Decorre entre os dias 27
de Janeiro a 1 de Fevereiro de 2014, em Ávila, o encontro europeu de formadores
das novas vocações carmelitas na Europa. Esta actividade conta com cerca de 30
participantes vindos dos mais diversos países da Europa e ainda do Líbano e
Egipto. Tem sido um excelente oportunidade de reflectir sobre a formação das
novas gerações de candidatos à nossa Ordem, tendo em conta o mundo concreta co
mas suas novas coordenadas donde provêm as vocações. O tema tem sido amplo mas
incide particularmente sobre a etapa do postulantado. Contou a reflexão do Pe
António Sicari, carmelita italiano, do Pe Joaquim Teixeira, provincial de
Portugal, e do Pe Tadeusz Florek, carmelita e psicólogo polaco. Partilharam as
diferentes modalidades de postulantado existentes na Europa, pois esta etapa
oferece bastantes modulações. De Portugal, participam ainda o Pe Vasco Nuno e o
Pe Vitor Hidalgo.
31 janeiro, 2014
30 janeiro, 2014
Nos 100 anos do nascimento de Etty Hillesum
Quando se realizou na cidade de Amesterdão uma greve geral que uniu a
sociedade inteira contra o pogrom [perseguição e massacre de um grupo étnico ou
religioso, neste caso os judeus], a resposta nazi não se fez esperar: os judeus
foram massivamente despedidos dos seus empregos, impedidos de frequentar os
lugares de comércio e lazer, e selecionados para experiências de reeducação. Na
zona oriental da Holanda, foi instalado à pressa um campo de concentração
intermédio, uma espécie de antecâmara de Auschwitz.
A greve geral ocorreu em fevereiro de 1941 e, no mês seguinte, uma rapariga
de Amesterdão começa, num modesto caderno de papel quadriculado, o seu Diário.
Iniciava-se aí uma das aventuras literárias e espirituais mais significativas
do século. Ela tinha 27 anos de idade e morreria sem ter feito 30. Chamava-se
Etty Hillesum.
Graças à proteção de alguns amigos, Etty entra nesse ano como datilógrafa
numa das secções do Conselho Judaico. Um pouco como nos restantes territórios
ocupados, este organismo surge a mediar a relação entre o povo judeu e as
autoridades, tornando-se facilmente presa da manipulação nazi. Etty dá-se conta
disso e decide pedir para deixar os escritórios e acompanhar, como voluntária,
os primeiros deportados. Dentro dela esboçava-se a compreensão de que aquela
hora extrema tinha um significado a que ela não poderia subtrair-se.
De agosto de 1942 até setembro de Í943 vive no campo de concentração de
Westerbork, trabalhando no mais que improvisado hospital. Uma das vantagens do
seu estatuto de voluntária era poder ir algumas vezes a Amesterdão. É quando se
dá o inaudito. No seu quarto "belo e tranquilo", ela sente uma
saudade avassaladora de Westerbork: "Estes meses entre o arame farpado
foram os meses mais intensos e ricos da minha vida".
Amigos seus que haviam passado à resistência expuseram-lhe todos os perigos
que corria, queriam que ela fugisse enquanto era tempo, ameaçaram mesmo
forçá-la, mas a todos respondeu que não a entendiam. O que Ettty intui
fulgurantemente é que a experiência daquele inferno exige uma reinvenção humana
radical. "Vou ter de achar uma linguagem nova", escreveu ela.
Olhamo-la no campo de concentração, primeiro como voluntária e feita depois
prisioneira, atravessando o lamaçal, esgotando-se em atenções aos deportados,
ela própria ferida por dores violentas, mas sempre à procura de uma janela
donde se alcance um fragmento de céu.
A sua escrita aparece povoada de dilacerantes interrogações, é verdade:
"Às vezes pergunto-me, num momento difícil como esta noite, quais são os
planos que tens para mim, ó Deus". Mas o traço mais forte é o de uma
inexplicável confiança: "Quando ontem, às duas da manhã, finalmente
cheguei lá acima e me ajoelhei quase nua, no meio do quarto, totalmente
deprimida, eu disse de repente: "Hoje, vendo bem, vivi coisas
grandiosas".
É impossível não aproximar o percurso que faz Etty Hillesum daquele vivido
por Simone Weil. São contemporâneas, ambas judias, debatendo-se por
salvaguardar o sol interior num século de experiências sombrias, ambas
escritoras, ambas consumando até ao fim (ou mais para lá do fim) um destino de
aniquilamento como se de uma incrível aventura espiritual se tratasse. A
própria morte as aproxima, ocorrida no mesmo ano: 1943. Simone morre num
hospício inglês, como se expirasse entre as vítimas, na frente mais exposta de
um combate, e Etty num campo de concentração, para o qual partiu cantando.
Etty nasceu a 15 de janeiro de 1914. A Cruz Vermelha comunicou a sua morte
a 30 de novembro de 1943.
