09 dezembro, 2013

Morro porque não morro!



Vivo sem viver em mim
E de tal maneira espero
Que morro porque não morro

1. Em mim eu não vivo já,
E sem Deus viver não posso;
Pois sem Ele e sem mim quedo,
Este viver que será?
Mil mortes se me fará,
Pois minha mesma vida espero,
Morrendo porque não morro.

2. Esta vida que aqui vivo
É privação de viver;
E assim, é contínuo morrer
Até que viva contigo.
Ouve, meu Deus, o que digo,
Que esta vida não a quero
Pois morro porque não morro.

3. Ausente estando eu de ti,
Que vida poderei ter
Senão morte padecer,
A maior que jamais vi?
Pena e dó tenho de mim,
Pois se assim eu persevero,
Morrerei porque não morro.

4. O peixe que da água sai
Nenhum alívio carece
Que na morte que padece,
Afinal a morte lhe vale.
Que morte haverá que se iguale
Ao meu viver lastimoso,
Pois se mais vivo, mais morro?

5. Quando penso aliviar-me
Vendo-te no Sacramento,
Faz-me em mim mais sentimento
De não poder-te gozar;
Tudo é para mais penar,
Por não ver-te como quero,
E morro porque não morro.

6. Se me deleito, Senhor,
Com a esperança de ver-te,
Vendo que posso perder-te
Redobra-se em mim a dor;
Vivendo em tanto temor
E esperando como espero,
Morro sim, porque não morro.

7. Livra-me já desta morte,
Meu Deus, entrega-me a vida;
Não ma tenhas impedida
Por este laço tão forte;
Olha que peno por ver-te,
O meu mal é tão inteiro,
Que morro porque não morro.

8. Chorarei já minha morte
Lamentarei minha vida,
Enquanto presa e retida
Por meus pecados está.
Oh! Meu Deus! Quando será
Que eu possa dizer deveras:
Vivo já porque não morro?

Santa Teresa de Jesus

08 dezembro, 2013

O MENINO MANSO E ESTE MUNDO ARMADO



1. O texto do Evangelho deste Domingo II do Advento (Mateus 3,1-12) apresenta algumas notas salientes: 1) É notória a sintonia de João com Jesus, dado que ambos abrem o seu ministério, dizendo as mesmas palavras: «Convertei-vos, porque se fez próximo o Reino dos Céus» (Mateus 3,2; cf. Mateus 4,17); 2) ambos colocam o seu ministério com referência a Isaías (Mateus 3,3; cf. Isaías 40,3; 4,14-15; 8,23-9,1); 3) ambos abrem no deserto a sua missão, evocando o Êxodo do Egipto, o novo Êxodo da Babilónia (Ezequiel 20,33-38) e o Êxodo do noivado de Deus com Israel (Oseias 2,16-23), mas também a febre messiânica que situava no deserto o princípio da renovação escatológica; 4) a indumentária de João Baptista (Mateus 3,4) evoca a de Elias (2 Reis 1,8), com o qual é, de resto, identificado por Jesus (Mateus 11,14; 17,12-13).

 2. Se é evocada a continuidade dos ministérios de João e de Jesus, não deixa também de ser bem acentuado o confronto entre os dois: 1) vê-se bem que João Baptista anuncia um Messias juiz, que traz na mão o machado e a pá de joeirar (3,10-12), enquanto que Jesus assumirá a figura de Servo do Senhor manso e humilde (12,17-21); 2) o apelo à conversão que João faz não é dirigido aos pagãos, mas aos israelitas piedosos (3,7-10): portanto, face ao Messias juiz que vem aí, também os justos se devem converter; não é a raça de Abraão que conta, mas a fé; 3) a conversão manifesta-se em fazer fruto, uma ideia recorrente em Mateus (cf. 7,16-20; 12,33; 13,8; 21,41 e 43; 25,40 e 45…); 4) a conversão, aqui expressa pelo verbo metanoéô, não deve ser vista apenas pelo seu significado etimológico: mudar de mentalidade; seria uma maneira de ver muito intimista, mostraria o homem debruçado sobre si mesmo, sobre os seus pecados; ora, a raiz hebraica shûb, sobretudo depois de Jeremias (Isaías 31,6; 45,22; 55,7; Jeremias 3,7.10.14.22; 4,1; 8,5; 18,11; 24,7; 25,5; 26,3; 35,15; 36,7; 44,5; Lamentações 3,40; Ezequiel 13,22; 14,6; 18,23 e 30; 33,9 e 11; Oseias 11,5; 12,6; 14,1-2; Joel 2,12-13; Zacarias 1,3-4; Malaquias 3,7), não implica o dobrar-se do homem sobre si mesmo, mas o orientar-se para ALGUÉM, para Deus, com quem o ser humano cortou relações, distanciando-se e quebrando a aliança. Esta ideia de conversão como caminho de regresso a Deus estava muito disseminada no judaísmo primitivo, mas era desconhecida na religião grega; 5) à vista de Jesus que vem no meio da multidão, como verdadeiro Servo do Senhor (3,13-14), que assume as faltas da multidão, João fica confuso; na verdade, esperava um Juiz, e não um Servo solidário com o povo no pecado (por isso, vem, no meio do povo, a este baptismo de penitência); 6) além disso, e contra todas as expectativas de João, Jesus não vem para baptizar, mas para ser baptizado (3,11.13-14); 7) o diálogo travado entre João Baptista e Jesus (3,14-15) é exclusivo de Mateus (nenhum outro Evangelho o descreve).

