16 maio, 2013

Escapulário, o hábito de Maria


Hoje, no Carmelo, celebramos São Simão Stock. Não são muitas as notícias que temos deste nosso Santo. Sabemos que era inglês, que viveu no séc. XIII, que morreu em Bordéus, e que frequentou a Universidade de Oxford onde se doutorou em Teologia. É venerado na Ordem do Carmo pela sua grande santidade e pela sua admirável devoção à Virgem Maria. A sua festa sempre foi celebrada no dia 16 de Maio, como sendo o dia da sua morte. Pensa-se que era natural do condado de Kent e que, muito jovem, optou por uma vida eremítica, vivendo muitos anos na concavidade de um tronco, por isso lhe chamam Stock, que em inglês quer dizer «tronco».

A partir do ano 1232, os carmelitas visitaram várias vezes a Inglaterra, até que em 1242, fundam lá o seu primeiro convento. Numa destas visitas Simão conheceu os carmelitas e deixou-se cativar por eles, vindo a pedir o hábito da Ordem. Dirigiu-se para a Terra Santa, com os religiosos, tendo vivido no Monte Carmelo.

Quando, em 1242, os carmelitas fundam em Inglaterra, Simão acompanha-os e intervém nas primeiras fundações. Cinco anos mais tarde, a Ordem celebrou o Capítulo Geral em Inglaterra e Frei Simão Stock foi eleito Prior Geral da Europa.

A vinda dos carmelitas para a Europa e a sua rápida extensão atraía a si imensos jovens universitários cativados pelo estilo de vida do Carmo desencadeando-se, ao mesmo tempo, uma onda de ciúme e inveja em muitos sectores da Igreja. Párocos, Reitores e Bispos moveram uma guerra surda aos carmelitas «não deixando construir igrejas e obrigando-os a impostos e serviços graves insuportáveis, que nunca tinham tido no Monte Carmelo ou em outros conventos da Terra Santa».

Em 1251, Frei Simão Stock convocou um Capítulo Geral pedindo a toda a Ordem que rezasse noite e dia pela resolução do problema. Acudiram ao Céu e ao Papa. S. Simão liderava esta campanha rezando com insistência à Mãe do Carmo para que deles se compadecesse. Um dia em que, como tantas vezes, rezava a oração do «Flos Carmeli», apareceu-lhe a Virgem Maria na sua cela e entregou-lhe o Escapulário dizendo que este símbolo era o sinal da sua protecção para com os carmelitas e para quem a partir de então o usasse. Pensa-se que esta aparição se deu na noite de 15 ou 16 de Julho. Era o ano de 1251. A 13 de Janeiro de 1252, o Papa escreve uma carta aos bispos defendendo os carmelitas. Porém, quatro anos mais tarde, sobrevém novo ataque aos carmelitas e mais perigoso que o primeiro, pois os frades estão divididos: uns querem apenas a vida eremítica tal como se vivia no principio, no Monte do Carmo. Outros, como Frei S. Simão Stock, pretendem uma vida equilibrada e adaptada à Europa: solidão e apostolado, o que exigia a fundação de conventos, não no deserto, mas junto de cidades e universidades. Recorre Frei Simão, Prior Geral, ao Papa que lhe concede razão e protecção. Mais uma vez, em 1264, S. Simão presidiu ao Capítulo Geral em Tolosa, França, vindo a morrer em Bordéus no ano de 1265, onde ainda hoje se guardam os seus restos mortais. 

Com a sua morte, não cessou, contudo, a devoção ao escapulário. Este sinal de especial protecção de Maria aos seus filhos faz parte do hábito do carmelita.  Santa Teresa no Caminho de Perfeição (C 13,3), dirigindo-se às suas irmãs, exorta-as:

"Minhas filhas, pareçamo-nos nalguma coisa à grande humildade da Sacratíssima Virgem, cujo hábito trazemos. É uma afronta dizer que somos suas freiras, pois, por muito que nos pareça que nos humilhamos, ficamos bem longe de ser filhas de tal Mãe e esposas de tal Esposo."

Neste dia de Maio, recordando o amor que S. Simão Stock tinha a Nossa Senhora do Carmo e com grande vontade de nos parecermos à Sacratíssima Virgem, rezemos a oração que rezava este nosso Santo:

Do Carmo a Flor
vide florida
do céu esplendor.
Virgem fecunda,
singular
Mãe sem par
De homem ignorada!
Ao Carmo vem dar
a tua ajuda.
Estrela do mar! 