José Tolentino
Mendonça
In Expresso,
30.11.2013
29 janeiro, 2014
Oh formosura que excedeis!
Formosura que excedeis
mesmo as grandes formosuras!
Sem ferir, sofrer fazeis,
e sem sofrer desfazeis
o amor das criaturas.
Oh, laço que assim juntais
duas coisas díspares!,
não sei porquê vos soltais,
pois atando força dais
pra ter por bem os pesares.
Quem não tem ser vós juntais
com o Ser que não se acaba;
sem acabar, acabais,
e sem ter que amar amais,
engradeceis o nosso nada.
Santa Teresa de Jesus
28 janeiro, 2014
Papa Francisco elogia padres e bispos que dão a vida no anonimato e são esquecidos pelos média
O papa Francisco
salientou esta segunda-feira a ação silenciosa que padres e bispos realizam
todos os dias no anonimato e no silêncio, e lamentou que os média deem mais
realce aos maus exemplos do que ao trabalho positivo realizado pela maioria do
clero.
«Na história conhecemos
uma mínima parte, mas quantos bispos santos, quantos sacerdotes, quantos padres
santos que deixaram a sua vida ao serviço das dioceses, da paróquia; quanta
gente recebeu a força da fé, a força do amor, a esperança, destes párocos
anónimos, que não conhecemos. São tantos», afirmou o papa no Vaticano.
Na missa a que presidiu,
Francisco recordou «os párocos do campo ou párocos da cidade, que com a sua
unção deram força ao povo, transmitiram a doutrina, deram os sacramentos, isto
é, a santidade», refere a Rádio Vaticano.
«“Mas, padre, li num
jornal que um bispo fez tal coisa ou que um padre fez aquilo!”. “Sim, eu também
li; mas, diz-me, nos jornais vêm as notícias daquilo que fizeram tantos
sacerdotes, tantos padres em tantas paróquias de cidade e do campo, tanta
caridade que fizeram, tanto trabalho que fazem para levar por diante o seu
povo?”. Ah, não! Isso não é notícia», apontou o papa.
Francisco constatou que
os média dão sempre mais destaque ao que é negativo: «É aquilo de sempre: faz
mais barulho uma árvore que cai do que uma floresta que cresce».
«Os bispos não são
eleitos apenas para levar por diante uma organização, que se chama Igreja
particular, mas são ungidos, têm a unção e o Espírito do Senhor está com eles.
Mas todos os bispos, todos somos pecadores, todos», vincou.
As palavras de Francisco
referiram-se à unção que bispos e padres recebem quando são ordenados, gesto
que evoca o nome “Cristo”, que quer dizer “ungido” [por Deus].
«Todos queremos ser mais
santos a cada dia, mais fiéis a esta unção. E aquilo que faz a Igreja
precisamente, aquilo que dá a unidade à Igreja, é a pessoa do bispo, em nome de
Jesus Cristo, porque é ungido, e não porque foi votado pela maioria»,
assinalou.
Para o papa, «não só não
se compreende como não se pode explicar como a Igreja segue em frente apenas
com a força humana»: «Esta paróquia segue em frente porque tem muitas
organizações, muita coisa, mas também tem um padre, um ungido que a leva para a
frente».
«Hoje (…) far-nos-á bem
pensar nos nossos bispos e nos nossos padres corajosos, santos, bons, fiéis, e
rezar por eles. Graças a eles estamos hoje aqui», realçou Francisco no fim da
homilia.
Rui Jorge Martins, in http://www.snpcultura.org/
ORDEM DOS CARMELITAS DESCALÇOS
A
Ordem dos Carmelitas Descalços é uma família religiosa
formada por três expressões ou ramos do mesmo carisma: os frades ou padres carmelitas
descalços, que privilegiam a oração pessoal e comunitária e se dedicam
sobretudo à pastoral da espiritualidade; as carmelitas descalças, com os seus
Carmelos de vida exclusivamente contemplativa; e os carmelitas seculares,
leigos que vivem a mesma espiritualidade, mais comprometidos com a
transformação das realidades sociais onde vivem.
Todos
participam do mesmo carisma que os seus fundadores Santa Teresa de Jesus
(1515-1582) e S. João da Cruz (1542-1591) lhes legaram. No entanto, esta Ordem
Religiosa mergulha as suas raízes no Séc. XII, na Regra de Vida que um grupo de
eremitas idos da Europa para defender os lugares santos na Terra Santa, viveram
no Monte Carmelo, na Palestina, imitando a Virgem Maria e o Profeta Elias. Mais
tarde, na segunda metade do séc. XII, com as perseguições dos muçulmanos na
Terra Santa, viram-se obrigados a regressar à Europa, onde se estabeleceram
como Ordem mendicante. Ao chegar ao Séc. XVI, estes dois santos doutores da
Igreja, Santa Teresa de Jesus e S. João da Cruz, naturais de Ávila, Espanha, do
chamado «Século de Ouro» espanhol, reformaram esta Ordem dos Carmelitas e deram
origem a um novo carisma na vida da Igreja – os Carmelitas Descalços.
