20 março, 2013

EUCARISTIA DE INÍCIO DO MINISTÉRIO PETRINO DO BISPO DE ROMA



Queridos irmãos e irmãs!
Agradeço ao Senhor por poder celebrar esta Santa Missa de início do ministério petrino na solenidade de São José, esposo da Virgem Maria e patrono da Igreja universal: é uma coincidência densa de significado e é também o onomástico do meu venerado Predecessor: acompanhamo-lo com a oração, cheia de estima e gratidão.
Saúdo, com afecto, os Irmãos Cardeais e Bispos, os sacerdotes, os diáconos, os religiosos e as religiosas e todos os fiéis leigos. Agradeço, pela sua presença, aos Representantes das outras Igrejas e Comunidades eclesiais, bem como aos representantes da comunidade judaica e de outras comunidades religiosas. Dirijo a minha cordial saudação aos Chefes de Estado e de Governo, às Delegações oficiais de tantos países do mundo e ao Corpo Diplomático.
Ouvimos ler, no Evangelho, que «José fez como lhe ordenou o anjo do Senhor e recebeu sua esposa» (Mt 1, 24). Nestas palavras, encerra-se já a missão que Deus confia a José: ser custos, guardião. Guardião de quem? De Maria e de Jesus, mas é uma guarda que depois se alarga à Igreja, como sublinhou o Beato João Paulo II: «São José, assim como cuidou com amor de Maria e se dedicou com empenho jubiloso à educação de Jesus Cristo, assim também guarda e protege o seu Corpo místico, a Igreja, da qual a Virgem Santíssima é figura e modelo» (Exort. ap.Redemptoris Custos, 1).
Como realiza José esta guarda? Com discrição, com humildade, no silêncio, mas com uma presença constante e uma fidelidade total, mesmo quando não consegue entender. Desde o casamento com Maria até ao episódio de Jesus, aos doze anos, no templo de Jerusalém, acompanha com solicitude e amor cada momento. Permanece ao lado de Maria, sua esposa, tanto nos momentos serenos como nos momentos difíceis da vida, na ida a Belém para o recenseamento e nas horas ansiosas e felizes do parto; no momento dramático da fuga para o Egipto e na busca preocupada do filho no templo; e depois na vida quotidiana da casa de Nazaré, na carpintaria onde ensinou o ofício a Jesus.
Como vive José a sua vocação de guardião de Maria, de Jesus, da Igreja? Numa constante atenção a Deus, aberto aos seus sinais, disponível mais ao projecto d’Ele que ao seu. E isto mesmo é o que Deus pede a David, como ouvimos na primeira Leitura: Deus não deseja uma casa construída pelo homem, mas quer a fidelidade à sua Palavra, ao seu desígnio; e é o próprio Deus que constrói a casa, mas de pedras vivas marcadas pelo seu Espírito. E José é «guardião», porque sabe ouvir a Deus, deixa-se guiar pela sua vontade e, por isso mesmo, se mostra ainda mais sensível com as pessoas que lhe estão confiadas, sabe ler com realismo os acontecimentos, está atento àquilo que o rodeia, e toma as decisões mais sensatas. Nele, queridos amigos, vemos como se responde à vocação de Deus: com disponibilidade e prontidão; mas vemos também qual é o centro da vocação cristã: Cristo. Guardemos Cristo na nossa vida, para guardar os outros, para guardar a criação!
Entretanto a vocação de guardião não diz respeito apenas a nós, cristãos, mas tem uma dimensão antecedente, que é simplesmente humana e diz respeito a todos: é a de guardar a criação inteira, a beleza da criação, como se diz no livro de Génesis e nos mostrou São Francisco de Assis: é ter respeito por toda a criatura de Deus e pelo ambiente onde vivemos. É guardar as pessoas, cuidar carinhosamente de todas elas e cada uma, especialmente das crianças, dos idosos, daqueles que são mais frágeis e que muitas vezes estão na periferia do nosso coração. É cuidar uns dos outros na família: os esposos guardam-se reciprocamente, depois, como pais, cuidam dos filhos, e, com o passar do tempo, os próprios filhos tornam-se guardiões dos pais. É viver com sinceridade as amizades, que são um mútuo guardar-se na intimidade, no respeito e no bem. Fundamentalmente tudo está confiado à guarda do homem, e é uma responsabilidade que nos diz respeito a todos. Sede guardiões dos dons de Deus!