(Imagem do altar-mor do Convento dos Carmelitas em Segóvia: 
São João da Cruz recebendo o escapulário)



13 maio, 2013

As Portas da Floresta



Quando o grande mestre Rabbi Israel Baal Shem-Tov via a desgraça a ameaçar os judeus costumava dirigir-se a um determinado lugar na floresta para meditar. Quando lá chegava, acendia uma luz e dizia uma oração apropriada; o milagre realizava-se e a desgraça afastava-se.

Mais tarde, quando a desgraça voltava a ameaçar, o seu célebre discípulo, Magi de Mezeritch, dirigia-se para o mesmo lugar na floresta, e dizia: «Senhor do universo, escuta! Não sei acender a luz, mas ainda sou capaz de dizer a oração». E o milagre realizava-se outra vez.

Mais tarde ainda, Rabbi Moshe-Leib de Sassov, este, discípulo do anterior, para salvar uma vez mais o seu povo, dirigia-se para a floresta e dizia: «não sei acender a luz, não sei a oração, mas sei o lugar e isto será suficiente». E era suficiente, o milagre voltava a realizar-se.

Aconteceu, ainda muito mais tarde, a desgraça voltar novamente, e agora, Rabbi Israel de Rizhin, discípulo do anterior, sentou-se na sua cadeira de braços, pôs a cabeça entre as mãos, e falou a Deus: «já nem sequer sei encontrar o lugar certo na floresta. Tudo o que posso fazer é contar a história, e isto deve ser suficiente». E foi suficiente.

WIESEL, Elie – As Portas da Floresta. In COUTO, António – Pentateuco - Caminho da Vida Agraciada. 2ª ed. Lisboa: Universidade Católica Editora, 2005, p. 185. Colecção Estudos Teológicos; 13. 

