04 maio, 2013

A entrada de Jesus Ressuscitado na vida de Paulo (II): Versão de Lucas e de Paulo acerca dessa «entrada»


"Nesse instante, 
caíram-lhe dos olhos uma espécie de escamas
 e recuperou a vista." Act 9, 18 



No texto anterior foram apresentados os relatos que Lucas nos dá no livro dos Actos dos Apóstolos acerca dessa famosa entrada ou experiência de Jesus Ressuscitado na vida do apóstolo das gentes. Dissemos que, posteriormente, iríamos falar dessa entrada ou experiência, a qual considerámos decisiva na vida de Paulo e da Igreja nascente, também carregada de significado e pedra angular da vida de todo o discípulo de Jesus ou da vida cristã.
Uma vida cristã que não tenha na sua base uma verdadeira experiência de encontro com o Senhor vivo e ressuscitado é uma vida que, mais dia, menos dia, tende a ganhar outros contornos, a tornar-se nem “fria nem quente”, e, consequentemente, a sentir maiores dificuldades para estar radicada em Cristo, na Igreja e no Espírito. Do encontro ou dessa experiência extraordinária com que o apóstolo foi coroado pouco nos é descrito, diria mesmo que só conhecemos dela o que ela mesma foi capaz de realizar em Paulo e através de Paulo, não esquecendo, claro, a linguagem e a forma que a traduz nos textos bíblicos, que nos Actos é uma e nas Cartas é outra.
Comecemos por passar os olhos na versão de Lucas e de Paulo nas suas cartas. No texto anterior não fizemos nenhuma referência ao que o próprio apóstolo diz nos seus escritos sobre este acontecimento. Relemos, sobretudo, Act 9,3-19. Não deixa de ser curioso que possamos encontrar alguma falta de coincidência entre ambos os autores sagrados. Em primeiro lugar, Paulo não se detém pormenorizadamente naquilo que se passou consigo a caminho de Damasco. Aliás, em nenhum escrito seu conta o que experimentou durante essa viagem. Nem sequer nos diz que caiu abaixo do cavalo (Lucas também não o diz e convém ter presente que as viagens, nessa época, se faziam a pé; por isso, as representações de Paulo caindo “do cavalo”, que tantas vezes contemplamos em quadros e pinturas, não correspondem à realidade). Alude apenas muito suavemente à sua conversão. E até tinha razões para o fazer de forma diferente, pois seria um bom argumento para contestar os Gálatas que punham em causa a autenticidade do seu ministério (Gl 1,15). Mesmo quando se põe a falar das suas visões ou revelações fá-lo de modo muito discreto, concretamente utilizando a terceira pessoa (“Sei de um homem” 2 Cor 12,2), como se não tivesse grande gosto em contar essas coisas no seu dia-a-dia. Todavia, vemo-lo, nos Actos, a boca cheia a referir-se a esse acontecimento, e, uma vez, até diante de gente desconhecida (Act 22). É caso para perguntar: será este o mesmo Paulo das Cartas? Em segundo lugar, os Actos não mencionam que ele viu Jesus, mas simplesmente que “se viu envolvido por uma intensa luz vinda do céu e que ouviu uma voz que lhe falava” (Act 9,3-4). Ao passo que Paulo, nas cartas, afirma, sem grandes descrições, ter visto a Jesus nessa viagem. Aos cristãos de Corinto, interpela: “Não vi Jesus, nosso Senhor” (1 Cor 9,1)? E noutra ocasião: “Em último lugar, apareceu-me também a mim” (1 Cor 15,8). Em terceiro lugar, o apóstolo faz questão de vincar nos seus escritos que a sua vocação-missão e o evangelho por ele anunciado lhe foram entregues sem qualquer intermediário, ou seja, directamente de Deus: “Paulo, apóstolo – não da parte dos homens, nem por meio de homem algum, mas por meio de Jesus Cristo e de Deus Pai” (Gl 1,1); “Faço-vos saber, irmãos, que o Evangelho por mim anunciado, não o conheci à maneira humana, pois eu não o recebi nem aprendi de homem algum, mas por uma revelação de Jesus Cristo” (Gl 1,11). Pelo contrário, os Actos dizem que houve alguém a dar a entender a Paulo o significado da luz que o envolveu e a ensinar-lhe a doutrina cristã (9,10-18).
Encontramos mais contrastes entre ambas as versões. Por exemplo, Actos descreve esse acontecimento extraordinário no caminho para Damasco como uma «conversão»; Paulo, porém, nunca diz que se converteu, mas fala da sua «vocação» (Gl 1,15). Lucas refere que tudo foi acompanhado de fenómenos exteriores (uma luz celestial, uma voz misteriosa, a queda ao chão, a cegueira). O apóstolo nenhuma insinuação faz a esses fenómenos fantásticos e chama a essa revelação que teve de experiência interior (Gl 1,16). Como se interpretam todos estes contrastes? Qual a razão por que Lucas parece não estar em sintonia com o que Paulo menciona nas suas cartas? Para darmos uma resposta a tudo isto faz falta não descurar a intencionalidade de Lucas no livro dos Actos dos Apóstolos. Daremos essa resposta na reflexão seguinte, continuando a cavar as frases, as palavras, a forma desta e das outras narrações lucanas traduzirem a transformação impressionante do apóstolo.
Pe. Vasco

02 maio, 2013

Movidos por quem?

Começou ontem o mês de Maio, Mês de Maria. Não seria um bom tempo para vermos quem nos anda a mover?




