05 abril, 2014

VIDA DADA EM ABUNDÂNCIA




1. A «caminhada» quaresmal aproxima-se da sua meta e do seu verdadeiro ponto de partida: a Cruz Gloriosa onde resplandece para sempre o Rosto do imenso, indizível amor de Deus. Nesta altura do percurso (supõe-se que encetámos uma subida espiritual: entenda-se no Espírito Santo e com o Espírito Santo), baptizados e catecúmenos devem estar já a ser Iluminados por essa luz, a ponto de se desfazerem das «obras das trevas» e de abraçarem as «obras da Luz», como verdadeiros discípulos que seguem o Mestre até ao fim, que é também o princípio, a Fonte da Vida verdadeira donde jorra o Espírito Santo (sempre Actos 2,32-33; João 19,30.34; 7,38-39). Os catecúmenos têm neste Domingo V da Quaresma – Domingo da dádiva da Ressurreição – os seus terceiros «escrutínios»: última «chamada» para a Liberdade antes da Noite Pascal Baptismal.

 2. A Ressurreição de Lázaro (João 11,1-45) constitui o sexto dos sete «sinais» do Mistério de Cristo segundo o Evangelho de João. Depois das bodas de Caná (João 2,1-12) (1.º), da cura do filho do oficial em Cafarnaum (João 4,46b-54) (2.º), da cura do paralítico na «piscina probática» (João 5,1-47) (3.º), da multiplicação dos pães e dos peixes (João 6,1-14) (4.º), da Iluminação da cego de nascença (João 9,1-41) (5.º), e antes do Sétimo Grande Último Primeiro «Sinal» que é a própria Ressurreição do Senhor, «o Sinal da Santa Cruz», decifrado pelo Espírito Santo, com que todos fomos (somos) marcados para sempre (Efésios 1,13; 4,30).

3. Em boa verdade, o episódio da morte / ressurreição de Lázaro remete de forma clara para a Morte / Ressurreição do Senhor. O tempo que marca a narrativa não é o tempo de Lázaro (da sua doença, da sua morte, do seu sepultamento), mas é o tempo (a hora) de Jesus, o Filho de Deus, Aquele-que-Vem sempre, passageiro total, pascal. Por isso, quando recebe a notícia da doença do amigo, Jesus deixa passar propositadamente dois dias (João 11,6), e é ao terceiro dia que se encaminha para a Judeia (João 11,7), e é ao terceiro dia que chama Lázaro da morte (João 11,43). Pouco importa que para Lázaro seja já o quarto dia! (João 11,17 e 39). Verdadeiramente importante é a hora-que-vem (!), agora, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus (João 5,25 e 28), Aquele-que-dá-a-vida (João 5,21; 1 Coríntios 15,45), esplendoroso Rio de Luz e de Sentido a inundar a terra inteira, enchendo-a de Vida e de Saúde (Ezequiel 47,1-12; Apocalipse 22,1-2). Verdadeiramente importante é este terceiro dia em que o Filho de Deus é glorificado (João 11,4), e suscita a fé de todos os intervenientes na cena: dos discípulos (João 11,15), de Marta (João 11,27), de Maria (João 11,29.32), da multidão (João 11,42), de muitos judeus (João 11,45).

4. Marta permanece ligada à corrente de uma teologia tradicional: «Eu sei (oìda) que ressuscitará na ressurreição no último dia» (João 11,24), e não deixa entrar em si a torrente da novidade enunciada por Jesus, que é Jesus: «Eu Sou (egô eimi) a ressurreição e a vida» (João 11,25). E, quando Jesus dá ordens para retirar a pedra (João 11,39), Marta avança logo a inutilidade, mesmo o desconforto de uma tal acção, dado que já lá vão quatro dias desde que Lázaro morreu (João 11,39). O certo é que éretirada a pedra (João 11,41), e a nova ordem de Jesus, Lázaro sai para fora ligado com as faixas e o rosto envolto num sudário (João 11,44).