 3. Faz-se notório o sonho de um Deus que desce ao nosso meio, não para nos condenar ou derrubar, mas para se tornar solidário connosco.

 4. Isaías 11,1-10, que serve hoje de ressonância ao Evangelho, mostra muito mais o tom manso e suave do Servo do Senhor que Jesus incarna do que o martelo do Juiz que João Baptista prenuncia. Isaías abre diante de nós um mundo novo, tenro e terno, que, visto desde este nosso mundo escuro e tantas vezes desumano, soa a sonho. Ei-lo desenhado nestes versos imensos: «Então o lobo habitará com o cordeiro,/ o leopardo deitar-se-á com o cabrito,/ o bezerro e o leãozinho andarão juntos,/ e um menino pequeno os conduzirá.// A vaca e o urso pastarão juntos,/ juntas se deitarão as suas crias,/ o leão comerá feno com o boi,/ e a criança de peito brincará com a víbora» (Isaías 11,6-8).

 5. Avista-se daqui o Menino de Belém. Uma paz a perder de vista, sem princípio e sem fim. Um mundo novo governado por um menino pequeno. Vê-se bem que não se parece nada com o nosso, cheio de raivas e de ódios, invejas, mentiras, manhas, astúcias, violências e guerras. Nenhum menino poderia governar um mundo assim.

 6. Contra este mundo empedernido e embrutecido embate a ternura do Menino de Belém. Entenda-se bem: não é o menino que está errado; somos nós que estamos completamente errados. É por isso que somos convidados à conversão.

 7. O mundo novo e saboroso que emerge dos textos de hoje é também sublinhado por S. Paulo nas exortações que nos dirige na Carta endereçada aos Romanos 15,4-9. Como seria belo um mundo pautado por uma verdadeira fraternidade em que todos vivêssemos sob o impulso e o alento carinhoso e criador de Deus. Na verdade, todos respiramos o mesmo alento, que o texto grego diz com o belo termo composto homothymadón (Romanos 15,6), que junta homós [= mesma] e thymós [= alma], sendo que thymós deriva de thýô [= soprar]. E que mundo maravilhoso surgiria, rompendo a crosta do egoísmo e da dureza de coração, se «nos acolhêssemos uns aos outros, como Cristo nos acolheu a nós» (Romanos 15,7). Aí está então a comunidade humana irmanada e reunida, porque todos recebemos de Deus o mesmo alento, o mesmo sopro criador (Génesis 2,7), e com uma só boca (en henì stómati) e a uma só voz cantamos os louvores do nosso Deus (Romanos 15,6). Esta linguagem e esta harmonia enchem por inteiro a comunidade primitiva (Actos 1,14; 2,46; 5,12).


D. António Couto, in Mesa de Palavras

07 dezembro, 2013

Maria e Portugal: uma devoção nacional?



A devoção mariana é um facto relevante na piedade pessoal de muitos portugueses. Mas não é a esse título que a vou sublinhar aqui, antes a título coletivo, como devoção nacional que também parece ser.

Efetivamente, as grandes horas portuguesas foram várias vezes horas marianas, porque a Maria se referiram, pela intercessão ou no louvor. E se os povos se simbolizam nas realidades que afirmam com mais constância e calor, então o povo português aparece-nos frequentemente como um povo mariano.

Relancemos:

A nossa realidade política foi recortada pela espada de D. Afonso Henriques. De Guimarães a Lisboa e ao Alentejo, criou o Estado português, juntando gentes diversas, de dentro e de fora. As sés que levantou dedicou-as a Santa Maria. Mas como se denominavam os que morriam na luta, os que caíam na guerra contra os Mouros? Ao menos em alguns casos, mártires. E quem os recebia no céu? Santa Maria.