E quando o homem falha nesta responsabilidade, quando não cuidamos da criação e dos irmãos, então encontra lugar a destruição e o coração fica ressequido. Infelizmente, em cada época da história, existem «Herodes» que tramam desígnios de morte, destroem e deturpam o rosto do homem e da mulher.
Queria pedir, por favor, a quantos ocupam cargos de responsabilidade em âmbito económico, político ou social, a todos os homens e mulheres de boa vontade: sejamos «guardiões» da criação, do desígnio de Deus inscrito na natureza, guardiões do outro, do ambiente; não deixemos que sinais de destruição e morte acompanhem o caminho deste nosso mundo! Mas, para «guardar», devemos também cuidar de nós mesmos. Lembremo-nos de que o ódio, a inveja, o orgulho sujam a vida; então guardar quer dizer vigiar sobre os nossos sentimentos, o nosso coração, porque é dele que saem as boas intenções e as más: aquelas que edificam e as que destroem. Não devemos ter medo de bondade, ou mesmo de ternura.
A propósito, deixai-me acrescentar mais uma observação: cuidar, guardar requer bondade, requer ser praticado com ternura. Nos Evangelhos, São José aparece como um homem forte, corajoso, trabalhador, mas, no seu íntimo, sobressai uma grande ternura, que não é a virtude dos fracos, antes pelo contrário denota fortaleza de ânimo e capacidade de solicitude, de compaixão, de verdadeira abertura ao outro, de amor. Não devemos ter medo da bondade, da ternura!
Hoje, juntamente com a festa de São José, celebramos o início do ministério do novo Bispo de Roma, Sucessor de Pedro, que inclui também um poder. É certo que Jesus Cristo deu um poder a Pedro, mas de que poder se trata? À tríplice pergunta de Jesus a Pedro sobre o amor, segue-se o tríplice convite: apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas. Não esqueçamos jamais que o verdadeiro poder é o serviço, e que o próprio Papa, para exercer o poder, deve entrar sempre mais naquele serviço que tem o seu vértice luminoso na Cruz; deve olhar para o serviço humilde, concreto, rico de fé, de São José e, como ele, abrir os braços para guardar todo o Povo de Deus e acolher, com afecto e ternura, a humanidade inteira, especialmente os mais pobres, os mais fracos, os mais pequeninos, aqueles que Mateus descreve no Juízo final sobre a caridade: quem tem fome, sede, é estrangeiro, está nu, doente, na prisão (cf. Mt 25, 31-46). Apenas aqueles que servem com amor capaz de proteger.
Na segunda Leitura, São Paulo fala de Abraão, que acreditou «com uma esperança, para além do que se podia esperar» (Rm 4, 18). Com uma esperança, para além do que se podia esperar! Também hoje, perante tantos pedaços de céu cinzento, há necessidade de ver a luz da esperança e de darmos nós mesmos esperança. Guardar a criação, cada homem e cada mulher, com um olhar de ternura e amor, é abrir o horizonte da esperança, é abrir um rasgo de luz no meio de tantas nuvens, é levar o calor da esperança! E, para o crente, para nós cristãos, como Abraão, como São José, a esperança que levamos tem o horizonte de Deus que nos foi aberto em Cristo, está fundada sobre a rocha que é Deus.
Guardar Jesus com Maria, guardar a criação inteira, guardar toda a pessoa, especialmente a mais pobre, guardarmo-nos a nós mesmos: eis um serviço que o Bispo de Roma está chamado a cumprir, mas para o qual todos nós estamos chamados, fazendo resplandecer a estrela da esperança: Guardemos com amor aquilo que Deus nos deu!
Peço a intercessão da Virgem Maria, de São José, de São Pedro e São Paulo, de São Francisco, para que o Espírito Santo acompanhe o meu ministério, e, a todos vós, digo: rezai por mim! 
Amen.

