25 março, 2014
24 março, 2014
23 março, 2014
TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA: UMA QUESTÃO DE ÁGUA!
Longe vá o agoiro, mas já ouvi dizer algumas vezes que
ainda há-de rebentar uma grande guerra mundial por causa da falta de água. Isso
seria uma grande seca! Se visitarmos os textos bíblicos, por exemplo Ex 17- 3-7
(1ª leitura), topamos logo com um sururu dos diabos por causa da falta de água.
Quando o povo saiu do Egito (onde era escravo) para voltar à sua terra (a
liberdade) não faltaram cânticos festivos e gritos de alegria. Moisés era o
maior! Geralmente ao princípio de qualquer coisa é sempre assim: muita
esperança, muita confiança, e tudo a correr às mil maravilhas. Durante o
caminho, começa a faltar isto e aquilo, o cansaço espreita, a voz já não quer cantar,
surge o deserto. O alforge só tem migalhas e o cantil as últimas gotas de água.
É deserto, é secura, é provação, é dúvida, é tentação e discussão (Massa e
Meriba). E ali está o povo, ali está o homem, ali estou eu! Mas, sobretudo, ali
está a sede. Na verdade, não consigo ficar de fora da história do povo (de
Deus). Aí surge a altercação com Moisés: Tiraste-nos do Egito «para nos
deixares morrer à sede»? E pouco faltou para o apedrejarem. Mas Deus também não
escapou à dúvida sobre a Sua fidelidade: «O Senhor está ou não no meio de nós»?
Como é que Deus reage à ingratidão do Povo? Com uma «paciência divina». Ainda
bem que de um Rochedo (símbolo de Cristo) jorrou água. Deus deu a água, o povo
bebeu e continuou o seu caminho, confiado no Senhor, esquecendo a terra de
escravidão e os seus ídolos. Com este povo – o de Deus – quero hoje cantar:
«Senhor, nós temos fome. Senhor, nós temos sede. Não é fome de pão, não é sede
de água, são razões de viver o que nos falta»! Contudo, ao contrário do texto
bíblico, direi: «Não porei Deus à prova». Antes, reconheço que fui baptizado na
água e no Espírito Santo para continuar a abandonar a «terra da escravidão» e viver
na liberdade dos filhos de Deus.
O Evangelho (Jo 4, 5-42) fala-nos do poço de Jacob, da
samaritana e de Jesus. A conversa junto ao poço revelou Jesus como sendo a
«Água viva» e transformou a arrogância da samaritana em súplica ardente:
«Senhor, dá-me dessa água, para que eu não sinta mais sede». Queria sublinhar a
importância do diálogo com Jesus, que poderíamos chamar oração, ou seja, «estar
com Quem sabemos que nos ama». É interessante notar como, de pergunta em
pergunta, a samaritana descobriu a pessoa de Cristo: No começo, Ele era somente
um viajante judeu (V. 9), depois
transformou-se em senhor (v. 11);
depois, é um profeta (v. 19); em
seguida, é o Messias (vv. 25-26); por
fim, juntamente com os samaritanos, proclama-O Salvador do mundo (v. 42). Hoje fiquei pasmado e encantado com
decisão da samaritana: deixou a bilha (o cântaro ou caneco) junto ao poço e
correu à cidade (Sicar) para dizer aos seus o que lhe tinha acontecido. E eles
vieram ter com Jesus. O «cântaro» significa e representa aquilo que nos dá
acesso às propostas limitadas, falíveis, incompletas de felicidade, ou seja, à
água com a qual se volta a ter sede. O abandono do «cântaro» significa romper
com todos os esquemas de felicidade egoísta para abraçar a verdadeira proposta
de vida. Deixar o cântaro (segurança) é abrir o meu coração à novidade de Deus.
Nesta caminhada espiritual para a Páscoa, quero renovar
hoje a minha pertença ao povo de Deus (os baptizados). Quero colocar-me ao lado
de S. Paulo para continuar a afirmar que «a esperança não engana, porque o amor
de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado»
(2ª leitura – Rm 5, 1-2.5-8).
Santa
Teresa de Jesus escreve no Livro da Vida
(30, 19): «Na minha casa havia um quadro da samaritana com Jesus junto ao poço
onde se lia: Senhor, dá-me dessa água! Suplicava muitas vezes ao Senhor
que me desse daquela água». Eu faço hoje o mesmo pedido, dizendo: Senhor, não
permitas que eu feche o meu coração – o meu verdadeiro cântaro – à vossa voz, a
fim de não andar por aí a vender água sem caneco.
Agostinho
Leal, ocd
17 março, 2014
O Carmelo Descalço Secular…uma vocação e uma maneira de ser Igreja
Quem
são os Carmelitas Descalços Seculares?
Os Carmelitas
Seculares são homens e mulheres, leigos ou sacerdotes diocesanos, que,
vivendo cada um segundo o seu estado de vida, no seu ambiente familiar, social,
profissional e eclesial, se sentem chamados por Deus a viverem radicalmente o
Evangelho, segundo o carisma e a espiritualidade do Carmelo Descalço, fundado
por Santa Teresa de Jesus.
Através do seu compromisso, pertencem juridicamente à Ordem dos Carmelitas Descalços e,
juntamente, com os frades e as monjas de clausura formam uma mesma família, com
os mesmos bens espirituais, a mesma vocação à santidade e a mesma missão
apostólica.
Os membros do Carmelo Secular têm como vocação
e missão
serem “testemunhas, fortes, da
experiência de Deus” mediante: a oração,
como diálogo de amizade com Deus; a leitura e aprofundamento da Palavra de
Deus, isto é, a Lectio Divina; a amizade,
na partilha fraterna; e o apostolado,
ao serviço de Deus e dos irmãos.
Os Carmelitas Seculares são cristãos comprometidos,
que desejam viver plenamente a sua vocação baptismal, com a ajuda da
espiritualidade do Carmelo Descalço ou Teresiano. Isto pressupõe radicalidade,
responsabilidade, compromisso pessoal com Deus, com a Igreja e com a Ordem.
Qual a vocação dos Carmelitas
Descalços Seculares?
Os Carmelitas Seculares são cristãos conscientes da
sua vocação e do seu papel na Igreja, vivendo na doação a Deus e aos outros,
como verdadeiros “Filhos da Igreja”, servindo-a, cada um, de acordo com os seus
dons e talentos.
A vocação do Carmelita Descalço Secular, é a mesma
vocação dos frades e das monjas: uma vocação
contemplativa e apostólica, como o desejou Santa Teresa de Jesus, nossa mãe
fundadora.
Mais do que “fazer”, os carmelitas são chamados a
“ser” «amigos fortes de Deus» e, a
partir da sua experiência de intimidade com Deus, procurar testemunhar, esta
mesma experiência com os irmãos, no ambiente em que vive. Isto pressupõe uma
conversão contínua, fortalecidos da Palavra de Deus, para que oração e vida não
sejam opostas, mas convergentes.
Como
se concretiza a vocação e a missão dos Carmelitas Descalços Seculares?
Os Carmelitas Descalços Seculares são homens e
mulheres de oração no meio do mundo,
das ocupações e dos compromissos diários.
Leitores assíduos da Palavra de Deus, que «é viva e eficaz» (cf. Heb 4, 12), os
Carmelitas Seculares encontram nela o alimento para as suas almas, orientação
para as suas vidas e inspiração para a sua oração.
Deste modo, desejam viver a caridade fraterna que está expressa nas Fraternidades a que
pertencem.
Ser Carmelita Secular é uma vocação específica dentro
da Igreja. É corresponder ao chamamento de Deus e viver no seguimento de Jesus
Cristo, dentro da família do Carmelo Descalço, ao jeito de Santa Teresa de
Jesus, nossa mãe fundadora, do nosso pai, São João da Cruz e dos outros santos
da Ordem, nossos irmãos. Como conseguir realizar esta vocação? Sintetizando
podemos dizer:
- Tendo Cristo como Modelo
e guia, seguindo o exemplo da Virgem Maria;
- Pela Leitura e meditação
da Palavra de Deus (Lectio Divina);
- Buscando a união com
Deus pela contemplação e actividade apostólica;
- Dando particular atenção
à oração contenplativa e litúrgica;
- Alimentando-se da
Eucaristia;
- Tendo tempos fortes de
oração: dias de deserto, retiros,…;
- Exercitando-se no amor
fraterno;
- Tendo um forte sentido
eclesial.