Estávamos
na época do Renascimento, dos Descobrimentos, da Reforma e Contra-Reforma. Teresa
de Jesus, monja do Convento da Encarnação, em Ávila, onde viviam cerca de 180
monjas, não se conforma com a mediocridade que se vivia nos conventos carmelitas
e, então, empreende uma reforma da vida, espiritualidade e costumes,
regressando à inspiração mais evangélica e originária da Ordem tal como a viveram
os primeiros frades no Monte Carmelo. Imprime um espírito mais evangélico e
comunitário, mais orante e contemplativo, mais humano e fraterno, primeiro, às
comunidades de irmãs (24 de Agosto de 1562) e depois, com a ajuda de S. João da
Cruz, às comunidades de frades (28 de Novembro de 1568).
Teresa
de Jesus diante de uma igreja dividida em lutas disciplinares e teológicas,
conhecedora dos novos mundos que então se abriam com os descobrimentos e a
necessária evangelização dos povos, com o pouco espírito evangélico que se vivia
nas comunidades religiosas e cristãs de então, inspirada por Deus e agraciada
com grandes dons espirituais, decide formar novas comunidades de irmãs e de
padres, mais pequenas (número máximo de Irmãs por Carmelo são 21), onde se
cultivem os valores da amizade, humildade, desprendimento, simplicidade e
determinação de seguir Jesus, imitando a Virgem Maria. Uns e outros, irmãs e
frades, decidem-se a serem mais fiéis ao espírito da Regra Primitiva, formando
comunidades orantes e fraternas, onde se respirasse um verdadeiro espírito
evangélico. Às irmãs pede-lhes que se dediquem à oração e contemplação, levando
ao seu coração as grandes necessidades da Igreja e do Mundo; e aos padres,
pede-lhes que vivam o mesmo ideal de amizade e intimidade com Cristo na oração,
mas que também O anunciam onde for mais necessário pelo testemunho e pela
pregação.
Assim,
o carisma dos (as) carmelitas descalços (as) fica fortemente marcado pelos
ideais da comunhão fraterna e da oração fecunda e apostólica. A contemplação do
mistério trinitário, o amor e a imitação da Virgem Maria e S. José, que haveriam,
segundo o desejo de Santa Teresa, inspirar e proteger a vida das comunidades e
fraternidades carmelitas, além da forte experiência de amizade espiritual que
Teresa e João da Cruz cultivaram entre si e inculcaram nos membros das
comunidades por eles fundadas, lançaram as bases para que o Carmelo possa ser,
nos nossos dias, uma Casa e Escola de Comunhão com Deus e entre os irmãos
convocados a partilharem a vida, seja nos conventos, seja nos grupos de leigos,
formandos por jovens, adultos e famílias.
Este
estilo de vida, com uma espiritualidade muito humana e encarnada, gerou na
Igreja grandes frutos de santidade. Santa Teresinha do Menino Jesus, Santa
Edith Stein, S. Rafael de S. José, Santa Teresa dos Andes, Beata Isabel da
Trindade, Beato Francisco Palau… são alguns dos muitos sinais de fecundidade
deste carisma na vida da Igreja.
Os
cerca de 4.000 frades, distribuídos por 513 comunidades e 83 países; as cerca
de 10.000 irmãs contemplativas, distribuídas por 100 países e 759 conventos; e os
cerca de 30.000 carmelitas seculares com compromissos, organizados em
fraternidades, e presentes em 72 países, formam esta grande família dos
Carmelitas Descalços, que têm por vocação e missão testemunharam a presença do
Deus Vivo nas suas vidas pessoais e comunitárias, numa vida de encontro e
intimidade com Cristo, e a partir daí, propô-Lo ao mundo não como uma ideia ou
uma teoria, mas como um Deus experimentado, encarnado em Jesus, próximo e íntimo
a cada um de nós. Seja a partir dos leigos carmelitas inseridos na família e na
sociedade, seja a partir dos Carmelos de vida contemplativa, seja a partir das comunidades
de frades e padres, juntos traduzem toda a riqueza da espiritualidade carmelita.
Os padres abraçam os diferentes âmbitos da evangelização da juventude e das
famílias, nas comunidades eclesiais já estruturadas e nas terras de missão,
sobretudo, mediante a promoção da vida espiritual com a criação de casas de
oração, centros de espiritualidade, orientação de retiros, grupos de oração,
formação cristã e compromisso preferencial com os mais pobres e simples ao
jeito de Jesus.
Como
comunhão de uma única Família, em três ramos, todos assumem, segundo a sua
especificidade própria, o compromisso de serem um testemunho alegre da íntima
comunhão com Deus e com os irmãos, transbordando para o mundo, a abundância da
graça que Deus derrama em seus corações pela oração, entendida como trato amigo
e contínuo com Cristo.
Pe. Joaquim Teixeira
Imagem in Provocar - Vocacional Carmelo Descalço
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