24 novembro, 2013

Festa de Cristo Rei



1. A «Festa de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei» foi instituída pelo Papa Pio XI, em 11 de Dezembro de 1925, com a Carta Encíclica Quas Primas. Os tempos apresentavam-se sombrios e turvos e os céus nublados como os de hoje, e Pio XI, homem de acção, que já tinha fundado a Acção Católica em 1922, instituiu então esta Festa com o intuito de promover a militância católica e ajudar a sociedade a revestir-se de valores cristãos. A Festa de Cristo Rei era então celebrada no último Domingo de Outubro. A reorganização da Liturgia no pós-Concílio passou esta Festa para o último Domingo do Ano Litúrgico, com o título de «Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo».
 2. Antes de mais, o título de Rei, com que hoje celebramos o único Senhor da nossa vida. Pode parecer um título ultrapassado e com forte conotação ideológica, que poria Jesus ao nível dos senhores ricos e poderosos deste mundo. Para não resvalarmos para equívocos e terrenos movediços, convém anotar desde já a descrição que o próprio Jesus faz dos Reis: «Os Reis das nações, diz Jesus, dominam sobre elas» (Lucas 22,25). E a sua advertência: «Não seja assim entre vós» (Lucas 22,26). E, todavia, Jesus diz-se Rei, confirmando, neste domínio, as suspeitas de Pilatos (Marcos 15,2; João 18,37).
 3. Para sabermos o que é que Jesus tem em vista quando se afirma como Rei, é preciso saber como é que a Escritura traça o perfil do Rei. É como quem pinta um quadro, ou melhor, dois: um díptico. No primeiro quadro, o Rei é alguém muito próximo de Deus, completamente nas mãos de Deus, sempre atento à sua Palavra, de modo que deve ter, para seu uso pessoal, uma cópia da Lei de Deus, feita pela sua própria mão, para não poder dizer que não entende a letra, e deve lê-la todos os dias, nada fazendo por sua conta, mas sempre e só de acordo com a Palavra de Deus (Deuteronómio 17,18-19). No segundo quadro, que completa o primeiro, formando um díptico, o Rei é alguém muito próximo do seu povo, sempre atento ao seu povo, em ordem a levar-lhe a prosperidade, o bem-estar, a saúde, a paz, a alegria, a felicidade, a salvação. Aí está, então, o retrato completo de Jesus Cristo como Rei: sempre pertinho de Deus, sempre pertinho de nós.
 4. Tanta e quase indescritível riqueza a de um Deus, sentado no seu trono de Luz, mas que Vem, como um Filho do Homem, com o domínio novo, frágil e forte, do Amor: «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5). Da lição do Livro de Daniel 7,13-14 e respectivo contexto, vê-se bem que todos os nossos impérios prepotentes e ferozes, por mais fortes que pareçam, caem face à doçura da Palavra do Filho do Homem, que dissolve no Amor as nossas raivas e violências, manifestações das bestas que nos habitam. O Filho do Homem vence, sem combater, este combate. É assim que caem as quatro bestas ferozes que sobem do mar (Daniel 7), símbolo da confusão e do mal, que deixará naturalmente de existir (Apocalipse 21,1).
 5. O domínio do Filho do Homem que nos ama, o domínio do Amor é Primeiro e Último (Apocalipse 1,8). Entre o Primeiro e o Último instala-se o penúltimo, que é o domínio velho e podre da violência das bestas ferozes que nos habitam. O Bem é de sempre e é para sempre. É Primeiro e é Último. O Bem não começou, portanto. O que começou foi o mal que se foi insinuando nas pregas do nosso coração empedernido. Mas o que começa, também acaba. Os impérios da nossa violência, malvadez e estupidez caem, imagine-se, vencidos por um Amor que é desde sempre e para sempre, e que vence, sem combater, a nossa tirania e prepotência!
 6. Entenda-se bem que tem de ser sem combater. Porque, se combatesse, usaria os nossos métodos, e apenas aumentaria a violência. É assim que Jesus atravessa as páginas dos Evangelhos e da nossa história, entregando-se por Amor à nossa violência, abraçando-a e, portanto, dissolvendo-a e absorvendo-a, e é só assim que a absolve. É assim que o Amor Reina, nos Salva, Justifica, Perdoa e Recria. Os Chefes dos Judeus, os Soldados e Pilatos representam os impérios envelhecidos, podres e caducos da nossa violência e estupidez. O Reino do Filho do Homem não pode, na verdade, ser daqui (João 18,33-37). Se fosse daqui, apenas aumentaria a espiral da mentira e da violência. É de Amor novo e subversivo que se trata.
