando as suas palavras. Era pequena, mas de aspecto agradável, de rosto um pouco pálido e de risca ao no cabelo. Uma pequena cova no queixo tornava o seu rosto um tanto interessante. O seu porte era geralmente sério e os seus olhos reflectiam frequentemente uma certa tristeza. No entanto, ria – se connosco quando surgia algum motivo razoável. Tínhamos para com ela uma certa veneração, e o seu rosto irradiava algo que comovia e cativava interiormente…como cristã profundamente crente sentia – se muito á vontade e e segura em casas Das dominicanas. Era frequente participar na oração coral das Irmãs. Víamo-lo várias vezes ao dia recolhida em profunda e contemplativa oração, ajoelhada num reclinatório, num canto próximo do altar…»"


"Nenhuma obra espiritual vem ao mundo
sem grandes trabalhos."



VAZ,  Mário -  Edith Stein. Uma síntese dramática do séc. XX.  Paço de Arcos:  Edições Carmelo, 1998, pp. 55-57.

Recolha de Fr. Eugénio

18 fevereiro, 2013

O choupo e a azinheira




Era uma vez um choupo esbelto que crescia junto a um rio.
Era o último do choupal.
Perto dele havia uma azinheira, frondosa e sapuda.
Era a primeira de um azinhal situado numa encosta.

- Disse o choupo à azinheira:
 «Como é que ficaste tão baixinha?
Eu pensava que irias crescer mais do que eu».

        - A azinheira respondeu:
«Não sou baixinha.
O que acontece é que eu cresci também para baixo.
Tenho raízes fortes. Elas dão-me segurança.
 Digo-te mais: até me metes dó quando o vento sopra fortemente e te vejo a balancear. Parece que vais partir de um momento para o outro. Porque é que crescestes assim?».

-   Respondeu-lhe o choupo: 
«Eu vou sempre à procura do que é novo: novo céu, novo ar, nova luz. Se ficar aí em baixo, abafo. Aborreço-me de estar sempre na mesma. Adoro a novidade. Se visses a paisagem que se vislumbra aqui de cima...!»

-   Disse-lhe a azinheira:
«Olha lá: e se fizéssemos um enxerto de choupo na azinheira? Teríamos a minha segurança e a tua novidade. Que filho tão bonito que nos sairia!».

-   «Excelente! – disse o choupo. Os agrónomos não pensaram nisso, mas nós vamos conseguir».

In Mensageiro do Menino Jesus de Praga

17 fevereiro, 2013

Professar a Fé


1. Só secundariamente a Quaresma «prepara» para a Ressur­reição. Na verdade, todos os «Tempos» e todos os Domingos do Ano Litúrgico – portanto, também a Quaresma e os seus Domingos – estão depois da Ressurreicão e por causa da Ressurreição. E é só sob a intensa luz do Senhor Ressusci­tado com o Espírito Santo (Baptismo consumado: Lucas 12,49‑50) que a Igreja – e cada um de nós – pode celebrar autenti­camente a sua fé, proceder à correcta «leitura» das Escri­turas e encetar a «caminhada» quaresmal. Neste sentido, todos os baptizados são chamados a refazer com Cristo bapti­zado o seu programa baptismal, cujo conteúdo e itinerário conhecemos: desde o Baptismo no Jordão, passando pela Trans­figuração/Confirmação no Tabor, até à Cruz e à Glória da Ressurreição (Baptismo consumado!), escutando e anunciando sempre e cada vez mais intensamente o Evangelho do Reino e fazendo sempre e cada vez mais intensamente as «obras» do Reino (Actos 10,37-38: texto emblemático). Os catecúmenos, acompanhados sempre pela Assembleia dos baptizados, «pre­param‑se» intensamente para a Noite Pascal Baptismal, início e meta da vida cristã.

2. Baptizado com o Espírito Santo, e declarado por Deus «o Filho meu», «o Amado» (Lucas 3,21-22), Jesus é conduzido pelo Espírito Santo através do deserto (Lucas 4,1), lugar teológico e não meramente geográfico – com muita água (João 3,23) cumprindo Isaías 35,6-7, 41,18 e 43,19-20, com árvores (canas) (Lucas 7,24) e relva verde (Marcos 6,39) cumprindo Isaías 35,1 e 7 e 41,19 –, lugar provisório e preliminar, preambular, longe do que é nosso, onde se está «a céu aberto» com Deus, onde troará a voz do seu mensageiro (Isaías 40,3), de João Baptista (Lucas 3,2-6), do próprio Messias segundo uma tradição judaica recolhida em Mateus 24,26. O deserto é o lugar onde se pode começar a ver a «obra» nova de Deus (Isaías 43,19). Sendo um lugar provisório, aponta para a Terra Prometida e definitiva do repouso. O deserto é lugar de passagem. Sem pontos de referência nem marcos de sinalização. Se o rumo não estiver bem definido, o viandante corre o risco de se perder no deserto da vida e de nunca chegar à Vida verdadeira.