Não existe nenhuma novidade para além do Evangelho.
Jesus Cristo foi a última Palavra de Deus à humanidade. No entanto, o Espírito
Santo, que Jesus prometeu enviar aos seus discípulos, é Criador e Criativo. Por
isso, ao longo da história do Cristianismo, várias figuras carismáticas da
Igreja, atentas à vontade de Deus, souberam pôr em prática as inspirações do
Espírito Santo, apresentando, novas formas de viver o Evangelho, para responder
às necessidades dos tempos e da Igreja. O Carmelo Teresiano é, assim, um
maravilhoso carisma que Santa Teresa nos legou para, em família (monjas, frades
e leigos), vivermos na intimidade com Jesus Cristo e testemunharmos ao mundo o
amor de Deus.
16 março, 2014
SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA – SAIR, SUBIR E DESCER
A espiritualidade da
Quaresma está marcada pela tensão positiva de alcançar o que é mais valioso
para o homem: a liberdade diante das coisas e dos afectos; a posse da plenitude
de si; o sonho e a força da Páscoa. Há um movimento espiritual que a palavra de
Deus deste domingo apresenta em forma de convite e andamento.
O convite: «Deixa a tua
terra, a tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que Eu te indicar»
(1ª leitura), é o de esvaziar-se, despojar-se, tornar-se pobre. Esvaziar-se do
vício e do pecado para nos enchermos do «homem novo», marcado pela graça;
despojarmo-nos do amor ególatra e interesseiro para nos prendermos mais ao amor
de compaixão, de ternura e de partilha. Este movimento de deixar o baixo modo
de amar para subir até ao elevado amor de Deus, era cantado assim pelo doutor
místico S. João da Cruz: «Ó meu Esposo, com esse toque e ferida de amor, não só
levastes a minha alma a abandonar tudo, mas até a arrancaste e fizeste sair de
si mesma» (Cântico Espiritual, 1,
20).
Este convite ao
«despojamento de todas as coisas» e a «sair de si mesmo» tem a força de um
andamento marcado pela confiança e abandono em Deus. Sai e deixa-te guiar,
desprende-te de tudo e agarra-te a Quem te chamou. Assim o entendeu e
recomendou Isaías: «Olhai para Abraão, vosso Pai» (Is 51, 2). É o andamento de
deixar o provisório para sofrer a graça da transfiguração. Aqui, na nuvem da
transfiguração (Mt 17, 1-9), situada entre o Jordão e a Cruz, a divinização mostra-se
na humanidade de Cristo. Sair de ser qualquer coisa para passar a ser «filho»
de Deus e herdeiro da vida eterna. Este andamento faz-se subindo ao monte
Tabor, à vivência em plenitude do nosso Baptismo/Confirmação. É um andamento
que requer uma elevação à divinização, isto é, à promessa da nossa
transfiguração-ressurreição em Cristo.
Contudo, esta subida à
estatura de Cristo «Este é o meu Filho muito amado») não termina no Tabor. É
preciso descer, voltar à terra. A espiritualidade da Quaresma não é uma espiritualidade
das nuvens, porque, como recorda o Papa Francisco, «à imitação do nosso Mestre,
nós, cristãos, somos chamados a ver as misérias dos irmãos, a tocá-las, a
ocuparmo-nos delas e a trabalhar concretamente para as aliviar». Já Santo
Agostinho, no sermão 78, 6, afirmava:
«Desce, Pedro: querias descansar no monte, mas desce… Trabalha, sua, padece
alguns tormentos para possuir a caridade, pelo candor e beleza das boas obras,
o que é significado nas vestes cândidas do Senhor».
Também Paulo, como Abraão,
deixou o passado e correu para o futuro (Fl 3, 13). Como Paulo, nós corremos
subindo o Tabor para alcançar Quem primeiro nos alcançou e nos chamou à
santidade: «Ele salvou-nos e chamou-nos à santidade» (2 Tm 1, 8b-10). O
andamento da espiritualidade quaresmal vai no sentido contrário ao de Jacques
Rivière, que rezava assim: «Meu Deus, afastai de mim a tentação da santidade.
Não é para mim. Contentai-vos com uma vida pura e paciente que eu farei todos
os esforços para vos dar. Não me priveis das alegrias deliciosas que conheci,
que tanto amei, que tanto aspiro a reencontrar. Não confundais. Eu não sou da
espécie que precisas. Eu sou casado e pai, sou escritor. Não me tenteis com
coisas impossíveis. Perderia o meu tempo nisso, tempo que posso empregar de outra
forma ao teu serviço!» (Henri Caffarel, Espiritualidade
Conjugal – Uma palavra suspeita).
Hoje quero fazer uma prece
de alto risco: Senhor, eu quero ser da espécie que precisas! Faz-me pobre,
dai-me a fome e a sede dos Teus bens! Faz-me subir contigo ao monte Tabor! Que
eu aprenda a descer até junto dos meus irmãos pelo caminho da compaixão e da
partilha, porque neste espécie de descida «até os Santos ajudam». Não me
livreis da tentação à santidade. Amém.
Agostinho Leal, ocd
09 março, 2014
PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA – VAMOS À LUTA
Quando faço uma viagem de
carro, gosto de usar o gps. É um caminho que me leva ao lugar desejado. É uma
companhia que, de vez em quando, fala para mim. É um amigo que me avisa de
alguns perigos que me podem tramar a marcha e a vida.
Ao começar o tempo da
quaresma, recebi um convite do papa Francisco: «Convido todo o cristão, em
qualquer lugar ou situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro
pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar
encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar» (EG, nº 3). Naturalmente
que eu me incluo no grupo daqueles que estão voltados para Cristo; por isso,
aceitei o convite para renovar o encontro pessoal com Ele. E, assim como o gps, quando começo a marcha,
me manda para a estrada iluminada, assim também eu recorro à luz da Palavra de
Deus – o gps de Deus – para que
ilumine o meu pensamento, o meu coração e a minha vontade neste caminho quaresmal até ao encontro pascal com
Cristo ressuscitado.
O primeiro aviso (Gen
2, 7-9; 3, 1-7) é o da obediência a Deus, Pai criador. Na história de Deus e do
homem aparece sempre quem diga «não faças caso», «isso é treta», «faz o que te
apetecer, pois nada é proibido». Quer dizer, haverá sempre serpentes
(tentações) a desdizer a lei de Deus e a vontade de Deus. Cá por mim,
continuarei a rezar: «Seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu».
Vale a pena recordar a palavra de Pedro: «Importa mais obedecer a Deus do que
aos homens» (Act 5, 29).
O segundo aviso
lembra-me que o que eu faço acaba por ter repercussões nos outros (Rom 5,
12.17-19). Eu posso dar entrada ou fechar a porta ao pecado; eu posso ser um
canal de condenação ou de salvação. «De facto, como pela obediência de um só
homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só,
muitos se tornarão justos».
O terceiro aviso
traduz-se numa ordem: é preciso lutar. Mais do que nas tentações – e muito
menos no demónio – gosto de contemplar neste Evangelho (Mt 4, 1-11) o Jesus
vitorioso. Nele contemplamos o homem encravado entre a sedução das coisas do
mundo e a força libertadora da graça que liberta do pecado. Job afirmou: «A
vida do homem sobre a terra é uma luta» (Job 7, 1). Não há santo nenhum que não
tenha lutado. Qual o inimigo a derrotar? Há inimigos internos que causam
desordens: soberba, avareza, luxúria e gula; há inimigos que causam desordem no
nosso ânimo: inveja, ira, preguiça. Há inimigos externos, o demónio, pessoas
tentadoras, estruturas sociais injustas, etc. Cristão que não luta é um cristão
vencido. Para lutar temos a graça de Deus, os sacramentos, a fuga das ocasiões
de pecado, o cultivo do espírito de penitência, a prática das virtudes… Jesus
saiu vitorioso das tentações. Nele e com Ele somos vencedores. A força para o
combate vai-se buscar principalmente à oração: «Criai em mim, ó Deus, um
coração puro e fazei nascer dentro de mim um espírito firme».
Nesta primeira semana
da quaresma talvez alguém não saiba senão falar de jejum, penitência,
sacrifícios, etc. Pessoalmente, inclino-me para um combate (uma penitência),
que considero superior: dominar a (má) língua. Dizia S. João da Cruz: «É melhor
vencer-se na língua do que jejuar a pão e água» (Ditos de luz e amor, nº 181).