 7. Aí está a página divina deste Último Domingo do Ano Litúrgico, Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo: Lucas 23,35-43. Texto espantoso. É preciso vir um pouco atrás buscar o fio de sentido deste imenso texto. Diz, na verdade, Lucas 23,32 que «Eram conduzidos também com Ele outros dois malfeitores para serem executados». Sim, o texto diz, com espantosa precisão teológica, «outros dois malfeitores». Ao dizer «outros dois malfeitores», o texto está a dizer que Jesus, o Justo, é também um malfeitor! Aí está o Livro a abrir-se perante os nossos olhos atónitos. O quarto Canto do Servo do Senhor já dizia que o Servo Justo «Foi contado entre os malfeitores» (Isaías 53,12). Sim, Ele é um de nós! Não passa ao nosso lado, mas abraça-nos e absorve os nossos males.
 8. Ouve-se depois um tema por três vezes repetido e martelado: «Salva-te a ti mesmo!» (Lucas 23,35.37.39), na boca dos chefes, dos soldados, de um dos malfeitores. Os chefes vêem um falso deus, os soldados um falso rei, o malfeitor um falso messias. Tudo ídolos que vamos usando a nosso bel-prazer, sem sequer repararmos nisso. O outro malfeitor é o primeiro teólogo da Cruz. Não interroga aquela Cruz; deixa-se interrogar por ela. E avança um pedido imenso: «Jesus, lembra-te de mim quando vieres com o teu Reino!» (Lucas 23,429). De notar que estas palavras imensas, que devíamos repetir muitas vezes, são cantadas pelo povo no momento da Comunhão, no Rito grego. E Jesus responde, para imenso espanto nosso: «Hoje estarás comigo no paraíso» (Lucas 23,43). Aos sarcásticos interrogadores da Cruz, Jesus não deu qualquer resposta. Este Hoje entala-nos no tempo, sendo uma permanente provocação que nos faz o Evangelho de Lucas. Este é o oitavo Hoje que encontramos neste Evangelho. Eis a sequência: Lucas 2,11; 4,21; 5,26; 19,5; 19,9; 22,34; 22,61; 23,43.
 9. Entenda-se ainda que este tempo escandaloso da Cruz é o tempo da Graça deixado em suspenso em Lucas 4,13b, no final do grande texto das tentações de Jesus na sua condição filial, baptismal, em que o diabo, também por três vezes, ia dizendo: «Se és o Filho de Deus…». O narrador termina o episódio, dizendo que «o diabo se afastou dele até ao kairós, o tempo estabelecido» por Deus. Sem equívocos agora: o kairós de Deus, a torrente da Palavra de Deus que solicita a nossa resposta, é a Cruz!
 10. Entenda-se melhor. Um «malfeitor» é alguém cuja profissão é, como o nome diz, «fazer o mal». Uma sociedade em que o usual é «fazer o mal» é uma sociedade violenta. E numa sociedade assente sobre a violência, a alternativa é: vencer ou ser vencido, matar ou ser morto. Neste tipo de sociedade, todos nós escolhemos preventivamente a primeira opção. Nem sequer será por mal, mas para nos salvarmos a nós mesmos, cada um de nós faz preventivamente o mal que pode: o ladrão e o banqueiro, o comerciante e o operário, o médico e o barbeiro, o patrão e o empregado, o padre e o assaltante, o benfeitor e o delinquente. Cada um, com os meios que tem, pensa e põe em primeiro lugar o seu caso particular. Mas vai saltando à vista que, se Jesus seguisse a nossa lógica de se salvar a si mesmo, não nos salvaria a nós, porque teria, não de assumir, abraçar, sorver e sofrer a nossa violência e o nosso pecado, mas de se posicionar contra nós!
 11. Vem, Senhor Jesus! Ilumina com a tua Luz nova as trevas, as pregas e as pedras da calçada do nosso coração empedernido. Reina sobre nós, Salva-nos, Justifica-nos, Perdoa-nos, Recria-nos. Faz-nos outra vez à tua Imagem. Dissolve a besta brava que há em nós e que, à imagem de Caim, não fala, mas trucida e come o outro. Bem visto por Judas na sua pequena Carta, infelizmente pouco lida e meditada: «Aqueles que seguem o caminho de Caim são como animais sem palavra» (Judas 10-11).
 12. «Jesus, lembra-te de mim quando vieres com o teu Reino».