"A gloriosíssima Virgem Nossa Senhora, a qual, estando desde o princípio elevada neste alto estado, nunca teve gravada na sua alma forma alguma de criatura, nem se moveu por ela, mas foi sempre movida pelo Espírito Santo."

São João da Cruz,  3 S 2, 10

29 abril, 2013

Anúncio da Ressurreição



Havia um jardim vedado por altos muros que suscitava a curiosidade de muitas pessoas. Finalmente, uma noite quatro homens arranjaram um escadote muito, muito alto para ver o que havia do outro lado.
Quando o primeiro chegou ao cimo do muro, começou a rir muito alto e saltou para dentro do jardim.
Foi a vez do segundo, subiu e, lá em cima, desatou a rir e saltou também ele, lá para dentro.
A mesma coisa fez o terceiro.
Quando foi a vez do quarto, este viu do alto do muro um jardim fantástico (árvores de fruta, fontes, estátuas, flores de toda a espécie e milhares de coisas aprazíveis, atraentes e belas). O desejo de rir e saltar para aquele oásis tão viçoso e ameno era forte, mas um outro desejo teve mais força: o de voltar para o mundo e falar a todos da existência daquele jardim e da sua beleza.
In Folha paroquial: comunidade paroquial de Santo António dos olivais, ano 25, nº26, 15/04/2012 - Coimbra

28 abril, 2013

COMO EU VOS AMEI




1. No tempo de Jesus, o panorama do judaísmo palestinense era dominado por duas escolsas: a escola conservadora e rigorista de Shamai e a escola liberal de Hillel.
 2. Conta-se que, um dia, um homem se terá apresentado na escola de Shamai, e fez ao mestre um estranho pedido: «quero que, enquanto eu me mantiver apenas com um pé no chão, tu me expliques toda a Lei». Diz-se que Shamai se limitou a pegar na sua vara de mestre e a correr o homem pela porta fora, pois era óbvio que o homem fazia um pedido impossível de cumprir, tal era a vastidão da Lei. Mas o homem não desanimou e dirigiu-se à escola de Hillel, a quem formulou o mesmo pedido. E Hillel terá respondido de pronto: «Nada mais fácil: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti!”».
 3. A esta sentença de Hillel, na sua formulação negativa, deu-se o nome de «regra de ouro». Em boa verdade, ela já aparece no Livro de Tobias 4,15. É, todavia, fácil de verificar, que esta sentença é de fácil cumprimento. Dado que o seu teor é negativo, para a cumprir, basta a alguém cruzar os braços e nada fazer. Procedendo assim, nada fará de inconveniente a ninguém, cumprindo assim escrupulosamente a sentença.
 4. Tentando talvez evitar a inacção acoitada na formulação negativa anterior, os Evangelhos apresentam desta máxima uma formulação positiva: «Faz aos outros o que queres que te façam ti!» (Mateus 7,12; Lucas 6,31). Levando a sério esta formulação, já não é suficiente jogar à defesa e nada fazer, mas é requerido o fazer. Seja como for, as duas formulações apresentadas, quer a negativa quer a positiva, padecem do mesmo vício: sou eu o centro, é à minha volta que tudo roda, e o que eu faço ou deixo de fazer é com o objectivo claro de que me seja retribuído outro tanto!
 5. O tom positivo da referida «regra de ouro» recebe ainda outra bem conhecida formulação: «Ama o teu próximo como a ti mesmo!», que atravessa a inteira Escritura: Levítico 19,18; Mateus 22,39; Romanos 13,9; Gálatas 5,14; Tiago 2,8. Mas também esta formulação é perigosa: primeiro, porque eu continuo o ser o centro, a medida do amor aos outros; segundo, porque, se alguém não se ama a si mesmo (e são, infelizmente, cada vez mais os casos!), como poderá cumprir devidamente esta máxima?
 6. É aqui que cai, como uma lâmina, a força do Evangelho de Jesus, proclamado, por graça, neste Domingo V da Páscoa (João 13,31-34): «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei!» (João 13,34), precedido por aquele precioso e carinhoso diminuitivo «filhinhos» (teknía), só aqui, esta única vez, colocado nos lábios de Jesus. Aqui, a medida não sou eu. Aqui, a medida é Jesus. Aqui, a medida é sem medida! Aqui, o amor não é interesseiro. Aqui, o amor é puro, radical, incondicional, assimétrico, sem retorno. Aqui, o amor é até ao fim, e obriga-nos a ter sempre como referência o Senhor Jesus e o seu modo de viver, dando a vida por amor, para sempre e para todos!
 7. A lição do Livro dos Actos dos Apóstolos (14,21-27) põe outra vez diante de nós a viagem transitiva e intransitiva que a graça de Deus nos faz fazer (Actos 14,26), e de que resulta a narrativa de tudo o que Deus fez connosco (Actos 14,27) e com os pagãos, abrindo-lhes a porta da fé (Actos 14,27). É esta expressão que dá o título à Carta Apostólica Porta Fidei [«A Porta da Fé»] com que Bento XVI quis marcar o Ano da Fé que estamos a viver.
 8. Notável a lição do Livro do Apocalipse (21,1-5). Mundo novo, com Deus, Ele mesmo, a habitar no meio de nós, verdadeiro Emanuel, que acariciará o nosso rosto e enxugará as nossas lágrimas. Se o Emanuel habitará connosco, desaparecerão a morte, o luto, os gemidos, a dor, e também o mar que, no mundo bíblico, aparece como símbolo do caos e do mal.
António Couto, in Mesa de Palavras