30 junho, 2013

CAMINHO CRUCIAL



1. Neste Domingo XIII do Tempo Comum temos a graça de ouvir o Evangelho de Lucas 9,51-62, que é uma página sublime e sobrecarregada de cenários de seguimento, sucessivos e desconcertantes, que interpelam todos aqueles, de ontem e de hoje, que são chamados a seguir o caminho de Jesus.
 2. O primeiro cenário é a anotação radical de que Jesus «tornou o seu rosto duro como pedra na direcção de Jerusalém» (Lucas 9,51). A expressão «tornar o rosto duro como pedra» provém do terceiro canto do Servo do Senhor, de Isaías 50,7, e serve para assinalar uma atitude firme e decidida da qual não se pode voltar atrás. Ainda que, no contexto do Evangelho de Lucas, esta anotação marque a viragem geográfica de Jesus da Galileia para a Judeia e para Jerusalém, a anotação é sobretudo de ordem teológica, salientando a total confiança de Jesus no Pai e a total orientação da sua vida para o Pai, tal como o Servo confia plenamente no seu Senhor e para Ele orienta toda a sua vida. Mas o facto de Jesus «tornar o seu rosto duro como pedra na direcção de Jerusalém» deve ensinar-nos a ver que Jesus caminha sem hesitação para a Cruz, o que faz do seu caminho e do nosso caminho um caminho Crucial.
 3. O segundo cenário é o envio (apostéllô) por parte de Jesus de mensageiros (ángelloi) à sua frente com a missão de preparar (etoimázô) a vinda do próprio Jesus (Lucas 9,52). Extraordinária e preciosa indicação. A missão excede o mensageiro, que é sempre e só um preparador de caminhos para a vinda daquele que há-de vir, Jesus Cristo, que é assim o único imprescindível! Fica claro desde cedo, desde já, que a nossa missão tem a dimensão do precursor humilde, pobre e manso, que apenas abre portas e corações (Malaquias 3,24), e põe a mesa, para que possa entrar o Rei da Glória (Salmo 24,7 e 9). Portanto, a postura do mensageiro ou missionário é a de um pedinte que vai à frente e bate à porta, às portas (também Lucas 10,1). Sim, é um pedinte, «sem bolsa, nem alforge, nem sandálias» (Lucas 10,4), que «come e bebe do que lhe servirem» (Lucas 10,7). Tem de aprender a pedir e a receber; não a insultar, a suspeitar e a ameaçar.
 4. Aí está, portanto, pedagogicamente em contraponto, o terceiro cenário. Trata-se da ilusão de poder de Tiago e João, os filhos de Zebedeu, que propõem a Jesus dizimar uma povoação samaritana só porque esta recusa acolher Jesus. Vê-se que ainda não aprenderam a pedir e a receber, mas sabem tudo sobre a suspeita e a ameaça. Os dois irmãos discípulos, que não entenderam ainda o caminho manso e humilde de Jesus, que tem os mesmos tons do Servo do Senhor, são duramente repreendidos (Lucas 9,55) com o mesmo verbo (epitimáô) com que Jesus estigmatiza os espíritos impuros (cf. Lucas 4,35).
 5. Mas um quarto cenário salta à vista de quem segue atentamente a página evangélica. O início desta viagem de Jesus para a Judeia e Jerusalém fica marcado pelo seu não acolhimento e rejeição numa aldeia da Samaria (Lucas 9,52). Mas a mesma rejeição tinha acontecido no início da sua missão em Nazaré (Lucas 4,29). Portanto, e sem medos e sem equívocos, a rejeição acompanha o Evangelho em pessoa, que é Jesus Cristo. Os seus discípulos de ontem e de hoje devem saber estas coisas, para não procurarem facilidades no seguimento fiel do caminho de Jesus. Aí está sempre a balizar o caminho a palavra de Jesus: «Se me perseguiram a mim, perseguir-vos-ão também a vós» (João 15,20).
 6. O quinto cenário fixa a nossa atenção em alguém que se propõe seguir Jesus, com estas palavras: «Seguir-Te-ei para onde quer que vás!» (Lucas 9,57), logo seguidas da declaração de Jesus: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça!» (Lucas 9,58). Note-se bem que o texto diz o essencial e omite o circunstancial, deixando-nos sem saber quem era o homem, de onde veio, o que é que o levou a propor-se seguir Jesus, e como terá reagido à declaração de Jesus acerca da sua pobreza radical, que deveria adoptar também quem o quisesse seguir. Tê-lo-á seguido no caminho? Foi-se outra vez embora? Com este procedimento escorreito, a intenção do narrador é certamente apresentar a força do seguimento de Jesus enquanto tal, não o fazendo depender desta ou daquela circunstância, e fazendo dele um seguimento incondicional. Seguir Jesus é um absoluto, sem condições, atitude posta em destaque pelo facto de Jesus não ter eira nem beira, «não tem onde reclinar a cabeça», o que torna incontornável a transparência da sua confiança no Pai. Sua e daqueles que o queiram seguir no caminho.