D. António Couto, in Mesa de Palavras

28 julho, 2013

O TRÍPTICO DA ORAÇÃO



1. Depois do tríptico sobre o discípulo de Jesus, que contemplámos nos últimos três Domingos (XIV, XV e XVI), em que foi proclamado, em três andamentos, o saboroso texto de Lucas 10 (o envio dos 72 discípulos; o bom samaritano; Maria que escolheu estar sentada a escutar a Palavra de Jesus), eis-nos já perante um novo belo tríptico, agora sobre a oração cristã, que não se distribui por vários Domingos, mas que entra todo pelo Domingo XVII adentro, e que Lucas nos oferece em 11,1-13.
2. O primeiro quadro deste tríptico sobre a oração pode intitular-se INTIMIDADE, e tem a sua explicitação altíssima na oração do PAI NOSSO, ensinada por Jesus aos seus discípulos (Lucas 11,1-4). Jesus é o modelo de oração oferecido aos discípulos. Por isso, aparece ao fundo da cena a rezar sozinho ao Pai (Lucas 11,1), totalmente voltado para o seio do Pai (João 1,18), completamente ocupado nas Realidades do Pai (Lucas 2,49), repousando toda a sua existência no Pai. Os discípulos vêem Jesus a rezar, mas não ousam interromper tão intensa corrente de confiança e de amor. Vêem apenas. O deslumbramento tolhe-lhes os movimentos e as palavras. Mas eis que Jesus termina a sua oração ao Pai. Então, ainda extasiado, um dos discípulos, em nome de todos – também em nosso nome –, atreveu-se a formular este pedido: «Senhor, ensina-nos a rezar como João Baptista ensinou a rezar os seus discípulos!» (Lucas 11,1).
3. E foi então que Jesus ensinou a eles e a nós, a todos, o segredo mais profundo da sua vida e da nossa vida, a orientação da sua vida e da nossa vida: para onde, melhor, para quem, devem estar sempre voltados o nosso coração, os nossos olhos, as nossas mãos, os nossos pés, a nossa vida toda.
E disse: «Quando rezardes, dizei:

Pai (páter),
1. Santifica o teu Nome,
2. Venha o teu Reino,
3. Dá-nos o pão nosso (árton hêmônde cada dia,
4. Perdoa os nossos pecados,
5. Não nos deixes cair na tentação”».

4. Como bem se vê, não se trata de uma lição teórica, mas da comunicação de uma experiência, de um segredo, de uma intimidade. Rezar é orientar a nossa vida toda para Deus, a quem tratamos carinhosamente por ’Abba’, nome de radical ternura, simplicidade, verdade e dependência, tal como as crianças se dirigem ao seu pai. A oração é composta no texto de Lucas por cinco pedidos (Mateus apresenta sete: Mateus 6,9-13), sendo o do meio o do «pão nosso», dado por Deus. A questão infantil, ou científica, ou de mera curiosidade, é sempre a mesma: «O que é isto?». A nossa resposta habitual soa: «é pão». Impõe-se que nós, modernos, aprendamos e ensinemos novas notas, novas pautas, novos acordes. A resposta correcta soa assim: «É o pão que Deus nos dá» (Êxodo 16,15). De acordo com a retórica bíblica, o pedido do meio é o mais importante, é o que estrutura a inteira oração, constituindo por assim dizer a clave musical de toda a oração e relação com Deus-Pai. E aqui é preciso descer abaixo das escadarias da importância e do orgulho e das estratégias que diariamente usamos, pois é imperioso assumir a atitude evangélica das crianças: só elas sabem pedir pão com verdade e simplicidade, sem maquilhagens ou reboco de qualquer espécie!
5. O quarto pedido desta oração por Jesus rezada e vivida e a nós por Ele ensinada é sobre o perdão. Pedimos a Deus o perdão dos nossos «pecados» (Lucas 11,4a), para que, segundo o modelo de Deus, nós perdoemos as «dívidas» dos nossos irmãos (Lucas 11,4b). Na verdade, os gregos não conhecem a metáfora da «dívida» para indicar «pecado». São os hebreus que usam essa metáfora (veja-se Mateus 6,12, que usa sempre «dívidas»). Note-se, porém, a agudeza do pedido formulado por Lucas. Pedimos a Deus que nos perdoe os nossos «pecados». Mas este modelo serve para nós aprendermos a perdoar ao nosso próximo também as suas «dívidas» concretas, não apenas as ofensas morais!
6. O segundo quadro deste tríptico sobre a oração trata o tema da CONSTÂNCIA da oração, retratada imediatamente a seguir (Lucas 11,5-8), na atitude do amigo que de noite bate à porta do seu amigo, e não desiste até ser atendido. Este quadro mostra que a oração cristã não é apenas emoção passageira, mas a respiração permanente da alma, que não se extingue perante as adversidades, nem sequer durante a noite.
7. O terceiro quadro deste tríptico trata o tema da EFICÁCIA da oração (Lucas 11,9-13): «Pedi e ser-vos-á dado, procurai e encontrareis, batei e abrir-se-vos-á». Entenda-se, todavia, que se trata de uma eficácia que não tem de responder directamente aos cânones do que esperamos obter, aos desejos que formulamos, mas sim aos planos de Deus, que devemos saber acolher com humildade e prontidão. Como refere o poeta libanês K. Gibran, «Deus não escuta as nossas palavras, se não é Ele próprio a pronunciá-las com os nossos lábios».
8. Essencial é saber que dirigimos sempre a nossa oração ao Pai, que dá sempre o melhor aos seus filhos. E é grandemente significativo que o verbo REZAR, que aparece no tríptico três vezes (Lucas 11,1[2 x] e 2), apareça praticamente traduzido por PEDIR, que contamos no texto cinco vezes (Lucas 11,9.10.11.12.13), e cujo corolário é DAR, com nove menções no texto (Lucas 11,3.7.8[2 x].9.11.12.13[2 x].
9. Feita esta explicitação vocabular, salta à vista a importância dada à oração de súplica. Todos sabemos que a oração de súplica é muitas vezes vista como uma forma secundária de oração, quase como um subproduto, quando comparada com a oração de louvor ou de acção de graças. Ora, este tríptico diz-nos que, de acordo com Jesus, REZAR é PEDIR, é mesmo só PEDIR. Aprofundando um pouco, compreendemos então que PEDIR é próprio do filho. E é como Filho que Jesus REZA, e é, portanto, no lugar de filhos, e, por consequência, de irmãos, que Jesus nos quer colocar. Por isso também nos ensina a REZAR, dizendo: «Pai…». E também já sabemos que o Filho é aquele que recebe tudo do Pai, sendo o Pai aquele que dá tudo ao Filho.
10. Coloquemo-nos então no nosso lugar correcto: o de filhos, que tudo recebem do Pai, e tudo partilham como irmãos. E compreendamos bem que, para recebermos tudo, não podemos possuir nada! Se possuirmos alguma coisa, já não podemos receber tudo! Impõe-se que temos de ser radicalmente pobres, filhos e irmãos! Só assim podemos começar a REZAR.
11. O contraponto musical de hoje vem do Livro do Génesis 18,20-32. Abraão é visto no papel do orante que negoceia com Deus a salvação de Sodoma. A sequência da intercessão de Abraão lembra o procedimento habitual nos mercados do Mádio Oriente, em que o cliente faz tentativas sucessivas para baixar o preço do produto que pretende adquirir. Abraão faz seis tentativas: começa por propor 50 justos pela salvação de toda a cidade; passa depois para 45, depois para 40, depois para 30, depois para 20, finalmente 10. Vê-se que não havia nenhum, e a cidade, com todos os seus habitantes, é destruída (Génesis 19,24-25). Mas fica deste aqui já em aberto que, para poder atender a oração de Abraão e a nossa, terá Deus de enviar ao nosso mundo um justo verdadeiro, «Jesus Cristo Justo» (1 João 2,1). É Ele o nosso Redentor e Salvador.
D. António Couto, In Mesa de Palavras