Efetivamente, mal começado o cerco a Lisboa, em 1147, D. Afonso teve de correr a Sacavém, a parar uns mouros que o vinham cercar por sua vez. Pelos cristãos mortos na peleja, levantou aí um templo a Nossa Senhora dos Mártires. Depois de conquistada a cidade, no local onde se tinham sepultado os cruzados ingleses, ergueu também um templo. O nome? Nossa Senhora dos Mártires. A sua dedicação celebrava-se a 13 de maio...

A guerra continuou nos reinados seguintes e a invocação também. Mesmo ao sul ainda aparecerão igrejas de Nossa Senhora dos Mártires, em Silves e Castro Marim, por exemplo. E Frei Agostinho de Santa Maria escreveu mais tarde no seu Santuário Mariano sobre a imagem de Castro Marim: «Este título se devia dar à Senhora, sem dúvida, porque no tempo dos Mouros se enterrariam junto ao seu altar os corpos daqueles soldados, que em defesa da fé sacrificaram as vidas.»

Quando Portugal se ia perdendo na herança de D. Fernando, foi em Aljubarrota que se ganhou. E isto deu-se na véspera de Santa Maria de agosto, como sabia D. João I, como sabia Nun’Álvares, como sabiam todos. O Condestável, narra Fernão Lopes, animava os nossos, pois «que a Mãe de Deus, cuja véspera era então, seria sua advogada»; e o novo rei reforçava: «Em nome de Deus e da Virgem Maria, cujo dia é amanhã, sejamos todos fortes e prestes.»

Depois foi a vitória portuguesa e a peregrinação do nosso rei à Senhora da Oliveira, em Guimarães, a pé e a agradecer. E o agradecimento lavrado em pedra, que foi Santa Maria da Vitória. Antes da batalha e por causa dela, já o povo de Lisboa prometera também uma procissão anual a Nossa Senhora da Escada, que se venerava ao pé do Rossio.

Consolidado o reino, seguiu-se a expansão. E o mesmo Frei Agostinho de Santa Maria pôde dizer depois que o infante D. Henrique que «nesta sua empresa escolheu por sua principal estrela a Maria Santíssima, e aos Santos Reis Magos, rogando-lhes que mostrassem outras novas estrelas, novos homens e novos mundos».

A armada portuguesa avistou Ceuta a 14 de agosto de 1415, outra véspera da Assunção. A 14 de agosto também, mas de 1437, o Infante Santo foi a Nossa Senhora da Escada, antes de partir para Tânger, onde seria preso para não mais voltar. Vitória por derrota, conta Frei Luís de Sousa que «com melhor sucesso fez semelhante despedida seu sobrinho el-rei D. Afonso Quinto, filho de el-rei D. Duarte, no ano de 1471, quando foi tomar Arzila e Tânger aos Mouros. Acompanhado de toda a corte veio visitar a Senhora (da Escada) na manhã do dia de Sua gloriosa Assunção, a quinze de agosto».

Para mais longe iriam Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral. Para mais longe, mas também de ao pé de Maria: o Gama e os seus passaram a noite de 7 de julho de 1497 em Santa Maria de Belém, antes da partida para a Índia; e aí ouviu missa o descobridor do Brasil, a 8 de março de 1500, antes de partir por sua vez.

Horas de glória, estas: glórias de Portugal e de Maria, assim foram vividas. Seguiram-se outras, de derrota e desterro, marianas também. De facto, quando um novo Império se perdeu em Alcácer Quibir, ainda antes de ter propriamente começado, foi a Maria que recorreram muitos dos que lá ficaram cativos.

Recorreu-lhe, por exemplo mais eloquente, Diogo Bernardes, nas suas Várias Rimas ao Bom Jesus e à Virgem Gloriosa: «Oh Virgem singular, pura, sem mágoa, / [...] Esperança do povo Lusitano, / Por vosso amor acuda a tanto dano / O poder infinito.»

«Esperança do povo lusitano» – assim a viam os vencidos de Alcácer. E assim a continuaram a ver os Portugueses, com a independência cada vez mais perdida sob os Filipes.

Sob o domínio filipino, na verdade, seria proibida a procissão que o povo de Lisboa fazia à Senhora da Escada, lembrando a vitória de Aljubarrota. Mas determinações destas excitam ainda mais o que procuram obviar, e o que aconteceu foi a insistência dos patriotas junto da Virgem Maria pela recuperação da independência. Sobreveio que, tendo o governo filipino mandado cortar pinheiros junto à Senhora da Atalaia, eles se entortaram milagrosamente, ficando incapazes de servir, como anotou depois o autor do Santuário Mariano. Não era o sinal do desagrado do Céu com os Espanhóis? Lenda ou não, o sentido é evidente. E foi muita, nesses anos difíceis, a procura de livros de devoção mariana.