19 março, 2013

São José






«Tomei por advogado e senhor 
ao glorioso São José 
e encomendei-me muito a ele. 
Vi claramente que, 
tanto desta necessidade 
como de outras maiores 
de honra e perda de alma, 
este Pai e Senhor meu me tirou 
com maior bem do que eu lhe sabia pedir. 
Não me recordo até agora 
de lhe ter suplicado coisa 
que tenha deixado de fazer.»

Santa Teresa de Jesus, Vida 6,3

18 março, 2013

O frasco de vidro e o café




Um professor diante da sua turma de filosofia, sem dizer uma palavra, pegou num frasco de vidro, grande e vazio, e começou a enchê-lo com bolas de golfe. A seguir perguntou aos estudantes se o frasco estava cheio. Todos estiveram de acordo em dizer que "sim".

O professor tomou então uma caixa com pedrinhas e vazou-a dentro do frasco. As pedrinhas preencheram os espaços vazios entre as bolas de golfe. O professor voltou a perguntar aos alunos se o frasco estava cheio, e eles voltaram a responder que "sim".

Logo, o professor pegou uma caixa de areia e vazou-a dentro do frasco. Obviamente que a areia encheu todos os espaços vazios e o professor questionou novamente se o frasco estava cheio. Os alunos responderam-lhe com um "sim" unânime.

A seguir, o professor adicionou duas chávenas de café ao conteúdo do frasco. Elas preencheram todos os espaços vazios entre a areia. Os estudantes, desta vez, riram-se.

Quando os risos terminaram, o professor comentou: "Quero que percebam que este frasco representa a vida. As bolas de golfe são as coisas importantes, como Deus, a família, os filhos, a saúde, os amigos, as coisas que nos apaixonam. Se perdêssemos tudo e ficássemos só com estas coisas, mesmo assim a nossa vida ainda estaria cheia. As pedrinhas são outras coisas importantes, como o trabalho, a casa, o carro etc. A areia é o resto, as pequenas coisas.

"Se colocássemos a areia no frasco em primeiro lugar, não haveria espaço nem para as pedrinhas, nem para as bolas de golfe. O mesmo acontece na vida. Se gastássemos todo o nosso tempo e energias com as coisas pequenas, nunca teríamos tempo para as coisas que realmente são importantes.

Presta atenção, em primeiro lugar, às coisas que são realmente importantes para ti. Define quais são as tuas prioridades, e o resto é só areia."

Um dos estudantes levantou a mão e perguntou: - E o que significa o café?

O professor sorriu e disse-lhe: " Alegro-me por teres feito a pergunta! O café demonstra que, por mais ocupada que pareça estar a nossa vida, há sempre um tempo para o tomar com um amigo. ".

Pensa e medita
Esta parábola pode lembrar-nos que, apesar da nossa vida parecer estar muito preenchida, no frasco de cada dia há sempre um espaço um bocadinho de tempo para tomar café com o amigo. Jesus é esse Amigo. Arranja um bocadinho de tempo para a oração. É nela e por ela que Jesus nos faz ver as coisas mais importantes da jornada para nós.
Na correria do dia, Jesus cruza-se comigo e diz-me: «Queres tomar um café»? 

17 março, 2013

DEUS NÃO TEM PLANOS, TEM SURPRESAS!