23 julho, 2013

As Bodas do Cordeiro



14 de Setembro de 1940

“Venerunt nuptiae Agni et uxor eius praeparavit se”[1] (Ap 19, 7). “Chegaram as núpcias do Cordeiro e a sua esposa está preparada”. Estas palavras soaram de modo tão belo no nosso coração na véspera da nossa profissão, e assim devem ressoar novamente quando renovemos solenemente os nossos santos votos. Palavras cheias de mistério que escondem o sentido, profundo e misterioso, da nossa sagrada vocação. Quem é o Cordeiro? Quem é a esposa? De que banquete de bodas se fala aqui?
“Olhei e vi no meio do trono, dos quatro viventes e dos anciãos, um Cordeiro de pé, como que imolado” (Ap 5, 6). Quando o vidente de Patmos contemplou esse rosto, ainda estava viva nele a recordação daquele inesquecível dia junto do Jordão, quando João Baptista lhe mostrou o “Cordeiro de Deus” que “tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29). Naquele momento tinha compreendido a palavra e agora compreendia a imagem. Aquele que antes caminhava junto do Jordão, e tinha-se manifestado agora com vestes brancas, com olhos de chamas de fogo e com a espada do Juiz, o “Primeiro e o Último” (Ap 1, 18). Ele cumpriu perfeitamente o que os ritos da Antiga Aliança manifestaram simbolicamente.
Quando no dia mais solene e santo do ano, o Sumo-sacerdote entrava no Santo dos Santos, no sacratíssimo lugar da presença de Deus, tomava dois cabritos: um, para carregar com os pecados do povo e levá-los para o deserto; o outro, para aspergir com o seu sangue o Tabernáculo e a Arca da Aliança (Lv 16). Esse era o sacrifício de expiação pelo povo. Além disso, o Sumo-Sacerdote tinha que sacrificar um novilho por ele próprio e pela sua casa e oferecer um carneiro em holocausto. Com o sangue do novilho tinha que aspergir também o Trono da Graça. Quando o sacerdote, escondido aos olhos dos homens, tinha orado por si próprio, pela sua casa e por todo o povo de Israel, saia fora, onde estava o povo à espera, e aspergia o altar para expiar os seus pecados e os do povo. Enviava depois o cabrito vivo para o deserto, oferecia o seu próprio holocausto e o do povo, e queimava os restos do sacrifício expiatório diante do acampamento (mais tarde, diante das portas da cidade).
O dia da Reconciliação era também um dia solene e sagrado. O povo permanecia em oração e jejuava no Santuário. Quando ao entardecer tudo se tinha cumprido, havia paz e alegria no coração, porque Deus tinha tirado o peso do pecado e havia dado a sua graça. Mas, o que tornou possível essa reconciliação? Certamente que não foi nem o sangue dos animais degolados, nem o Sumo Sacerdote da descendência de Aarão, – isto esclareceu-o bem S. Paulo na carta aos Hebreus –, mas a verdadeira vítima de reconciliação, prefigurada em todas as anteriores vítimas prescritas pela lei, e o Sumo Sacerdote, segundo a ordem de Melquisedec, em cujo lugar estavam os sacerdotes da casa de Aarão. Ele era também o verdadeiro Cordeiro Pascal, em nome do qual passou ao lado o anjo exterminador diante das casas dos hebreus, quando castigou os egípcios. O próprio Senhor explicou isto aos seus discípulos quando comeu com eles o Cordeiro Pascal pela última vez, e se entregou a si mesmo como alimento.
Mas, porque escolheu o Cordeiro como símbolo preferido? Porquê se mostrou ele ainda desse modo no trono da glória eterna? Porque estava livre de pecado e era humilde como um cordeiro; e porque tinha vindo para se deixar levar como cordeiro ao matadouro (Is 53, 7). João presenciou também tudo isto quando o Senhor se deixou prender no Monte das Oliveiras e depois se deixou cravar no Gólgota. Ali, no Gólgota, se cumpriu o verdadeiro sacrifício de reconciliação. A partir de então os antigos sacrifícios perderam a sua eficácia; e em breve desapareceram totalmente, assim como o antigo sacerdócio, quando o Templo foi destruído. João presenciou tudo isto de perto. Por isso, não lhe assombrava ver o Cordeiro no Trono. E porque foi uma testemunha fiel dele, foi-lhe mostrada também a Esposa do Cordeiro.
“Viu a cidade santa, a nova Jerusalém que descia do Céu, de junto de Deus, bela como uma noiva que se adornou para o seu esposo” (Ap 21, 2 e 9 ss). Assim como Cristo desceu do céu à terra, assim a sua esposa, a Santa Igreja, tem também a sua origem no céu: nasceu da graça de Deus e com o Filho de Deus desceu do céu, de modo que está unida a Ele indissoluvelmente. Foi construída com pedras vivas; a sua pedra angular foi colocada quando a Palavra de Deus assumiu a natureza humana no seio da Virgem. Nesse momento, a alma do Divino Menino e da Virgem Mãe estavam enlaçadas com o vínculo da mais íntima união, que hoje chamamos desposório.