 7. Permiti que abra aqui um sexto cenário, retomando o dito de Jesus: as raposas têm as suas tocas, as aves do céu os seus ninhos; em contraponto, Jesus, o Filho do Homem, não tem onde reclinar a cabeça(Lucas 9,58). Aqui está a especificidade do homem em relação ao animal. A liberdade do animal é uma liberdade sem responsabilidade, uma liberdade solitária. Não é assim com o homem: «Não é bom que o homem esteja só», é uma das primeiras lições do Livro do Génesis (Génesis 2,18). A liberdade do homem é uma responsabilidade que se assume face à Criação, constrói-se sempre com alguém, sempre diante de alguém. Ao homem compete assumir atitudes responsáveis, o que o impede de encontrar tão cedo um lugar onde reclinar a cabeça. Fixemos outra e sempre os nossos olhos em Jesus, e compreendamos que apenas a morte interrompe este caminho de crucial responsabilidade. Atente-se que é apenas sobre a Cruz que Jesus reclinará a cabeça (João 19,30).
 8. O sétimo cenário é o apelo limpo, igualmente despido de acessórios, que Jesus faz a alguém: «Segue-me!», a que o visado responde imediatamente: «Permite-me ir primeiro sepultar o meu pai!» (Lucas 9,59). E a resposta, quase escandalosa de Jesus: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Tu, vai anunciar o Reino de Deus!» (Lucas 9,60). Estas imensas palavras de Jesus ganham ainda maior acutilância se soubermos que a mentalidade e a sabedoria judaicas davam enorme importância ao dar sepultura a um familiar. Era uma acção de tal monta e de tal conta que dispensava da oração do Shema‛, da oração das dezoito bênçãos e de todos os preceitos da Lei (Mishnah Berakhot 3,1a). Mas o caminho novo de Jesus inverte o normal caminhar da experiência humana da vida para a morte. O caminho de Jesus, e segundo Jesus, é da morte para a vida: «nós sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos; quem não ama, permanece na morte» (1 João 3,14). Quem quiser seguir Jesus tem, portanto, de apostar tudo no novo sentido que Jesus imprime à existência: partir da morte para a vida, com a única chave possível que abre este caminho Crucial: o amor, o amor, o amor! Mais amor, mais amor, mais amor!
 9. O oitavo e último cenário é igualmente forte, igualmente desconcertante. Põe diante de nós alguém, também sem qualquer registo de circunstâncias, que está disposto a seguir Jesus, desde que Jesus lhe faça uma pequena concessão: permitir que se despeça dos seus familiares. Digamos que pede apenas para dar um pequeno passo atrás, e logo dará dois em frente. Já sabemos que Elias fez esta concessão a Eliseu (1 Reis 19,20), como nos é dado ler no Antigo Testamento de hoje. Mas Jesus é mais do que Elias, e não faz qualquer concessão: «Aquele que deita as mãos ao arado, e olha para trás, não serve para o Reino de Deus!» (Lucas 9,62). O poeta inglês Thomas S. Eliot, fala, neste contexto, de «uma insuportável camisa de fogo que Deus teceu com as suas próprias mãos», para depois nos envolver nela, como se fosse o manto de Elias. «As  forças humanas, continua o poeta, não a podem levar; cedo nos apercebemos que apenas podemos viver e respirar se nos deixarmos queimar, queimar de amor». Ainda e sempre e só o amor!
 10. Já se vê que é a cena de Elias e de Eliseu, narrada em 1 Reis 19,19-21, que faz de fundo ao Evangelho de hoje. Simbolicamente, Elias atira o seu manto sobre Eliseu, fazendo-o assim seu seguidor. Eliseu andava a lavrar um grande campo, agarrado ao arado, puxado por doze juntas de bois. Sentindo o chamamento de Elias, Eliseu apenas pede o tempo necessário para ir abraçar o seu pai e a sua mãe. Elias concede. Eliseu despede-se de forma radical, sagrada e festiva. Matou uma junta de bois, e assou a sua carne sobre a madeira do arado. Queimando o arado, é todo um mundo que deixa para trás, sem retorno. Enceta depois um caminho novo atrás de Elias.
 11. Dia de Domingo, Dia do Senhor, doação radical, total, ao Senhor. Entenda-se: é um caminho novo que se abre à nossa frente. Sem retrocessos, sem desvios, sem distracções, sem nostalgias, sem saídas de segurança!
D. António Couto, In Mesa de Palavras

