17 abril, 2014

Viver em hi-fi



Quinta-Feira Santa. Dia de Alegria. Da Eucaristia. De nova sintonia. Em alta frequência, alto amor, alta fidelidade, hi-fi. Seja esta, Senhor, a nova caligrafia da nossa Poesia.

Dá-nos, Senhor, um coração novo,                             
capaz de conjugar em cada dia
os verbos fundamentais da Eucaristia:
RECEBER, BENDIZER e AGRADECER,
PARTILHAR e DAR,
COMEMORAR, ANUNCIAR e ESPERAR.

Dá-nos, Senhor, um coração sensível e fraterno,
capaz de escutar
e de recomeçar.

Mantém-nos reunidos, Senhor,                                             
à volta do pão e da palavra.
E ajuda-nos a discernir
os rumos a seguir
nos caminhos sinuosos deste tempo,
por Ti semeado e por Ti redimido.

Ensina-nos, Senhor,
a saber colher
o Teu amor
semeado e redentor.

Única fonte de sentido                                                            
que temos para oferecer
a este mundo
de que és o único Salvador.


D. António Couto, in Mesa de Palavras

13 abril, 2014

DOMINGO DE RAMOS: O TRIUNFO DO SERVO


Começo por confessar que, desde pequeno, gostei sempre do domingo de ramos. Na véspera, com o meu pai ou irmãos, íamos procurar nas oliveiras os ramos mais bonitos para a procissão. E, no dia dos Ramos, nunca me cansei de ouvir aquela leitura bem comprida da narração da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Em tempos de desânimo e desilusão o profeta foi enviado para anunciar uma palavra de consolação. Apesar da forte oposição que o aguarda, ele não «recua um passo» e permanece fiel ao Senhor «como um discípulo». A Igreja hoje não se assenta em cobardes, mas em gente determinada em servir o Senhor. Gente que «não desvia o rosto dos que a insultam e cospem». O texto de Isaías (primeira leitura) aplica-se inteiramente á paixão de Jesus. Apesar do sofrimento, nunca voltou atrás nem nunca renegou a Sua hora, para deixar a esperança da salvação a quem acaba por reconhecer que «verdadeiramente este Homem era Filho de Deus». Aliás, a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém só se entende à luz do mistério pascal. O verdadeiro triunfo é sobre a condenação e a morte.

A segunda leitura, para os meus gostos, é de uma beleza extraordinária e mostra o caminho que conduz ao triunfo: «Não se valeu da Sua igualdade com Deus…, tornou-se semelhante ao homem…, humilhou-se ainda mais…, obedeceu até à morte». Quem pode compreender este caminho? Não é isto o que diz o mundo. Mas, verdadeiramente, para subir é preciso saber descer e obedecer. «Por isso Deus O exaltou». Hoje atrevo-me a dizer que para caminhar com Cristo e como Cristo é preciso andar muitas vezes ao contrário de honras, êxitos, lugares de destaque, conquistas e vitórias do mundo. É preciso não ter medo dos caminhos e quelhas do mundo onde há tanta gente caída, insultada, cuspida, crucificada…, física e espiritualmente. Realmente é preciso estar na Paixão de Cristo para não fugir da paixão da humanidade.

Sobre a narração da Paixão, decididamente e por própria vontade não quero fazer nenhum comentário para não estragar tão comovente leitura. Só quero pegar num papel e apontar os nomes de todos os personagens que aparecem neste relato. Só quero ficar em silêncio e perguntar-me com qual deles mais me identifico. Quero pedir a Jesus que me faça forte para ser servo e determinado para O seguir até ao fim, onde começa toda a nossa glorificação.

Santa Teresa de Jesus, de quem celebramos 499 anos do seu nascimento, afirma: «Deus dá o prémio conforme ao amor que Lhe tiverem. E este amor, minhas filhas, não há-de ser forjado pela nossa imaginação, mas provado por obras. E não penseis que Deus tem necessidade das nossas obras, pois Ele só quer a determinação da nossa vontade» (3M 1, 7).

O Domingo de Ramos começa com a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Por isso, faço-me menino hebreu (como as crianças que O aclamaram), fico com o ramo de oliveira para, de onde estiver, gritar ao mundo que a paz há-de triunfar sempre. Entretanto: Hossana, hossana. Viva Cristo, Rei e Senhor, Crucificado por nosso amor.


Agostinho Leal, ocd

07 abril, 2014

Vamos conhecer melhor a Ir.ª Lúcia?


