25 março, 2013

Os Croods


Na pré-história os Croods são uma família de seis que vive ao abrigo do sentido de protecção do patriarca. Confinando-os à caverna onde habitam e a uma escassa área em seu redor, Grug, o pai, crê ser esta a melhor forma de cuidar dos seus, não os expondo a nenhum tipo de ameaça... desnecessária.
Porém, quando um fenómeno incontrolável destrói a caverna e o idílio em que Grug imaginava poder viver para sempre, não resta aos Croods senão partirem em busca de um novo lugar para viver. Assim começa uma grande aventura que, sem evitar perigos lhes, proporcionará inúmeras descobertas e ótimas surpresas.
Desde 1998 que a Dreamworks Animation mantém em pleno o seu ritmo de produção cinematográfica pensado para o público mais novo, destacando-se filmes como o primogénito "Ant Z - Formiga Z", "O Príncipe do Egito", "Shrek", "Pular a Cerca", "Madagáscar", "O Panda do Kung Fu" e, mais recentemente, "O Gato das Botas"
Na sua linha, variando embora os estilos, temas abordados e equipas encarregues da concretização de cada projeto, permanecem o espírito de aventura e a preocupação de uma mensagem pedagogicamente válida.
Os filmes da Dreamworks veiculam valores universais como o espírito de entreajuda, a amizade, a abertura ao outro, sobretudo o desconhecido ou diferente, o respeito pela natureza, as virtudes da esperança ou da caridade e a importância do sentido para a vida – o que normalmente move as personagens a ultrapassar o que crêem ser os seus próprios limites.
"O Príncipe do Egipto" é um caso, de certa forma, à parte, não pela ausência de valores mas por provir de fonte própria – o livro bíblico do Êxodo.
Sem se desviar da linha a que a produtora nos habituou, "Os Croods" transformam-se na proposta da Páscoa para o público português mais novo.
Com pouco mais de hora e meia de animada aventura, esta história de risco em que os ganhos resultam sempre superiores às perdas não evita o facilitismo de estereótipos que pouco contribuem para diferenciar o cinema como proposta de genuína interpelação humana.
Por outro lado o filme cumpre uma fórmula certeira com a passagem de uma mensagem positiva relativamente à disponibilidade para o desconhecido e à importância de se sair da zona de conforto para se poder ir mais longe – como pessoa e como família. Rejeitando o heroísmo individualista e transformando o que parece ser "o fim" num surpreendente "reinício". O que nos tempos que correm faz bom sentido.

24 março, 2013

INTIMIDADE E TRAIÇÃO!




