05 dezembro, 2013

Orar com os místicos.



«Portanto, pela nossa união com Cristo,
com a Sua Igreja,
devemos tornar-nos vítimas de expiação
e de súplica pela conversão dos nossos irmãos.
Está nisso o ponto ideal da nossa caridade:
amar aqueles que, talvez, falam mal de nós,
nos contradizem e perseguem.
O nosso perdão, a eles
oferecido na luz da fé,
da esperança
e da caridade,
atraí-los-á de novo
para os braços de Deus.»

Serva de Deus Irmã Lúcia de Jesus | 1907 - 2005
Apelos da Mensagem de Fátima, cap. 3
Senhor,
que a minha oração, neste Advento,
seja cheia dos Teus sentimentos quando encarnaste,
e vieste ao mundo para nos atrair ao Pai.
Que olhe os meus irmãos com os Teus olhos,
que os ame com o Teu Coração,
com a Tua misericórdia.
Empresta-me, Senhor, tudo quanto tens e és,
para que eu possa, como Tu,
fazer o bem e atrair a todos
ao Teu Amor infinito e Único!
Vem, Senhor Jesus!

04 dezembro, 2013

Exclamações da alma a Deus



1        Ó Deus e minha Sabedoria infinita, sem taxa nem medida e sobre todos os entendimentos angélicos e humanos! Ó amor, que me amas mais do que eu me posso amar, nem entendo! Para que quero eu, Senhor, desejar mais do que o que Vós me quiserdes dar? Para que me quero cansar a pedir-Vos coisa ordenada por meu desejo, pois tudo quanto o meu entendi­mento pode concertar e meu desejo desejar, tendes Vós já entendido seus fins, e eu não entendo como disso me aproveitar? Naquilo em que minha alma pensa sair com lucro, estará porventura a minha perdição. Porque, se Vos peço para me livrardes dum trabalho, e o fim dele é a minha morti­ficação, que é que Vos peço, Deus meu? Se Vos suplico que mo envieis, não convirá porventura à minha paciência, que ainda é fraca e não pode sofrer tão grande golpe. E se o passo com paciência, e não estou forte na humildade, poderá ser que pense que fiz alguma coisa, e Vós é que fizestes tudo, meu Deus. Se quero padecer mais, não o quereria, no entanto, em coisas em que parece não convir para Vosso serviço perder o crédito, visto que por mim, não me veja com sentimentos de apego à honra; e poderá ser que, pela mesma causa em que penso se há-de perder, se ganhe mais para aquilo que pretendo que é servir-Vos.
2             Muitas mais coisas pudera eu dizer disto, Senhor, para dar a entender a mim mesma que não me entendo. Mas como sei que as entendeis, para que falo? Para que quando veja despertar a minha miséria, Deus meu, e cega a minha razão, possa ver se a encontro aqui, neste escrito de minha mão. Que muitas vezes me vejo, Deus meu, tão miserável e fraca e pusilâ­nime, que ando à procura do que se fez da Vossa serva, daquela a quem já lhe parecia ter recebido bastantes mercês Vossas, para poder pelejar contra as tempestades deste mundo. Não, meu Deus, não; não mais confiança em coisa que eu possa querer para mim! Querei de mim, Senhor, o que bem quiserdes: isso quero eu, pois todo o meu bem está em contentar-Vos. E se vós, Deus meu, me quisésseis contentar a mim, cumprindo tudo o que pede o meu desejo, vejo que iria perdida.
3.        Que miserável é a sabedoria dos mortais e incerta a sua providência! Provede Vós pela Vossa os meios necessários para que a minha alma Vos sirva mais a Vosso gosto do que ao seu. Não me castigueis com dar-me o que eu quero ou desejo, se o Vosso Amor – que em mim ele viva sempre! – não o desejar! Morra já este eu, e viva em mim Outro que é mais do que eu, e para mim melhor do que eu mesma, para que eu O possa servir! Que Ele viva e me dê vida! Que Ele reine e seja eu Sua escrava! Minha alma não quer outra liberdade. Como está livre aquele que estiver alheio do Sumo Bem? Que maior e mais miserável cativeiro do que a alma estar solta da mão do Seu Criador? Ditosos aqueles que, com os fortes grilhões e cadeias dos benefícios da misericórdia de Deus, se virem presos e inabilitados para se poderem libertar. Forte como a morte é o amor e duro como o inferno.
Oh! Quem se visse já morto às suas mãos e arrojado neste divino inferno, de onde já não esperasse poder sair, ou, para melhor dizer, não temesse de se ver fora! Mas, ai de mim, Senhor, pois enquanto dura esta vida mortal, sempre corre perigo a eterna!
   4.    Ó vida inimiga de meu bem; quem tivesse licença para acabar con­tigo! Sofro-te, porque Deus te sofre, e mantenho-te porque és d’Ele! Mas não me sejas traidora nem desagradecida.
                Com tudo isto, ai de mim, Senhor, que é longo o meu desterro! Breve todo o tempo para o dar pela vossa eternidade; muito longo é um só dia e uma hora para quem não sabe e teme se Vos virá a ofender! Ó livre alvedrio, tão escravo de tua liberdade se não vives cravado com o temor e o amor de Quem te criou! Oh! Quando será aquele ditoso dia em que te hás-de ver afogado naquele mar infinito de suma Verdade, onde já não serás livre para pecar, nem o quererás ser, porque estarás seguro de toda a miséria, natura­lizado com a vida de teu Deus!
 5.      Ele é bem-aventurado porque Se conhece e ama e goza de Si mesmo, sem ser possível outra coisa; não tem, nem pode ter, nem fora perfeição em Deus poder ter liberdade para olvidar-se de Si mesmo e deixar de Se amar. Então, alma minha, entrarás em teu descanso, quando te entranhares neste Sumo Bem, entenderes o que ele entende, amares o que Ele ama e gozares o que ele goza. Assim que vires perdida a tua mutável vontade, então não mais, não mais mudança! A graça de Deus pôde tanto, que te fez partici­pante de Sua divina natureza; e com tanta perfeição, que já não possas nem desejes poder-te esquecer do Sumo Bem, nem deixar de O gozar, juntamente com o Seu amor. 
6. Bem-aventurados os que estão inscritos no livro desta Vida!  Mas tu, alma minha, se o estás, porque estás triste e me conturbas? Espera em Deus que ainda agora confessarei a Ele os meus pecados e as Suas mise­ricórdias, e, de tudo junto, farei um cântico de louvor com suspiros perpétuos ao meu Salvador e meu Deus. Poderá ser que venha algum dia em que Lhe cante a minha glória e não seja compungida minha consciência, onde já cessaram todos os suspiros e medos. Mas, entretanto, na esperança e no silêncio estará a minha fortaleza. Mais quero viver e morrer a pretender e esperar a vida eterna, que possuir todas as criaturas e todos os seus bens que hão-de acabar. Não me desampares, Senhor, porque em Ti espero; não seja confundida a minha esperança. Sirva-Te eu sempre e faz de mim o que quiseres.