Também Fenon de Citon interpretava: «Temos duas orelhas e uma só boca,
justamente para escutar mais e falar menos». E a sabedoria do povo arremata: «O
mal que da tua boca sai, no teu peito cai».
Vamos à luta até à
vitória da Páscoa!
Agostinho Leal, ocd
02 março, 2014
O meu país é onde os pássaros comem à mesa dos meninos
1. O dinheiro, os bens, os negócios, comer, beber,
vestir, eis o que muitas vezes enche o nosso espírito e o nosso tempo. Enche e
preenche, governando a nossa mente e os passos que damos. É a Mamona de Mateus
6,24, os ídolos do dinheiro e do poder, projecção dos nossos próprios egoísmos
e das nossas próprias ilusões, diante dos quais nos ajoelhamos e a que
prestamos o culto devido. A Mamona não ama. Motor imóvel, não se mexe, não se
debruça sobre nós, não ama, não liberta, nenhum sentimento a habita. Somos nós
que nos deixamos fascinar, sugar e subjugar por ela. Nesse dia, tornamo-nos
escravos, invadidos, neutralizados e esterelizados. Como é diferente o Deus
vivo que nos ama, e, amando-nos, nos liberta de todas as amarras. O serviço ao
Deus que liberta é irreconciliável com o serviço aos ídolos que escravizam. O
maior pecado que o ser humano pode cometer é o de se esquecer de que é um
príncipe, deixando-se reduzir à escravidão.
2. O Evangelho deste Domingo VIII do Tempo
Comum (Mateus 6,24-34) mostra-nos enredados pela teia por nós tecida (!) dos
cuidados e preocupações da nossa vida. É espantoso que deparemos por seis vezes
com o verbo merimnáô (Mateus 6,25.27.28.31.34[2x]), que traduz
o nosso enredo pelos bens deste mundo e pela segurança da nossa vida.
Enredados, é o termo. Asfixiados e desumanizados é o resultado.
3. E Jesus diz outra vez nas alturas aquilo que só
nas alturas pode ser dito e entendido: «Procurai PRIMEIRO o Reino de Deus…»
(Mateus 6,33). PRIMEIRO, PRIMEIRO, PRIMEIRO…
4. Em sublime contraponto, aí estão as aves do
céu, livres e belas e soltas, que nos falam de Deus, nosso Pai! Aí estão também
os lírios do campo, que, na sua beleza, ultrapassam de longe o manto escarlate
de Salomão (Mateus 6,29), e apontam para Deus, nosso Pai! Apontam para o amor.
No estupendo poema do Cântico dos Cânticos, diz a Amada acerca do Amado: «Os
seus lábios são lírios (shôshanîm)» (5,13). E diz o Amado da Amada: «Os
teus lábios são fita vermelha» (4,3). Aí está evocada a cor avermelhada dos
lírios do campo, do manto de Salomão, dos lábios rosados…
5. Como é belo o país dos lírios do campo!
Como é belo o país das aves que voam e cantam! Como é belo o país de Deus,
nosso Pai! Dá-me, Senhor, a graça de poder dizer sempre com suficiente verdade
e simplicidade: «O meu país é onde os pássaros/ comem à mesa dos meninos».
6. E no imenso canto de Isaías 49,14-15, que
hoje temos a graça de ouvir bater nos nossos ouvidos embotados e no nosso
coração adormecido, ouvimos o queixume de Jerusalém personificada: «O Senhor
abandonou-me,/ o Senhor esqueceu-se de mim» (49,14). E a belíssima resposta de
Deus, nosso Pai: «Esquece uma mulher a sua criancinha de peito?/ Não faz
ternura ao filho do seu ventre?/ Mesmo que elas se esquecessem,/ Eu não te
esquecerei» (49,15). Mas deixem-me acrescentar o versículo 16, pois não o posso
calar, dada a indizível beleza e riqueza nova do dizer de Deus, nosso Pai: «Vê:
sobre as palmas das minhas mãos te tatuei» (49,16). Evoca o dizer de Deus,
nosso Pai, em Isaías 43,4: «És precioso aos meus olhos, e eu amo-te!».
7. Do meio do trigo e do pão, do coração, oiço
então a voz de Deus, que me dá a mão. Agarro-me. Sinto sulcos gravados nessa
mão. Sigo-os com o dedo devagar. Percebo que são as letras do meu nome, os
traços do meu rosto. Foi então por mim que desceste a este chão. O amor
verdadeiro está lá sempre primeiro.
8. Por isso, exorta-nos S. Paulo (1 Coríntios 4,1-5), nada façais por
conta própria. Fazer o que quer que seja por conta própria, por exemplo,
julgar-nos a nós mesmos ou aos outros, é fazê-lo sempre antes do tempo (kairós)
(1 Coríntios 4,4-5). O tempo, dito kairós, supõe sempre a enchente
da Palavra de Deus que nos atinge, e à qual respondemos. Ora, sem enchente da
Palavra de Deus, sem Deus Primeiro, não há critério nem resposta possível.
Devíamos considerar mais vezes estas coisas!
9. A melodia do Salmo 62(61), que é um Salmo de
Confiança, deixa hoje a ressoar no nosso coração as notas musicais que fomos
ouvindo até aqui. Confiança só no Deus vivo, minha rocha, minha fortaleza, meu
refúgio, minha salvação. E põe-nos de sobreaviso contra a «trindade»
idolátrica da violência, do roubo e da riqueza. É um dos poucos Salmos citados
nos Documentos do Concílio Vaticano II, no contexto de uma exortação aos
sacerdotes, que soa assim: «Os sacerdotes, não apegando, de forma nenhuma, o
coração às riquezas, evitem toda a cobiça e abstenham-se cuidadosamente de toda
a sombra de comércio» (Presbyterorum Ordinis, n.º 17). A exortação vale
para todos nós.
Deita com ternura a semente na terra
É o seu berço natural
E adormece suavemente
Tu e a semente
A semente não erra
A semente não mente
Adormece na terra
Aparece depois um fiozinho de erva
Nasce e cresce
Uma flor floresce
Um fruto amadurece
Um pássaro desce
E reza e canta e dança e debica e agradece
Ao Senhor da messe.
Senhor Jesus,
Dá-me um coração puro e transparente
Como uma nascente,
Como uma semente,
E ensina-me a ser simples e leve
Como aquele pássaro que do céu desce,
Reza, canta, come e agradece.
António Couto, in Mesa de Palavras
26 fevereiro, 2014
Duelo de rivais
Título
original: Rush
Realizador:
Ron Howard
Com: Daniel
Brühl, Chris Hemsworth, Olivia Wilde
Género: Acção,
Biografia, Drama,
Outros dados:
M/12, EUA/RU, 2013, 122 min, Trailer
Nunca fui um
grande fã de Formula 1. No entanto já tinha ouvido falar em Niki Lauda, piloto
austríaco muito conhecido pelo grave acidente que teve durante o Grande Prémio
da Alemanha em 76. Quando soube que ía sair um filme sobre estes factos decidi
pesquisar um pouco mais sobre a sua vida e fiquei com grande vontade de ver o
filme.
Ron Howard
(realizador) cria um filme onde, simultaneamente, existe drama e humor. As boas
interpretações e o excelente trabalho cinematográfico levam-nos a crer que
estamos mesmo dentro de um grande circuito de Formula 1.
Rush conta-nos
a história incrível e verídica de dois pilotos, e da marcante rivalidade entre
eles. Um é Niki Lauda, austríaco, conhecido pela sua capacidade de análise e
rigor. O outro é James Hunt, inglês, conhecido pela sua velocidade e por ter
uma vida controversa fora das pistas.
O filme
vai-nos dando a conhecer a vida, a personalidade e a rivalidade entre estes dois
corredores, desde o momento em que se conhecem, numa prova de Formula 3 em
Inglaterra no ano de 1970, até ao fim do campeonato de 1976. Pelo meio tomamos
conhecimento da vida dentro e fora das pistas, desde o negócio dos contractos
aos momentos mais emocionados que antecedem as perigosas corridas. O ano de
1976 ficou não só conhecido pela grande disputa do campeonato, entre Lauda e
Hunt, mas também devido ao grave acidente que se deu a 1 de Agosto desse mesmo
ano, levando Lauda a ficar em risco de vida e com marcas no rosto para toda a
vida.