Por toda a Europa católica, o século XVII foi de grande exaltação de Maria, especialmente na sua Conceição Imaculada. Na polémica antiprotestante afirmava-se o lugar da Mãe de Jesus e o seu privilégio; e também os Filipes promoveram esta afirmação. Mas quando Portugal se restaurou, a Imaculada Conceição, particularmente venerada na corte ducal de Vila Viçosa, donde saía o novo rei D. João IV, foi logo assumida como padroeira dos nossos destinos reencontrados.

Foi assim que Frei João de São Bernardino, pregando perante a corte, a 8 de dezembro de 1640, não se esqueceu de afirmar: «Em sábado dedicado à Mãe de Deus se aclamou rei por geração, linha e sangue o invictíssimo rei D. João o quarto do nome, nosso senhor. Hoje é o oitavo dia da sua aclamação, sábado dedicado pela Igreja à Imaculada Conceição da mesma divina Senhora: quiçá assinalou Deus este dia de sábado em seu descanso, requievit die septimo, para que ficasse assinalado por dia deputado ao descanso de Portugal.»

Depois, nas Cortes de 1646, foi Nossa Senhora da Conceição tomada por padroeira de Portugal e da sua independência, ainda muito insegura. Padroado escolhido, padroado cumprido: a 8 de junho de 1663 os Portugueses ganharam a Batalha do Ameixial aos Espanhóis, que não desistiam. – Vitória portuguesa ou vitória de Maria? De Maria, disse-se logo; é que, a 26 e 27 de maio anterior, uma imagem da Senhora da Piedade a anunciara milagrosamente em Santarém, facto depois examinado e autenticado por Carta Pastoral do Deão e Cabido de Lisboa, de 15 de janeiro de 1664.

Recuperou-se a independência, vieram os anos dourados de D. João V, e, como geralmente sucede em tempos de afirmação nacional, reescreveu-se a história. Para tal, fundou o Magnânimo a Academia Real da História, por decreto datado significativamente de 8 de dezembro de 1720. E a primeira história a fazer-se seria a das Igrejas do Reino, a Lusitania Sacra. Mais uma vez, história de Portugal ou história de Maria? Para D. Manuel Caetano de Sousa, diretor da Academia, não havia diferença. Dizia assim: «Não é a obra da Lusitania Sacra outra coisa senão. uma ilustração histórica de todas as Igrejas de Portugal [...] Será o empenho da Lusitania Sacra ilustrar as Igrejas Catedrais deste Reino, mas tudo redunda em glória da mesma Senhora, a quem todas elas são dedicadas.»

No século XVIII e com o aval do mesmo rei, conseguiu-se para Portugal uma festa litúrgica de Nossa Senhora para cada mês do ano. As que já se celebravam, juntaram-se assim a do Patrocínio de Maria, em novembro; a de Nossa Senhora dos Prazeres, na segunda-feira depois da Pascoela, para todo o País; a de Nossa Senhora do Desterro, no quarto domingo de abril; a da Maternidade, no primeiro domingo de maio e a da Pureza de Nossa Senhora, no último de junho; já em 1815, somou-se-lhes a do Coração de Maria, no domingo depois da Oitava da Assunção.

Depois de tempos, tempos vêm... Com o século XIX veio também a ameaça e depois a primeira invasão francesa. Em 1807 chegaram os exércitos de Napoleão e cá continuaram pelo ano seguinte: muitas mortes e grande desolação. A rainha louca, o príncipe. regente e a corte, fugidos para o Brasil. Mas havia a Rainha do Céu, padroeira da pátria, e a ela se recorreu de novo. Derrotados na Roliça e no Vimeiro, os Franceses partiram e os louvores voltaram: «Cantamos à Virgem / Louvores gerais: / Digam todos comigo: / Bendita sejais»; vinha num assim chamado Cântico a Maria Santíssima em ação de graças por nos ter livrado dos pérfidos e malvados franceses, saído em Lisboa logo nesse ano de 1808, com mais entusiasmo do que inspiração.

O século passado foi de graves alterações na vida religiosa portuguesa. O triunfo do liberalismo não se fez sem grandes mal-entendidos de parte a parte, nas relações entre política e religião, mal-entendidos que persistiram muito tempo. As instituições católicas tinham-se naturalmente integrado na sociedade do Antigo Regime: caído este, abalaram-se aquelas. Em 1834 foram extintas as congregações religiosas – as masculinas logo e as femininas a prazo – e o Governo passou a tutelar mais apertadamente ainda a vida da Igreja secular. Além disto, olhava com muita desconfiança para tudo quanto vinha de fora, de Roma especialmente, como atentatório da independência portuguesa e da religião «nacional». Esta suspicácia do liberalismo português, herdada depois pelo republicanismo, em relação a Roma e às congregações religiosas a ela ligadas, foi um dos fatores mais persistentes da reserva de muitos católicos portugueses em relação às instituições políticas, o que poderá ajudar a explicar o desenraizamento e a brevidade delas.