5. Como tudo isto aponta, em contraponto, para a ressurreição de Jesus. Aqui, no caso de Lázaro, a pedra é mandada retirar (árate) e é retirada(êran). O verbo aírô [retirar] aparece nos dois casos na forma activa e no tempo aoristo. Entenda-se: por mãos humanas e por algum tempo. Mas quando se tratar do túmulo de Jesus, a pedra apresenta-se retirada (êrménon) na forma passiva e no tempo perfeito (João 20,1). Entenda-se: por Deus e para sempre! È o inefável que se abre diante dos nossos olhos! E também as faixas não prendem, e o sudário não encobre! As faixas estão no chão, e o sudário cuidadosamente enrolado em um lugar (João 20,6-7). Tudo está feito, e bem feito. Nenhuma acção de libertação é necessária, como o foi em João 11,44).

6. Significativamente estes discípulos de Jesus ficam confusos com o sono-morte de Lázaro (João 11,11-13) – a morte confunde-nos a todos (!) – mas compreendem perfeitamente que a ida de Jesus para a Judeia é a sua entrega à Morte (João 11,8), e vislumbram até o significado Baptismal dessa Morte, uma vez que manifestam o desejo de morrer com Ele (João 11,16), isto é, querem Viver aquela Morte! Como bons catecúmenos que seguiram fielmente o Mestre, aprenderam já que a Vida verdadeira brota daquela Morte na qual verdadeiramente somos baptizados (Romanos 6,3-4), com-mortos, com-sepultados, com-ressuscitados, com-vivificados, com-sentados na Glória! (Efésios 2,5-6; Colossenses 2,12-13). Sentada estava Maria (João 11,20), figura do díscípulo (Lucas 10,39); mas quando lhe é dito ao ouvido que o Senhor a chama (João 11,28), levantou-se (êgérthê: verbo técnico da Ressurreição: Lucas 24,34; 1 Coríntios 15,4) de imediato e foi ao seu encontro (João 11,29).

7. Belo, belo, belo este Jesus que vem ao nosso encontro, que sente as nossas dores e chora connosco, que se comove connosco, que nos ama e nos chama sempre, inclusive dos vales onde vamos caindo mortos. Ele é a Vida. Ainda hoje, em Betânia, actual al-Azariye, aldeiazinha situada na colina oriental que desce do monte das Oliveiras, a cerca de três km de Jerusalém, se pode visitar, descendo 24 degraus, o túmulo que a tradição popular atribui a Lázaro. Ao lado está a igreja franciscana, dita «da amizade», levantada pelo famoso arquitecto Barluzzi, em 1952-1953.

8. O imenso texto de Ezequiel 37,12-14 é uma belíssima metáfora plantada no meio da Escritura, uma lampadazinha (2 Pedro 1,19) que aponta já para a Luz nova e grande de Jesus. A metáfora mostra-nos que os exilados na Babilónia são como ossos ressequidos e sem nenhuma esperança. Eles estão na morte e na humilhação. O seu discurso não deixa dúvidas: «Os nossos ossos estão secos; a nossa esperança está desfeita; para nós está tudo acabado» (Ezequiel 37,11). Mas a Palavra de Deus manda também na morte. Apontando para o Novo Testamento, Deuschama os mortos dos seus túmulos, e fá-los reviver. Jesus que passa no Evangelho de Hoje «grita com voz forte» (João 11,43), e Lázaro, morto, saiu do túmulo.

9. Paulo não se cansa de nos lembrar a vida nova que habita os filhos de Deus (Romanos 8,8-11). «Viver em Cristo» ou «no Espírito» são fórmulas baptismais intensas que indicam a vida nova do baptizado: com o dom da Iluminação, marcado pelo Espírito até à Vida eterna. Mas agora é tempo de passar, como Jesus, ao estilo de Jesus, dando um testemunho credível da nossa condição nova de filhos de Deus, deixando o fruto do Espírito iluminar a nossa vida. E «o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio» (Gálatas 5,22-23).

10. Sim, o Salmo 130(129) é um grito desde o abismo profundo em que jazemos atolados. São apenas 52 palavras hebraicas que atiramos a Deus, Senhor do Amor fiel (hesed) da Redenção (pedût). Cada orante que grita este Salmo sabe em que grau de profundidade está. Este é um dos Salmos graduais ou das subidas ou das peregrinações. É uma voz que sobe até àquele Senhor que não desprezou as nossas profundezas, mas até elas desceu, e até elas desce!