Santa Teresa de Jesus (Exclamações XVII)

03 dezembro, 2013

Exclamações da alma a Deus



1. Parece, Senhor meu, que descansa a minha alma considerando o gozo que terá, se, por Vossa misericórdia, lhe for concedido gozar de Vós. Mas quereria primeiro servir-Vos, pois há-de gozar do que Vós, servindo-a a ela, lhe ganhastes. Que farei, Senhor meu? Que farei, meu Deus? Oh! Que tarde se incendiaram meus desejos, e que cedo andáveis Vós, Senhor,1 granjeando e chamando para que toda eu me empregasse em Vós! Por­ventura, Senhor, desamparais ao miserável ou apartais o pobre mendigo quando ele se quer chegar a Vós? Porventura, Senhor, têm termo as Vossas grandezas ou vossas magníficas obras? Ó Deus meu e misericórdia minha! E como as podereis agora mostrar em vossa serva! Poderoso sois, grande Deus; agora poder-se-á entender se minha alma se entende a si mesma vendo o tempo que perdeu, e como num instante Vós podeis, Senhor, fazer com que o torne a ganhar. Parece-me que desatino; é que o tempo perdido
– como costumam dizer – não se pode tornar a recuperar. Bendito seja o meu Deus!
2. Ó Senhor! Confesso Vosso grande poder. Se sois poderoso, como sois, que há de impossível ao que tudo pode? Querei Vós, Senhor meu, querei! Ainda que seja miserável, creio firmemente que podeis o que quereis, e quanto maiores maravilhas ouço de Vós e considero que podeis fazer ainda mais, mais se fortalece a minha fé e com maior determinação creio que Vós fareis o que Vos peço. E que há para se admirar do que faz o Todo­-Poderoso? Vós bem sabeis, meu Deus, que no meio de todas as minhas misérias nunca deixei de conhecer Vosso grande poder e misericórdia. Valha-me, Senhor, isto em que Vos não ofendi.
Recuperai, Deus meu, o tempo perdido dando-me graça no presente e no porvir, para que apareça diante de Vós com vestes de bodas, pois, se quiserdes, podeis.