A Jerusalém celeste, escondida aos olhos do mundo, veio à terra. Dessa primeira união esponsal nasceram todas as pedras vivas que edificaram a poderosa construção, quer dizer, cada alma chamada à vida pela graça. A Mãe-Esposa chegaria a ser a Mãe de todos os redimidos, e, como a célula fecunda, da qual surgem sempre novas células, construiria ela a cidade viva de Deus. Este mistério escondido foi revelado a S. João quando estava com a Virgem Mãe ao pé da Cruz e foi entregue a ela como filho. Ali começou a Igreja a existir visivelmente: tinha chegado a sua hora, mas não ainda a sua perfeição. Ela vive, está desposada com o Cordeiro, mas a hora do banquete nupcial festivo chegará somente quando o dragão for definitivamente vencido e os últimos dos redimidos tenham travado o seu combate até ao fim.
Assim como o Cordeiro teve que ser imolado para ser elevado sobre o trono da glória, assim o caminho da glória conduz, por meio do sofrimento e da Cruz, a todos os eleitos para o banquete das bodas. Quem quiser desposar o Cordeiro tem que se deixar cravar com ele na Cruz. Para isto são chamados todos os que foram marcados com o sangue do Cordeiro, e estes são todos os baptizados. No entanto, nem todos compreendem esse chamamento e o seguem. Existe um chamamento a um seguimento mais estreito, que ecoa mais penetrante no interior da alma e que exige uma resposta clara. É o chamamento à vida religiosa, e a resposta são os santos votos.
 Naquele a quem o Senhor chama a deixar os vínculos naturais (família, povo, ambiente), para se entregar somente a Ele, destaca-se o vínculo nupcial com o Senhor com mais força do que na multidão dos redimidos. Têm de pertencer, de modo preferencial, por toda a eternidade ao Cordeiro, segui-lo por onde quer que vá e cantar o hino das virgens que mais ninguém pode cantar (Ap 14, 1-5).
Quando desperta na alma o desejo da vida religiosa é como se o Senhor pedisse a sua mão em desposório. E  se ela se consagra a Ele através dos santos votos e acolhe o “Veni, sponsa Christi”[2], antecipa-se o banquete das bodas celestes. No entanto, trata-se aqui só da espera do alegre banquete eterno. O gozo nupcial da alma consagrada a Deus e a sua felicidade têm que acreditar-se nos combates, abertos ou escondidos, e no quotidiano da vida religiosa. O esposo escolhido por ela é o Cordeiro que foi imolado. Se quiser entrar com Ele na glória celeste tem que se deixar cravar ela própria na sua Cruz. Os três votos são os cravos. Quanto com maior disposição se estenda sobre a Cruz e suporte pacientemente os golpes de martelo, tanto mais profundamente experimentará a realidade de estar unida com o Crucificado. Assim, o facto mesmo de estar crucificada, será para ela a festa das bodas.
O voto de pobreza abre as mãos para que deixem cair tudo o que as mantém atadas. Sujeita-as de tal maneira que já não podem tender para as coisas deste mundo. Além disso, ordena as mãos do espírito e da alma: os apetites que se inclinam sempre para os prazeres e os bens materiais; as preocupações que pretendem assegurar a vida terrena em todas as suas dimensões; o activismo que se ocupa em muitas coisas, pondo assim em perigo a dedicação ao único necessário. Uma vida na abundância e a comodidade burguesa contradiz o espírito da santa pobreza e afasta-nos do pobre crucificado. As nossas irmãs, nos primeiros tempos da Reforma[3], sentiam-se felizes quando lhes faltava o necessário; quando as dificuldades tinham sido superadas, e tinham de tudo em abundância, temiam que o Senhor se apartasse delas. Algo não funciona bem numa comunidade conventual se as preocupações exteriores toma tanto tempo e forças para si que se ressente a vida interior. E algo não está de todo em ordem na alma de cada religiosa, em particular, se começa a ocupar-se de si mesma e a preocupar-se em satisfazer os seus desejos e inclinações, em vez de se abandonar à Divina Providência e aceitar agradecida o que ela envia através das irmãs responsáveis. Naturalmente, com isso não se exclui que se dê a conhecer aos superiores sobre o que exige a obrigatória consideração da saúde. Porém, uma vez feito isto, devemos libertar-nos de toda outra preocupação. O voto de pobreza pretende dar-nos a despreocupação das aves e dos lírios, para que o espírito e o coração fiquem livres para Deus.
A santa obediência sujeita os nossos pés para que já não andem mais pelos seus próprios caminhos, mas pelos caminhos de Deus. Os filhos deste mundo chamam liberdade ao não estar submetidos a nenhuma vontade alheia e a que ninguém os impeça de satisfazer os seus desejos e inclinações. Por essa liberdade lançam-se a sangrentos combates e sacrificam todos bens e a vida. Os filhos de Deus entendem diferentemente a liberdade: querem seguir sem estorvos o Espírito de Deus; e sabem que os maiores obstáculos não vêm de fora, mas estão alojados em nós mesmos. A razão e a vontade do homem, que gostosamente querem ser seu próprio senhor, não se apercebem de quão facilmente se deixam seduzir pelos apetites naturais e convertem-se em seus escravos. Não há melhor caminho para libertar-nos dessa escravidão e tornar-nos dóceis à direcção do Espírito Santo do que o caminho da santa obediência.