D. António Couto, in Mesa de Palavras

04 abril, 2014

12 Anos Escravo


Steve McQueen é o autor deste oscarizado filme sobre a escravatura. Michael Fassbender volta a colaborar com o realizador – é a terceira vez – ao lado de revelações negras que iluminam a tristeza da servidão com uma humanidade que comove, deleita e ensina. Este é o terceiro filme de McQueen, depois de Hunger e Shame. E o autor é quase um actor – pela omnipresença da sua singular sensibilidade, a perfeição do gesto com a câmara e uma apurada capacidade literária.

O terceiro filósofo do pódio Grego atribuía à verosimilhança uma das qualidades máximas da tragédia. Quanto mais próxima do real fosse a obra, mais verdadeira, mais autêntica. No cinema, o prólogo “baseado em factos reais” (mesmo que não incorporado nas páginas no filme), predispõe o espectador para uma intensidade mais humana do que um filme pode dar à partida – por se tratar de um filme e não da vida. Ou não fosse esta a razão fundamental de se anunciar ao interlocutor a sua dimensão extra-ficcional… Solomon Northup, homem concreto que existiu e pisou a terra como nós, voltou a sua pena para o Norte da literatura autobiográfica e em 1853 publicou a sua assombrosa memória, que vendeu trinta mil exemplares em três anos e depois deslizou para o esquecimento. Só voltaria a ser lida com atenção por dois historiadores que republicaram a história, juntando-lhe notas históricas, em 1968. Mais tarde, deu origem a uma série televisiva, e agora a esta longa-metragem do realizador britânico. Northup, que acompanhamos ao longo de duas horas, encabeça com a sua homónima obra todo um oceano de escravos de que não se conhece a vida porque eram escravos, e muitos porque não escreveram. Neste caso, a veracidade do que se conta parte do próprio ser humano que sofreu aquilo que ouvimos e vemos ser contado. No final do seu livro, o autor reforça aquilo que acaba de ser dito: “Isto não é ficção, não é exagero. Se falhei em alguma coisa, foi em apresentar ao leitor, de forma proeminente, o lado iluminado deste quadro”.

O filme começa com a apresentação da figura principal, Solomon, carpinteiro e violinista oriundo de Nova Iorque, pai de duas crianças, que é recrutado por dois colaboradores de um circo ambulante para um trabalho de breve duração mas alta remuneração. Sem avisar a mulher, Northup aceita o temporário emprego e parte com o par circense em viagem. O seu dom musical é pouca água para o rio que o espera, cuja foz é inesperada para a personagem, mas previsível para o espectador. Drogado e espancado depois do sono, Solomon é levado para Nova Orleães, onde ainda consegue, ao chegar, escrever uma carta à família, mas sem grande efeito – pois o seu rasto perdera-se pelo caminho. Solomon adopta o pseudónimo que lhe é atribuído e, forçado a esquecer a sua vida em Nova Iorque, inicia um novo ciclo da sua vida, que durará doze anos.

Se este filme desperta algum tipo de reflexão no espectador, dela não se pode falar sem mencionar o engenho de McQueen na forma como nos mostra cada fragmento deste filme. Ao falar de escravatura, estamos também a falar em liberdade. E uma das técnicas que McQueen usa para estabelecer esse contraste é alternar passos narrativos duros de ver com planos da natureza circundante, como as árvores ou o cair do dia, que nos trazem as sensações simultâneas de prisão e libertação. Além disso, a personagem principal é ao mesmo tempo a encarnação da ausência de liberdade e o desejo de a encontrar, e é nesse desejo que reside a sua vitória no encontro final com uma nova possibilidade de felicidade e plenitude.

Solomon Northup pode ajudar-nos a olhar a nossa vida com a aceitação e paciência próprias de um mártir. Num dos diálogos com Patsey, o seu grito é antes de mais um desejo fortíssimo de verdade e dignidade. “Não vou cair no desespero! Vou manter-me forte até que a liberdade surja!” Ao chegar a casa, depois de uma dezena de anos sob a alçada de latifundiários sem alma, pede perdão à sua família pela ausência. A sua dignidade nunca sucumbe, durante o longo período de servo, à resignação da maioria dos outros desgraçados. Diz ele, em forma de máxima, “Eu não quero sobreviver. Eu quero viver.” É este espírito que o leva a concluir a obra da sua vida com a paz interior que todos nós, filhos do pecado mas ávidos de bem, desejamos para nós mesmos. “Espero daqui para a frente levar uma vida justa e modesta, e por fim descansar no adro da igreja onde o meu pai dorme.”


