21 abril, 2013

TANTA DEDICAÇÃO



1. O selêucida Antíoco IV Epifânio tinha profanado o Templo de Jerusalém em 167 a.C., introduzindo lá cultos pagãos. Contra esta helenização e paganização do judaísmo lutaram os Macabeus, e, em 164 a.C., Judas Macabeu procede à purificação do Templo e à sua Dedicação ao Deus Vivo. Este acontecimento deve ser celebrado todos os anos, durante oito dias, com a Festa da Dedicação, a partir de 25 do mês de Kisleu, que, no ano em curso de 2013, corresponde ao nosso dia 28 de Novembro.
 2. É no ambiente desta Festa anual da Dedicação do Templo que se situa a perícope do Evangelho de João 10,27-30 (veja-se João 10,22), proclamada neste Domingo IV da Páscoa, também Domingo do Bom Pastor e 50.º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, sob o tema, proposto ainda por Bento XVI: «As Vocações, sinal da esperança fundada na fé». Nesta mensagem, Bento XVI evoca a radiomensagem de Paulo VI, de 11 de Abril de 1964, que deu início a este Dia Mundial de Oração pelas Vocações, e refere que as Vocações são um indicador seguro da vitalidade da fé e do amor de cada comunidade paroquial e diocesana, bem como o testemunho da saúde moral e espiritual das famílias cristãs, num mundo carente de mãos sacerdotais.
 3. A Festa da Dedicação, em hebraico hanûkkah, celebra-se durante oito dias, e tem como símbolo o candelabro de oito braços. Relata o Talmud que, quando os judeus fiéis entraram no Templo profanado pelos pagãos helenistas, encontraram uma única âmbula de azeite puro (kasher) de oliveira para reacender o candelabro de sete braços, em hebraicomenôrah, que é um dos símbolos de Israel, e que deve arder diante do Deus Vivo. Todavia, uma âmbula de azeite duraria apenas um dia, e eram precisos oito dias para preparar novo azeite puro. Pois bem, o azeite daquela única âmbula durou milagrosamente oito dias! Daí que, na Festa da Dedicação, se acenda um candelabro de oito braços, chamadohanûkkiah. Mas acende-se apenas uma luz por dia, depois do pôr-do-sol, aumentando progressivamente até estarem acesas as oito luzes. Além disso, e ao contrário das luzes da menôrah e do Sábado, que alumiam o interior do Santuário e da casa de família respectivamente, as Luzes do candelabro da Dedicação, refere o ritual, devem ser vistas cá fora: devem alumiar o ambiente social, político, comercial e cultural. E também ao contrário das luzes da menôrah e do Sábado, não se acendem todas de uma vez, mas progressivamente uma por dia, porque, quando as condições são adversas (paganismo helenista e escuro), não basta acender uma luz e mantê-la; é preciso aumentar constantemente a luz…
 4. Como este simbolismo é importante para os dias de hoje! Está escuro cá dentro e lá fora, o mundo parece descontruir-se, o paganismo é galopante! Mais do que nunca, é preciso, portanto, não apenas manter a luz, mas aumentá-la progressivante. E está em maravilhosa sintonia com a mensagem de Bento XVI para este 50.º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, salientando a importância da fé e da esperança.
 5. O resto é a força e a beleza da imagem do Bom e Belo Pastor, que dá a Vida Eterna às suas ovelhas, que as segura pela mão, que as conhece, enquanto elas escutam a voz do Bom Pastor e o seguem. Maravilhosa Comunhão.
 6. Maravilhosa Comunhão também entre este Bom e Belo Pastor, que é o Filho, e o Pai. Texto denso, imenso e intenso, de grande alcance trinitário: «Eu e o Pai uma Realidade somos». Deixem-me pôr aqui o texto grego: egô kaì ho patêr hén esmen. O verbo está no plural: somos. Junta «Eu» e «o Pai», duas Pessoas. O predicativo, porém, não está na forma masculina, mas na forma neutra: uma Realidade (hén). Donde: o Filho e o Pai não são uma só Pessoa, mas são uma única Realidade (não coisa!, como se vê em algumas pobres traduções), uma única Substância (ousía), como diziam bem os Padres gregos. Um único e mesmo Amor que corre entre o Pai e o Filho, entre o filho e o Pai, circularmente, sem parar. Este Dom de Amor circular permanente e imperecível, constitui o Espírito Santo, distinto do Pai e do Filho, dos quais procede, mas distinto também do acto da doação, de que é o efeito e a significação. Se fosse o acto da doação não constituiria uma pessoa subsistente, pois não existiria como tal: seria a soma de duas pessoas, não uma terceira. seriaÓ música insondável do Amor de Deus, ó admirável comunhão de três Pessoas iguais, mas distintas, ó Vida Plena e Verdadeira a nós acessível por graça! Basta, para tanto, conhecer, escutar e seguir o Bom Pastor.
 7. O Livro dos Actos dos Apóstolos (Act 13,14-32) continua a mostrar como o Evangelho vai ao encontro de toda a humanidade. Extraordinária abertura ao extrangeiro dos Evangelizadores Novo Testamento, que trilham os caminhos de Deus, já apontados no Antigo Testamento. Diz Deus: «Bendito seja o Egipto, meu povo, a Assíria, obra das minhas mãos, e Israel, minha herança» (Isaías 19,25).
 8. Este universalismo continua a ler-se no Apocalipse (7,9-17) com aquela imensa Assembleia de louvor ao nosso Deus e ao Cordeiro. Os membros desta Assembleia provêm de todas as nações, raças, culturas, línguas, racionalidades.
 9. Mas no paladar fica ainda e sempre o sabor do Salmo 23: «O Senhor é o meu Pastor: nada me falta…».
António Couto, In Mesa de Palavras