Ora, foi também a propósito da devoção mariana que esta nova situação se agudizou. Em 8 de dezembro de 1854, o Papa Pio IX definiu o dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Tal verdade mariana era há muito confessada em Portugal e era mesmo a inovação da padroeira do reino. Mas agora vinha de Roma a definição, e, para o nacionalismo de muitos influentes, Roma era o estrangeiro e mesmo a ameaça, já que Pio IX não se cansava de levantar objeções à teoria e à prática dos regimes liberais. Estava novamente em uso o beneplácito, pelo qual as decisões pontifícias só se executariam entre nós depois da aprovação das Cortes. Teve de esperar-se até março do ano seguinte...

Estes quatro meses de demora em reconhecer para Portugal o dogma da Imaculada Conceição levantaram reparos nos meios católicos mais ativos. A demora era dos poderes públicos e não da piedade portuguesa, afirmava A Nação de 17 de abril de 1855: «Portugal, que sempre se distinguiu pelo seu zelo religioso, e pela pureza da sua fé, Portugal, que nas suas cortes e universidades jura há séculos a defesa da Imaculada Conceição, não podia, apesar de todas as desgraças, deixar de associar-se à alegria universal de todos os católicos ao ser definido pela Igreja como dogma, o que para ele era uma crença religiosa, e um princípio de nacionalidade.»

E a devoção mariana, «crença religiosa e princípio de nacionalidade» recrudesceu então. São dessa época os versos do Padre Malhão que ainda hoje se cantam, unindo a proteção de Maria com os destinos nacionais: «Salve, nobre Padroeira / Do Povo, teu protegido, / Entre todos escolhido / Para povo do Senhor. / Ó glória da nossa terra / Que tens salvado mil vezes, / Enquanto houver Portugueses, / Tu serás o seu amor.» E em 1869 a Imaculada Conceição do Sameiro uniria ainda outra vez marianismo e patriotismo. São de Almeida Braga, jovem apóstolo de então, os seguintes versos, tão bem datados na piedade e nas preocupações: Quanto aos que se opunham a esta devoção:

Oh! não consintas que a feroz doutrina,
Que tenta derrubar os teus altares,
Do povo português invada os lares,
E espalhe as trevas onde brilha a luz;

Quanto às divisões dos portugueses, que só a fé reencontraria:

Faze um povo d’irmãos do luso povo
Por Deus e pela pátria, em verdadeira
Aliança unidos numa só bandeira,
Rendendo culto juntos ao mesmo altar;

Para concluir:

E, enfim, como vigia da atalaia
Os Passos do inimigo a sentinela,
Assim desse alto, tu, Senhora, vela
Sobre os destinos deste povo teu.

Entretanto, desde meados do século, ganhava adesão sempre maior a devoção do Mês de Maria: a mesma devoção entre os católicos mais fervorosos e a mesma suspeita por parte dos liberais mais desconfiados a respeito de novidades religiosas vindas de fora, sobretudo as apadrinhadas pelos Papas e difundidas também por religiosos – em Lisboa, era praticada por um lazarista francês na Igreja de São Luís, a partir de 1859. Tinham surgido também as confrarias dedicadas ao Coração de Maria. A do Porto nascera em 1845 e logo despertou desconfianças semelhantes, numa cidade onde tanto se afirmaram no século passado quer o liberalismo mais radical, quer a militância católica mais intensa. Por isso foi violentamente interrompida a reunião da confraria portuense nos Congregados, a 8 de março de 1846, alegando-se que ela encobria uma conspiração antiliberal. Incidentes destes e com idênticas alegações perturbaram muitas manifestações católicas em Oitocentos.

A devoção mariana, essa, não parou. E um autor chega a dizer que a arquiconfraria do Sagrado Coração de Maria no Porto tinha, na viragem do século, 100 000 associados.

Mas, virado o século, a mesma desadequação – agora muito mais acentuada – entre devoção mariana e instituições políticas se fez notar, enquadrando concretamente os acontecimentos de Fátima. É certo que o tipo de relações Igreja-Estado era diferente: em 1854, quando foi definida a Imaculada Conceição, o catolicismo era religião do Estado, e agora este não reconhecia culto algum. Mas a atuação da autoridade local em relação aos pastorinhos, por exemplo, significava mais do que simples indiferença.