A partir deste
momento, o filme torna-se ainda mais rico e entusiasmante, ao contrário do que
se poderia prever. A convalescença de Lauda no hospital, enquanto assiste às
corridas e à recuperação do seu rival, deixa-nos impressionados e o seu
regresso às corridas, apenas seis semanas depois do acidente, relembra-nos,
mais uma vez, de que a esperança é a última a morrer. Muitas vezes ficamos sem
esperança, depois de alguma dificuldade que possamos passar. Achamos que os
nossos sonhos vão por “água abaixo” e que, é difícil lutar por aquilo que nos
traz alegria. Mas há sempre Alguém que nos ama e que, directa ou
indirectamente, nos faz querer continuar.
Quem sabe se a
Fórmula 1 não ganhou um novo adepto?
António Oom
Costa, in http://www.essejota.net/
24 fevereiro, 2014
MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO PARA A QUARESMA DE 2014
Queridos irmãos e irmãs!
Por ocasião da Quaresma, ofereço-vos algumas
reflexões com a esperança de que possam servir para o caminho pessoal e
comunitário de conversão. Como motivo inspirador tomei a seguinte frase de São
Paulo: «Conheceis bem a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico,
Se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza» (2 Cor 8,
9). O Apóstolo escreve aos cristãos de Corinto encorajando-os a serem generosos
na ajuda aos fiéis de Jerusalém que passam necessidade. A nós, cristãos de
hoje, que nos dizem estas palavras de São Paulo? Que nos diz, hoje, a nós,
o convite à pobreza, a uma vida pobre em sentido evangélico?
A graça de Cristo
Tais palavras dizem-nos, antes de mais nada, qual
é o estilo de Deus. Deus não Se revela através dos meios do poder e da riqueza
do mundo, mas com os da fragilidade e da pobreza: «sendo rico, Se fez pobre
por vós». Cristo, o Filho eterno de Deus, igual ao Pai em poder e glória,
fez-Se pobre; desceu ao nosso meio, aproximou-Se de cada um de
nós; despojou-Se, «esvaziou-Se», para Se tornar em tudo semelhante a nós
(cf. Fil 2, 7; Heb 4, 15). A encarnação de
Deus é um grande mistério. Mas, a razão de tudo isso é o amor divino: um
amor que é graça, generosidade, desejo de proximidade, não hesitando em doar-Se
e sacrificar-Se pelas suas amadas criaturas. A caridade, o amor é partilhar, em
tudo, a sorte do amado. O amor torna semelhante, cria igualdade, abate os muros
e as distâncias. Foi o que Deus fez connosco. Na realidade, Jesus «trabalhou
com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade
humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-Se
verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, excepto no pecado» (Conc.
Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium
et spes, 22).
A finalidade de Jesus Se fazer pobre não foi a
pobreza em si mesma, mas – como diz São Paulo – «para vos
enriquecer com a sua pobreza». Não se trata dum jogo de
palavras, duma frase sensacional. Pelo contrário, é uma síntese da lógica
de Deus: a lógica do amor, a lógica da Encarnação e da Cruz. Deus não fez cair
do alto a salvação sobre nós, como a esmola de quem dá parte do próprio
supérfluo com piedade filantrópica. Não é assim o amor de Cristo! Quando Jesus
desce às águas do Jordão e pede a João Baptista para O baptizar, não o faz
porque tem necessidade de penitência, de conversão; mas fá-lo para se
colocar no meio do povo necessitado de perdão, no meio de nós pecadores, e
carregar sobre Si o peso dos nossos pecados. Este foi o caminho que Ele escolheu
para nos consolar, salvar, libertar da nossa miséria. Faz impressão ouvir o
Apóstolo dizer que fomos libertados, não por meio da riqueza de Cristo, mas por
meio da sua pobreza. E todavia São Paulo conhece bem a «insondável riqueza
de Cristo» (Ef 3, 8), «herdeiro de todas as coisas» (Heb 1,
2).
Em que consiste então esta pobreza com a qual
Jesus nos liberta e torna ricos? É precisamente o seu modo de nos amar, o seu
aproximar-Se de nós como fez o Bom Samaritano com o homem abandonado meio morto
na berma da estrada (cf. Lc 10, 25-37). Aquilo que nos dá
verdadeira liberdade, verdadeira salvação e verdadeira felicidade é o seu amor
de compaixão, de ternura e de partilha. A pobreza de Cristo, que nos enriquece,
é Ele fazer-Se carne, tomar sobre Si as nossas fraquezas, os nossos pecados,
comunicando-nos a misericórdia infinita de Deus. A pobreza de Cristo é a maior
riqueza: Jesus é rico de confiança ilimitada em Deus Pai, confiando-Se a
Ele em todo o momento, procurando sempre e apenas a sua vontade e a sua
glória. É rico como o é uma criança que se sente amada e ama os seus pais, não
duvidando um momento sequer do seu amor e da sua ternura. A riqueza de Jesus é
Ele ser o Filho: a sua relação única com o Pai é a prerrogativa
soberana deste Messias pobre. Quando Jesus nos convida a tomar sobre nós o seu
«jugo suave» (cf. Mt 11, 30), convida-nos a enriquecer-nos com
esta sua «rica pobreza» e «pobre riqueza», a partilhar com Ele o seu Espírito
filial e fraterno, a tornar-nos filhos no Filho, irmãos no Irmão Primogénito (cf.Rm 8,
29).
Foi dito que a única verdadeira tristeza é não ser santos (Léon Bloy);
poder-se-ia dizer também que só há uma verdadeira miséria: é não viver como
filhos de Deus e irmãos de Cristo.
O nosso testemunho
Poderíamos pensar que este «caminho» da pobreza
fora o de Jesus, mas não o nosso: nós, que viemos depois d'Ele,
podemos salvar o mundo com meios humanos adequados. Isto não é verdade. Em
cada época e lugar, Deus continua a salvar os homens e o mundo por meio
da pobreza de Cristo, que Se faz pobre nos Sacramentos, na Palavra e
na sua Igreja, que é um povo de pobres. A riqueza de Deus não pode passar
através da nossa riqueza, mas sempre e apenas através da nossa pobreza, pessoal
e comunitária, animada pelo Espírito de Cristo.
À imitação do nosso Mestre, nós, cristãos, somos
chamados a ver as misérias dos irmãos, a tocá-las, a ocupar-nos delas e a
trabalhar concretamente para as aliviar. A miséria não
coincide com a pobreza; a miséria é a pobreza sem confiança, sem
solidariedade, sem esperança. Podemos distinguir três tipos de miséria: a
miséria material, a miséria moral e a miséria espiritual. A miséria
material é a que habitualmente designamos por pobreza e atinge todos
aqueles que vivem numa condição indigna da pessoa humana: privados dos direitos
fundamentais e dos bens de primeira necessidade como o alimento, a água, as
condições higiénicas, o trabalho, a possibilidade de progresso e de crescimento
cultural. Perante esta miséria, a Igreja oferece o seu serviço, a sua diakonia,
para ir ao encontro das necessidades e curar estas chagas que deturpam o rosto
da humanidade. Nos pobres e nos últimos, vemos o rosto de Cristo; amando e
ajudando os pobres, amamos e servimos Cristo. O nosso compromisso orienta-se
também para fazer com que cessem no mundo as violações da dignidade humana, as
discriminações e os abusos, que, em muitos casos, estão na origem da
miséria. Quando o poder, o luxo e o dinheiro se tornam ídolos, acabam por se
antepor à exigência duma distribuição equitativa das riquezas. Portanto, é
necessário que as consciências se convertam à justiça, à igualdade, à
sobriedade e à partilha.
Não menos preocupante é a miséria moral, que
consiste em tornar-se escravo do vício e do pecado. Quantas famílias vivem na
angústia, porque algum dos seus membros – frequentemente jovem – se deixou
subjugar pelo álcool, pela droga, pelo jogo, pela pornografia! Quantas pessoas
perderam o sentido da vida; sem perspectivas de futuro, perderam a esperança! E
quantas pessoas se vêem constrangidas a tal miséria por condições sociais
injustas, por falta de trabalho que as priva da dignidade de poderem trazer o
pão para casa, por falta de igualdade nos direitos à educação e à saúde. Nestes
casos, a miséria moral pode-se justamente chamar um suicídio incipiente. Esta
forma de miséria, que é causa também de ruína económica, anda sempre associada
com a miséria espiritual, que nos atinge quando nos afastamos
de Deus e recusamos o seu amor. Se julgamos não ter necessidade de Deus, que em
Cristo nos dá a mão, porque nos consideramos auto-suficientes, vamos a
caminho da falência. O único que verdadeiramente salva e liberta é Deus.