18 abril, 2013

A fonte

Nestes dias em que a Igreja medita e vive o capítulo VI do Evangelho segundo São João, propomos à vossa meditação o Cantar da alma que folga em conhecer a Deus por fé, popularmente conhecido como A Fonte, escrito na prisão de Toledo. João da Cruz vai lembrando e saboreando contemplativamente os mistérios da fé, começando no Deus Uno e Trino até à Eucaristia. É um credo, uma oração, um canto.


Que bem sei eu a fonte que mana e corre
Mesmo sendo noite!

1. Aquela eterna fonte está escondida.
Bem eu sei onde tem sua guarida,
Mesmo sendo noite!

2. Sei que não pode haver coisa tão bela
E sei que os céus e a terra bebem dela,
Mesmo sendo noite!

3. Sua origem não a sei, pois não a tem,
Mas sei que toda a origem dela vem
Mesmo sendo noite!

4. O fundo dela, sei, não pode achar-se;
Jamais por ela a vau pode passar-se,
Mesmo sendo noite!

5. É claridade nunca escurecida
E sei que toda a luz dela é nascida,
Mesmo sendo noite!

6. Tão caudalosas são suas correntes
Que céus e infernos regam, mais as gentes,
Mesmo sendo noite!

7. Nascida de tal fonte, esta corrente
Bem sei que é mui capaz e omnipotente,
Mesmo sendo noite!


8. Das duas a corrente que procede
Sei que nenhuma delas antecede,
Mesmo sendo noite!

9. Aquela eterna fonte está escondida
Neste pão vivo para dar-nos vida,
Mesmo sendo noite!

10. Aqui está chamando as criaturas:
Desta água se saciem, e às escuras,
Porque é de noite!

11. É esta a viva fonte que desejo
E neste pão de vida é que eu a vejo,
Mesmo sendo noite!

São João da Cruz

15 abril, 2013

Parábola de uma herança abençoada




O pai, velho e doente, pressentia a sua morte próxima e convocou ao seu leito os quatro filhos.
A minha vida está a terminar e Deus chama-me a deixar os meus bens. Sinto-me abençoado. Tive uma esposa que foi a alegria dos meus dias e a luz das minhas noites. E Deus presenteou-me com a melhor colheita que um lavrador como eu pôde sonhar: sois vós, os quatro filhos do meu amor e das minhas entranhas. Estou-lhe grato: só lhe posso estar grato. Vós sois a minha melhor herança.

As terras, que durante tantos anos semeámos, serão para ti, Amador. És o mais velho dos quatro irmãos e serás o dono da terra que contemplou os nossos passos, recebeu os nossos suores e nos ofereceu o alimento. Trata dela. Temos muitos motivos para confiar nela.