1. Baptizado com o Espírito Santo no Jordão, confirmado com o Espírito Santo no Tabor, Jesus realizou a sua missão filial baptismal anunciando o Evangelho do Reino de Deus e fazendo as suas «obras». A sua «viagem» chega agora ao fim, na Judeia, em Jerusalém, onde o seu Baptismo deve(plano divino) ser consumado (ainda Lc 12,49-50) na sua Morte Gloriosa: única Fonte do Espírito Santo para nós (sempre Act 2,32-33; Jo 19,30 e 34; 7,38-39). A missão filial baptismal do Filho de Deus finalmente consumada! É que fomos, de facto, baptizados na sua Morte (Rm 6,3-4), e, com Ele, fomos  «com-sepultados», «com-ressuscitadoss», «com-vivificados» e «com-sentados» na Glória! (Ef 2,5-6; Cl 2,12-13: tudo verbos cunhados por Paulo e postos em aoristo (passado) histórico!). Formamos, por isso, «a Igreja que Ele amou» (Ef 2,25). A este amor de Cristo pela Igreja chama Paulo «o mistério grande» (Ef 5,32). Nós, a Igreja do amor de Cristo, somos, portanto, a Esposa bela, a nova Jerusalém (Ap 19,7-9; 21,2 e 9-10) que, juntamente com o Espírito, diz ao Senhor Jesus: Vem! (Ap 22,17).
 2. É esta Igreja bela, porque incondicionalmente amada, que acolhe hoje, Domingo de Ramos na Paixão do Senhor, com o coração em festa, o seu Senhor (Lucas 19,28-40), gritando jubilosamente: «Bendito o que vem em nome do senhor!».
 3. Acolhe-o jubilosamente, para depois discipularmente o seguir nos seus passos decisivos, de que aqui salientamos apenas alguns momentos. A partir do cenário apresentado no ponto 5., todos os dados são exclusivos de Lucas.
 4. O cenário da Ceia Primeira (não última!) mostra, caso único, Jesus na intimidade da mesa com os seus discípulos (Lucas 22,14-38). E é neste cenário de intimidade que o texto nos faz ver melhor as nossas traições: o anúncio da traição de Judas (Lucas 22,21-23, da tripla negação de Pedro (Lucas 22,31-34), a discussão sobre qual de nós é o maior (Lc 22,24-27).
 5. O cenário do Monte das Oliveiras (Lucas 22,39-46) abre e fecha com o importante dizer de Jesus que devemos conservar no coração: «ORAI para que não entreis na tentação» (Lucas 22,39 e 46). No meio do cenário, entre estas duas importantes advertências de Jesus, o texto diz que Jesus ORAVA de joelhos (Lucas 22,41) e que depois ORAVA com mais insistência ainda (Lucas 22,44). Em contraponto, os discípulos dormiam! (Lucas 22,45).
 6. O cenário seguinte mostra-nos a Prisão e o Processo de Jesus (Lucas 22,47-23,25), em que apenas salientamos dois momentos: Judas, que entrega Jesus com um beijo (Lucas 22,47), ouvindo de Jesus estas palavras que ainda hoje ecoam nos nossos ouvidos: «Judas, com um beijo entregas o Filho do Homem?» (Lucas 22,48). É outra vez a traição na intimidade! O segundo momento  é aquele olhar fixo de Jesus em Pedro, que o faz sair dali para chorar amargamente (Lucas 22,60-62).
 7. O caminho do Calvário é o cenário que aparece de seguida (Lucas 23,26-32). Vale a pena destacar dois momentos: o primeiro é para Simão de Cirene, que carrega a cruz «atrás de» Jesus (Lucas 23,26): com a sua cruz, «atrás de» Jesus, é a atitude do discípulo! (ver Lucas 9,23). O segundo é para as mulheres que choram. Merecem que Jesus olhe para elas e fale para elas: «Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai por vós e pelos vossos filhos!» (Lucas 23,27-28).
 8. Segue-se o cenário da Cruz (Lucas 23,33-49). Três notas: primeira: Lucas coloca ao lado de Jesus dois malfeitores. Mas um deles (o chamado «bom ladrão»: só em Lucas!) reconhece o seu erro, e olha para Jesus implorando graça: «Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu REINO» (Lucas 23,42). Jesus responde assim: «Hoje estarás COMIGO no Paraíso» (Lucas 23,43). Evoca, em contraluz, o COMIGO de Jesus com os seus discípulos, e o REINO para eles preparado! (Lucas 22,28-29). Segunda: a oração do Salmo 31,6, posta na boca de Jesus como sua última palavra, oração exclusiva deste Evangelho: «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lucas 23,46). Confiança radical sempre. Terceira: a importante anotação de que os seus amigos e as mulheres que o SEGUIAM desde a Galileia o acompanhavam à distância, VENDO BEM todas estas coisas (Lucas 23,49). Atitude discipular. Como Maria, que conservava e compunha todos aqueles factos no seu coração (Lucas 2,19 e 51). Mas também o povo estava lá olhando a Cruz (Lucas 23,35) e meditando os acontecimentos da Cruz e batendo no peito (Lucas 23,48).
 9. O cenário do sepultamento de Jesus (Lucas 23,50-56). Salta à vista que Jesus é depositado num sepulcro novo, onde ainda ninguém tinha sido sepultado (Lucas 23,53). Mostra-se assim que Jesus é o Rei Messiânico esperado: o Rei é o primeiro em tudo. E continua na primeira linha o OLHAR ATENTO das mulheres (Lucas 23,55) e os perfumes que preparam (Lucas 23,56)  e que abrem já para a página nova da Ressurreição. Primeiro em tudo! Primogénito de muitos irmãos! (Romanos 8,29).
António Couto, In Mesa de Palavras