27 junho, 2013

Férias_c/Deus: As criaturas, passo de Deus

Parece que, finalmente(!!!), chegou algo a que podemos chamar "Verão". E, além do calendário, o calor marca o início das férias que, na praia ou no campo, na cidade ou no interior, nos permitem momentos de descanso, de "ócio gratificante" (Bergoglio), porque "só avança quem descansa" (Vasco Pinto Magalhães). 
Mas o descanso não é esquecimento de Deus! É, pelo contrário, até um momento privilégio de encontro com Ele, que nos leva a descansar (Sl 22). E pode sê-lo na natureza, na criação, que, nestes tempos de férias e descanso, apreciamos mais espaçadamente. São João da Cruz ajuda-nos a descobrir como a Natureza, seja a floresta densa ou o extenso areal, a noite estrelada ou o sol que se espelha nas águas dos rios ou dos mares, é ponto de encontro com Deus.



«Mil graças derramando.

Por estas mil graças 
entende-se a inumerável multidão das criaturas. 
Chama-lhes graças
devido à muita beleza com que as dotou. 
E, enquanto as ia derramando,
isto é, povoando a terra inteira,

passou por estes soutos com pressura.

Passar pelos soutos significa criar os elementos, 
que aqui chama soutos. 
Diz que passava por eles derramando mil graças, 
pois os adornava de toda a espécie de criaturas, cheias de beleza.
E também derramava mil graças, 
porque as capacitava para colaborar 
na geração e conservação de todas elas.
Diz ainda que passou, 
porque as criaturas são como um rasto da passagem de Deus; 
por meio delas vislumbra-se a sua grandeza, potência,
sabedoria e demais excelências divinas.
Diz também que esta passagem foi com pressura, 
pois as criatura são as obras menores de Deus, 
que Ele criou como de passagem. 
As maiores, pelas quais mais Se revelou e nas quais mais se fixava, 
eram as da Encarnação do Verbo e os mistérios da fé cristã. 
Todas as outras, comparando-as com estas, 
eram feitas como de passagem, a toda a pressa.

E, assim os indo olhando,
com sua só figura
vestidos os deixou de formosura.»

(São João da Cruz, Cântico Espiritual, 5, 2-3)



24 junho, 2013

Um Rio e dois lagos



Na Terra Santa há dois lagos alimentados pela mesma fonte: o Rio Jordão. Ficam situados a alguns quilómetros de distância um do outro. Mas ambos possuem características bem distintas entre si. Um é o Lago de Genesaré, também conhecido como Mar da Galileia ou Lago de Tiberíades. O outro é o chamado “Mar Morto”.
O primeiro é azul, cheio de vida e de contrastes, de calma e de ondas. Nas suas margens, deflectem-se as flores amarelas dos seus prados. O Mar Morto é uma Lagoa densa de água salgada em que não há vida. A água que vem do rio, ali fica estagnada. O que é que faz destes dois lagos, alimentados pelo mesmo rio, lagos tão diferentes? Simplesmente isto:
O Lago de Genesaré transmite generosamente o que recebe. A sua água, quando chega ali, parte de imediato para remediar a seca dos campos. Sacia a sede dos homens e dos animais. É uma água altruísta. A água do Mar Morto estagna-se. Adormece. É salgada. Pesada. Mata. É uma água egoísta, estagnada, inútil.
Com as pessoas, passa-se o mesmo. Recebem a vida da mesma fonte. As que vivem com generosidade, dando-se e oferecendo-se aos outros, geram vida e fazem viver. As pessoas que, com egoísmo, recebem, guardam e não repartem, são como a água estagnada, que morre e causa a morte à sua volta.
Muitas pessoas são parecidas com o Mar Morto: só recebem, acumulam, não se dão e, assim, constroem uma vida amarga, desgraçada e infeliz. São extremamente salgadas e intragáveis.
Há outras, porém, que dão e se oferecem a si mesmas com generosidade e sem nada esperar como recompensa… Estas são as pessoas mais felizes do mundo. Quanto menos partilhamos, mais pobres nos tornamos. Quanto mais nós damos, mais recebemos.