Mercês, o poço da alameda é para ti. Dele beberam os nossos avós e a sua generosidade fertilizou os nossos campos, lavou os nossos corpos e apagou a nossa sede. Não o deixes contaminar porque sem ele cairá sobre vós a morte da seca.

O arado é para ti, Vítor. Ele é obra dos nossos avós e o instrumento que tornou possível lavrar a terra. Sem o arado, os nossos passos teriam sido estéreis e inúteis o nosso suor. Graças a ele os nossos esforços produziram e a terra agradeceu os nossos cuidados. Ele é apenas um instrumento, mas é tão valioso que aliviará o teu cansaço e compensará o teu esforço.

Daniel, tu ficarás com as sementes que nos restam da última colheita. É verdade, não são muitas. Com elas amassamos o pão e foram o alimento necessário para as nossas vidas. Elas têm a qualidade do milagre porque são capazes de se multiplicarem quando caem à terra e nela apodrecem. Contudo, transformar-se-ão em pó se as puseres num pedestal de ouro. De ti depende o seu poder; não te esqueças.

O velho pai morreu e enterraram-no junto à árvore que ele próprio havia plantado no extremo da terra que trabalhou durante toda a sua vida.

O tempo avançava muito mais depressa do que se esperava. Os irmãos, cada um com a sua herança, sentiam que os dias passavam e a infelicidade aumentava. De vez em quando invadia-os a saudade e recordavam como tinham sido felizes nos tempos passados.

Amador possuía a terra mas já estava a monte. As silvas e os arbustos tinham-na invadido até se tornar intransitável. Mercês tinha água em abundância mas começava a cheirar mal. A água estancada converte-se em ameaça para ela mesma, tal como o ser humano parado.

Vitor conservava o seu arado, mas a falta de uso tinha-lhe aberto fendas e uma invasão de teias de aranha tinha-lhe desfigurado a sua imagem e o seu futuro.

Daniel tinha cada vez menos sementes. Estava agradecido por dispor de pão abundante, quente e fresco. Mas aquele monte de sementes que o pai lhe havia deixado era agora só um punhado quase a acabar.

Então perguntaram-se: porque é que o nosso pai dividiu e repartiu a quinta? O que é que o nosso pai faria se ainda vivesse connosco?

Pensando em conjunto, descobriram que unindo as suas forças e as suas riquezas, aquela terra voltaria a ser lavrada, semeada, regada e voltaria a dar alimento para todos. Puseram mãos à obra e sentiram que o seu pai vivia e trabalhava novamente com eles. Fez muito bem em repartir a sua quinta.

14 abril, 2013

PEDRO, O LUME NOVO, A REFEIÇÃO NOVA, O AMOR MAIOR




1. A oposição luz – trevas atravessa de lés a lés o inteiro texto do IV Evangelho. A Luz verdadeira que vem a este mundo para iluminar todos os homens é Jesus (João 1,9). Sem esta Luz que é Jesus, andamos às escuras, na noite, na dor, no fracasso, na incompreensão. É assim, narrativamente – e, portanto, exemplarmente, para nós, leitores –, com Nicodemos, que anda de noite (João 3,2), com Judas, o homem da noite que tudo anoitece à sua volta  (João 13,30; 18,3), com os sete dicípulos da cena de hoje que trabalharam toda a noite, sem sucesso (João 21,3).



2. Mas Jesus aparece de madrugada na praia, no limiar do dia e da alegria, aqui perto, a cem metros de nós. Com os olhos embotados pela doença do escuro, não O reconhecemos à primeira. Mas ouvimos a Sua voz carregada de verdade, que nos desvenda («Não tendes nada para comer, pois não?» (João 21,5) e nos aponta rumos verdadeiros («Lançai a rede para a direita da barca, e encontrareis») (João 21,6). Não o reconhecemos à primeira. Mas vemos e lemos os Sinais. «É o Senhor», diz para Pedro o discípulo, aquele que Jesus amava (João 21,7). E Pedro correu na direcção de Jesus. Os outros seis vieram também, arrastando a barca carregada de peixes.