Também isto não impediu o desenvolvimento da devoção mariana, agora como novo estímulo. Desenvolvimento tal que, à luz de Fátima, foi mais uma vez interpretado e garantido o destino nacional. Apenas dois marcos para terminarmos: o I Congresso Mariano Nacional, reunido em Braga em 1926; e a Primeira Consagração de Portugal ao Coração Imaculado de Maria, feita pelo Episcopado Português em Fátima, a 13 de maio de 1931. Consagração que acabava precisamente com estas palavras: «Lembrai-vos, enfim, ó Padroeira da nossa terra, que Portugal ensinou tantos povos a saudar-vos bendita entre todas as mulheres. Em memória do que fez pela vossa glória, salvai-o, Senhora de Fátima...»

E, desde então, a devoção portuguesa continua a unir Maria e o nosso futuro nacional, não se cansando de repetir: «Nossa Senhora do Rosário de Fátima, salvai-nos e salvai Portugal!»

Deste brevíssimo e apressado relance, poderei concluir com mais certeza o que comecei por dizer: Se os povos se simbolizam nas realidades que afirmam com mais constância e calor, então o povo português aparece-nos frequentemente como um povo mariano. Creio que isto continua a ser assim para uma parte muito expressiva da nossa comunidade nacional.


ALEGRA-TE, MARIA!


1. «Fazendo memória da Toda Santa, imaculada, sobrebendita, gloriosa Senhora nossa, Mãe de Deus e Sempre Virgem Maria, juntamente com todos os Santos, consagramo-nos nós e toda a nossa vida a Cristo Deus». Assim se conclui, no rito bizantino, a oração que abre a celebração deste Dia, à qual a assembleia responde: «a Ti, Senhor!». É o «fiat», o «faça-se» dito por Maria (Lucas 1,38), a Serva do Senhor, a ecoar também no nosso coração e a brotar dos nossos lábios. É o eco daquele «faça-se» de Deus na primeira página da Escritura Santa a ecoar no coração de Maria e no nosso também. É aquele «Sim» imenso que atravessa as primeiras 452 palavras da Escritura Santa (Génesis 1,1-2,4a), onde não se lê um único «Não». «Tudo, na verdade, foi feito pelo Verbo» (João 1,3), «n’Ele foram criadas todas as coisas» (Colossenses 1,16), e o Verbo incarnado, Jesus Cristo, no dizer do Apóstolo, «foi sempre Sim, e nunca não» (2 Coríntios 1,19). Aí está a filigrana que faz vibrar a melodia e mostra a verdadeira harmonia da Escritura. Imensa sintonia a ecoar hoje em tantos corações! As partituras desta música divina vêm hoje de Lucas 1,26-38, Génesis 3,9-15.20, Romanos 15,4-9 e do Salmo 98(97).

 2. É bom sabermos e sentirmos que as Igrejas do Oriente e do Ocidente, embora divididas entre si, nos dias 8 e 9 de Dezembro (8 no Ocidente e 9 no Oriente), nove meses antes da Festa da sua Natividade (8 de Setembro), juntam as suas vozes em maravilhosa harmonia para celebrar a Mãe de Deus no singular privilégio da Conceição Imaculada da sua humanidade.

 3. Bem sabemos, além disso, que os Coptos dedicam a Maria o inteiro mês de Kiahq, que coincide mais ou menos com o nosso mês de Dezembro, e os Caldeus, os Antioquenos e os Maronitas celebram, também nesta altura do ano, e durante pelo menos quatro Domingos, o tempo do chamado Sûbbarâ ou «Anunciação», Vinda de Deus ao nosso mundo, notícia após notícia, para abrir as nossas trincheiras e fazer nascer em nós um mundo novo, um cântico novo.

 4. «Onde estás?», pergunta o Deus-Que-Vem por amor ao encontro da sua criatura dilecta (Génesis 3,9). «Tive medo e escondi-me», respondemos nós, amedrontados (Génesis 3,10). A narrativa exemplar de Génesis 3, que hoje lemos, desvenda todas as nossas inúteis estratégias de defesa, e faz-nos ver como nós nos escondemos de nós mesmos e de Deus, e como alijamos facilmente as nossas culpas sobre os outros. Correcto, limpo, terapêutico, salvador, era assumirmos e confessarmos humildemente as nossas culpas. Mas não. Fugimos, escondemo-nos de nós, e respondemos: «Foi a mulher», «foi aquele», «foi aquela», e, em última análise, «foste Tu, foste Tu, Deus» (Génesis 3,12), porque foste Tu que me deste a maravilha de um irmão, de uma irmã, e foi esse irmão dado por Ti, essa irmã dada por Ti, que me deu a comer aquele fruto, fruto de um furto! És Tu, portanto, e em última análise, o culpado. Aí estamos nós a fugir de nós mesmos, e a acusar os outros! E se não assumimos as nossas culpas, como podemos corrigir os nossos erros, e como podemos chegar a descobrir a realidade humana e divina do perdão? Sim, porque quando nos escondemos de Deus, estamos também a esconder Deus e os seus dons, a Alegria, o Amor, o Perdão.