12 maio, 2013

O TEMPO DA MISSÃO



1. Lucas 24,46-53: estupendo texto que encerra o Evangelho de Lucas e que hoje, Solenidade da Ascensão do Senhor, é solenemente proclamado para nós.
 2. É a terceira vez que, neste Capítulo 24 do Evangelho de Lucas, o Evangelista volta à temática da necessidade do sofrimento de Jesus em ordem à Sua Ressurreição dos mortos (Lucas 24,7.26.46-47). Todavia, nesta terceira vez (Lucas 24,46-47), é acrescentado um dado novo de extrema importância, sendo que os acontecimentos incluídos na necessidade divina são agora três, e não dois: a Paixão (1), a Ressurreição (2) e a Pregação (kêrygma) a todas as nações (3). Portanto, também a MISSÃO surge incluída na necessidade divina. Não está à margem dos acontecimentos de Jesus, mas completamente vinculada a eles e a Ele. É, por isso, «no Seu Nome» (Lucas 24,47), isto é, assente na Sua autoridade, e não em qualquer outra, que esta Pregação deve ser feita, e o seu conteúdo é a Conversão e o Perdão. Conversão teológica, isto é, mentalidade nova por graça recebida e assente no facto de que o Crucificado é Revelação gloriosa de Deus, e não ignomínia e derrota! Perdão: significa que o Amor de Deus é maior que o nosso pecado! Este Anúncio é para ser feito a «todas as nações», a todos os corações: âmbito mais amplo e intenso possível!
 3. Mas esta MISSÃO é para levar por diante com a humildade e persistência do testemunho quotidiano e com a roupa nova (endýô) e a dinâmica nova (dýnamis) do Espírito (Lucas 24,49), belíssima e fotíssima expressão que o Evangelho de hoje transporta até nós. Nas novas coordenadas do Espírito, os Acontecimentos de Jesus, de per si circunscritos no espaço e no tempo, alargam-se a todos os tempos e lugares, e insinuam-se no subtilíssimo segredo de cada coração humano.
 4. Imensa fraternidade em ascendente movimento filial, como uma seara nova e verdejante a ondular ao vento suavíssimo do Espírito, elevando-se da nossa terra do Alto visitada e semeada, ternamente por Deus olhada, agraciada, abençoada. Bênção desde o início do Evangelho de Lucas até agora diferida, porque a mudez do sacerdote Zacarias não lha permitiu então pronunciar (Lucas 1,22). Jesus, novo, terno e eterno sacerdote, elevando-se para o céu, mas ficando mais presente do que nunca em cada coração, abençoa agora os seus discípulos (Lucas 24,50-51), isto é, une-se a eles e a nós e une-nos a Ele, união forte e inseparavél, tal é o significado da bênção bíblica. Nova e mais intensa forma de presença. Não é um passo atrás, mas em frente. Por isso, uma nova e «grande Alegria» (só aqui e em Lucas 2,10) nos impele, deixando-nos no tempo novo e jovem da MISSÃO!
 5. O Livro dos Actos dos Apóstolos retoma esta lição. «E estas coisas tendo dito, vendo (blépô) eles, ELE foi Elevado (epêrthê), e uma nuvem O subtraiu (hypolambáno) dos olhos deles (apò tôn ophthalmôn autôn). E como tinham o olhar fixo (atenízontes) no céu para onde ELE ia, eis (idoú) dois homens que estavam ao lado deles, em vestes brancas, e DISSERAM: “Homens Galileus, por que estais de pé, perscrutando (emblépontes) o céu? Este JESUS que foi arrebatado (analêmphtheís) diante de vós para o céu, assim VIRÁ (eleúsetai) do modo (trópos) que O vistes (etheásthe) IR para o céu”» (Actos 1,9-11).
 6. Tanto VER. Da panóplia de verbos registrados (blépôatenízôhoráô,emblépôtheáomai), os mais fortes e intensos são, com certeza, atenízô[= «olhar fixamente»] e emblépô [= «perscrutar», «ver dentro»]. Ambos exprimem a observação profunda e prolongada, para além das aparências: VER o invisível (cf. Hebreus 11,27), VER o céu, VER a glória de Deus. Mas mais ainda do que «o que» se vê, estes verbos acentuam «o modo como» se vê. É para aí que apontam os dois homens vestidos de branco, de rompante surgidos na cena, para entregar um importante DIZER que interpreta e orienta tanto VER. Já os tínhamos encontrado no túmulo reorientando os olhos entristecidos das mulheres: «Por que () procurais entre os mortos Aquele que está Vivo? Não está aqui. Ressuscitou!» (Lucas 24,5-6). Dizem agora: «Por que () estais de pé, perscrutando (emblépontes) o céu? Este JESUS que foi arrebatado (analêmphtheís) diante de vós para o céu, assim VIRÁ (eleúsetai) do modo (trópos) que O vistes (etheásthe) IR para o céu» (Actos 1,11). Como bem se pode verificar, ao Arrebatamento de JESUS para o céu, os dois homens vestidos de branco agrafam a Vinda de JESUS. Importante colagem da Ascensão com a Vinda. E importante passo em frente para quem estava ali simplesmente especado. Não é mais possível Ver a Ascensão sem Ver a Vinda. Sim, Ver. Porque ELE Virá do mesmo modo que O Vistes IR. Importante guardar este Ver, viver este Ver, Ver com este Ver. Porque é Vendo assim que o SENHOR Virá. Vinda que não tem de ser relegada para uma Parusia distante e espectacular, mas que começa, hic et nunc, neste Olhar novo e significativo de quem Vê o SENHOR JESUS. Vinda que não é tanto um regresso, mas o desvelamento de uma presença permanente. Vinda já em curso, portanto, ainda que não plenamente realizada.