“Na obediência é onde a alma se sente realmente livre”, assim faz dizer Goethe à heroína de um dos seus poemas, que estão fortemente impregnados do espírito cristão. A autêntica obediência não consiste somente na não transgressão externa das prescrições da Santa Regra e das Constituições, ou das ordens dos superiores. Tem que converter-se numa renúncia à própria vontade. Por isso, o que obedece não estuda a Regra e as Constituições para descobrir subtilmente quantas das assim chamadas “liberdades” se lhe permitem ainda, mas para descobrir cada vez melhor quantos pequenos sacrifícios e oportunidades se lhe oferecem cada dia e cada hora para progredir na renúncia de si mesmo. Toma tudo isto sobre si como um jugo suave e uma carga leve, pois sente-se, através deles, mais estreita e profundamente unido ao Senhor, que foi obediente até à morte de Cruz. Os filhos deste mundo consideram esta maneira de agir inútil, irracional e mesquinha. O Salvador, que realizou durante trinta anos o seu trabalho quotidiano na base de tais pequenos sacrifícios, julgará de outro modo.
O voto de castidade procura libertar o homem de todos os vínculos naturais, para o sujeitar à cruz por cima de toda a agitação e libertar o seu coração para a união com o Crucificado. Um tal sacrifício não se leva a cabo de uma só vez. Pode-se estar muito bem apartado exteriormente das ocasiões que conduzem à tentação, e, no entanto, na memória e na fantasia permanecem ainda muitas coisas que podem perturbar o espírito e tirar a liberdade ao coração. Existe, além disso, o perigo de que no interior dos muros protegidos do convento surjam novas ataduras que impeçam a total união com o divino coração.
Com a nossa entrada na Ordem convertemo-nos novamente em membros de uma família. Devemos ver e honrar em nossas superioras e irmãs como cabeça e membros do corpo místico de Cristo. Contudo, somos humanos e pode acontecer que se misture com o amor santo, infantil e fraterno, algo demasiado humano. Cremos ver nos humanos a Cristo e não nos damos conta que nos apegamos humanamente a eles e corremos o perigo de perder de vista a Cristo. Pois bem, a inclinação humana não turba apenas a pureza do coração. Pior ainda que um demasiado amor humano é um demasiado pouco amor ao divino coração. Cada aversão, cada enfado, cada rancor que toleramos ao nosso coração fecha as portas ao Salvador. As emoções involuntárias apresentam-se, naturalmente, sem culpa nossa; mas logo que as consentimos temos que tomar inexoravelmente partido contra elas; caso contrário pomo-nos contra Deus, que é Amor, e trabalhamos em proveito do adversário. O hino que as virgens cantam no séquito do Cordeiro é seguramente o canto do mais puro amor.
A Cruz eleva-se novamente diante de nós. Ela é o sinal de contradição. O Crucificado contempla-nos desde ela: “Quereis vós também abandonar-me?” O dia da renovação dos votos tem que ser sempre um dia de um sério exame pessoal. Fomos consequentes com o que fervorosamente professamos? Vivemos como convém a esposas do Crucificado, do Cordeiro que foi imolado? Nos últimos meses ouvimos a miúdo queixas de que as muitas orações pela paz não surtiram ainda nenhum efeito. Que direito temos nós a ser atendidas? O nosso desejo de paz é, sem dúvida, autêntico e sincero. Mas, nasce de um coração totalmente purificado? Rezamos verdadeiramente “no nome de Jesus”, quer dizer, não só com o nome de Jesus na boca, mas no espírito e no sentir de Jesus, buscando a glória do Pai e não a nossa? No dia em que Deus tenha poder ilimitado sobre o nosso coração, teremos também nós poder ilimitado sobre o seu. Se tivermos isto presente, nunca teremos o valor de condenar a nenhum homem. Contudo, também não devemos desanimar se depois de muito tempo de vida religiosa tivermos que nos dizer a nós mesmas que ainda somos aprendizes e inexperientes. A fonte do coração do Cordeiro não se esgotou. Ainda hoje podemos lavar ali as nossas vestes como um dia o fez o bom ladrão no Gólgota. Confiando na força reparadora dessa sagrada fonte prostramo-nos diante do Trono do Cordeiro e respondemos à sua pergunta: “Senhor, a quem iremos? Só tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6, 68). Deixa-nos tirar àgua das fontes da salvação para nós e para todo este mundo sedento. Concede-nos a graça de poder pronunciar com um coração puro as palavras da esposa: Vem, vem, Senhor Jesus! Vem depressa!

Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein)


[1] N. d. t.: Edite Stein como grande amante da língua latina cita continuamente textos nesta língua. Respeitamos tal uso. Sempre que ela própria não ofereça a tradução, dá-la-emos em nota.
[2] N. d. t.: “Vem, esposa de Cristo”.
[3] N. d. t.: refere-se aqui à Reforma da Ordem do Carmo levada a cabo por Santa Teresa de Jesus: o Carmelo Teresiano.

22 julho, 2013

O tempo


Uma criança perguntou timidamente ao pai quando este regressava do trabalho:
— Pai, quanto é que ganhas por hora?
O pai, friamente, respondeu:
— Para que queres tu saber? São dez euros por hora.
— Então, pai, poderias emprestar-me três euros?
— Ah! É por isso que queres saber quando ganho por hora?! Vai para a cama e não me aborreças mais!
Daí a bocado, o pai começou a pensar no que tinha acontecido e sentiu-se culpado. Talvez o filho necessite de comprar algo. Entrou no quarto e perguntou-lhe baixinho:
— Filho, já estás a dormir?
— Não, pai.
— Olha, aqui tens os três euros que me pediste.
— Muito obrigado, pai. Depois a criança levantou-se, foi buscar os sete euros do mealheiro e disse ao pai:
— Agora já tenho dez euros! Pai, podias vender-me uma hora do teu tempo? 