António Seabra, in http://www.essejota.net/index.php?b=home


31 março, 2014

Experiência em Granada


Da janela do meu quarto contemplava a Serra Nevada. Nevada porque estava a serra cheia de neve no seu cume. Neste momento deixei-me maravilhar como à muito não acontecia. Parecia uma criança a contemplar a novidade que não é nova, mas que nos faz perceber que só com tempo e olhos de ver conseguimos ver aquilo que nas nossas rotinas não vemos. Deparei-me com a obra de um Deus que não se cansa de nos mimar.

E a minha experiência por Granada poderia ficar assim resumida, não fosse ela mais uma etapa no meu caminho de discernimento vocacional. Um caminho no qual me deparo com um amor incondicional deste Deus que me ama e quer para Si. A esta interpelação jamais poderei ficar indiferente e quieto, sem fazer nada.

Sim, sinto-me profundamente amado. Estes foram dias em que reconheço o quão Deus tem sido fiel na minha vida e para comigo. Perante este facto, como ficar indiferente e não querer responder ao Seu apelo?
No Carmelo de Granada continuei a perceber que Deus se continua a manifestar de forma tão simples e profunda, que quer manter uma relação de intimidade e despojamento, de uma maneira tão bonita que só a fraternidade carmelita poderia transmitir. Senti-me verdadeiramente filho de Santa Teresa e de São João da Cruz. Uma fé tão humana e tão divina que nos eleva ao mais profundo de nós mesmos. Aí onde Deus habita e quer efectivamente morar e encontramos a paz e a sabedoria para Lhe darmos o nosso "sim".



Esta minha visita ao Carmelo de Granda, casa de Postulantado Ibérico Carmelita, tinha como objectivo um reencontro com as raízes desta Ordem, tornou-se num passo mais, no sentido de me abrir à Sua vontade, a confiar a vida àqueles que Deus coloca na minha existência e, particularmente, nesta caminhada, para, deste modo, saber ler e discernir o que o Senhor quer de mim. Foi uma experiência que ocorreu entre os dias 17 e 22 de Fevereiro. Agradeço muito a Deus o acolhimento e o carinho com que fui recebido pela comunidade (9 Frades e 2 Postulantes); perceber que em Deus tudo é possível e que o difícil se torna fácil, especialmente quando temos pessoas tão boas para nos acolher e integrar na vida da comunidade.

Uma coisa peço: reze por mim ao Senhor, porque por mim mesmo não serei capaz de percorrer este caminho. Se é verdade que a resposta só eu a posso dar, não é menos verdade que esta vocação seja só minha, mas de todos os que comigo caminham, comigo se cruzam e partilham a vida comigo. Se peço, também agradeço a vida que me foi dada, todos os que fazem parte da minha vida e a possibilidade de poder partilhar de forma tão bonita a minha fé. Amém!

Filipe


30 março, 2014

QUARTO DOMINGO DA QUARESMA: A LUZ DA FÉ!


O quarto domingo da quaresma é denominado liturgicamente como «Domingo Laetare», o «Domingo da Alegria». Também no advento se denomina o 3º Domingo como o «Domingo Gaudete». A caminhada que fizemos para o Natal e esta que estamos a fazer para a Páscoa é feita no sentido da alegria e da felicidade porque «um Menino nos foi dado» e porque «o Senhor veio para nos libertar do pecado com a Sua morte e ressurreição». Era este o pedido da antífona de entrada: Alegra-te, Jerusalém… Exultai de alegria.

A espiritualidade quaresmal quer fortalecer-nos na fé para que cheguemos ao dia de Páscoa e possamos sentir e viver na verdadeira alegria o mistério da morte e ressurreição de Cristo.