O Evangelho é o verdadeiro antídoto contra a miséria espiritual: o cristão
é chamado a levar a todo o ambiente o anúncio libertador de que existe o perdão
do mal cometido, de que Deus é maior que o nosso pecado e nos ama gratuitamente
e sempre, e de que estamos feitos para a comunhão e a vida eterna. O
Senhor convida-nos a sermos jubilosos anunciadores desta mensagem de
misericórdia e esperança. É bom experimentar a alegria de difundir esta boa
nova, partilhar o tesouro que nos foi confiado para consolar os corações
dilacerados e dar esperança a tantos irmãos e irmãs imersos na escuridão.
Trata-se de seguir e imitar Jesus, que foi ao encontro dos pobres e dos
pecadores como o pastor à procura da ovelha perdida, e fê-lo cheio de amor.
Unidos a Ele, podemos corajosamente abrir novas vias de evangelização e
promoção humana.
Queridos irmãos e irmãs, possa este tempo de
Quaresma encontrar a Igreja inteira pronta e solícita para testemunhar, a
quantos vivem na miséria material, moral e espiritual, a mensagem evangélica,
que se resume no anúncio do amor do Pai misericordioso, pronto a abraçar em
Cristo toda a pessoa. E poderemos fazê-lo na medida em que estivermos
configurados com Cristo, que Se fez pobre e nos enriqueceu com a sua pobreza. A
Quaresma é um tempo propício para o despojamento; e far-nos-á bem
questionar-nos acerca do que nos podemos privar a fim de ajudar e enriquecer a
outros com a nossa pobreza. Não esqueçamos que a verdadeira pobreza dói: não
seria válido um despojamento sem esta dimensão penitencial. Desconfio da esmola
que não custa nem dói.
Pedimos a graça do Espírito Santo que nos permita
ser «tidos por pobres, nós que enriquecemos a muitos; por nada tendo e, no
entanto, tudo possuindo» (2 Cor 6, 10). Que Ele sustente estes
nossos propósitos e reforce em nós a atenção e solicitude pela miséria
humana, para nos tornarmos misericordiosos e agentes de misericórdia. Com estes
votos, asseguro a minha oração para que cada crente e cada
comunidade eclesial percorra frutuosamente o itinerário quaresmal, e
peço-vos que rezeis por mim. Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!
23 fevereiro, 2014
OH SUBLIME CIÊNCIA DAS ALTURAS!
1. Neste Domingo VII do Tempo Comum, continuamos a
escutar nas alturas, em alta frequência e alta fidelidade, o que não se pode
escutar cá por baixo, em onda média, no meio do barulho e do entulho. E soam
hoje, aos nossos ouvidos atónitos, no nosso coração atónito, as duas últimas
das «seis antíteses» proferidas por Jesus no SERMÃO DA MONTANHA, e referentes à
lei de talião e ao amor ao próximo (Mateus 5,38-48).
2. Diz a conhecida «Lei de talião» – do latim talio, talis [tal,
igual] ouius talionis [lei do corte ou contusão] –, assim formulada
no Livro do Êxodo: «vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão,
pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, contusão por contusão»
(Êxodo 21,24-25). Formulação semelhante desta Lei já se encontra, de resto, nos
parágrafos 196 e 197 do famoso código de Hammurabi, que remonta mais ou menos a
1700 anos antes de Cristo. E, ao contrário do que se diz habitualmente, esta
Lei não representa a barbaridade, mas um avanço civilizacional, pois assenta,
não na multiplicação desenfreada da vingança e da violência, mas na sua
contenção, pois condena o agressor a receber apenas a sanção igual àquela que
ele provocou à vítima.
3. Bem diferente é a chamada Lei da vingança
desenfreada, traduzida, por exemplo, no famoso «Cântico da espada» de Lamec,
que se expressa assim no Livro do Génesis: «Eu matei um homem por uma ferida,
uma criança por uma contusão. Sim, Caim é vingado sete vezes, mas Lamec setenta
e sete vezes!» (Génesis 4,23-24). O que se vê aqui é que Lamec respira uma
vingança irracional, um ódio irracional. O que ouvimos nas alturas da Montanha
é que Jesus respira e ensina um amor irracional, até ao paradoxo, ao absurdo e
à estupidez, dissolvendo completamente os ódios, vinganças e violências do
«Cântico de Lamec», mas ultrapassando também a fria simetria da «Lei de talião».
«Ouvistes o que foi dito: “Olho por olho, dente por dente”. Porém, eu digo-vos:
“Não resistais ao homem mau. Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe
também a esquerda; se alguém te levar ao tribunal para ficar com a tua túnica,
oferece-lhe também o manto; se alguém te forçar a acompanhá-lo durante 5 km,
acompanha-o durante 10 km!”» (Mateus 5,38-41). Oh sublime ciência das alturas!
4. E Jesus continua em alta sintonia, altíssima
alegria, altíssimo amor, estendendo o amor para além dos círculos restritos das
nossas simpatias, até aos nossos próprios inimigos! Amor assimétrico, que Jesus
ensina agora nas alturas, mas que praticará e ensinará até à Cruz! Ele leva até
ao alto do Monte das Bem-Aventuranças e até ao alto do Calvário os nossos ódios
desenfreados e a nossa fria justiça distributiva, e restitui-nos em troca o
perdão excessivo e o amor transbordante.
5. Ao tempo de Jesus, o panorama do judaísmo
palestinense era dominado por duas escolas: a escola conservadora e rigorista
de Shammai e a escola liberal de Hillel. Conta-se que, um dia, um homem se terá
apresentado na escola de Shammai, e fez ao mestre um estranho pedido: «quero
que, enquanto eu me mantiver apenas com um pé no chão, tu me expliques toda a
Lei». Diz-se que Shammai se limitou a pegar na sua vara de mestre e a correr o
homem pela porta fora, pois era óbvio que o homem fazia um pedido impossível de
cumprir, tal era a vastidão da Lei. Mas o homem não desanimou e dirigiu-se à
escola de Hillel, a quem formulou o mesmo pedido. E Hillel terá respondido de
pronto: «Nada mais fácil: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a
ti!”».
6. A esta sentença de Hillel, na sua formulação
negativa, deu-se o nome de «regra de ouro». Em boa verdade, ela já aparece no
Livro de Tobias 4,15. É, todavia, fácil de verificar, que esta sentença é de
fácil cumprimento. Dado que o seu teor é negativo, para a cumprir, basta a
alguém cruzar os braços e nada fazer. Procedendo assim, nada fará de
inconveniente a ninguém, cumprindo assim escrupulosamente a sentença formulada.
7. Tentando talvez evitar a inacção acoitada na
formulação negativa anterior, os Evangelhos apresentam desta máxima uma
formulação positiva: «Faz aos outros o que queres que te façam ti!» (Mateus
7,12; Lucas 6,31). Levando a sério esta formulação, já não é suficiente jogar à
defesa e nada fazer, mas é, de facto, requerido o fazer. Seja como for, as duas
formulações apresentadas, quer a negativa quer a positiva, padecem do mesmo
vício: sou eu o centro, é à minha volta que tudo roda, e o que eu faço ou deixo
de fazer é com o objectivo claro de que me seja retribuído outro tanto!
8. O tom positivo da referida «regra de
ouro» recebe ainda outra bem conhecida formulação: «Ama o teu próximo como a ti
mesmo!», que atravessa a inteira Escritura: Levítico 19,18; Mateus 22,39;
Romanos 13,9; Gálatas 5,14; Tiago 2,8. Mas também esta formulação é perigosa:
primeiro, porque eu continuo o ser o centro, sendo eu a medida do amor devido
aos outros; segundo, porque, se alguém não se ama a si mesmo (e são,
infelizmente, cada vez mais os casos!), como poderá cumprir devidamente esta
máxima?