Santa Teresa de Jesus (Exclamações IV)

02 dezembro, 2013

Relações


1             Oh! Quem pudesse dar bem a entender a V. Senhoria a quietude e sossego em que se encontra a alma! É já tanta a certeza de que há-de gozar de Deus, que parece já goza a alma da posse que se lhe há dado, embora não tenha o gozo. É como se alguém houvesse dado a outro uma grande renda. E, por meio de escrituras muito firmes, para a gozar daí a certo tempo e colher frutos; mas até então não goza senão da certeza que já lhe deram, de que gozará esta renda. E, com o reconhecimento que lhe fica, nem a quereria gozar, porque lhe parece que não a mereceu, senão somente servir, ainda que esteja padecendo muito; e até, algumas vezes, parece que daqui até ao fim do mundo seria pouco para servir a Quem lhe deu esta posse. É que, na verdade, já em parte não está sujeita às misérias do mundo como costumava; porque, embora sofra mais, dir-se-ia tão somente to­carem-lhe na roupa. A alma está como num castelo, com senhorio, e assim não perde a paz, ainda que esta segurança não lhe tire um grande temor de ofender a Deus e não a faça deixar tudo o que possa impedi-la de O servir, e assim anda com mais cuidado ainda. Mas vive tão olvidada de seu próprio proveito, que lhe parece ter em parte perdido o ser, tão esquecida anda de si mesma. Em tudo tem em vista o que é de honra de Deus, o cumprir melhor a Sua vontade e que Ele seja glorificado.

2             Conquanto isto seja assim, no que toca à sua saúde e corpo, pare­ce-me ter maior cuidado e menos mortificação no comer e, no fazer penitência, não são os desejos que tinha. Mas, ao que parece, tudo vai ordenado a fim de poder servir mais a Deus em outras coisas e muitas vezes Lhe oferece como um grande sacrifício o ter de cuidar do corpo, pois muito lhe custa. E algumas vezes põe-se à prova em alguma penitência, mas, e sem dúvida a seu parecer, não a pode fazer sem dano da sua saúde, e lem­bra-se do que seus prelados lhe mandam. Isto no desejo que tem de ter saúde, também se deve intrometer bastante amor próprio. Mas, a meu pa­recer, entendo que me daria muito mais gosto poder fazer penitência, como me dava quando fazia muita; porque ao menos parecia-me fazer alguma coisa e dar bom exemplo e vivia sem este tormento que causa o não servir a Deus em nada. Veja V. Senhoria o que será melhor fazer quanto a isto.
3             Isto das visões imaginárias cessou; mas parece que sempre se anda com esta visão intelectual destas três Pessoas e da Humanidade, que é, ao que penso, graça muito mais subida. E agora entendo, segundo julgo, que eram de Deus as que tenho tido, porque dispunham a alma para o estado em que agora está. Mas, como tão miserável e de tão pouca fortaleza, levava-a Deus como via que era preciso; a meu parecer, são muito de apreciar quando são de Deus.
4             As falas interiores não cessaram, pois, quando é mister, dá-me Nosso Senhor alguns avisos e, ainda agora em Palência, ter-se-ia feito um bom disparate, embora não de pecado, se não fora isto.27
5             Os actos e os desejos não parece que levam a força que costumavam, pois, ainda que sejam grandes, é maior a força que tem o desejo de que se faça a vontade de Deus e de quanto seja de Sua glória; ora, como a alma está bem convencida de que Sua Majestade sabe o que para isto convém e está apartada de todo o interesse próprio, acabam-se-lhe depressa esses outros desejos e actos; e, em meu parecer, não têm em si força. Daqui procede o medo que trago em mim, algumas vezes, embora não com a inquietude e pena que costumava, de que esteja a alma apalermada e eu sem fazer nada, porque penitência não posso fazer. Desejos de padecer e de martírio e de ver a Deus, não têm força e o mais ordinário é não poder. Parece que vivo só para comer e dormir e não ter pena de nada, e até isto de não ter pena, não ma dá, como digo, que temo seja engano. Mas não o posso crer porque, sem dúvida alguma, me parece não reina em mim, com força, apego a nenhuma criatura nem a toda a glória do Céu, mas só o amar a este Deus, que isto não sofre diminuição, antes, a meu parecer, cresce, bem como o desejo que todos O sirvam.
6             Mas com isto me espanta uma coisa: é que aqueles sentimentos tão excessivos e interiores que me costumavam atormentar ao ver as almas perderem-se e, ao pensar se faria alguma ofensa a Deus, tão pouco os posso sentir agora desse modo, ainda que, a meu parecer, não é menor o desejo de que não seja ofendido.
7             Há-de advertir V. Senhoria que em tudo isto, quer no que agora tenho, quer no passado, não hei podido mais, nem está em minha mão; servir mais, isto sim; poderia se não fosse tão ruim. Mas digo que, se eu agora, com grande cuidado, procurasse desejar morrer, não poderia nem fazer osactos como costumava, sem sentir as penas pelas ofensas de Deus, nem tão pouco os temores tão grandes que trouxe em mim tantos anos, pois me parecia andar enganada. E assim, agora já não preciso de andar a consultar letrados nem de dizer nada a ninguém: é só assegurar-me se vou bem e se posso fazer alguma coisa. E isto tenho tratado com alguns com quem havia tratado o demais, que é o Frei Domingo e o Mestre Medina e uns da Com­panhia. Com o que V. Senhoria agora me disser, acabarei de me assegurar pelo grande crédito em que o tenho. Olhe muito a isto, por amor de Deus.
Também não me foi tirado o entender que estão no Céu algumas almas dos que morrem, das que me tocam de perto; outras, não.
8             A soledade me faz pensar que não se pode dar aquele sentido a: «o que se amamenta aos peitos de minha mãe».29 A ida para o Egipto...
9             A paz interior e a pouca força que têm contentos e descontentos para tirarem de modo durável esta Presença, tão sem se poder duvidar das Três Pessoas, em que claramente nos parece que se experimenta o que diz São João: «que faria a sua morada na alma»,30 e isto, não só por graça, mas dando a sentir esta presença que traz consigo tantos bens que nem se po­dem declarar, é de tal maneira que não se precisa de andar a buscar consi­derações para se conhecer que está ali Deus.