Percorrer a vida daqueles que nos precederam na vida e na fé é um exercício magnífico, inspirador e interpelador. Mais ainda quando tudo é feito à luz daquele "trato de amizade com Aquele que nos ama" (Santa Teresa de Jesus). Convido-vos a fazer esta descoberta comigo, de uma das mais belas mulheres da Igreja do século XX, agora apresentada em biografia pelo Carmelo de Coimbra: a Ir.ª Lúcia de Jesus. A Pastorinha de Fátima que teve uma ligação tão próxima com Maria, nas Aparições em Fátima e ao longo da sua longa vida, torna-se assim sinal de esperança e de renovada conversão a Jesus, ao Jesus Escondido que era tão querido do pequeno Francisco.



"Com a simplicidade com que ela viveu, vamos acompanhá-la no seu longo caminho, onde os espinhos não faltaram, mas por onde correu em abundância, como água cristalina de uma nascente sempre em direcção ao mar, o amor que lhe deu força na sua passagem pelo mundo, que para ela foi apenas o caminho para Deus" (Biografia da Irmã Lúcia, pág. 7). Sim, esta é a primeira lição que a Pastorinha de Fátima nos dá: a simplicidade não é sinónimo de facilidade; a forma simples, obediente e despojada com que viveu a sua vida, faz-nos perceber, a partir da nossa existência pessoal, que os problemas e as dificuldades podem ter sempre um novo olhar, que se torna renovador e libertador: o olhar de Deus.
Aqui surge uma segunda lição: "Foi uma vida enamorada de Maria. Ela quando se via envolvida por muitas pessoas, atenções e solicitações, costumava dizer: é tudo por causa de Nossa Senhora! E Nossa Senhora diria se a ouvíssemos: "é tudo por causa de Jesus!" Sim, porque tudo está dirigido a Ele na nossa vida" (Biografia, pág. 7). Uma pessoa apaixonada vive sempre pela pessoa amada. A vida da Irmã carmelita ensina-nos a ver isso mesmo; mostra-nos e faz-nos sentir que não é ela a figura principal, mas Aquele a quem ela se quis unir de forma tão especial. Primeiro, na sua infância, com as Aparições; depois nos seus anos de irmã Doroteia; por fim, como irmã Carmelita Descalça. Por tudo isto a sentimos e percebemos bem-aventurada. Tal como o sentimos e percebemos em relação aos seus primos.
Que esta caminhada com a Irmã Lúcia nos ensine e provoque a querermos ser chamados filhos de Nosso Senhor e de Maria. Que assim seja!

Filipe




Em busca de um caminho


Daniel fazia sozinho o caminho de Santiago de Compostela, uma das peregrinações mais concorridas da Europa, quando foi apanhado por uma tempestade.

Tom, seu pai e médico norte-americano, é imediatamente comunicado do falecimento do filho e desloca-se a França para recuperar o corpo.

Enquanto remexe na bagagem de Daniel e nos seus preparativos para aquela viagem, decide fazê-la ele próprio, no imediato, deixando toda a sua vida suspensa para continuar o objetivo do filho, procurando compreender o mundo que o inspirou e moveu para a ação.

Acarretou o desafio de não ter tempo para se preparar, de planear as coisas, de não lutar contra a reflexão prévia das dificuldades físicas da sua idade e carregou toda a sua bagagem (a da mochila e a de dentro também). Com efeito, deixou-nos perceber que as emoções são responsáveis pelas tomadas de decisão.

Durante o caminho cruza-se com outros 3 peregrinos de vários pontos do mundo e, numa dança entre a procura da solidão e companhia, percorrem-no juntos.

Todos eles com objetivos diferentes, com vivências distintas mas cada um à procura do seu sentido de vida. Entre a resistência em partilhar a sua motivação interior ou não, todos a tinham.

Não raras vezes ouvimos que a satisfação não está em chegar ao final do caminho mas que a aprendizagem está nele mesmo. Olhar para os lados no caminho, para tudo o que está à volta, e reposicionar a percepção do mesmo. A busca do Caminho de Santiago de Compostela é muito rica nisso mesmo.

“Vim para te levar para casa mas agora não tenho nada para levar” diz Tom no final do caminho num diálogo interior para com Daniel. Ele responde-lhe com toda a serenidade “Tem sim”. Talvez enquanto se liberta das cinzas do seu corpo no mar tome consciência de que não nos libertamos das emoções mas transformamo-las. Talvez também perceba que um dos grandes ensinamentos que fazemos aos descendentes é precisamente o de ensiná-los a caminhar. E qual será o caminho para perceber que esse objetivo foi alcançado?