1. A «caminhada« quaresmal aproxima-se da sua meta e do seu verdadeiro ponto de partida: a Cruz Gloriosa onde resplandece para sempre o Rosto do imenso, indizível, surpreendente amor de Deus. Nestaaltura do percurso (supõe-se que encetámos uma subida espiritual: entenda-se no Espírito Santo e com o Espírito Santo), baptizados e catecúmenos devem estar já a ser Iluminados por essa luz, a ponto de se desfazerem das «obras das trevas» e de abraçarem as «obras da Luz», como verdadeiros discípulos que seguem o Mestre até ao fim, que é também o princípio, a Fonte da Vida verdadeira donde jorra o Espírito Santo (sempre Actos 2,32-33; João 19,30 e 34; 7,37-39). Os catecúmenos têm neste Domingo V da Quaresma os seus terceiros «escrutínios»: última «chamada» para a Liberdade antes da Noite Pascal Baptismal.

 2. Deus não tem planos, tem surpresas. É, portanto, sempre desmedido e surpreendente quanto vem de Deus. Brota do excesso de Deus, que supera em muito as nossas necessidades e capacidades. Aí está, neste Domingo V da Quaresma, a imensa lição do Evangelho de João 8,1-11. Esta passagem parece uma incrustação no IV Evangelho, pois interrompe o discurso de Jesus durante a Festa das Tendas (7,1-8,59), não aparece nos manuscritos mais antigos e nos códices antigos mais importantes dos Evangelhos, nem nos Padres gregos. Omitem-na nos seus comentários Orígenes, João Crisóstomo, Teodoro de Mopsuéstia, Cirilo de Alexandria, Teófilo, Tertuliano, Cipriano, Hilário e Taciano. Os Padres latinos Ambrósio, Agostinho e Jerónimo conhecem-na noutro lugar. Alguns manuscritos situam esta perícope no Evangelho de João depois de 7,36, outros depois de 7,44, outros depois de 7,52, ou mesmo no final, depois de 21,25. Outros ainda introduzem-na no Evangelho de Lucas (depois de 21,38). Por outro lado, a perícope não tem o estilo joanino. Está, de facto, mais perto do estilo lucano.

 3. Fixemos a nossa atenção no movimento do texto. Jesus SENTA-SE como MESTRE, para ensinar, e SENTADO como MESTRE permanece na cena até ao fim. Apenas se inclina para o chão, e de novo se endireita, nunca deixando, porém, a posição de SENTADO. Portanto, permanecendo SENTADO, está sempre na cátedra a ensinar. Nele tudo é lição. São lição os seus gestos; são lição as suas palavras.
 4. Entram na cena os «impecáveis» do costume: os escribas e os fariseus. Desta vez não vêm sós. Trazem uma mulher apanhada em flagrante adultério. Eles conhecem a Lei de Moisés, que citam a propósito, para dizer que tais mulheres devem ser apedrejadas. Mas, roídos de malícia, querem saber o que, sobre este assunto preciso, tem a dizer o MESTRE Jesus. Só isto: permanecendo SENTADO como MESTRE, inclinou-se, e, COM O DEDO, escrevia no chão.