23 março, 2013

Fomos chamados para a liberdade




«Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes, e não vos sujeiteis outra vez ao jugo da escravidão. Irmãos, de facto, foi para a liberdade que vós fostes chamados. Só que não deveis deixar que essa liberdade se torne numa ocasião para os vossos apetites carnais. Pelo contrário: pelo amor, fazei-vos servos uns dos outros. É que toda a Lei se cumpre plenamente nesta única palavra: Ama o teu próximo como a ti mesmo. Mas, se vos mordeis e devorais uns aos outros, cuidado, não sejais consumidos uns pelos outros. Mas eu digo-vos: caminhai no Espírito, e não realizareis os apetites carnais. Porque a carne deseja o que é contrário ao Espírito, e o Espírito, o que é contrário à carne; são, de facto, realidades que estão em conflito uma com a outra, de tal modo que aquilo que quereis, não o fazeis. Ora, se sois conduzidos pelo Espírito, não estais sob o domínio da Lei» (Gl 5,1.13-18).

Enquadramento e contexto da passagem

Estamos perante um texto que aparece na parte final da Carta aos Gálatas. É o começo de uma reflexão acerca da verdadeira liberdade, que é fruto do Espírito (cf. Gl 5,1-6,10). Para melhor compreensão da mensagem, torna-se conveniente perguntar-nos pelo problema fundamental aí tratado: esta comunidade cristã está a ser incomodada por um grupo de judaízantes, isto é, cristãos provenientes do judaísmo, gente ainda agarrada à antiga lei, concretamente às suas regras, normas, disposições e práticas exteriores, as quais consideram também necessárias para chegar à vida em plenitude ou à salvação; e Paulo – para quem Cristo basta e para quem as obras da Lei já não dizem nada – procura fazer com que toda a comunidade não se sujeite mais a nenhum tipo de escravidão.

Ensinamento

As palavras do apóstolo são um convite enérgico à liberdade. Ele avisa os Gálatas que foi para a liberdade que Cristo os libertou (a repetição destina-se a dar ao verbo “libertar” um sentido mais intenso) e que não convém recair no jugo da escravidão (Paulo identifica essa escravidão com a Lei e a circuncisão). Mas o que vem a ser a liberdade para o cristão? Será que tem a ver com a faculdade de optar entre duas coisas distintas e opostas? Não. Será que tem a ver com uma espécie de independência ético-moral, em virtude da qual cada um pode fazer o que lhe dá na gana, sem impedimentos de qualquer espécie? Também não. Para Paulo, a verdadeira liberdade consiste em viver no amor. O que nos escraviza, nos limita e nos impede de atingir a vida em plenitude ou a salvação é o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência; mas vencer esse fechamento em nós próprios e fazer da nossa vida um dom de amor torna-nos autenticamente livres. Só é verdadeiramente livre aquele que se libertou de si próprio e vive para se dar aos outros. Como é que esta “liberdade” (a capacidade de amar, de dar a vida) nasce em nós? Ela nasce da vida que Cristo nos dá: pela adesão a Cristo, gera-se em cada pessoa um dinamismo interior que a identifica com Cristo e lhe dá uma capacidade infinita de amar, de ultrapassar o egoísmo, o orgulho e os limites. É o Espírito que alimenta, dia a dia, essa vida de liberdade (ou de amor) que se gerou em nós, a partir da nossa adesão a Cristo. Viver na escravidão é continuar a viver uma vida centrada em si próprio (cf. 5,19-21); viver na liberdade (“segundo o Espírito”) é sair de si e fazer da sua vida um dom, uma partilha (cf. 5,22-23).

Acolher o ensinamento

Os homens da nossa época anseiam por esse valor chamado “liberdade”; contudo, têm, frequentemente, uma ideia bastante egoísta deste valor essencial. Quando a liberdade se entende desde o eu, identifica-se com libertinagem: é a capacidade de eu fazer o que quero; é a capacidade de eu poder escolher; é a capacidade de eu poder tomar as minhas decisões sem que ninguém me entrave… Esta liberdade não provoca, tantas vezes, orgulho, egoísmo, auto-suficiência, isolamento e, portanto, escravidão? Para Paulo, só se é verdadeiramente livre quando se ama. Aí, eu não me prendo a nada do que é meu, deixo de viver obcecado comigo e com os meus interesses e estou sempre disponível para me partilhar com os meus irmãos. É esta experiência de liberdade que faz hoje tanta gente que não reserva a própria vida para si própria, mas faz dela uma oferta de amor aos irmãos mais necessitados. Como dar este testemunho e passar esta mensagem aos homens do nosso tempo, sempre obcecados com a verdadeira liberdade? Como dar a saber que só o amor nos faz totalmente livres?
Orar com o ensinamento