 3. A liturgia deste Domingo I da Quaresma, neste Ano C, oferece-nos três textos sublimes atravessados em filigana pela profissão de fé. Comecemos pelo Evangelho com o texto majestoso das chamadas tentações de Jesus (Lucas 4,1-13). Durante quarenta dias (40 é o tempo de uma vida, a vida toda) Jesus jejuou (Lucas 4,2), isto é, perscrutou a «obra» nova de Deus na história do seu povo, que o mesmo é dizer, saboreou as Escrituras, o outro alimento (Deuteronómio 8,3; Mateus 4,4; cf. João 4,32 e 34-35: notável releitura em que aos olhos atónitos dos discípulos saltam as estações do ano!), e meditou, sempre a partir das Escrituras, na sua missão filial baptismal. E é na sua condição de baptizado, isto é, de Filho de Deus, que ele é tentado. De facto, toda a tentação – a de Cristo como a nossa – começa sempre da mesma maneira: «se és o Filho de Deus…». Atente-se em como se repete nos mesmos termos sob a Cruz (Lucas 23,35-39). Portanto, sempre. Do Baptismo até à Morte, a tentação visa afastar-nos de Deus e da sua «obra», e pôr-nos ao serviço do «deus deste mundo» (2 Coríntios 4,4; cf. João 12,31).

4. Mas detenhamo-nos brevemente nas ofertas do tentador de hoje. Em primeiro lugar, fabricar o próprio pão, o pão que o diabo amassou, em vez de receber pão da Palavra dado por Deus (Deuteronómio 8,3) aos seus amigos até durante o sono (Salmo 127,2) (Lucas 4,3-4). Em segundo lugar, a oferta de todos os reinos deste mundo e da sua glória em troca do afastamento de Deus (Lucas 4,5-7). E a resposta decidida de Jesus, remetendo para a Escritura Santa e para Deus: «Está escrito: “Adorarás ao Senhor, teu Deus, e só a Ele prestarás culto”» (Lucas 4,8). Em terceiro lugar, a tentação do sucesso fácil em Jerusalém, taxativamente recusada por Jesus (Lucas 4,9-13). Para quem tem diante de si o texto de Mateus, aperceber-se-á de imediato da troca de lugar da segunda e da terceira tentação. Fácil de compreender: em Lucas, Jerusalém é o centro do mundo, é lá que Jesus aparece logo aos 40 dias (Lucas 2,22), aos 12 anos (Lucas 2,41), é para lá que Jesus caminha na secção central deste Evangelho (Lucas 9,51-19,28), é lá que se sucedem os últimos episódios da sua vida, é lá que se os discípulos são mandados esperar (Lucas 24,49-53), em vez de se dirigirem para a Galileia. Convém, portanto, que a terceira tentação decorra em Jerusalém.

5. Baptizado, tentado na sua condição de Baptizado, e Vitorioso na tentação, Jesus passa de imediato à execução do seu programa filial baptismal: anunciar o Evangelho de Deus e fazer a sua «obra» (Lucas 4,14s.). Como ele também nós.

 6. Extraordinária a lição do Livro do Deuteronómio 26,4-10: aqui estou, meu Deus, orientando a minha vida toda para Ti, oferecendo-Te os primeiros frutos desta Terra boa e bela que nos destes, depois de nos teres chamado do meio da confusão e dado a liberdade! Eu canto para Ti, meu Deus, pois é a Ti que devo a minha liberdade e a bondade e beleza da minha vida! Este belo texto é uma miniatura, um colar de pérolas do Teu amor por nós, que devemos levar sempre connosco, como se fosse uma fotografia Tua! O chamamento dos pais, a libertação do Egipto, a dádiva da Terra Prometida.

 7. E a lição da Carta aos Romanos 10,8-13: na minha vida toda, no meu coração e na minha boca – no coração a fé, na boca o testemunho – escorre o sabor da Tua Palavra, doce como o puro mel dos favos!

Dom António Couto, in Mesa de Palavras