O que acumula apenas para si, chama desesperadamente pela infelicidade e esta vem ter com ele. Recebe de graça e não reparte; acumula só para si e apodrece; enquanto o que reparte, divide, planta, colhe, refloresce. Espera só em Deus e a seu tempo acontece. Aquele que reparte abre a porta à felicidade.



23 junho, 2013

O NOSSO «LUGAR FELIZ» É CRISTO



1. Este Domingo XII do Tempo Comum oferece-nos a imensa utopiamessiânica que atravessa a profecia de Zacarias 9-14, um povo pobre, explorado, combatido e assassinado, mas que é a «pupila dos olhos do Senhor» (Zacarias 2,12), que tem nele colocados os seus olhos (Zacarias 9,1 e 8). Este povo pobre e mártir tem direito à sua esperança e ao seu rei diferente, que se apresenta pobre e pacífico, montado num jumento, animal de paz e não de guerra, e que porá fim aos instrumentos de guerra (Zacarias 9,9-10). Mundo novo. O texto deste Domingo (Zacarias 12,10-11; 13,1) faz-nos chorar este povo pobre e mártir personificado num filho único, num filho primogénito, martirizado, mas faz-nos ver também, e fixa o nosso olhar nesta figura desfigurada e transpassada, mas transfigurada, pois se tornará numa fonte de água pura, salvadora e salutar (Zacarias 13,1; 14,8). É, neste sentido, que «hão-de olhar para aquele que transpassaram» (Zacarias 12,10). Cruzamento de olhares: olha Deus para ele, por ele; olhamos agora também nós para ele, por ele! É sabido que João, vendo Jesus e relendo este texto de Zacarias, fixa o nosso olhar em Jesus crucificado, transpassado, desfigurado, transfigurado (João 19,37). Então o crucificado ressuscitado, que preside à nossa assembleia dominical e à nossa vida, deixa de ser uma u-topia [= «sem lugar»], para se transformar numa eu-topia [= «lugar feliz»]. Olhar fixo n’Ele! Mãos abertas em concha para Ele, para as encher nessa fonte de graça e de saúde! Sim, somos chamados a transformar o «deslugar» deste mundo em «lugar feliz»!
 2. Faz equilíbrio com este grande texto de Zacarias o Evangelho de Lucas 9,18-24. Começa por nos apresentar Jesus a rezar sozinho, o que acontece imensas vezes no Evangelho de Lucas, que é, por isso, também chamado «Evangelho da oração». E «orar» é, em sentido genuíno, etimológico, beijar, como lembrou o Papa Bento XVI aos jovens reunidos na XX Jornada Mundial da Juventude, realizada em Colónia, em 2005, referindo que a palavra latina para oração é oratio e a locução latina para adoração é ad oratio, contacto boca a boca, beijo, abraço, e portanto, no fundo, amor, ou seja, orientar a nossa vida toda para Deus, entregar a Deus a nossa vida toda, para que seja Ele a olhar para nós, por nós! É importante sabermos, informa-nos o narrador, que os seus discípulos estavam com EleEstar com Ele é o «lugar feliz» do discípulo de todos os tempos. Estar sem Ele é sempre um «deslugar». Se for este o caso, temos rapidamente de mudar de lugar!
 3. Também ficamos a saber, pela informação dos discípulos de então, que as multidões dizem Jesus com o passado, alinhando-o com as figuras do passado (João Baptista, Elias, um antigo profeta redivivo) (Lucas 9,19), não contendo, portanto, nada de substancialmente novo. Em contraponto com as multidões, Pedro avança um dizer novo, diz que Jesus é o Cristo de Deus, sem, todavia, com este dizer, renovar a sua vida, sem fixar n’Ele os olhos e sem encher as mãos em concha com a água viva que d’Ele vem.