3. E sobre a praia o lume novo e a refeição nova, cuidadosamente preparada por Jesus (João 21,9). Agora Pedro está no lugar certo, com Jesus, e aquece-se no lume vivo, que é Jesus. Belo e exemplar contraponto: pouco antes, narrativamente falando, Pedro estava com os guardas, que andavam na noite, e aquecia-se a outro lume, aceso na noite, pelos guardas (João 18,18). Tinha rompido a sua intimidade com Jesus. Mas agora arrasta a rede cheia com 153 grandes peixes. E o narrador refere, chamando a nossa atenção, que, embora fossem muitos, a rede não se rompeu (João 21,11). «Romper» traduz o verbo gregoschízô, donde vem etimologicamente «cisma». É, portanto, de comunhão e de unidade que se trata, e não de «cismas», dissensões, divisões. O número 153 ajuda a ler esta «comunhão», se quisermos ver nesse número a gematria, ou tradução em números, da locução hebraica qahal ha’ahabah [= «comunidade do amor»], excelente maneira de dizer a realidade nova e bela da Igreja.

4. E é sobre o amor o diálogo que se segue entre Jesus e Pedro: «Pedro, amas-me mais…?», pergunta Jesus por três vezes. E por três vezes Pedro responde que sim, ouvindo de Jesus, também por três vezes a nova missão de «Pastor» que lhe é confiada: «Apascenta as minhas ovelhas» (João 21,15-17). Entenda-se bem que as ovelhas nunca deixam de ser pertença de Jesus Ressuscitado. E a afirmação por três vezes do amor de Pedro a Jesus recompõe a intimidade rompida por Pedro com aquelas três negações um pouco antes narradas (João 18,17-27).

5. Senhor, ensina a tua Igreja de hoje outra vez a ver e a ler os Sinais da Tua presença na madrugada e na praia, novo limiar de luz e de esperança que orienta a nossa vida toda para Ti, referência fundamental do amor e da comunhão que deve unir como uma rede a Tua Igreja. Precede-nos e preside-nos sempre. Não nos deixes perdidos no nevoeiro e na confusão, na noite e no frio, a orientar-nos por outro farol, a aquecer-nos a outro lume. Faz que reconheçamos sempre a Tua voz de Único Verdadeiro Pastor, e ampara os pastores que incumbiste de apascentar as tuas ovelhas.

6. A lição do Livro dos Actos dos Apóstolos (5,27-41) mostra-nos os Apóstolos como testemunhas do Ressuscitado. Cheios do Espírito Santo, intrépidos, sem medo, e com alegria grande, enchem Jerusalém com o nome de Jesus. Extraordinária provocação para nós, que temos tanta cidade e tantos corações â nossa espera.

7. Jesus é a testemunha fiel (Apocalipse 1,5), porque diz o que ouviu dizer ao Pai e faz o que viu fazer ao Pai. Por isso, todas as criaturas o aclamam, como refere a lição de hoje do Livro do Apocalipse (5,11-14).
D. António Couto, In Mesa de Palavras

13 abril, 2013

A entrada de Jesus Ressuscitado na vida de Paulo: textos dos Actos dos Apóstolos




A entrada de Jesus Ressuscitado na vida do apóstolo foi um acontecimento determinante na vida da Igreja primitiva e, por este motivo, o autor deste livro relata-a não uma, mas três vezes. Apresentamos aqui os três relatos fornecidos por S. Lucas, a fim de os lerdes, confrontardes e notardes as diferenças e contradições. O acontecimento é contado com pormenores não somente diferentes, mas até mesmo contraditórios. Trata-se – claro está – de incongruências de pouca importância, mas que existem e são preciosas: sugerem que não interpretemos o relato como um banal facto de crónica, mas como uma experiência espiritual decisiva na vida de Paulo, experiência que tem muito para nos ensinar também hoje e da qual falaremos na próxima publicação.