 7. Guardemos este Olhar e prossigamos. Eis-nos no primeiro ACTO propriamente dito dos Actos dos Apóstolos depois do Pentecostes: a cura de um coxo de nascença descrita em Actos 3,1-10: «Então Pedro e João subiam ao Templo para a oração da hora nona [= 15h00]. E um certo homem, que era coxo (chôlós) desde o ventre da sua mãe, era trazido e posto todos os dias diante da Porta do Templo, dita a Bela, para pedir esmola àqueles que entravam no Templo. Vendo (idôn) Pedro e João, que estavam a entrar no Templo, pedia esmola para receber. Então, fixando o olhar (atenísas) nele, Pedro, com João, disse: “Olha para nós” (blépson eis hemâs). Então ele observava-os (epeîchen), esperando receber deles alguma coisa. Disse então Pedro: “Prata e ouro não tenho, mas o que tenho, isso te dou: no nome de JESUS CRISTO, o Nazareno, [levanta-te e] caminha. E, tomando-o pela mão direita, levantou-o. Imediatamente se firmaram os seus pés e os calcanhares. Com um salto, pôs-se em pé, e caminhava, e entrou com eles no Templo caminhando e saltando e louvando a Deus. E todo o povo o viu (eîden) a caminhar e a louvar a Deus. E reconheciam que era aquele que, sentado, pedia esmola à Porta Bela do Templo, e ficaram cheios de admiração e de assombro por aquilo que lhe aconteceu» (Actos 3,1-10).
 8. Outro impressionante condensado de olhares marca este primeiro ACTO dos Actos dos Apóstolos. Soam no texto cinco notas visuais, servidas por quatro verbos: horáôatenízôblépôepéchôAtenízôdesenha o Olhar de Pedro e João fixado no coxo de nascença. Blépôretrata o Ver com que o coxo é mandado olhar o Olhar dos Apóstolos. Significativo agrafo: estes dois Olhares, com atenízô e blépô, só tinham sido usados antes, no Livro dos Actos dos Apóstolos, uma única vez, precisamente no relato da Ascensão (Actos 1,9-10). De resto, blépôconhecerá apenas mais quatro menções no Livro dos Actos dos Apóstolos: duas no relato da vocação de Paulo (Actos 9,8-9), a terceira no discurso de Paulo na sinagoga de Antioquia da Pisídia (Actos 13,41; cit. de Habacuc 1,5), e a quarta e última no decurso da viagem marítima de Paulo para Roma (Actos 27,12). Atenízô, por sua vez, far-se-á notar em lugares de relevo, sempre para expressar um Ver novo e significativo, um Ver sem haver: os membros do Sinédrio fixam os olhos (atenízô) em Estêvão, e vêem-no semelhante a um anjo (Actos 6,15); Estêvão, por sua vez, fixa os olhos (atenízô) no céu, e vê a glória de Deus e JESUS, de pé, à direita de Deus (Actos 7,55); Cornélio fixa os olhos (atenízô) no anjo do Senhor, que o interpela (Actos 10,4); Pedro fixa os olhos (atenízô) na visão, vinda do céu, dos animais impuros (Actos 11,6); Paulo fixa os olhos (atenízô) no mago Elimas, de Chipre, para o fulminar pela sua falsidade e malícia (Actos 13,9), e o mesmo faz no Sinédrio, dando testemunho de JESUS (Actos 23,1).
 9. É este Ver JESUS, Ver sem haver, sem poder, sem ouro nem prata (Actos 3,6), que se fixa sobre o coxo de nascença, mandado, por sua vez, olhar para este Olhar, Ver desta maneira. Como Abraão e Moisés, convidados a Ver para receber, e não para haver, a Terra Prometida: «a terra que Eu te farei Ver» (Génesis 12,1), «que YHWH lhe fez Ver» (Deuteronómio 34,1), «Eu a fiz Ver aos teus olhos» (Deuteronómio 34,4). O narrador anota mais à frente que o coxo de nascença, agora curado, tinha mais de 40 anos (Actos 4,22), tipologia do povo perdido no deserto antes de entrar na Terra Prometida. Como o homem doente havia 38 anos, que Jesus encontra junto da piscina de Bezetha, e que será curado (João 5,1-9).
 10. É sintomático que o Ver da Ascensão e da Vinda do SENHOR JESUS seja o Ver que preenche por inteiro o primeiro ACTO dos Actos dos Apóstolos, com realce para Pedro. Mas é ainda grandemente sintomático que o primeiro ACTO de Paulo, descrito em Actos 14,8-10, que é também o primeiro passo da missão perante o paganismo popular, em Listra, quase copie o primeiro ACTO dos Apóstolos e de Pedro, certamente com o intuito de pôr em paralelo os dois grandes Apóstolos e os dois tempos da missão. Eis o texto referido de Actos 14,8-10: «E em Listra um homem estava sentado, sem força nos pés, coxo desde o ventre da sua mãe, e que nunca tinha andado. Este ouviu falar Paulo, o qual, tendo fixado os olhos (atenísas) nele, e tendo visto que tinha fé para ser salvo, diz com voz forte: “Levanta-te direito sobre os teus pés!” E ele deu um salto e caminhava» (Actos 14,8-10). Aqui temos o mesmo coxo de nascença, o mesmo Olhar significativo e diaconal, sem poder, sem ouro nem prata, Ver JESUS, o mesmo levantamento do coxo. E também aqui, na sequência do texto, temos o aceno à multidão que disperdia o olhar, vendo em Paulo e Barnabé deuses em forma humana, e a mesma correcção, feita por Paulo, apontando JESUS (Actos 14,11-18).
 11. Importante agrafo da Ascensão com a Vinda do Senhor. Tanto Ver. Não é mais possível Ver a Ascensão sem Ver a Vinda. Guardemos este Olhar cheio de Jesus e olhemos agora para esta terra árida e cinzenta, para tantos corações tristes e perdidos. Nascerá um mundo muito mais belo, novos corações pulsarão nas pessoas. Corações iluminados, como diz o Apóstolo à comunidade mãe da Ásia Menor, Éfeso (Efésios 1,18). Um Olhar cheio de Jesus faz Ver Jesus, faz Vir Jesus!
 António Couto, in Mesa de Palavras