Nem é tarde nem é cedo: Senhor, vamos a isso. Era essa a liberdade que eu buscava…
Pe. Vasco

21 março, 2013

Edith Stein: o seu crescimento espiritual


VIVER O ESSENCIAL
Vamos tentar agora aproximar-nos dos elementos essenciais da vida quotidiana do Carmelo e que Edith faz seus. Fazem parte da sua vida diária. E embora não possamos penetrar na sua historicidade, podemos perceber o significado que tem para ela. Ao fim de contas, é nela que se fundamenta a sua vida e vocação no Carmelo.

A oração é elemento essencial do Carmelo, e  da vida de Edith. É razão da sua existência e a sua maneira de servir a Deus: “O nosso horário garante-nos de diálogo a sós com o Senhor, e nelas se fundamenta a nossa vida” (OC V, 564).  Já numa carta escrita nos primeiros meses no Carmelo (11 de Janeiro de 1634), escrevia: “A maioria das Irmãs, quando são chamadas ao locutório, consideram-no uma penitência. É a sempre um passo para um mundo estranho, e fica-se feliz quando se regressa novamente à paz do coro, e assimilar diante do sacrário o que foi encomendado a cada uma. Todos os dias, eu sinto esta paz como um magnífico dom da graça, que não é dado só a mim; e se alguém se aproximar de nós, abatido e cansado podendo levar daqui, alguma paz e consolação, então sinto-me muito feliz” (Ct 1069).
           
Embora a oração mental e contemplativa seja o elemento carismático centrar isso não exclui a participação na liturgia oficial da igreja, que parte integrante da vida carmelita: “O resto gira a volta desta realidade (O diálogo solitário com Deus): Rezamos a liturgia das horas com os sacerdotes e as outras ordens antigas da igreja; e este “ofício Divino ” é para nós como para eles, a nossa primeira e mais sagrada obrigação. Mas para nós esta não é base fundamental. O que Deus opera nas nossas almas durante as horas da oração interior está escondido aos olhos dos homens” (OC v, 564).              

Eucaristia  e o ano litúrgico recebem no ambiente contemplativo e comunitário do Carmelo um sabor especial, que Edith sabe captar e transmitir: “Assim o ano litúrgico é no Carmelo um rosário de lindas festas, celebradas não só no sentido litúrgico, mas também como festas familiares que se vivem numa alegria cordial e estreitam o laço do amor fraterno” (OC V, 71) as grandes celebrações dos mistérios de Cristo, como o Natal e a Páscoa, adquirem um sentido especial. A liturgia não se reduz aos momentos celebrativos, mas impregna o dia interior (cf. Modelo 189 SS.)  

As festas Marianas e Josefinas são celebradas também com grande solenidade no Carmelo. A elas junta – se a outras muito típicas da ordem, que são vividas num ambiente ainda mais familiar: Santo Elias, Santa Teresa de Jesus, São João da Cruz, Santa Teresinha Teresa Margarida Redi…
           
Outras duas festas adquirem um valor particular: a Exaltação da santa Cruz, no dia 14 de Setembro, o dia em que começa o tempo de jejum, e a Epifania  no dia 6 de Janeiro. Em ambas destas fazia-se a renovação comunitária dos votos. Com o passar dos anos, esta festa vai adquirir cada vez maior sentido na vida de Edith pois, em concreto, tem uma relação directa com a sua vocação pessoal.

Em suma, todos estes aspectos são como que o caminho e os meios que vão ajudá-la a viver em plenitude a entrega diária que a sua vocação implica.
           