 5. É usual dizer-se que esta conhecida página do Livro do Génesis narra a entrada do mal no coração do homem e no mundo. Mas do que se trata mesmo é da importância da relação do homem com Deus, e diz-nos que o mal entra no mundo quando o homem quebra esta relação e se desliga de Deus. Por isso também, daí para a frente, a Escritura Santa ocupa-se em mostrar que a resposta a dar ao mal não é apenas o bem, mas o santo. Entenda-se: não o homem fechado sobre si, autossuficiente e autorreferencial, mas completamente aberto e voltado para Deus, de quem por amor tudo recebe e se recebe. E completamente voltado para os outros, a quem tudo entrega por amor. Como Maria, a figura deste luminoso Dia.

 6. Em perfeita sintonia, aí está o Apóstolo a dizer o fundamental: «que Deus nos escolheu para sermos santos» (Efésios 1,4) e para nos dar, através de Jesus Cristo, a nossa verdadeira identidade, a filiação divina (hyiothesía) (Efésios 1,5). Entrando assim, por graça, na casa de Deus (Efésios 4,19), andaremos sempre na sua presença. Ele é o Deus Santo que nos santifica. Escutemos também a melodia admirável em que o Apóstolo nos faz entrar na Carta aos Romanos 15,4-9. Como seria belo um mundo pautado por uma verdadeira fraternidade em que todos vivêssemos sob o impulso e o alento carinhoso e criador de Deus. Na verdade, todos respiramos o mesmo alento, que o texto grego diz com o belo termo composto homothymadón (Romanos 15,6), que junta homós [= mesma] e thymós [= alma], sendo que thymós deriva de thýô [= soprar]. E que mundo maravilhoso surgiria, rompendo a crosta do egoísmo e da dureza de coração, se «nos acolhêssemos uns aos outros, como Cristo nos acolheu a nós» (Romanos 15,7). Aí está então a comunidade humana irmanada e reunida, porque todos recebemos de Deus o mesmo alento, o mesmo sopro criador (Génesis 2,7), e com uma só boca (en henì stómati) e a uma só voz cantamos os louvores do nosso Deus (Romanos 15,6), autor de tantas maravilhas (Êxodo 15,11)! Esta linguagem e esta harmonia enchem por inteiro a comunidade primitiva (Actos 1,14; 2,46; 5,12).

 7. O ícone desta santidade, neste mundo, é Maria, no grande texto da Anunciação (Lucas 1,26-38). Vale a pena contemplá-la demoradamente, como fazem as Igrejas do Oriente e do Ocidente. Ao contrário de nós, Maria, visitada por Deus, não foge, não se esconde de si mesma, não se esconde de Deus, não esconde Deus na sua vida. Tinha consagrado a Deus toda a sua vida, a sua virgindade. Não sendo usual no mundo judaico do seu tempo, esta maneira de viver está, porém, solidamente documentada por parte de homens e mulheres. Ao contrário do homem do Génesis e desta sociedade em que vivemos, Maria não se esconde de Deus nem esconde Deus. Expõe-se, na sua verdade e simplicidade, ao imenso clarão de Deus. É assim que se expõe a Deus e que expõe Deus, recebendo e aceitando com amor intenso a sua nova Vocação que lhe vem de Deus. Maria vai ser a Mãe, não de um filho, mas do Filho há muito ansiado, esperado e anunciado nas páginas da Escritura Santa Antiga. É o Filho de Deus, totalmente consubstancial a Deus, e é o Filho de Maria, totalmente consubstancial à sua Mãe. Santa Maria, Mãe de Deus.

 8. Por isso, «Alegra-te, Maria» [= «Chaîre Maria»; «Ave Maria»], «não tenhas medo», «o Senhor está contigo» (Lucas 1, 28 e 30). Alguns anos mais tarde, as mulheres que vão ao túmulo de Jesus ouvirão também a mesma música divina: «Alegrai-vos», «não tenhais medo» (Mateus 28,5 e 9). E nós, Assembleia Santa que hoje se reúne para celebrar os mistérios do seu Senhor e também de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, estamos também permanentemente a ouvir esta divina melodia. Portanto, irmãos amados em Cristo, Alegrai-vos, não tenhais medo, o Senhor está no meio de nós!