 5. Os escribas e fariseus tinham compreendido mal a Lei, citando só metade, pois a Lei diz que, em caso de adultério, morrerão os dois: o homem e a mulher (Levítico 20,10; Deuteronómio 22,22). Tão-pouco estavam a compreender a resposta do MESTRE Jesus ao parecer jurídico que lhe tinham pedido. E era clara a lição: na verdade, há apenas outra circunstância na Escritura Santa em que alguém escreve COMO O DEDO: as tábuas de pedra escritas pelo DEDO DE DEUS no Sinai (Êxodo 31,18; Deuteronómio 9,10). Claramente: o MESTRE que escrevia COM O DEDO era Deus! Conhecia a Lei, mas conhecia também os Profetas, pois ao ESCREVER NO CHÃO, está a ler Jeremias que diz que «os que se afastam de YHWH serão escritos no chão» (17,13). Jesus conhecia a Lei e os Profetas, isto é, a inteira Escritura Santa, e conhecia também os homens por dentro (João 2,24-25). Permanecendo SENTADO, endireitou-se e disse-lhes: «Aquele que estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra!». Inclinou-se novamente e continuava a escrever. Saíram todos, a começar pelos mais velhos, diz-nos o narrador, recorrendo com certeza outra vez a Jeremias 17,13, que diz ainda que «os que abandonam YHWH serão cobertos de vergonha». É esta vergonha que faz com que todos se vão embora, um após outro, a começar pelos mais velhos, os primeiros a sentir o peso da vergonha. Ontem como hoje: os mais novos chegam lá sempre depois.
 6. Ao comentar este episódio, Santo Agostinho diz luminosamente que só ficaram dois em cena: a miserável e a misericórdia! Os escribas e fariseus prenderam e acusaram a mulher, mas foram eles que se sentiram acusados, desvendados, lidos, descobertos no esconderijo do seu próprio pecado! Nem sequer viram a mulher como uma pessoa: nunca falam com ela ou para ela; falam simplesmente dela, como se de um objecto se tratasse. É o MESTRE Jesus o primeiro na cena que fala para a mulher, e não a prende, mas liberta-a, colocando-a no caminho novo da liberdade: «Vai e não tornes a pecar», diz-lhe Jesus.

Aproximou-se um homem habituado
ao uso inveterado do silêncio
o seu olhar varrendo toda a fraude
das palavras
Aproximou-se firme e impoluto
Esquadrinhou as faces oxidadas
da mentira
Olhou depois o chão como quem abre
um sepulcro
e lentamente desenhou
o puro rosto da verdade
sobre a areia

 7. O anónimo profeta do exílio, o chamado «Segundo Isaías» (Isaías 40-55), põe hoje Deus a interpelar-nos assim directamente, como Jesus no Evangelho: «Eis que vou fazer uma coisa nova! Ela já desponta: não a compreendeis?» (Isaías 43,19). A nós compete entender a obra sempre nova e surpreendente de Deus, que ultrapassa sempre a medida do nosso coração e da nossa capacidade de compreensão! Pode o deserto florir, encher-se de água, e pode o mar encher-se de caminhos. Pode sempre a semente germinar antes do tempo, e a espiga amadurar antes do campo!
 8. Paulo pode bem ser hoje o modelo a seguir (Filipenses 3,8-14): esquecendo o que fica para trás, atira-se todo para a frente, para Cristo.

 Quando Jesus irrompe na vida de alguém,
interrompe a normalidade de um percurso,
e rompe essa vida em duas partes desiguais:
uma que fica para trás,
outra que se abre agora à nossa frente,
recta como uma seta directa a uma meta,
a um alvo, um objectivo intenso e claro,
tão intenso e claro que na vida de cada um
só pode haver um!
D. António Couto, In Mesa de Palavras

16 março, 2013

«Porque eu sou bom» (II)



Aprofundemos a Palavra

            É a vez de tentar descobrir o significado de alguns desses elementos e de me perguntar pelo ensinamento do Jesus de Mateus. Para se compreender bem esse ensinamento, ajuda muito saber o ambiente que está por detrás do texto.