“Ao que se entrega incondicionalmente ao Senhor, 
o Senhor escolhe como instrumento 
para instaurar o seu Reino ” 
(Edith Stein)


SANCHO FERMÍN,  F. Javier -  100 Fichas sobre "Edit Stein".  Avessadas: Edições Carmelo, 2008, p.  68 

Recolha  de Fr. Eugénio

20 março, 2013

EUCARISTIA DE INÍCIO DO MINISTÉRIO PETRINO DO BISPO DE ROMA



Queridos irmãos e irmãs!
Agradeço ao Senhor por poder celebrar esta Santa Missa de início do ministério petrino na solenidade de São José, esposo da Virgem Maria e patrono da Igreja universal: é uma coincidência densa de significado e é também o onomástico do meu venerado Predecessor: acompanhamo-lo com a oração, cheia de estima e gratidão.
Saúdo, com afecto, os Irmãos Cardeais e Bispos, os sacerdotes, os diáconos, os religiosos e as religiosas e todos os fiéis leigos. Agradeço, pela sua presença, aos Representantes das outras Igrejas e Comunidades eclesiais, bem como aos representantes da comunidade judaica e de outras comunidades religiosas. Dirijo a minha cordial saudação aos Chefes de Estado e de Governo, às Delegações oficiais de tantos países do mundo e ao Corpo Diplomático.
Ouvimos ler, no Evangelho, que «José fez como lhe ordenou o anjo do Senhor e recebeu sua esposa» (Mt 1, 24). Nestas palavras, encerra-se já a missão que Deus confia a José: ser custos, guardião. Guardião de quem? De Maria e de Jesus, mas é uma guarda que depois se alarga à Igreja, como sublinhou o Beato João Paulo II: «São José, assim como cuidou com amor de Maria e se dedicou com empenho jubiloso à educação de Jesus Cristo, assim também guarda e protege o seu Corpo místico, a Igreja, da qual a Virgem Santíssima é figura e modelo» (Exort. ap.Redemptoris Custos, 1).
Como realiza José esta guarda? Com discrição, com humildade, no silêncio, mas com uma presença constante e uma fidelidade total, mesmo quando não consegue entender. Desde o casamento com Maria até ao episódio de Jesus, aos doze anos, no templo de Jerusalém, acompanha com solicitude e amor cada momento. Permanece ao lado de Maria, sua esposa, tanto nos momentos serenos como nos momentos difíceis da vida, na ida a Belém para o recenseamento e nas horas ansiosas e felizes do parto; no momento dramático da fuga para o Egipto e na busca preocupada do filho no templo; e depois na vida quotidiana da casa de Nazaré, na carpintaria onde ensinou o ofício a Jesus.
Como vive José a sua vocação de guardião de Maria, de Jesus, da Igreja? Numa constante atenção a Deus, aberto aos seus sinais, disponível mais ao projecto d’Ele que ao seu. E isto mesmo é o que Deus pede a David, como ouvimos na primeira Leitura: Deus não deseja uma casa construída pelo homem, mas quer a fidelidade à sua Palavra, ao seu desígnio; e é o próprio Deus que constrói a casa, mas de pedras vivas marcadas pelo seu Espírito. E José é «guardião», porque sabe ouvir a Deus, deixa-se guiar pela sua vontade e, por isso mesmo, se mostra ainda mais sensível com as pessoas que lhe estão confiadas, sabe ler com realismo os acontecimentos, está atento àquilo que o rodeia, e toma as decisões mais sensatas. Nele, queridos amigos, vemos como se responde à vocação de Deus: com disponibilidade e prontidão; mas vemos também qual é o centro da vocação cristã: Cristo. Guardemos Cristo na nossa vida, para guardar os outros, para guardar a criação!
Entretanto a vocação de guardião não diz respeito apenas a nós, cristãos, mas tem uma dimensão antecedente, que é simplesmente humana e diz respeito a todos: é a de guardar a criação inteira, a beleza da criação, como se diz no livro de Génesis e nos mostrou São Francisco de Assis: é ter respeito por toda a criatura de Deus e pelo ambiente onde vivemos. É guardar as pessoas, cuidar carinhosamente de todas elas e cada uma, especialmente das crianças, dos idosos, daqueles que são mais frágeis e que muitas vezes estão na periferia do nosso coração. É cuidar uns dos outros na família: os esposos guardam-se reciprocamente, depois, como pais, cuidam dos filhos, e, com o passar do tempo, os próprios filhos tornam-se guardiões dos pais. É viver com sinceridade as amizades, que são um mútuo guardar-se na intimidade, no respeito e no bem. Fundamentalmente tudo está confiado à guarda do homem, e é uma responsabilidade que nos diz respeito a todos. Sede guardiões dos dons de Deus!