 9. «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra» (Lucas 1,38). Deus chama, mas não impõe. A Maria, e a cada um de nós. Podemos sempre aceitar Deus ou esconder-nos de Deus. Deixar Deus entrar, ou fechar-lhe a porta. Maria aceitou, e, por isso, todas as gerações a proclamarão Bem-aventurada (Lucas 1,48). É o que estamos hoje e aqui a fazer: Feliz és tu, Maria, pioneira de um mundo novo, porque acreditaste em tudo quanto te foi dito da parte do Senhor (Lucas 1,45)! Feliz também aquele que ouve a Palavra de Deus e a põe em prática (Lucas 11,28)!

 10. Memorial desta beleza incandescente é a Basílica da Anunciação, em Nazaré. Esta grandiosa Basílica, em três planos, foi inaugurada em 25 de Março de 1969, e foi visitada, ainda as obras estavam em curso, em 1964, pelo Papa Paulo VI. Escavações feitas antes desta grandiosa construção puseram a descoberto, e podem ver-se ainda hoje, os majestosos pilares de uma Catedral levantada em 1099, pelo príncipe cruzado Tancredo, bem como o pavimento em mosaico de uma igreja bizantina, que pode ser datada do ano 450. Mas, descendo mais fundo, até às entranhas da actual Basílica, acede-se à Gruta da Anunciação, sob cujo altar se lê a inscrição Verbum caro hic factum est [«Aqui o Verbo se fez carne»], e a outros lugares de culto antigos, talvez já do século II. Numa grafite antiga foi encontrada a gravação XE MAPIA, abreviação de Chaîre Maria, a primeira Ave-Maria da história.

 11. A uns 200 metros para nordeste encontra-se a Igreja da Nutrição, que guarda a memória de S. José e dos «irmãos de Jesus» do ramo de José, muito zelosos dos seus direitos, tradição bem conhecida na Igreja primitiva, a partir do século II, e fechados aos gentio-cristãos pelo dogma da habdalah [= separação]. Nesse sentido, é sabido que em 570 impediram o Anónimo de Piacenza de visitar a «casa de José», e, em 614, alistaram-se com os Persas de Cosroé, vindo ao de cima o seu zelo destruidor de igrejas «cristãs». Com a vitória de Heráclio, estes judeo-cristãos nazarenos levaram consigo as suas tradições sobre Nazaré e S. José, e ter-se-ão refugiado junto dos coptos egípcios. Logo a seguir, em 670, Arculfo já pôde visitar e descrever a casa de S. José em Nazaré. A descrição de Arculfo vê-se confirmada mais tarde, nas escavações do P. Viaud e de Fr. Benedetto Vlaminck, nos anos de 1890 e 1909-1910, e, mais tarde ainda, em 1970, pelo P. Bagatti.

 12. Foi o Concílio de Basileia (1439) que sugeriu a definição do dogma da Imaculada Conceição, proclamado depois por Pio IX em 08 de Dezembro de 1854, através da bula Ineffabilis Deus. Note-se que o termo «concepção», na linguagem bíblica, indica a totalidade da existência. O velho orante do Salmo 71, olhando retrospectivamente para a sua vida de fidelidade e de amor, exclama extasiado: «Sobre ti me apoiei desde o ventre, desde as entranhas de minha mãe» (Salmo 71,6). Assim também, a existência de Maria está, desde o seu início, sob a protecção de Deus, marcada com o selo de Deus, não estando nunca sob o selo do pecado original, que mostra a existência humana marcada por um projecto alternativo ao de Deus, em que cada existência humana, eu, o meu pai, os filhos que aparecerão sobre a face da terra, queremos ser por nossas próprias forças «como deus, conhecedores do bem e mal» (Génesis 3,5).

 13. Esta celebração da Mãe de Deus e nossa Mãe e Padroeira Principal de Portugal é um desafio imenso para o homem «em fuga» deste tempo, que se esconde de si mesmo, que continua a esconder-se de Deus, e que pretende esconder Deus, retirando-o da via pública e da vida pública. Atravessamos verdadeiramente a «noite do mundo» (Weltnacht), diz Martin Heidegger, onde «Cada um está sozinho no coração da terra/ atravessado por um raio de sol:/ e é logo noite», como bem escreve o escritor italiano Salvatore Quasimodo. Homem deste tempo às escuras, engessado, triste, exilado, escondido, anestesiado, volta para a Luz, reentra em tua casa, no teu coração despedaçado. Há-de seguramente por lá haver ainda, caída no fundo da alma, uma lágrima dorida e uma mão de Mãe à tua espera!


António Couto, in Mesa de Palavras