“A “Terra prometida” é um caminho, uma terra que está onde está o homem que a deseja.”




06 abril, 2014

QUINTO DOMINGO DA QUARESMA: VOLTAR À VIDA




Neste quinto domingo da quaresma, depois de ler o relato da «ressurreição» de Lázaro, levantei o sobrolho da alma para ver se podia gritar: «Ressurreição à vista»! E, verdade se diga, que isto tem-me dado que fazer. Dou-lhe voltas e mais voltas, e não consigo entender bem esta questão da morte e ressurreição. Tranquiliza-me o facto de, no que toca a estas coisas da fé, Nosso Senhor nunca ter perguntado a ninguém se sabia ou entendia. «Disse Jesus (a Marta): «Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre. Crês nisto?» Ela respondeu-lhe: «Sim, ó Senhor; eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo» (Jo 11, 25-27).

S. Paulo diz que renascemos no baptismo, que é participação na morte e ressurreição de Cristo (cf. Rom 6,3). Por isso, o catecúmeno tinha que despir-se do que é velho e entrar nu na água, como se descesse ao sepulcro. Ali recebia o baptismo e, ao sair, era revestido com uma túnica nova, para indicar a nova vida que tinha recebido. Mortos para o pecado e ressuscitados com Cristo, os cristãos estão vocacionados para viver uma vida nova (cf. Rom 6,4). Neste contexto, entendo melhor as palavras do profeta: «Infundirei em Vós o meu espírito e revivereis» (1ª leitura). Sem o Espírito de Jesus ressuscitado somos pouco mais do que um cadáver sem vida, sepultados neste sepulcro do exílio. A ressurreição equivale à posse em plenitude do espírito de Deus. Cristo ressuscitou porque tinha em Si a plenitude do Espírito. Também nós «não estamos sobre o domínio da carne, mas do Espírito» (2ª leitura).

Este quinto domingo quaresmal está-me a dizer que a experiência da ressurreição de Jesus vive-se antes da morte, para cá da morte, fazendo e vivendo como Ele nos ensinou e mandou, pois só assim damos glória a Deus Pai: «Nisto se manifesta a glória de meu Pai: em que deis muito fruto e vos comporteis como meus discípulos» (Jo 15, 8). A força da ressurreição de Cristo é para se viver já, agora e aqui. Sobre a vida «para além da morte» podemos ter uma ideia. Mas a realidade agora é a vida «para cá da morte». Ora, como escreveu o papa Francisco (EG 231): «a realidade é mais importante do que a ideia». Por isso, a nossa esperança na vida eterna não é só para depois da morte. Jesus quer fazer-nos participar já, nesta vida mortal, da vida eterna. Não temos de estar à espera de morrer para começar a gozar a gozar do perdão de Deus e da intimidade com Ele. Os que acreditam não morrerão para sempre, porque, de alguma maneira, já entraram na vida. Assim o dizia a beata carmelita Isabel da Trindade: «Encontrei o meu céu na terra, porque o céu é Deus e Deus está na minha alma». Também Santa Teresa de Jesus, com a alegoria do bicho-da-seda, fala da ressurreição espiritual do cristão, do mistério pascal que se realiza por virtude da ressurreição de Cristo. Mas esta vida nova – viver nesta terra com o espírito de Cristo ressuscitado – exige a nossa colaboração: «Morra, morra este nosso verme – como fez o da seda quando acabou de fazer aquilo para que foi criado – e vereis como havemos de ver a Deus e sentirmo-nos tão metidas na Sua grandeza como aquele vermezito no seu casulo» 5M 2, 6). O nosso povo costuma dizer: «morte certa em hora incerta». Contudo, um cristão (aquele que tem o espírito de Cristo) pode acrescentar: «ressurreição certa em hora certa».


Ao fim destes cinco domingos – que foram verdadeiras catequeses baptismais: as tentações (que são o nosso estado actual), a transfiguração (que é o nosso destino), a Samaritana (que nos recorda que Cristo é a água que pode saciar a nossa sede mais profunda), o cego de nascença (que nos fala de Jesus, luz do mundo) e de Lázaro (que nos convida a pôr os olhos na ressurreição futura) – podemos entrar na Semana Santa e recordar que pelo baptismo morremos ao pecado e ressuscitamos para a graça. Que o Senhor Jesus nos conceda a graça de nos unirmos cada vez mais a Ele, abraçarmo-nos com a Sua cruz e participar um dia da Sua gloriosa ressurreição. Amém.


Agostinho Leal, ocd