 4. É Jesus, e só podia ser Jesus, que se auto-apresenta aos seus discípulos de ontem e de hoje, como tendo de sofrer, ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia (Lucas 9,22). Aí está o transpassado, desfigurado, transfigurado, fonte única de água viva para nós, fonte da nossa vida. Dizemos, na verdade, muitas coisas. Mas é necessário ouvir Jesus dizer. Porque só Ele se diz e nos diz. Para o discípulo, escutar é deixar-se dizer! Para o discípulo, dizer é redizer o dito de Jesus. Eis o Mestre. Eis o discípulo.
 5. Ainda duas coisas únicas deste Evangelho, duas pérolas, portanto: «Dizia Ele a todos: “Se alguém quer vir atrás de mim, diga não a si mesmo, e tome a sua cruz todos os dias, e siga-me”» (Lucas 9,23). A primeira pérola está em que Jesus diz para todos. O dizer de Jesus, o seu ensinamento novo, não é para elites, para alguns iluminados. É para todos. Entenda-se que a escola de Jesus está aberta a todos, ricos e pobres, maus e bons, especialistas e ignorantes. Já se sabe que o ignorante é aquele que não sabe; de resto, também o dito especialista não sabe, mas não sabe, para usar o aforismo cortante de Leo Longanesi, com grande competência e autoridade! Ainda bem, portanto, que Jesus diz para todos, e todos devemos estar sentados e atentos na sua escola. A segunda pérola é que a vida cristã, que consiste em seguir Jesus, é coisaquotidiana, de todos os dias. Não é só para alguns dias de festa. Não pode ter pausas.
 6. Dizer não a si mesmo é pensar ao contrário do que estamos habituados a fazer. Pensamos sempre primeiro em nós, em salvar-nos a nós mesmos. E para nos salvarmos a nós mesmos, pensamos nós, temos de nos antecipar aos outros, ser mais espertos do que os outros, passar à frente dos outros. Exactamente o contrário de Jesus, que não quis salvar-se a si mesmo. Quis salvar-nos a nós, pôr-se ao nosso serviço, fazer-se fonte de água viva para nós. «Salva-te a ti mesmo, e desce da Cruz!» (Lucas 23,35-39), eis a tentação que cai sobre Jesus em três vagas sucessivas. Todavia, se se tivesse salvo a si mesmo, não nos salvava a nós! Estamos, portanto, perante a lógica nova do «quem perde, ganha», que é o jogo novo do cristianismo.
 7. Não se pode ser cristão, discípulo de Jesus, seguir Jesus, dizer Jesus, sem dar a vida. O discípulo de Jesus, à maneira de Jesus, tem de pôr em jogo a própria vida, e não simplesmente os adereços. Tudo, e não apenas o supérfluo. Dar o que sobra não tem a marca de Deus, não é fazer a verdadeira memória de Jesus, que se entregou a si mesmo por nós (Efésios 5,2), por mim (Gálatas 2,20). O supérfluo deixa a vida intacta. O dom de si mesmo transforma a vida para sempre.
 8. É esta novidade que São Paulo afirma outra vez na Carta aos Gálatas 3,26-29. Sim, Paulo já não se sabe dizer sem dizer Jesus Cristo. Por Ele foi alcançado, n’Ele foi baptizado, está revestido d’Ele. Se vive, é porque está enxertado em Cristo, o «lugar feliz» da sua vida.
D. António Couto, In Mesa de Palavras

22 junho, 2013

Bilhete de identidade de Paulo (II)


«Mas Paulo disse aos lictores: «Açoitaram-nos em público, sem julgamento, a nós que somos cidadãos romanos; (…) Depois disso, Paulo afastou-se de Atenas e foi para Corinto. Encontrou ali um judeu chamado Áquila, natural do Ponto, recentemente chegado da Itália com Priscila, sua mulher, porque um édito de Cláudio ordenara que todos os judeus se afastassem de Roma. Paulo foi procurá-los e, como eram da mesma profissão - isto é, fabricantes de tendas - ficou em casa deles e começou a trabalhar» (cf. Act 16,37; 18,3).