E quando o homem falha nesta responsabilidade, quando não cuidamos da criação e dos irmãos, então encontra lugar a destruição e o coração fica ressequido. Infelizmente, em cada época da história, existem «Herodes» que tramam desígnios de morte, destroem e deturpam o rosto do homem e da mulher.
Queria pedir, por favor, a quantos ocupam cargos de responsabilidade em âmbito económico, político ou social, a todos os homens e mulheres de boa vontade: sejamos «guardiões» da criação, do desígnio de Deus inscrito na natureza, guardiões do outro, do ambiente; não deixemos que sinais de destruição e morte acompanhem o caminho deste nosso mundo! Mas, para «guardar», devemos também cuidar de nós mesmos. Lembremo-nos de que o ódio, a inveja, o orgulho sujam a vida; então guardar quer dizer vigiar sobre os nossos sentimentos, o nosso coração, porque é dele que saem as boas intenções e as más: aquelas que edificam e as que destroem. Não devemos ter medo de bondade, ou mesmo de ternura.
A propósito, deixai-me acrescentar mais uma observação: cuidar, guardar requer bondade, requer ser praticado com ternura. Nos Evangelhos, São José aparece como um homem forte, corajoso, trabalhador, mas, no seu íntimo, sobressai uma grande ternura, que não é a virtude dos fracos, antes pelo contrário denota fortaleza de ânimo e capacidade de solicitude, de compaixão, de verdadeira abertura ao outro, de amor. Não devemos ter medo da bondade, da ternura!
Hoje, juntamente com a festa de São José, celebramos o início do ministério do novo Bispo de Roma, Sucessor de Pedro, que inclui também um poder. É certo que Jesus Cristo deu um poder a Pedro, mas de que poder se trata? À tríplice pergunta de Jesus a Pedro sobre o amor, segue-se o tríplice convite: apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas. Não esqueçamos jamais que o verdadeiro poder é o serviço, e que o próprio Papa, para exercer o poder, deve entrar sempre mais naquele serviço que tem o seu vértice luminoso na Cruz; deve olhar para o serviço humilde, concreto, rico de fé, de São José e, como ele, abrir os braços para guardar todo o Povo de Deus e acolher, com afecto e ternura, a humanidade inteira, especialmente os mais pobres, os mais fracos, os mais pequeninos, aqueles que Mateus descreve no Juízo final sobre a caridade: quem tem fome, sede, é estrangeiro, está nu, doente, na prisão (cf. Mt 25, 31-46). Apenas aqueles que servem com amor capaz de proteger.
Na segunda Leitura, São Paulo fala de Abraão, que acreditou «com uma esperança, para além do que se podia esperar» (Rm 4, 18). Com uma esperança, para além do que se podia esperar! Também hoje, perante tantos pedaços de céu cinzento, há necessidade de ver a luz da esperança e de darmos nós mesmos esperança. Guardar a criação, cada homem e cada mulher, com um olhar de ternura e amor, é abrir o horizonte da esperança, é abrir um rasgo de luz no meio de tantas nuvens, é levar o calor da esperança! E, para o crente, para nós cristãos, como Abraão, como São José, a esperança que levamos tem o horizonte de Deus que nos foi aberto em Cristo, está fundada sobre a rocha que é Deus.
Guardar Jesus com Maria, guardar a criação inteira, guardar toda a pessoa, especialmente a mais pobre, guardarmo-nos a nós mesmos: eis um serviço que o Bispo de Roma está chamado a cumprir, mas para o qual todos nós estamos chamados, fazendo resplandecer a estrela da esperança: Guardemos com amor aquilo que Deus nos deu!
Peço a intercessão da Virgem Maria, de São José, de São Pedro e São Paulo, de São Francisco, para que o Espírito Santo acompanhe o meu ministério, e, a todos vós, digo: rezai por mim! 
Amen.