11 maio, 2013

A entrada de Jesus Ressuscitado na vida de Paulo (III): Forma, linguagem e 3 relatos



Tendo notado os contrastes existentes entre o livro dos Actos e as Cartas paulinas na maneira de nos narrar este acontecimento, vamos agora tentar perceber, mais de perto, a forma, a linguagem e o porquê de três relatos no escrito lucano. Estaremos, pois, a dar resposta àquelas questões com que terminámos a reflexão anterior. Dissemos que para lhes responder fazia falta não descurar a intencionalidade do autor sagrado. Para ela, também olharemos. 
Lucas, quando se sente movido a redactar a sua obra, é conhecedor duma tradição que diz que o apóstolo, na sua ida a Damasco, tinha sido coroado com e vivido um certo acontecimento sobrenatural, e que alguém de nome Ananias havia tido uma função preponderante nele. Ao estar por dentro dessa tradição, o que ele faz é pegar nesses elementos e construir uma narração segundo a forma das chamadas “lendas de conversão”.
O que vinham a ser essas “lendas”? Eram relatos elaborados com um objectivo bem traçado, ou seja, mostrar como Deus, face a alguém que se apresentava como seu inimigo, era capaz de acabar por convertê-lo mediante sinais portentosos. Um exemplo dessas lendas é a conversão de Heliodoro, ministro do rei Seleuco IV da Síria (ler o segundo livro dos Macabeus, cap. 3). O que nos dá alguma segurança para afirmar que o nosso autor inspirado utiliza este modo convencional de dizer as coisas é que encontramos muitas outras lendas judias que narram da mesma maneira a conversão de alguma figura inimiga de Deus. Assim sendo, ficamos a saber, uma vez mais, que não devemos tomar como históricos os pormenores da conversão de S. Paulo, mas antes, como elementos que fazem parte dum determinado caixilho literário, que sempre que é utilizado, lá aparecem.
Mas porquê tanto interesse de S. Lucas na conversão do apóstolo, ao ponto de não só a engrandecer com pormenores, mas de a repetir nada menos que três vezes (Act 9,3-19; 22,6-16 e 26,12-18)? Porque o autor sagrado, ao longo da sua obra, quer demonstrar o cumprimento da profecia de Jesus que diz que a Palavra de Deus se estenderá por todo o mundo de então. Com efeito, ao princípio, Jesus aparece aos apóstolos e profere-lhes: “Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo” (Act 1,8). E o que se entendia naquele tempo por “confins do mundo”? Era Roma, a capital do império.
Lucas desconhecia que algum dos doze apóstolos tivesse chegado até à capital. No seu escrito, Pedro, o porta-voz e cabeça do grupo, não chega a passar da Judeia e Samaria. João tão-pouco vai para além da Samaria. Tiago maior é morto cedo. Tiago menor nunca chega a sair de Jerusalém. Matias, substituto de Judas, deixa imediatamente de aparecer em cena após a sua eleição. Dos restantes apóstolos não temos nenhuma notícia.
Como demonstrar, pois, que a profecia de Cristo se realiza e que a Igreja se estende “até aos confins do mundo”? O nosso autor pôs-se a pensar e, por inspiração divina, chegou à conclusão de que a melhor maneira seria fazer recair sobre Paulo a realização desta missão. Mas ainda assim uma dificuldade se levantava: segundo Lucas, «apóstolo» era o que tinha conhecido pessoalmente Jesus e recebido d’Ele a tarefa de anunciar o Evangelho (Act 1,21-26); algo que não havia ocorrido com Paulo. Para que não restassem, pois, nenhumas dúvidas de como Paulo é o que realiza a missão de chegar a Roma – missão entregue, na verdade, aos apóstolos – Lucas, no quadro da sua conversão a caminho de Damasco, pinta-o a receber do próprio Jesus esse mesmo encargo. E fala nele por três vezes ao longo do livro, no seu itinerário para Roma, a fim de que não haja mesmo dúvidas.
Já agora, na Bíblia há uma linguagem convencional para exprimir as experiências que as pessoas têm de Deus: a imediatez, o brilho, a luz refulgente, o temor, por parte do ser humano, a missão directa, da parte de Deus. Podeis verificar se nos três textos de Lucas se pode aplicar este esquema.
Há aí um “diálogo de aparição”, muito comum no Antigo Testamento (Ex 3,2-10; 1Sm 3,4-14), que é utilizado oficialmente pelos escritores sagrados sempre que querem narrar a aparição de Deus (ou esse encontro extraordinário, místico, arrebatador, transformante, diferente dos de cada dia…) a alguma pessoa. Esse diálogo possui, na maioria das vezes, quatro elementos: o nome da pessoa é referido por duas vezes (Saulo, Saulo!); uma pergunta muito curta do interpelado (Quem és Tu, Senhor?); o Senhor que se auto-apresenta (Eu sou Jesus, a quem tu persegues) e a missão (Ergue-te, entra na cidade).
Apoderando-se desta linguagem, Lucas quis apresentar e confirmar uma coisa: que esse tal encontro ou experiência grandiosa de Cristo Ressuscitado e com Cristo Ressuscitado foi um acontecimento verdadeiramente real e não uma mera alucinação de Paulo.
Pe. Vasco