Actividade profissional e classe social



Paulo era fabricante de tendas. Tendo em conta as práticas do seu tempo, deve ter aprendido essa actividade com o próprio pai. Tal aprendizagem iniciava aos 13 anos de idade e estendia-se por dois ou três anos. O aprendiz laborava o dia inteiro e obedecia a uma grande disciplina. Aprendia a arte, ou para ter um sustento de vida, como trabalhador, ou para substituir o pai, como gestor dos negócios. Isso tinha a ver com os bens do pai. Qual era a “conta bancária” do pai de Paulo? Paulo, sempre que podia, declarava que era Cidadão Romano, e que possuía esse direito «por nascimento», isto é, herdou-o do pai! Quer dizer que o pai ou o avô de Paulo conseguiu obter a Cidadania Romana, a ponto de poder conferi-la aos filhos! Isso requeria «grande soma de dinheiro (cf. Act 22,28). Alguns especialistas concluem que o pai deve ter sido patrão de uma oficina com empregados. Por isso, é possível que Paulo tenha aprendido a arte, não tanto por causa de um sustento de vida, como trabalhador, mas antes para gerir a oficina do pai, como proprietário. Como cidadão, Paulo era membro oficial da cidade (a polis) e podia participar na assembleia do povo, onde se falava e se tomavam decisões em relação a tudo que se referia à vida e à organização da polis (= cidade). Daí resulta a palavra «política». Naquela época, as cidades eram mais autónomas que hoje. A sociedade dividia-se em três classes básicas: cidadãos, libertos e escravos. Só os cidadãos eram chamados povo (= demos), e só eles participavam nas assembleias. Os escravos, os libertos e, já agora, os estrangeiros, não tinham esse direito. Os gregos chamavam a este sistema «demo (= povo) – cracia (= governo)». Na realidade, não vinha a ser «governo do povo». Era governo apenas da pequena elite dos cidadãos. Dentro do Império Romano, particularmente nas grandes cidades, os judeus viviam organizados em associações, reconhecidas pelos respectivos governos. Essas associações gozavam de certa autonomia. Era através delas que os judeus procuravam fazer valer os seus direitos junto do governo do Império, nomeadamente o direito à plena integração dos seus membros como cidadãos na vida da cidade e à plena liberdade religiosa. Assim, teriam direito à isenção de determinadas taxas e impostos e poderiam observar a Lei de Deus e as «tradições paternas». Nessa luta, conseguiram bons resultados desde os tempos de Júlio César. Desta maneira, entende-se também por que é que os judeus da diáspora não sentiam tanto o peso do domínio romano. Eles não eram tão explorados como os agricultores do interior da Palestina. Tinham até certos privilégios. Em parte, é isso que explica por que é que Paulo não se opunha ao Império. Ele chegou a pedir: «Submeta-se cada qual às autoridades constituídas» (Rm 13,1). Não temos informações acerca do papel do cidadão Paulo de Tarso na vida política da sua cidade ou nas associações dos judeus. Mas sabemos que tinha um papel preponderante na vida da sua comunidade. Reunia competências de líder: foi testemunha oficial na execução de Estêvão (cf. Act 7,58); foi emissário do Sinédrio para Damasco (cf. Act 9,2; 22,5; 26,12); alguns estudiosos pensam que chegou mesmo a ser membro do Sinédrio, isto é, do Supremo Tribunal da Comunidade judaica em Jerusalém. Cidadão Romano, Cidadão de Tarso, aluno de Gamaliel, formação superior, líder nato, membro activo da comunidade, formado muito provavelmente para assegurar a oficina do pai: todos esses títulos e competências fazem-nos vê-lo entre a elite da sociedade, tanto por formação, como por posse e liderança. Paulo tinha diante de si um grande futuro e a possibilidade de uma carreira espectacular. Mas a entrada de Jesus na sua vida alterou essa situação vantajosa. O que era lucro tornou-se perda (cf. Fl 3,7). Por causa de Cristo perdeu tudo. Ele mesmo dirá mais tarde: «Por causa d’Ele tudo desprezei, tudo considero como lixo, a fim de ganhar Cristo» (Fl 3,8).

Pe. Vasco