            - Pai de família: a figura de Deus. A Ele pertence o Reino e a iniciativa da chamada.
- Reino dos Céus: um mundo novo de salvação e vida plena, oferecido a todos sem excepção.
            - Vinha: imagem do Antigo Testamento para designar o povo eleito (Sl 78,9; Is 5,1). É o povo do Senhor, a Igreja, a comunidade cristã.
            - Horas: o dono da vinha sai ao amanhecer, a meio da manhã, ao meio-dia, a meio da tarde e ao cair da tarde.
            - Os trabalhadores da primeira hora e da última hora: os cumpridores acérrimos da lei (escribas e fariseus) e os não cumpridores (pecadores). Os cristãos provindos do judaísmo e os cristãos provindos do paganismo. Os que passaram todos os dias da sua vida na intimidade com Deus e na escuta da Sua palavra e os que andaram arredados delas.
            - O mesmo salário: Nesta vinha, não há trabalhadores mais importantes do que os outros, não há trabalhadores de primeira e de segunda classe. Mas todos têm a mesma dignidade e importância.
            - O trabalho na vinha: os diversos serviços ou ministérios a desenvolver na comunidade. Qual é o meu lugar ou a minha tarefa a realizar na vinha do Senhor?
            - O comportamento do dono da vinha: uma denúncia da religião dos “méritos”, ensinada pelos guias espirituais de então. Estes tinham levado o povo a substituir o Deus bom, pai, esposo e amigo fiel, anunciado pelos profetas, por um deus distante, legislador, juiz, negociante e contabilista.

            Ambiente

            Neste texto proposto pelo evangelista, Jesus continua a instruir os discípulos, a fim de que compreendam a realidade do Reino e, após a sua partida, dêem testemunho dele.
O cenário que a parábola nos mostra reflecte bastante bem a realidade social e económica dos tempos de Jesus. A Galileia estava cheia de camponeses que, por causa da pressão fiscal ou de anos contínuos de más colheitas, tinham perdido as terras que pertenciam à sua família. Para sobreviver, esses camponeses sem terra alugavam a sua força de trabalho. Juntavam-se na praça da cidade e esperavam que os grandes latifundiários os contratassem para trabalhar nos seus campos ou nas suas vinhas. Normalmente, cada senhor tinha os seus “trabalhadores” em quem ele confiava e a quem contratava regularmente. Naturalmente, todos eles recebiam um tratamento de favor. Esse tratamento de favor implicava, concretamente, que esses “trabalhadores” fossem sempre os primeiros a ser contratados, a fim de que pudessem ganhar um dia de serviço. 

Ensinamento

A parábola refere-se a um dono de uma vinha que, ao romper da manhã, se dirigiu à praça e chamou os seus “clientes” para trabalhar na sua vinha, ajustando com eles o preço habitual: um denário. As muitas tarefas a realizar na vinha fez com que ele voltasse a sair outras vezes e trouxesse um novo grupo de trabalhadores. O trabalho decorreu sem problemas, até ao final do dia. Ao anoitecer, os trabalhadores foram chamados diante do senhor, a fim de receberem a paga do trabalho. Todos receberam o mesmo: um denário. Porém, os trabalhadores da primeira hora, ou seja, os “clientes” habituais do dono da vinha, manifestaram a sua surpresa e o seu desconcerto por, desta vez, não terem recebido um tratamento “de favor”.
A resposta final do dono da vinha afirma que ninguém tem nada a reclamar se ele decide derramar a sua justiça e a sua misericórdia sobre todos, sem excepção. Ele cumpre as suas obrigações para com aqueles que trabalham com ele desde o início; não poderá ser bondoso e misericordioso para com aqueles que só chegam no fim?
Quase de certeza que a parábola, primeiramente, serviu a Jesus para responder às críticas de quem se opunha ao seu comportamento demasiado próximo aos pecadores. Através dela, Jesus revela que o amor do Pai se difunde sobre todos os seus filhos, sem excepção e por igual. Para Deus, não é fulcral a hora a que se respondeu ao seu apelo; o que é fulcral é que se tenha respondido ao seu convite para trabalhar na vinha do Reino. Para Deus, não há tratamento especial por razões de antiguidade; para Deus, todos os seus filhos são iguais e merecem o seu amor.
A parábola serviu também a Jesus para pôr por terra a ideia que os guias espirituais de Israel tinham de Deus e da salvação. Para os fariseus, sobretudo, Deus era um patrão que pagava conforme as acções do homem. Se o homem cumprisse escrupulosamente a Lei, conquistaria determinados méritos e Deus pagar-lhe-ia convenientemente. O seu “deus” era uma espécie de comerciante, que todos os dias apontava no seu caderno de contas as dívidas e os créditos do homem, que um dia faria as contas finais, veria o saldo e daria a recompensa ou aplicaria o castigo. Segundo este ponto de vista, Deus não dá nada; é o homem que conquista tudo.
Para Jesus, no entanto, Deus não é um comerciante, sempre de lápis em punho a fazer contas para pagar aos homens consoante os seus merecimentos. Ele é um pai, cheio de bondade, que ama todos os seus filhos por igual e que derrama sobre todos, sem excepção, o seu amor.
A parábola foi mais tarde proposta pelo evangelista à sua comunidade para iluminar a situação concreta que a mesma estava a viver com a entrada maciça de pagãos na Igreja. Alguns cristãos de origem judaica não conseguiam entender que os pagãos, vindo mais tarde, estivessem em pé de igualdade com aqueles que tinham acolhido a proposta do Reino desde a primeira hora. Mateus deixa, no entanto, claro que o Reino é um dom oferecido por Deus a todos os seus filhos. Judeus ou gregos, escravos ou livres, cristãos da primeira ou da última hora, todos são filhos amados do Pai. Na comunidade de Jesus não há graus de antiguidade, de raça, de classe social, de merecimento. O dom de Deus é para todos, por igual.       