A luz da fé é um dom de Deus e não uma conquista da inteligência humana ou um gosto pessoal. A primeira leitura mostra-nos como a fé é uma nova maneira de ver as coisas e as pessoas. Quer Samuel, quer Jessé de Belém, pensavam que o rei que o Senhor tinha escolhido para o seu povo era Eliab, porque, além de ser o mais velho, era belo, forte e sábio. Enganaram-se, no entanto. O Senhor tinha escolhido David, que andava a guardar o rebanho e era o mais novo. E porquê? Porque «Deus não vê como o homem; o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração». Apetecia-me lembrar aqui o que diz o nosso povo: «Quem vê caras não vê corações». Ora Deus vê as caras e os corações. Deus vê por dentro. É esta luz que nós precisamos de pedir ao Senhor: a luz do Seu olhar. Quantas vezes, por causa das aparências, não passamos de cegos com os olhos abertos? Isto é, vemos mas estamos cegos para ver mais do que a estatura e a beleza exterior. Se «a bondade e a graça do Senhor nos acomapanharem todos os dias da minha vida» serei capaz de ver o que Deus quer e aderir à Sua vontade.

Cristo é a «Luz verdadeira que a todo o homem ilumina» (Jo 1. 9, 4-5). S. Paulo na Carta aos Efésios alerta para um antes e um depois do baptismo: «Outrora vós ereis trevas, mas agora sois luz no Senhor». Luz e trevas, morte e vida, vida antiga e vida nova, vida pagã e vida cristã. Antes vivíeis na ignorância, no erro, no pecado (as trevas). Agora «vivei como filhos da luz» e «procurai sempre o que mais agrada ao Senhor».

O cego de nascença (Jo 9, 1-41) é imagem do homem que deseja ver. Cristo é a «Luz do  mundo» que nos cura da cegueira interior, iluminando o nosso entendimento, a nossa memória e a nossa vontade para que a nossa fé seja cada vez mais viva e profunda, de modo a reconhecer e confessar Jesus como «o Senhor». Tal como na samaritana, podemos contemplar neste cego um itinerário de fé: ao início, Jesus é simplesmente um homem (v 11); depois, é um profeta (v 17); em seguida, é um homem de Deus (v 32-33); finalmente, é o Senhor (v 38). Na cura vemos acontecer um contraste: o cego abre-se progressivamente à luz do sol e à luz da fé, e os que podem ver (e tinham os olhos abertos) fecham-se à luz de Cristo (excomungam-no dizendo que não é um homem de Deus) e entram numa obscuridade cada vez maior. O cego fez o que Jesus mandou: «lavei-me e fiquei a ver». Nesta quaresma, Cristo, através da sua Igreja, também nos diz: Lavai-vos, purificai-vos dos vossos pecados, abandonai as obras das trevas.

Finalmente, a piscina de Siloé. Em hebraico Siloé significa Enviado. Jesus é o verdadeiro Enviado. Pelo nosso baptismo, fomos lavados e purificados no seu Sangue. Por isso Jesus nos envia a testemunhar a fé: «Como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós» (Jo 20, 21). A fé sem obras está morta. E, no dizer de Santa Teresa de Jesus (2M 1, 5), «quando a fé está morta… queremos mais o que vemos do que aquilo que ela nos diz».

         Senhor, mistura também hoje a tua saliva (símbolo da vida divina) com este barro, que sou eu, para que renasça em mim a nova criatura iluminada pela Luz de Cristo. Amém.


Agostinho Leal, ocd

29 março, 2014

LUZ QUE LAVA E ALUMIA O CORAÇÃO



1. Com o olhar cada vez mais fixo na Cruz Gloriosa, em que foi entronizada a Luz que dá a Vida verdadeira, baptizados e catecúmenos continuam a sua «caminhada» quaresmal: memória do baptismo [= execução do programa filial baptismal] para os baptizados, preparação para o baptismo por parte dos catecúmenos (Sacrossantum Concilium 109), que têm neste Domingo IV da Quaresma – Domingo da dádiva da Luz – os seus segundos «escrutínios»: segunda «chamada» para a Liberdade.