21 julho, 2013

JESUS, MARTA E MARIA E EU


1. Imediatamente a seguir ao belo trabalho de amor do Bom Samaritano (Lucas 10,25-37), apresentado como figura do discípulo de Jesus, eis-nos a braços com outra cena de excepção do Evangelho de Lucas: Jesus, Marta e Maria (Lucas 10,38-42), que continua a expor diante de nós, neste Domingo XVI do Tempo Comum, traços salientes para continuarmos a compor a figura do discípulo de Jesus.
2. A primeira anotação do narrador é para nos comunicar que, estando Jesus em viagem, uma mulher, de nome Marta, o recebeu em sua casa (Lucas 10,38). Acrescenta logo que Marta tinha uma irmã, chamada Maria (Lucas 10,39), e começa de imediato a desenhar o retrato das duas irmãs.
3. De Maria, diz-nos que se SENTOU aos pés de Jesus e que ESCUTAVA a sua Palavra (Lucas 10,39). O leitor apercebe-se de imediato que Maria assume a figura de discípula atenta, dedicada e deliciada: SENTADA perto do Mestre, ESCUTAVA… O narrador usa outras tintas para pintar o retrato de Marta. Começa por nos dizer que andava DISTRAÍDA (verbo gregoperispáô) com muito trabalho (Lucas 10,40). Aproximando-se, porém, disse a Jesus com um certo ar de reprovação: «Senhor, a ti não te importa que a minha irmã me deixe sozinha a trabalhar?» (Lucas 10,40). E sem esperar pela resposta, como quem está cheia de razão, acrescenta logo, como quem tem autoridade para dar ordens até a Jesus: «Diz-lhe, pois, que me venha ajudar!» (Lucas 10,40). É aqui que intervém Jesus, com a sua Palavra serena e soberana, para lhe dizer: «Marta, Marta, andas PREOCUPADA (verbo grego merimnáô) e ÀS VOLTAS (verbo gregothorybázô) com MUITAS COISAS (pollá), quando UMA SÓ (henós) é necessária» (Lucas 10,41-42). E conclui, para total espanto nosso e de Marta: «Maria ESCOLHEU (eklégomai) a parte BOA (e bela), que não lhe será tirada» (Lucas 10,42).
4. Importa ver já, com clareza, que Maria não diz uma palavra em todo o episódio. Não se ouve a sua voz. Ela está tranquilamente SENTADA e totalmente concentrada na ESCUTA de outra VOZ, que não a sua. Maria é a mulher de UMA COISA e de UMA PESSOA. Por isso, na base da sua vida, tem de haver uma ESCOLHA. Nas páginas da Escritura Santa, é normalmente Deus o sujeito do verbo ESCOLHER. Quando também nós ousamos ESCOLHER, então já se percebe que deixamos muitos mundos para trás e que nasce em nós um mundo novo, por acostagem ao mundo de Deus.
5. Marta começa por receber Jesus na casa dela. É a senhora dona Marta. Olha de soslaio para a sua irmã Maria que acusa de não fazer nada, e repreende Jesus por não se importar com isso, e acaba mesmo dando ordens a Jesus, para que, por sua vez, dê ordens a Maria para a ir ajudar. É a senhora dona Marta. Manda, ou pensa que manda, em casa, na sua irmã e em Jesus!
6. A sua vida é uma azáfama, anda às voltas, ocupada por preocupações e preconceitos, descentrada e desconcentrada. O seu fazer é tradicional e convencional. Nunca ESCOLHEU. O narrador diz-nos que anda DISTRAÍDA, e Jesus diz-lhe que anda PREOCUPADA (merimnáô) e ÀS VOLTAS (thorybázô)… Vocabulário importante. Um pouco adiante, Jesus adverte os seus discípulos para não se PREOCUPAREM (merimnáô) com a vida, quanto ao que hão-de comer, nem com o corpo, quanto ao que hão-de vestir (Lucas 12,22), e acrescenta logo que isso – afadigar-se com o que comer, beber e andar freneticamente, de lado para lado, como meteoritos (meteôrízô) – são coisas dos pagãos! (Lucas 12,30). E põe-nos diante dos olhos este tesouro evangélico e poético: «Considerai os lírios do campo, que não fiam nem tecem!…» (Lucas 12,27).
7. Ressalta deste finíssimo quadro que também o agitar-se por Deus ou pelo próximo pode ser coisa pagã. Não necessariamente por ser pagão o objecto da busca, mas por ser pagão o modo de procurar: com afã, inquietação, agitação! Na verdade, as «muitas coisas» podem viciar, não apenas a escuta, mas também o verdadeiro serviço. Fazer muito pode ser sinal de amor, mas pode também fazer morrer o amor! Ao hóspede é necessário oferecer companhia, não apenas coisas!
8. Ao contrário da senhora dona Marta, que nunca abriu mão da sua condição de dona, Maria percebeu bem que não é dona, mas simplesmente hóspede. Não da sua irmã Marta, mas de Jesus. Maria está, na verdade, hospedada em casa de Jesus. Por isso, está assim serena e tranquila. Entregou-lhe tudo: o coração, as mãos, os olhos, o cofre, a chave do cofre, a chave de casa. Marta não é apresentada como sendo má pessoa, mas não compreendeu que, quando Jesus entra em nossa casa, é dele a casa, e nós simplesmente seus hóspedes, tranquilamente sentados junto dele! Ai esta nossa entranhada tentação patronal!
9. Dizia um velho rabino acerca de um seu colega: «anda de tal modo ocupado com as COISAS de Deus, que até se esquece de que ELE existe!». Convenhamos que se trata de um esquecimento desastroso…
10. Veja-se bem a simplicidade, a prontidão e a candura desarmantes do velho Abraão do Antigo Testamento de hoje! (Génesis 18,1-10).
D. António Couto, In Mesa de Palavras