(Act 9,3-19)
«Estava a caminho e já próximo de Damasco, quando se viu subitamente envolvido por uma intensa luz vinda do Céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: «Saulo, Saulo, porque me persegues?» Ele perguntou: «Quem és Tu, Senhor?» Respondeu: «Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Ergue-te, entra na cidade e dir-te-ão o que tens a fazer.» Os seus companheiros de viagem tinham-se detido, emudecidos, ouvindo a voz, mas sem verem ninguém. Saulo ergueu-se do chão, mas, embora tivesse os olhos abertos, não via nada. Foi necessário levá-lo pela mão e, assim, entrou em Damasco, onde passou três dias sem ver, sem comer nem beber. Havia em Damasco um discípulo chamado Ananias. O Senhor disse-lhe numa visão: «Ananias!» Respondeu: «Aqui estou, Senhor.» O Senhor prosseguiu: «Levanta-te, vai à casa de Judas, na rua Direita, e pergunta por um homem chamado Saulo de Tarso, que está a orar neste momento.» Saulo, entretanto, viu numa visão um homem, de nome Ananias, entrar e impor-lhe as mãos para recobrar a vista. Ananias respondeu: «Senhor, tenho ouvido muita gente falar desse homem e a contar todo o mal que ele tem feito aos teus santos, em Jerusalém. E agora está aqui com plenos poderes dos sumos sacerdotes, para prender todos quantos invocam o teu nome.» Mas o Senhor disse-lhe: «Vai, pois esse homem é instrumento da minha escolha, para levar o meu nome perante os pagãos, os reis e os filhos de Israel. Eu mesmo lhe hei-de mostrar quanto ele tem de sofrer pelo meu nome.» Então, Ananias partiu, entrou na dita casa, impôs as mãos sobre ele e disse: «Saulo, meu irmão, foi o Senhor que me enviou, esse Jesus que te apareceu no caminho em que vinhas, para recobrares a vista e ficares cheio do Espírito Santo.» Nesse instante, caíram-lhe dos olhos uma espécie de escamas e recuperou a vista. Depois, levantou-se e recebeu o baptismo. Depois de se ter alimentado, voltaram-lhe as forças e passou alguns dias com os discípulos, em Damasco».

(Act 22,6-16)
«Ia a caminho, e já próximo de Damasco, quando, por volta do meio-dia, uma intensa luz, vinda do Céu, me rodeou com a sua claridade. Caí por terra e ouvi uma voz que me dizia: ‘Saulo, Saulo, porque me persegues?’ Respondi: ‘Quem és Tu, Senhor?’ Ele disse-me, então: ‘Eu sou Jesus de Nazaré, a quem tu persegues.’ Os meus companheiros viram a luz, mas não ouviram a voz de quem me falava. E prossegui: ‘Que hei-de fazer, Senhor?’ O Senhor respondeu-me: ‘Ergue-te, vai a Damasco, e lá te dirão o que se determinou que fizesses.’ Mas, como eu não via, devido ao brilho daquela luz, fui levado pela mão dos meus companheiros e cheguei a Damasco. Ora um certo Ananias, homem piedoso e cumpridor da Lei, muito respeitado por todos os judeus da cidade, foi procurar-me e disse: ‘Saulo, meu irmão, recupera a vista.’ E, no mesmo instante, comecei a vê-lo. Ele prosseguiu: ‘O Deus dos nossos pais predestinou-te para conheceres a sua vontade, para veres o Justo e para ouvires as palavras da sua boca, porque serás testemunha diante de todos os homens, acerca do que viste e ouviste. E agora, porque esperas? Levanta-te, recebe o baptismo e purifica-te dos teus pecados, invocando o seu nome’».

(Act 26,12-18)
«Foi assim que, indo para Damasco com poder e delegação dos sumos sacerdotes, vi no caminho, ó rei, uma luz vinda do céu, mais brilhante do que o Sol, que refulgia em volta de mim e dos que me acompanhavam. Caímos todos por terra e eu ouvi uma voz dizer-me em língua hebraica: ‘Saulo, Saulo, porque me persegues? É duro para ti recalcitrar contra o aguilhão.’ Perguntei: ‘Quem és tu, Senhor?’ E o Senhor respondeu: ‘Eu sou Jesus a quem tu persegues. Ergue-te e firma-te nos pés, pois para isto te apareci: para te constituir servo e testemunha do que acabas de ver e do que ainda te hei-de mostrar. Livrar-te-ei do povo e dos pagãos, aos quais vou enviar-te, para lhes abrires os olhos e fazê-los passar das trevas à luz, e da sujeição de Satanás para Deus. Alcançarão, assim, o perdão dos seus pecados e a parte que lhes cabe na herança, juntamente com os santificados pela fé em mim’». 
Pe. Vasco