9. É aqui que cai, como uma lâmina, a força do
Evangelho que sai dos lábios de Jesus: «Amai-vos uns aos outros como Eu vos
amei!» (João 13,34). Aqui, a medida não sou eu. Aqui, a medida é Jesus, o das
alturas, o do alto das montanhas. Aqui, a medida é sem medida! Aqui, o amor não
é interesseiro. Aqui, o amor é puro, radical, incondicional, assimétrico, sem
retorno. Aqui, o amor é até ao fim! Oh sublime ciência das alturas!
D. António Couto, in Mesa de Palavras
19 fevereiro, 2014
Cordas
É uma curta-metragem de 10 minutos, mas que transcende qualquer um pelo seu nobre conteúdo, que nos faz questionar até onde somos capazes de partilhar a nossa vida com o próximo. Foi premiada recentemente com o prémio Goya 2014 para a melhor curta-metragem de animação. Está em espanhol, mas na verdade os gestos transmitem mais da verdadeira beleza deste pequeno filme do que aquilo que podamos não perceber do espanhol.
A rotina de Maria na escola vai ser alterada pela chegada de um menino muito especial. E rapidamente se converterão em grandes amigos.
Será que estes duas crianças têm algo para nos ensinar?
18 fevereiro, 2014
Os Miseráveis
Miserável, segundo o dicionário, é aquele que vive na miséria, que é muito
pobre e que inspira desprezo ou que desperta compaixão.
“Os Miseráveis” amplia(m) todos estes conceitos ao plural. No filme também!
“Look down, look down” cantam os prisioneiros em uníssono no princípio,
quase que a convidar-nos a “descer” à miséria.
A história alarga-se por várias décadas e assistimos sobretudo aos
acontecimentos no intervalo de 1815 a 1832. Na realidade somos transportados
para uma França que sente os efeitos da Revolução de 1789 e deixa transparecer
a marca da estratificação social e da crise de valores. Uma França cujo sistema
legal condena um indivíduo que, vivendo na miséria, rouba pão para alimentar a
família, confirmando-nos a ideia já há muito profetizada por Ortega y Gasset :
“Nós somos nós e as nossas circunstâncias”.
Jean Valjean cumpriu pena de 19 anos por este crime e quando libertado
comprova o rótulo que lhe atribuíram, voltando a roubar para sobreviver. Mas,
quando experimenta a compaixão de um Bispo que o acolhe numa sociedade muito
afastada da “liberdade, igualdade e fraternidade”, deixa-se perdoar e abraça o
caminho da conversão. E é nestas circunstâncias que sobressaem um conjunto de
mudanças comportamentais. “Quem sou eu?” diz-nos a dada altura Jean Valjean.
É dentro da temática dos valores morais, susceptíveis de nos guiarem, de se
renovarem, que vemos várias histórias cruzadas e transversais, vários caminhos
possíveis e também o nosso:
Será o nosso caminho o mesmo que Valjean escolheu e seguiu, proferido por
ele já às portas da morte: “Amar outra pessoa é ver a face de Deus”?
Será que nos deixamos sucumbir de cada vez que a esperança nos desilude,
como a Fantine?
Será que somos capazes de ir além das nossas circunstâncias, como Éponine,
que nos revela um amor gratuito e sem interesse, apesar de uma educação num
ambiente hostil e interesseiro?
Seremos nós também capazes de renunciar às origens pelo sentido de justiça
e liberdade, como Marius?
Será que estaremos condenados (e é mesmo isso, condenados!) a pensar como
Javert, quando diz: “Homens como tu não mudam”?
Podemos viver vidas difíceis, mas o espírito humano é mais forte do que
qualquer outra coisa. E é possível continuar sempre a sonhar, como Fantine, que
“o Senhor é piedoso” e (acrescento) os “homens misericordiosos”, e como todas
as outras personagens “Depois da barricada há um Mundo a ver”. Na luta Ele dá
força e acompanha!
É que às vezes a única coisa a que nos podemos comprometer é a isso mesmo:
a estar lá na miséria e no sofrimento. E isso de miserável nada tem!
Maria Inês Goucha, in http://www.essejota.net/index.php?b=home
17 fevereiro, 2014
História de uma vocação…
…
testemunho de um carmelita descalço secular
Ao iniciar este artigo
testemunhal, veio-me ao pensamento Santa Teresa do Menino Jesus, que ao começar
a sua autobiografia escreveu que ia “cantar as misericórdias do Senhor”. De
facto a história da vocação de qualquer pessoa, outra coisa não é do que “cantar
as misericórdias do Senhor”, pois Ele é o protagonista, é Ele quem chama e é Ele
que nos dá as forças para lhe darmos o nosso sim.
A minha vocação carmelita começa na minha infância,
com uma atracção especial por Jesus e todo o religioso.
Sem ter a consciência disso, posso
dizer, sem faltar à verdade que, desde então, era um contemplativo. Assim, era
Deus humanado, Jesus Cristo quem me atraía para Si e me chamava a segui-Lo.
O meu contacto, desde muito
pequenino, com o Carmelo ajudou muito a crescer e a desenvolver este espírito
contemplativo que o Senhor depositou em mim.
Durante a minha adolescência
senti, de maneira muito intensa, que O Senhor me tinha seduzido e que não tinha
outra opção senão deixar-me seduzir por Ele. Nasceu, então, uma sede de oração.
Tinha uma grande necessidade de fazer oração. Seguia as minhas devoções (oração
vocal), mas isto não me bastava, precisava que me ensinassem a orar (oração
mental). O exemplo e testemunho de Santa Teresa de Jesus, fizeram-me sentir que
era na “escola” do Carmelo que eu devia aprender esta “ciência” maravilhosa que
me permitia saborear a presença deste Deus que me chamava a viver na Sua
intimidade. Aqui percebi que a minha vocação era o Carmelo. Desejava ser filho
de Santa Teresa de Jesus e de São João da Cruz. A maneira de realizar esta
vocação, não o sabia.
Iniciei, na juventude, um processo
vocacional, com o meu director espiritual, e vendo e analisando as várias
possibilidades de consagração (sacerdotal, religiosa ou laical), segundo
variados carismas, que como flores, perfumam o imenso jardim que é a Igreja,
percebi que só no Carmelo me podia realizar e ser feliz, como pessoa e como
cristão.
Senti, desde logo, que a minha
vocação era contemplativa e laical. Desejava ser como um monge no meio do mundo.
Como realizar esta vocação? Dentro
do Carmelo tinha a oportunidade de conciliar a minha vocação carmelitana,
contemplativa e laical. E foi assim que entrei no Carmelo Secular.
Durante um tempo ainda pensei que o melhor seria
entrar na Ordem como frade e fiz uma pequena experiência vocacional entre os
Frades Carmelitas. Mas, realmente, identificava-me mais com o Carmelo Secular.
A fundação do Carmelo Secular do
Porto (onde habito) deu-se no dia 16 de Julho de 1997, no antigo e extinto
Carmelo do Porto. Como o grupo era muito numeroso, o Delegado Provincial do
Carmelo Secular, determinou que se dividisse em dois grupos. Na verdade havia
um grupo proveniente de Paços de Ferreira e um grupo de pessoas da região do
Porto. Esta divisão deu origem às duas comunidades, atuais, do Carmelo Secular
de Paços de Ferreira e do Porto.
Seguindo um rumo novo, o grupo do
Porto, por minha iniciativa, foi reunido e estabeleceu-se no Convento dos
Carmelitas Descalços do Porto. Com o aval do Provincial e do superior do
Convento.
Sugeri que a comunidade se
chamasse Stella Maris, um título de Nossa Senhora do Carmo, tão querido entre
nós, carmelitas.
Passamos por muitas fases e
dificuldades, mas permanecemos fiéis aos nossos encontros mensais, de formação
e oração.
Fui o fundador da Fraternidade
Stella Maris do Carmelo Secular do Porto, o impulsionador, responsável e
formador, desde 1997 até 2010. Agora a comunidade continua, com novos rumos e
sempre na escuta do que Deus nos pede.
Juntamente com as monjas de
clausura e os frades, os carmelitas seculares, formam uma mesma família, a
Ordem dos Carmelitas Descalços, com a mesma vocação e missão dentro da Igreja e
para o mundo.
Como carmelita descalço, tenho a
vocação primeira de buscar, pela oração e contemplação, a presença e a intimidade
com Deus, que me ama com um amor eterno e que me aceita tal como sou, com as
minhas virtudes e defeitos. E como missão, testemunhar, na família, no ambiente
em que vivo, no trabalho e onde quer que me encontre, esta experiência de Deus
que nos envolve com o Seu amor e misericórdia.