            2. O Evangelho narra a dádiva da Luz por Jesus à nossa pobre e cega humanidade (João 9,1-41). Deus é Luz (1 João 1,5), e é na sua Luz que nós vemos a Luz (Salmo 35,10). Ora, a Luz veio ao mundo (João 3,19; 12,46) para dar a Vida ao mundo. Veio (elêluthen) ao mundo e permanece acesa no mundo, como indica o perfeito usado no texto grego. Marcos recorre à crueza da linguagem para nos fazer ver melhor o Mistério desta Luz-que-vem: «Vem a Luz para ser colocada debaixo do alqueire ou debaixo da cama? Não, antes, para ser colocada sobre o candelabro? Na verdade, nada está escondido que não seja para se manifestar» (Marcos 4,21-22). Na verdade, o Divino, o Filho Unigénito de Deus, Aquele-que-vem, passa escondido na humildade da nossa condição humana. É Ele a Luz-que-vem, que agora está escondida, mas que se manifestará no novo e último candelabro do amor de Deus (Actos 2,36), a Cruz Gloriosa, única fonte do Espírito Santo para nós (sempre Actos 2,32-33; João 19,30.34; 7,38-39). Não esqueçamos que ver o Filho é obra do Espírito Santo em nós (1 Coríntios 12,3). É por isso que o Filho do Homem, Aquele (o Único)-que-de-Deus-vem-e-a-Deus-volta (João 9,13) tem de (deî) ser levantado [= crucificado / ressuscitado /glorificado / exaltado] (João 3,14; cf. Filipenses 2,9): só então se saberá que «Eu Sou» (título divino) (João 8,28), e atrairei todos a Mim (João 12,32).

3. Mas agora, após o Baptismo no Jordão e a Transfiguração / Confirmação no Tabor, durante o dia que é a sua vida toda, eis Jesus passando sempre (parágôn: particípio presente durativo) (João 9,1) e executando a «obra» daquele que o enviou (João 9,4). Na sua condição de «passageiro» total, pascal, no sentido «que de Deus veio e para Deus voltava» (João 13,3), Jesus viu um cego de nascença, e os seus discípulos também viram. Mas Jesus e os discípulos não viram a mesma coisa. Os discípulos viram um cego, e por detrás do cego viram o encadeado «pecado – doença», e por detrás do encadeado viram a manifestação do Deus-garante da «ordem da retribuição». Jesus viu um cego, mas não viu naquela cegueira a manifestação de Deus; antes, viu que «era preciso» (deî) (João 9,4) aquele cego para que Deus se manifestasse nele. Jesus viu um cego e como que disse: preciso deste cego! «É preciso» (deî) que Deus se manifeste neste cego. E como é que Deus se podia manifestar naquele cego? Através das «obras» (tà érga) daquele que Ele enviou (João 9,4), fazendo passar aquele cego do domínio da cegueira para a liberdade da glória dos filhos de Deus, para usar a expressão feliz de Romanos 8,21. Sendo a Luz do mundo (João 8,12; 9,5), Jesus concede o dom da vista ao cego de nascença acompanhado do dom da Luz (Iluminação) em ordem à contemplação das coisas divinas (veja-se a propósito Hebreus 6,4-5: texto baptismal espantoso!). Atente-se bem que o cego de nascença recebeu o dom da vista e o dom baptismal da «divinização» para ver e ouvir as coisas divinas. Perante este segundo dom, também os fariseus eram cegos de nascença, e não o sabiam!

4. Significativamente, o cego recupera a vista e recebe o dom da Luz na «piscina de Siloé» (João 9,7). De notar que «piscina» se diz em grego kolymbêthra, nome que ainda hoje para a Igreja grega significa «fonte baptismal». Siloé é a grecização do aramaico shlîha, hebraico shalîah, que quer dizer «enviado». Santo Agostinho comenta, sempre de forma acertada e penetrante: «Sabeis bem quem é o enviado; se Cristo não tivesse sido enviado, nenhum de nós teria sido desviado do pecado. O cego lavou os olhos naquela fonte que se traduz “Enviado”: foi baptizado em Cristo». A «fonte baptismal» do «enviado» de Deus, daquele-que-vem-de-Deus, o Filho do Homem. O cego recobrou a vista imediatamente. A luz da fé, essa é gradual. Passa por: «não sei» (João 9,12); «é um profeta» (João 9,17); «vem de Deus» (João 9,33); «eu creio, Senhor» (João 9,38).

