30 abril, 2014

As origens familiares da Irmã Lúcia


A herança recebida dos pais é sempre fundamental para a pessoa que somos. Esta é também a consciência da Irmã Lúcia, a última de seis filhos da Sr.ª Maria Rosa e do Sr. António dos Santos. Como a própria pastorinha conta, era uma família humilde e sem grandes recursos, mas com a porta sempre aberta a quem chegava, muito generosa e com um grande sentido de rectidão e justiça. Estes foram valores que pautaram muito a vida de Lúcia e que foram aprendidos e integrados desde o berço paterno. Por outro lado, havia um grande sentido de proximidade e intimidade, de cumplicidade e amor, valores que a própria Lúcia viveu e recebeu de forma particular por ser a mais nova da família.



Lúcia nasce a 28 de Março de 1907, Quinta-Feira Santa. Como o Padre não quisesse baptizar a criança no Sábado Santo por ter nascido naqueles dias de tanto trabalho, porque os recursos eram pouco para duas festas tão próximas, o pai de Lúcia decide registá-la no dia 22; assim não havia motivo para o Prior não a baptizar no dia pretendido. E assim aconteceu. Conta a Irmã Lúcia, em tom de brincadeira, que no dia do seu nascimento pela manhã (ela nasce de tarde) a sua mãe tinha ido à missa e comungado e, por isso, ela teria feito a sua primeira comunhão antes de nascer.



Como filha mais nova que era, tornava-se o centro das atenções, pelo amor e carinho que recebia dos pais e irmãos mais velhos. Os seus pais sempre muito atentos e com um grande cuidado na formação do carácter dos seus filhos, fazem o mesmo com a benjamim da família, procurando transmitir-lhe os valores fundamentais para a sua vida e crescimento, os quais a própria Lúcia procurou sempre preservar e alimentar. Os próprios irmãos se revestiam de uma verdadeira atenção (quase paternal) para com ela, ambiente que lhe foi muito favorável e lhe permitiu desenvolver uma personalidade jovial, brincalhona, assertiva e trabalhadora. Tudo isto não a impedia de ter as suas travessuras, que a própria pastorinha contava com bastante graça nos recreios no seu tempo de Carmelita.

Se hoje procurámos conhecer um pouco o ambiente familiar da Irmã Lúcia e como foram os primeiros anos da sua vida, em breve teremos a oportunidade de saber e perceber a maneira como ela se preparou e viveu um dos dias mais importantes da sua infância: o dia da sua Primeira Comunhão. Iremos perceber como passou esse dia, como se preparou e viveu a sua primeira Confissão A seu tempo conheceremos esta história. Hoje ficaremos com esta pequena introdução.

17 abril, 2014

Viver em hi-fi



Quinta-Feira Santa. Dia de Alegria. Da Eucaristia. De nova sintonia. Em alta frequência, alto amor, alta fidelidade, hi-fi. Seja esta, Senhor, a nova caligrafia da nossa Poesia.

Dá-nos, Senhor, um coração novo,                             
capaz de conjugar em cada dia
os verbos fundamentais da Eucaristia:
RECEBER, BENDIZER e AGRADECER,
PARTILHAR e DAR,
COMEMORAR, ANUNCIAR e ESPERAR.

Dá-nos, Senhor, um coração sensível e fraterno,
capaz de escutar
e de recomeçar.

Mantém-nos reunidos, Senhor,                                             
à volta do pão e da palavra.
E ajuda-nos a discernir
os rumos a seguir
nos caminhos sinuosos deste tempo,
por Ti semeado e por Ti redimido.

Ensina-nos, Senhor,
a saber colher
o Teu amor
semeado e redentor.

Única fonte de sentido                                                            
que temos para oferecer
a este mundo
de que és o único Salvador.


D. António Couto, in Mesa de Palavras

13 abril, 2014

DOMINGO DE RAMOS: O TRIUNFO DO SERVO


Começo por confessar que, desde pequeno, gostei sempre do domingo de ramos. Na véspera, com o meu pai ou irmãos, íamos procurar nas oliveiras os ramos mais bonitos para a procissão. E, no dia dos Ramos, nunca me cansei de ouvir aquela leitura bem comprida da narração da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Em tempos de desânimo e desilusão o profeta foi enviado para anunciar uma palavra de consolação. Apesar da forte oposição que o aguarda, ele não «recua um passo» e permanece fiel ao Senhor «como um discípulo». A Igreja hoje não se assenta em cobardes, mas em gente determinada em servir o Senhor. Gente que «não desvia o rosto dos que a insultam e cospem». O texto de Isaías (primeira leitura) aplica-se inteiramente á paixão de Jesus. Apesar do sofrimento, nunca voltou atrás nem nunca renegou a Sua hora, para deixar a esperança da salvação a quem acaba por reconhecer que «verdadeiramente este Homem era Filho de Deus». Aliás, a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém só se entende à luz do mistério pascal. O verdadeiro triunfo é sobre a condenação e a morte.

A segunda leitura, para os meus gostos, é de uma beleza extraordinária e mostra o caminho que conduz ao triunfo: «Não se valeu da Sua igualdade com Deus…, tornou-se semelhante ao homem…, humilhou-se ainda mais…, obedeceu até à morte». Quem pode compreender este caminho? Não é isto o que diz o mundo. Mas, verdadeiramente, para subir é preciso saber descer e obedecer. «Por isso Deus O exaltou». Hoje atrevo-me a dizer que para caminhar com Cristo e como Cristo é preciso andar muitas vezes ao contrário de honras, êxitos, lugares de destaque, conquistas e vitórias do mundo. É preciso não ter medo dos caminhos e quelhas do mundo onde há tanta gente caída, insultada, cuspida, crucificada…, física e espiritualmente. Realmente é preciso estar na Paixão de Cristo para não fugir da paixão da humanidade.

Sobre a narração da Paixão, decididamente e por própria vontade não quero fazer nenhum comentário para não estragar tão comovente leitura. Só quero pegar num papel e apontar os nomes de todos os personagens que aparecem neste relato. Só quero ficar em silêncio e perguntar-me com qual deles mais me identifico. Quero pedir a Jesus que me faça forte para ser servo e determinado para O seguir até ao fim, onde começa toda a nossa glorificação.

Santa Teresa de Jesus, de quem celebramos 499 anos do seu nascimento, afirma: «Deus dá o prémio conforme ao amor que Lhe tiverem. E este amor, minhas filhas, não há-de ser forjado pela nossa imaginação, mas provado por obras. E não penseis que Deus tem necessidade das nossas obras, pois Ele só quer a determinação da nossa vontade» (3M 1, 7).

O Domingo de Ramos começa com a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Por isso, faço-me menino hebreu (como as crianças que O aclamaram), fico com o ramo de oliveira para, de onde estiver, gritar ao mundo que a paz há-de triunfar sempre. Entretanto: Hossana, hossana. Viva Cristo, Rei e Senhor, Crucificado por nosso amor.


Agostinho Leal, ocd