E isto é quase ordinariamente, a não ser quando a muita enfermidade acabrunha; que, algumas vezes, parece querer Deus que se padeça sem consolação interior, mas nunca, nem por primeiro movimento, torce a vontade sequer um só ponto de que se faça nela a de Deus.
Tem tanta força este render-se à vontade divina que não se quer nem a morte nem a vida; a não ser, por pouco tempo, quando deseja ver a Deus. Mas logo se lhe representa com tanta força ter presentes estas três Pessoas, que com isto se remedeia a pena desta ausência e fica o desejo de viver, se Ele assim quer, para mais O servir e, se pudesse, contribuir para que, por seu intermédio, sequer ao menos uma alma O amasse mais e O louvasse. Pois ainda mesmo por pouco tempo, isto parece importar mais do que estar na glória.
Teresa de Jesus (R 6)

01 dezembro, 2013

As graças de Deus



Não digo que estas vozes e chamamentos sejam como outros que direi depois, mas são com palavras que se ouvem a gente boa, ou sermões ou com o que se lê em bons livros e outras muitas coisas que tendes ouvido, com as quais Deus chama; ou enfermidades, trabalhos e também com uma ou outra verdade que Ele ensina naqueles instantes em que estamos em oração que, seja quão frouxamente quiserdes, os tem Deus em muito. E vós, irmãs, não tenhais em pouco esta primeira mercê, nem vos desconsoleis, ainda mesmo que não respondais logo ao Senhor. Bem sabe Sua Majestade aguardar muitos dias e anos, em especial quando vê perseverança e bons desejos. Esta perseverança é aqui o mais necessário, porque com ela jamais se deixa de ganhar muito.
Santa Teresa de Jesus (2M 3)

Oração

Deus vivo,
Tu sabes o quão pesado está o meu coração
E quão apertado está o meu peito.
Estou completamente à deriva.
Ajuda-me, meu Deus.
Acredito que as Tuas intenções para comigo são boas,
Que respondes a tudo o que eu preciso,
E que levarás para o bem tudo o que me diz respeito.
Não permitas
Que o medo me domine.
A Ti entrego este dia
E toda a minha vida.
Conduz-me como quiseres
E como for para mim melhor.
Viva eu ou morra eu,
Sou tua e tu comigo estás, meu Deus. Amen.
(Dorte Schromges)