5. A narrativa vai abrindo cenários sucessivos. O primeiro (João 9,1-7) põe Jesus e os seus discípulos face ao cego, mostra as suas diferentes maneiras de ver, e deixa claro que é a postura criadora e redentora de Jesus que cura o cego. O segundo (João 9,8-12) mostra-nos a discussão estéril que se gera entre os vizinhos acerca do cego. Só palavras. O terceiro (João 9,13-17) traz para a cena a presença dos fariseus, que também discutem o assunto, e também não o entendem nem se entendem. O quarto (João 9,18-23) mostra a atitude dos pais que não se querem comprometer. O quinto (João 9,24-34) põe de novo em cena os judeus e o cego, que apontam os respectivos mestres: Moisés para os judeus; Jesus para o cego. Mas acerca de Jesus, dizem os judeus: «Esse não sabemos DE ONDE (póthen) é» (João 9,29), ao que o cego responde com inteligência, apontando a cegueira deles: «Isso é «espantoso» (tò thaumastón): vós não sabeis DE ONDE (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!» (João 9,30). Que é como quem diz: só não vê quem não quer! O último cenário (João 35-41) traz-nos de volta Jesus, que se revela ao cego, iluminando-o, e deixa os fariseus cada vez mais às escuras!

6. Temos todos algo a ver com o cego de nascença: os baptizados receberam como ele o dom baptismal da Luz para ver e ouvir e viver a vida divina; os catecúmenos recebê-lo-ão. Temos todos a ver com o Enviado, Aquele-que-vem: Ele é o único enviado do Pai para fazer a sua «obra»; nós somos enviados por Ele (João 20,21) para continuar no mundo a sua «obra». Mas temos de reconhecer que muitas vezes ainda vemos as pessoas e as coisas de forma bem diferente de Jesus!

7. O Primeiro Livro de Samuel 16,1-13 serve-nos hoje um texto fantástico em clara sintonia com o Evangelho. Trata-se da unção real do menor dos filhos de Jessé, David, um garoto que andava nos montes a guardar o rebanho. Nem entrava nas contas do seu pai. Teve de ser o profeta Samuel a perguntar a Jessé, depois de este lhe ter apresentado sete filhos e não ter dado sequer a entender que ainda tinha mais um: «Acabaram os teus filhos?» (1 Samuel 16,11). Só aqui é que Jessé se apercebeu que ainda tinha mais um. Mas, como David era ainda um garoto, nunca Jessé pensou que passasse por ele a escolha de Deus! A sua presença é, portanto, tão paradoxal como a do cego de nascença! Mas Deus não vê como nós. Deus vê o coração, e nele deposita o seu Espírito (1 Samuel 16,13; Romanos 5,5). Levamos este tesouro em vasos de barro… (2 Coríntios 4,7). Brilha melhor a Luz de Deus (2 Coríntios 4,6).

8. Cumpre-nos ler também hoje o grande texto da Carta aos Efésios 5,8-14. Iluminados pela Luz da Luz, que é também a Luz do mundo, somos a Luz do mundo: constatação, mas sobretudo desafio e programa! Somos, por isso, «filhos da Luz» (Efésios 5,8; 1 Tessalonicenses 5,5) – um dos termos técnicos de «divinização» – e «filhos do dia» (1 Tessalonicenses 5,5). Chamados das trevas para a luz maravilhosa de Deus (1 Pedro 2,9), devemos tornar-nos operadores das «obras da Luz», que não têm parte com as «obras das trevas». O Apóstolo [= Enviado] dá testemunho do Evangelho e continua no mundo o Evangelho. Passando como Jesus. Vendo como Jesus. Aí está a nossa missão.

9. Tempo para nos deixarmos conduzir pela mão carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom Pastor, cantando o Salmo 23(22). Sim, Ele recebe bem os seus hóspedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de águas muito azuis, unge com óleo perfumado a nossa cabeça, estende no chão do seu céu a «pele de vaca» (hebraico shulhan), que é a sua mesa, serve-nos vinhos generosos…


D. António Couto, in Mesa de Palavras