09 maio, 2013

O ORVALHO DIVINO




Meu doce Jesus, no regaço da tua Mãe, apareces-me, envolto em luz de amor. O amor, eis o inefável mistério que te exilou da celeste morada... Ah! Deixa-me ocultar sob o véu, que aos olhos humanos Te esconde e junto de Ti, ó Estrela Matutina! Encontrei o meu antegozo do céu.

Desde o nascer de cada nova aurora, quando aparecem os primeiros raios de sol a delicada flor que começa a abrir, esperança  do alto um bálsamo precioso, é o orvalho benéfico da manhã, totalmente cheio de uma doce frescura que produzindo uma seiva abundante do fresco botão faz entreabrir a flor.

Tu és Jesus, a flor que acaba de abrir-se, contemplo-Te no teu primeiro despertar, és Tu Jesus, a deslumbrante rosa, o fresco botão, gracioso e cor de ouro. Os puríssimos braços da tua Mãe querida, foram para ti um berço, trono real, o teu doce sol, é o seio de Maria e o teu Orvalho, o leite virginal!...

Meu Bem-amado, meu divino Irmãozinho, no teu olhar vê todo o futuro, credo por mim deixarás a tua Mãe, o amor já Te impele a sofrer mas sobre a cruz, ó flor desabrochada! Eu reconheço o teu perfume matinal, eu reconheço o orvalho de Maria O teu sangue divino, é o leite virginal!...

Este orvalho esconde-se no santuário, o anjo dos céus contempla-O deslumbrado, oferecendo a Deus a sua oração sublime como S. João, repete: «Ei-l’O aqui», sim ei-l’O, o verbo feito Hóstia, Sacerdote Eterno, Cordeiro Sacerdotal, O filho de Deus, é o Filho de Maria o pão do anjo é o leite virginal.

O Serafim alimenta-se da gloria, no paraíso o seu gozo é perfeito eu, frágil criança, só vejo no cibório a cor, a figura do leite mas, é o leite que convém à infância e o amor de Jesus é sem igual o terno amor! Insondável poder, a minha Hóstia branca, é o leite virginal!...

Santa Teresinha, Recolhido por Fr. Vitor