Deste modo, encontrei a minha
vocação: ser um contemplativo no meio do mundo, um “monge/eremita” urbano,
levando a todas as realidades humanas e às estruturas sociais esta presença
misteriosa de Deus, na nossa alma, que nos alegra, fortifica e dá sentido à
nossa existência, pois “Só Deus basta”!
António
José de Jesus (Gomes Machado), OCDS
16 fevereiro, 2014
Medida alta da vida cristã ordinária
1. Continuamos a escutar, neste VI Domingo do Tempo Comum, o sublime
Discurso da Montanha, hoje as quatro primeiras das famosas «seis antíteses»
(Mateus 5,17-48), cujos temas são: o homicídio, o adultério, o divórcio, o
perjúrio, a lei de talião, o amor ao próximo. Ouviremos então, neste VI Domingo
do Tempo Comum, o sublime dizer de Jesus sobre os primeiros quatro temas:
homicídio, adultério, divórcio e perjúrio (Mateus 5,17-37), enquanto nos
preparamos para ouvir no próximo Domingo, VII do Tempo Comum, os últimos dois
importantes temas: a lei de talião e o amor que a todos devemos (Mateus
5,38-48).
2. Não nos esqueçamos que continuamos na Montanha, nas alturas, pois há
certas maneiras de viver e de sentir que só podem ter o seuhabitat nas
alturas. O Papa João Paulo II escreveu na Carta ApostólicaNovo Millennio
Ineunte (2001), n.º 31, que perguntar a um catecúmeno se ele quer
receber o baptismo é o mesmo que perguntar-lhe se ele quer ser santo, e
fazer-lhe esta última pergunta é colocá-lo no caminho do Sermão da Montanha. E
logo a seguir, na mesma Carta e no mesmo número, João Paulo II define a
santidade como a «”medida alta” da vida cristã ordinária». É, portanto,
imperioso que o cristão aprenda a ganhar altura, não para se separar dos
caminhos lamacentos do quotidiano, mas para os encher de um amor maior.
3. Cada uma das «seis antíteses» abre com as palavras de Jesus: «Ouvistes o
que foi dito»; «porém, eu digo-vos». Com esta técnica de contraponto, Jesus não
quer que se desperdice nada do Antigo Testamento; quer antes enchê-lo, levar
quanto aí é dito, que é Palavra de Deus, ao seu ponto mais fundo e mais alto.
Por exemplo, quando ouvimos o que foi dito: «Não matarás!», não basta
determo-nos no limiar do assassínio, como manda a letra, de acordo com uma
leitura literalista e legalista da Palavra de Deus. É preciso ir mais fundo e
mais alto: mondar todas as raízes da ira, do ciúme, da inveja, do ódio,
desprezo e desamor, e encher todos os regos e cicatrizes de mais amor, mais
amor, mais amor, só amor. Não se trata apenas de travar a fundo no último
momento, evitando o acidente; trata-se de viver permanentemente a nova cultura
do amor. Neste sentido, escreve S. João, com ponta fina de diamante, não na
pedra ou no papiro, mas no nosso coração meio embotado e engessado: «Quem não
ama o seu irmão, é homicida» (1 João 3,15).
4. E assim também o adultério, o divórcio, o perjúrio. Qualquer
destes pontos representa o fim de um amor, que é sempre um acontecimento
dramático. Veja-se atentamente, neste mundo cinzento e insonso, sem sol e sem
sal, em que vivemos, o drama imenso que cada divórcio comporta. Mas, para
encher de sentido o «porém, eu digo-vos» de Jesus sobre estes pontos precisos,
também não basta viver uma vida cinzenta e mentirosa e evitar em cima da linha
chegar ao adultério, ao divórcio ou ao perjúrio. É necessário encher a vida inteira
de amor, de mais amor, só de amor.
5. É preciso levantar a vida, o coração, até ao cimo do monte das
Bem-Aventuranças, e deixar-se deslumbrar, como a multidão, com este novíssimo,
em conteúdo e método, ensinamento de Jesus (Mateus 7,28-29).
6. O belo Livro de Ben-Sirá (15,16-21) lembra-nos hoje que os mandamentos
de Deus estão todos cheios apenas de bondade. E S. Paulo, na Primeira Carta aos
Coríntios (2,6-10), diz-nos que a sabedoria dos senhores deste mundo – e às
vezes nós pretendemos sê-lo com as nossas acções insensatas – nos encaminha
para a ruína. É de Deus que nos vem a maravilha de uma sabedoria nova, isto é,
de uma maneira nova de viver e de morrer. Chama-se santidade, «medida alta» da
vida cristã.
7. À nossa frente estão sempre os caminhos do Senhor, que devemos
calcorrear com alegria e felicidade recebida e dada, enquanto cantamos a imensa
partitura do Salmo 119, admirável compsição de 1064 palavras reunidas,
repartidas, repetidas, entretecidas e entretidas à volta da Palavra de Deus que
alumia a nossa vida. Blaise Pascal recitava este Salmo todos os dias.
António Couto, in Mesa de Palavras
03 fevereiro, 2014
A rapariga que roubava livros
Título original: The book thief
Realizador: Brian Percival
Com: Sophie Nélisse, Nico Liersch, Emily Watson, Geoffrey Rush
Género: drama, guerra
Outros dados: 2013, cores, 131min, EUA, Trailer
Sou um sortudo por poder escrever sobre um dos filmes mais bonitos e
marcantes que alguma vez vi. As relações de amizade desenroladas, a grande
interpretação de Geoffrey Rush e a banda sonora composta pelo eterno John
Williams são algumas das belezas deste filme.
A Rapariga que Roubava Livros baseia-se no bestseller de Markus Zusak e tem
a sua acção na Alemanha, durante a II Guerra Mundial. O enredo é narrado pela
própria morte, que nos conta a história de uma rapariga, Liesel Meminger, que
lhe captou o interesse. Liesel, filha de uma comunista perseguida pelo regime
Nazi, é entregue a uma família de acolhimento alemã, composta por Rosa e Hans.
Rosa é uma mulher fria e pouco alegre enquanto que Hans, pelo contrário, é um
homem bastante amável e bondoso.
Hans, homem culto, descobre que Liesel não sabe ler nem escrever e decide
então ensinar-lhe o abecedário. A rapariga vai alimentando o seu gosto pela
leitura ao mesmo tempo que conhece o pequeno Rudy, com quem cria uma forte
amizade. É uma amizade que comove. Os pequenos gestos, filmados com um especial
encanto, como a alegria que os dois demonstram quando brincam.
Tocou-me muito a amizade nascida e construída entre cada uma das
personagens. É engraçado verificar que são as suas coesas relações que lhes dão
a esperança, em tempos de crise. Não estará na altura, de confiarmos
verdadeiramente nas pessoas que mais querem o nosso bem, para ultrapassarmos os
momentos difíceis?
Este é um filme que nos faz pensar sobre as nossas amizades e sobre como
usar as nossas qualidades para afastar a escuridão. Temos muito medo da morte,
do desconhecido, mas a bondade presente em cada um de nós e a vontade de amar
cada vez mais ajudam-nos a relativizá-la. Se calhar não somos nós que somos
assombrados pela morte, mas é ela que é assombrada por todos nós...
António Oom
Costa, in http://www.essejota.net/
31.01.2014
02 fevereiro, 2014
COM JESUS NO CORAÇÃO OU O RETRATO DE ANA E SIMEÃO
1. A Igreja Una e Santa celebra no dia 2 de Fevereiro, quarenta dias depois
do Natal, a Festa da Apresentação do Senhor, que as Igrejas do Oriente conhecem
por Festa do Encontro (Hypapantê) e dos Encontros: Encontro de Deus com o seu
Povo agradecido, mas também de Maria, de José e de Jesus com Simeão e Ana.
Também connosco.
2. Quarenta dias depois do seu
nascimento, sujeito à Lei (Gálatas 4,4), Jesus, como filho varão primogénito, é
apresentado a Deus, a quem, sempre segundo a Lei de Deus, pertence. De facto, o
Livro do Êxodo prescreve que todo o filho primogénito, macho, quer dos homens
quer dos animais, é pertença de Deus (Êxodo 13,11-13), bem como os primeiros
frutos dos campos (Deuteronómio 26,1-10).