Acolhamos o ensinamento

            O que se pretende aqui é entrar em diálogo com a palavra de Deus, através de algumas questões: Que me diz Jesus? Põe-me alerta contra quê? Que atitude me sugere no dia-a-dia?

O Deus que Jesus me revela é um Deus que não faz negócio comigo. Ele não precisa da minha mercadoria. Não me contabiliza os créditos, nem me paga em consequência. O Deus que Jesus me anuncia é um Pai que me quer ver livre e feliz, derramando sobre mim o Seu amor de forma gratuita e incondicional.
Jesus pede-me que, ao entender esta verdade sobre Deus, isto é, que Ele não é um negociante mas um pai cheio de amor por mim, renuncie a uma lógica interesseira no meu relacionamento com Ele. Como seu filho, não devo fazer as coisas por interesse mas por estar convicto de que o comportamento que Ele me propõe é o caminho para a verdadeira vida. Quem segue o caminho certo, é feliz, encontra a paz e a serenidade e colhe, logo aí, a sua recompensa.     
O seu Reino é para mim e para todos, sem excepção. Para Ele não há marginalizados, excluídos, indignos, desclassificados… Para Ele, há homens e mulheres – todos seus filhos, independentemente da cor da pele, da nacionalidade, da classe social – a quem Ele ama, a quem Ele quer oferecer a salvação e a quem Ele convida para trabalhar na sua vinha.

Oremos com o ensinamento

            A oração é a nossa resposta a Deus; ela emerge da escuta, do aprofundamento e do acolhimento do texto sagrado, e dirige-se ao Senhor sob diversas formas.

            Senhor, ensina-me a estar diante de ti com um coração livre daqueles preconceitos que ofuscam em mim a tua imagem. Dá-me um coração simples que saiba perceber, na palavra das Sagradas Escrituras, meditadas quotidianamente, o teu rosto de Deus que salva, se torna próximo de cada homem para libertá-lo do pecado. Um coração capaz de usufruir de tudo o que me ofereces, disposto a uma escuta obediente.

Apliquemo-lo à vida

            Tudo teria sido em vão se o ensinamento não viesse a dar fruto na minha existência. Quais as medidas concretas a assumir a partir deste ensinamento que escutei, aprofundei, acolhi e orei?

                Estarei mais atento ao meu trabalho na Sua vinha e ao espírito com que o faço. Farei tudo por dar a conhecer o Seu rosto de bondade e generosidade aos meus irmãos. Alegrar-me-ei com a chegada de novos trabalhadores e não requererei qualquer tipo de privilégios ou qualquer superioridade sobre esses irmãos.
Pe. Vasco