3. É assim que, para cumprir a Lei
de Deus, quarenta dias depois do seu nascimento, Jesus é levado pela primeira
vez ao Templo, onde, também pela primeira vez, se deixa ver como a Luz do mundo
e a nossa esperança.
4. Compõe a cena um velhinho chamado
Simeão, nome que significa «Escutador», que vive atentamente à escuta, em
Hi-Fi, alta-fidelidade, alta frequência, alta definição, amor novo, e que o
Evangelho apresenta como um homem justo e piedoso, que esperava a consolação de
Israel. Ora, esse velhinho que vivia à espera e à escuta, com premurosa atenção
e coração vigilante, veio ao Templo sob o impulso do Espírito (en tô pneúmati).
Fica aqui declarada a qualidade da energia e da alegria que move o velho e
querido Simeão: não é movido a carvão, nem a água, nem a vento, nem a petróleo
e seus derivados, nem a electricidade, nem a energia nuclear. Simeão é movido
pelo Espírito Santo. Maneira novíssima de viver, pausa e bemol na nossa
impetuosidade, na nossa vontade de aparecer e de fazer, pausa e bemol nos
nossos protagonismos e vontade de poder. Falamos quase sempre antes do tempo, e
não chegamos a dar lugar à suave voz do Espírito. Na verdade, adverte-nos
Jesus: «Não sois vós que falais, mas o Espírito Santo» (Marcos 13,11; cf.
Mateus 10,20; Lucas 12,12). Portanto, é urgente esperar! Regressemos, pois, à
beleza de Simeão. Ao ver aquele Menino, recebeu-o carinhosamente nos braços.
Por isso, os Padres gregos dão a Simeão o título belo de Theodóchos [=
«recebedor de Deus»]. É então que Simeão entoa o canto feliz do entardecer da
sua vida, um dos mais belos cantos que a Bíblia registra: «Agora, Senhor, podes
deixar o teu servo partir em paz, porque os meus olhos viram a tua salvação,
que preparaste diante de todos os povos, Luz que vem iluminar as nações e
glória do teu povo, Israel!» (Lucas 2,29-32).
5. E, na circunstância, também uma
velhinha chegou carregada de Graça e de Esperança. Chamava-se Ana, que
significa «Graça». É
dita «Profetisa», isto é, que anda, também ela, sintonizada em Hi-Fi,
alta-fidelidade, com a Palavra de Deus escutada, vivida e anunciada. Diz ainda
o texto que era filha de Fanuel, nome que significa «Rosto de Deus», e que era
da tribo de Aser, que quer dizer «Felicidade». Tanta intimidade com Deus!
Também esta velhinha, serena e feliz, com 84 anos, número perfeito de números
perfeitos (7 x 12), teve a Graça de ver aquele Menino. E diz bem o texto do
Evangelho que Ana «falava daquele Menino a todos os que esperavam a libertação
de Jerusalém» (Lucas 2,38). Outra vez a beleza inteira do díptico do Evangelho
de Lucas: Simeão e Ana. Simeão esperava e Ana anunciava. Eis aqui presente,
nestes dois maravilhosos velhinhos, a inteira Escritura dos dois Testamentos, e
o retrato a corpo inteiro do Consagrado, que, na Bíblia hebraica, se diz Nazîr,
um nome passivo e receptivo, totalmente dedicado a Deus, conduzido por Deus,
«compondo» com emoção os acontecimentos de Deus.
6. Esta é a Festa da Alegria e da
Esperança acumulada e realizada. É a Festa da Luz. Simeão e Ana viram a Luz e
exultaram de Alegria. Hoje somos nós que nos chamamos Simeão e Ana. Somos nós
que recebemos esta Luz nos braços, e que ficamos a fazer parte da família da
Felicidade e a viver pertinho de Deus, Rosto a Rosto com Deus, Escutadores
atentos do bater do coração de Deus, movidos pelo Espírito de Deus, Recebedores
de Deus, Anunciadores de Deus. Rezamos hoje para que, nesta sociedade de coisas
e de números (cf. Isaías 5,8), os Consagrados vivam cada vez mais Rosto a Rosto
com Deus, e dêem testemunho no mundo deste Dom maravilhoso.
7. Por isso e para isso é que Ele
vem, conforme a lição de Malaquias 3,1-4 e Hebreus 2,14-18. Vem de Deus, mas
senta-se connosco. Em tudo semelhante aos seus irmãos. Lava-nos os pés e a
alma. Apaga os nossos pecados. Põe-nos em comunhão
com Deus. Tanta proximidade faz deste Dia a Festa do Encontro.
8. Não nos conformemos, pois, com as pedras e
as pautas deste mundo (Romanos 12,2). Experimentemos viver em Hi-Fi, alta
frequência, alta-fidelidade, alta dedicação, amor novo. Anda por aí uma música
nova à nossa espera. É como um som que nunca se ouviu, como um silêncio que
nunca se calou! Que Maria, a Mãe da Alegria, nos leve pela mão e nos ensine a
subir e a descer a escadaria do coração.
D. António Couto, in Mesa de Palavras
01 fevereiro, 2014
Patriarca de Lisboa pede aos «servidores da justiça» para se deixarem iluminar pela «inspiração bíblica»
«Deixai-vos iluminar, de facto, pela inspiração bíblica, cada vez mais
acolhida no coração e na inteligência, donde promane uma justíssima vontade», pediu
esta quarta-feira o patriarca de Lisboa aos «servidores da justiça».
As palavras de D. Manuel Clemente, publicadas no site do Patriarcado, foram
proferidas na sé patriarcal lisboeta, durante a missa de abertura do novo ano
judicial.
«Falei de “inspiração”, porque assim reconhecemos a tradição bíblica, como
foi passada a escrito pelos nossos antepassados na fé. Por isso a lemos e
relemos, para que tome bem conta dos nossos corações, como semente caída em boa
terra, que assim germina, consequente e forte», apontou.
«A partir de Deus, iremos onde a sua inspiração nos levar, sempre muito
além e até diversamente do que prevíamos», acrescentou.
O patriarca pediu aos participantes na celebração para que a Bíblia seja
para eles fonte de interpelação permanente: «E sem nos habituarmos
superficialmente a uma Palavra que, bem pelo contrário, nos desabitua e alarga
sempre».
«Inconstância ou acolhimento, eis o que determina da nossa parte a diversa
consequência da inspiração divina, no que somos ou não somos, no que decidimos
ou não e no modo como tudo isso aconteça», afirmou.
O também presidente da Conferência Episcopal Portuguesa sublinhou que no
âmbito da justiça «cada caso é um caso, mas contém sempre um ser humano, tantas
vezes para humanizar ainda e muito».
O prelado mostrou-se convicto de que os agentes judiciais são «especiais
colaboradores» do «Deus da justiça e da paz», para que estas «se pratiquem no
mundo».
«Acreditai que Deus está convosco e acreditai-vos com Deus, em confiança
profunda no que Ele quer fazer através de vós, para que a cada um seja dado o
que lhe é devido», apelou o patriarca.
D. Manuel Clemente lembrou que «a Igreja serve a sociedade como
“inspiração” e aproxima-se da justiça humana para lhe oferecer o que acredita
convictamente ser uma divina potenciação».
Rui Jorge
Martins, in © SNPC | 30.01.14
31 janeiro, 2014
ENCONTRO EUROPEU DE FORMADORES
Decorre entre os dias 27
de Janeiro a 1 de Fevereiro de 2014, em Ávila, o encontro europeu de formadores
das novas vocações carmelitas na Europa. Esta actividade conta com cerca de 30
participantes vindos dos mais diversos países da Europa e ainda do Líbano e
Egipto. Tem sido um excelente oportunidade de reflectir sobre a formação das
novas gerações de candidatos à nossa Ordem, tendo em conta o mundo concreta co
mas suas novas coordenadas donde provêm as vocações. O tema tem sido amplo mas
incide particularmente sobre a etapa do postulantado. Contou a reflexão do Pe
António Sicari, carmelita italiano, do Pe Joaquim Teixeira, provincial de
Portugal, e do Pe Tadeusz Florek, carmelita e psicólogo polaco. Partilharam as
diferentes modalidades de postulantado existentes na Europa, pois esta etapa
oferece bastantes modulações. De Portugal, participam ainda o Pe Vasco Nuno e o
Pe Vitor Hidalgo.
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